O alvorecer do enlace

Em consideração à bondade e ao amor, o homem não deve conceder à morte nenhum poder sobre os seus pensamentos. E com isso vou acordar… Pois segui o meu sonho até o fim. Alcancei o meu objetivo.

– Hans Castorp (personagem de A Montanha Mágica, de Thomas Mann

Se um dia historiadores e historiadoras de coisas insignificantes se debruçarem sobre o vertente blog, alojado no relevante site do Mapati, verificarão que boa parte dos escritos é de autoria de terceiros. Não é porque este blogueiro abra oportunidades para que democraticamente outros alguéns, que cafonália, possam se manifestar, trazer criatividade, revivificar meus escritos. Ante a incapacidade, sem falsa modéstia, de eu enfrentar sozinho o touro (vide postagem “Riquixá”), capturo o que há por aí de profícuo e curioso no propósito de repassar a quem por desventura me lê.

Alguns tempos atrás pontificou no Teatro Mapati o Pedro Drummond, menino líquido, carência sólida,performer errante pelo ermo do Planalto Central. Numa primeira mirada, vimo-lo em trajes andrajosos. Qual nada. O Pedro ostentava figurino que, depois de nossa aproximação física(?) da personagem, ia suscitando alumbramento pelo apuro estético do corte em conluio com os poemas saídos da língua presa um tico, voz anasalada, sotaque afrancesado, característicos do belo ator que ele era e ainda o será por muitas décadas. No combo ofertado, havia também a prosa.

“Ai de mim! Como é refrescante a nobre arte de saber matar as pessoas dentro de si mesmo (cortando cordões umbilicais, laços de relações estreitas ou distantes cheias de nós cegos, exorcismos) antes que a grande senhora (morte) venha em vida e faça isso extirpando uma delas ou mesmo você. Acredito que os assassinos são aqueles que literalmente não dominam essa arte por isso matam por fora – ah, se soubessem o quão libertador e mais drástico é o oposto!”

            Prosa dura e rascante, máxime contra quem é tóxico. Jogue pedras, Pedro, no âmago desses relacionamentos deletérios, lance os castradores ao mar. De conseguinte, não os rememore, antes comemore, festeje a impermanência, a finitude.  

“Como é bom saber cortar raízes, riscar personagens que não expandem sua alma, ainda que continuem fazendo parte da sua história. Isso não impõe que você deixe de apreciá-los na natureza que for e sim apenas saber seguir vazio sem precisá-los como condição. É bom saber ter se despedido dos outros antes mesmo da chegada do adeus, se é que seja necessária. Para quem não sabe voar comigo em vida ou quem faz de tudo para cortar as minhas asas fique sabendo que o meu coração é muito mais um cemitério resguardado que um ventre vulnerável de afeições nascidas sem qualquer princípio. Quem pode viver grandes iniciativas pode e deve como ninguém saber a potência das finalizações.”        

#Hans Castorp #A Montanha Mágica #Thomas Mann
#Riquixá #Teatro Mapati #Pedro Drummond

15/04/2019

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mmsmarcos1953@hotmail.com


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