Nonagenários

Nesse último janeiro, foi embora meu ex-sogro, com o qual mantive ao longo de mais de quatro décadas uma relação de amizade e respeito, tanto que eu era por ele chamado de Pedra 90. Ele partiu quando caminhava para os 99 anos de idade, tendo nascido em 1917, antes portanto do término da Primeira Grande Guerra. Dá para imaginar a riqueza de tal existência, que atravessou boa parte do século XX e seu formidável número de acontecimentos históricos.

De se admirar indivíduos que chegam perto dos cem anos lúcidos, sacudidos, sem graves e incapacitantes problemas de saúde. Meu pai parou nos oitenta anos, já o disse aqui, tendo nascido em 23 de março de 1924, exatos três anos após ter vindo ao mundo Francisco do Vale Vieira. Esse simpático patriarca acriano, que embarcou para o outro plano nessa semana, era pai de meu colega de Bacen e grande amigo José Amazonas Santiago Vieira, também oriundo daquele estado nortista e cujo coração é maior do que o rio que carrega no nome.

Por tais aspectos, presto minha homenagem ao Sr. Vale e família. Nas poucas vezes em que me encontrava com ele, via-o espalhando simpatia e entusiasmo. Assinalo sua despedida transcrevendo na íntegra, à revelia do autor, palavras simples e carinhosas escritas por um de seus sobrinhos.

https://pt.wikipedia.org/wiki/Acre#/media/File:Acre_in_Brazil.svg
https://pt.wikipedia.org/wiki/Acre#/media/File:Acre_in_Brazil.svg

“Hoje, 13/05/2016, foi um dia muito triste para mim. Depois do funeral de meu amado Tio Francisco do Vale Vieira, o Tio Chico, ficou um vazio, mesmo não convivendo com ele diariamente. Ficou aquela sensação de perda. Não tenho mais meu Tio Chico para me contar histórias de sua bela vida. Histórias que se confundem com a história de Cruzeiro do Sul, Acre. História de suas viagens, a pé, para Tarauacá e Feijó a serviço do Governo do Território Federal do Acre. Sua viagem de chatinha, (gaiola) até Manaus com vista a preparar-se para ir a Europa lutar pelo mundo livre, durante a Segunda Guerra Mundial. A preparação para o combate e depois a volta para casa sem ter ido a guerra. As histórias de como ele abriu estradas rasgando a mata. Como ele fazia para evitar que as pontes e aterros não se fossem com a primeira chuva.  Fica claro que em todas suas atitudes a preocupação central era servir ao próximo. O tio Chico tinha uma visão de futuro. Sua loja ‘Casa Onze de Outubro’ sempre oferecia novidades, o que a  diferenciava dos demais estabelecimentos comerciais. Lembro-me das máquinas de costura VIGORELI e das geladeiras GELOMATIC que eram novidades no mercado local. Foi ele quem primeiro vendeu a crediário na cidade (compras com prestações mensais fixas e com prazo para terminar). Ele sempre apoiou a cultura local. Todos os anos  Bumba Meu Boi  e os Marujos faziam uma apresentação, aberta ao público, em frente sua casa. Perto do Natal, ele patrocinava um papai noel, em cima de uma caminhão, que rodava a cidade distribuindo balinhas (lá chamávamos  de bombom) fazendo a alegria da garotada.  Claro que eu também saia atrás do caminhão. Sua conduta ética diante de diferentes situações, seu pensamento positivo. Ele sempre achava que as coisas iriam melhorar. Seu desejo de seguir os passos de São Francisco, seu relacionamento com a natureza, ele adorava plantar e a cuidar das plantas, são essas e muitas outras lembranças que preenchem um pouco esse vazio. Ele nos deixa um legado para que possamos ser pessoas melhores. Agradeço ao Tio Chico e toda  sua família pela acolhida que me deram quando vim para Brasília em busca de melhores condições de vida. Sem essa acolhida eu não poderia ter chegado até onde cheguei. Sei que o Tio Chico está nos braços de nosso Salvador Jesus Cristo. Tenho certeza que viveremos juntos  na eternidade.”

14 de maio de 2016

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mmsmarcos1953@hotmail.com

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