Obsessões musicais (V)

No momento em que escrevo, o Tribunal Superior Eleitoral decide se cassa, ou não, a chapa Dilma/Temer. O voto do relator já foi proferido – pelo acolhimento da tese, levada pelo PSDB, segundo a qual houve abuso de poder político e econômico -, escontrando-se o segundo ministro, nome de imperador e conterrâneo do Belchior, a ler o seu voto.

Os dias são assim.

Sem prejuízo da relevância do julgamento para se reencaminhar o quadro institucional do país, avanço para outro assunto. Quer dizer, recuo, recuo para os anos 60, 70 e 80.

Os dias eram assim.

A minissérie ora exibida pela televisão reúne méritos vários. A qualidade dos atores e das atrizes, os esforços de reconstituição de época, o roteiro… bem, há tintas ideologicamente postas, deixemos isso pra lá. Ainda, desconsideremos que a história possa haver sido lançada na telinha como outra etapa de expiação da Rede Globo, apoiadora do golpe militar e que ultimamente se pôs à busca de comungar das aspirações da sociedade civil. Os saudosistas da turma do verde (que não é o verde ecológico) não sabem o que foi aquilo. Ou sabem muito bem, o que me assusta.

Sobremais – termo que pode ser usado pelos integrantes da bancada do TSE -, os capítulos vão nos revelando fumaças feministas por deixar bem evidente que, em sua maioria, as mulheres, as esposas, as filhas (rebeldes com causa ou sem causa) começavam a se insurgir contra o poderio e a dominação dos homens, mesmo num contexto de parceria funcional e algum amor, como se dá com os personagens de Marcos Palmeira e da bela (machismo meu?) Letícia Spiller.

E a trilha sonora? Aí, é o que podemos chamar de covardia. Músicas belíssimas, mostradas em suas gravações originais, arrancando dolorosamente pedaços de quem, como eu, vivera aqueles dias sombrios. Contra a baioneta, o cassetete, o chute com bat boot (que podia ser somente uma rima), a algema, nada mais eficaz do que doses de Secos e Molhados e Nei Matogrosso em voo solo; pitadas de Chico Buarque, de Milton Nascimento, esse mineiro que soube inventar hinos lancinantes e soube cantá-los para nós como se estivéssemos na nave de uma igreja de Ouro Preto.

Chamemos o resto do time dos sonhos, o que enfrentava o arrocho: Ivan Lins, já na abertura do capítulo inicial dando substrato para atores e atrizes da série pedirem perdão pela cara amarrada; o vascaíno Aldir Blanc nas cadeiras do Estádio de São Januário ao lado da Elis Regina a sonhar com a volta de todo mundo, inclusive o irmão do Henfil; Baby Consuelo, não crente e cheia do frescor daquela voz banhada pelo mar do Menino do Rio, música com a qual o Caetano Veloso falava não do garoto surfista, senão que da Cidade Maravilhosa, para a qual Gilberto Gil mandara Aquele abraço. Muitos outros intérpretes do mundo musical nos brindaram – e nos blindaram – durante aquelas três décadas, a última das quais prenunciando bom tempo e madrugadas sem o acorda, amor, eu tive um pesadelo agora.

Todas aquelas músicas eram nossas obsessões messiânicas e salvacionistas. Portanto, seria indiferente assinalar essa ou aquela obra. Tomo a liberdade de fazê-lo apelando para a participação da cantora maior, que, em conluio com a dupla genial de compositores Vitor Martins e Sueli Costa, nos indica que a vida é espantosa.

Capa do Disco Elis lançado em 1980 -  EMI Odeon

Capa do Disco Elis lançado em 1980 – EMI Odeon

20 ANOS BLUE

Ontem de manhã quando acordei
Olhei a vida e me espantei
Eu tenho mais de vinte anos
E eu tenho mais de mil
Perguntas sem respostas
Estou ligada num futuro blue

Os meus pais nas minhas costas
As raízes na marquise
Eu tenho mais de vinte muros
O sangue jorra pelos furos
Pelas veias de um jornal
Eu não te quero, eu te quero mal

Essa calma que inventei, bem sei
Custou as contas que contei
Eu tenho mais de vinte anos
E eu quero as cores
E os colírios, meus delírios
Estou ligada num futuro blue

Os meus pais nas minhas costas
As raízes na marquise
Eu tenho mais de vinte muros
O sangue jorra pelos furos
Pelas veias de um jornal
Eu não te quero, eu te quero mal

Ontem de manhã quando acordei
Olhei a vida e me espantei
Eu tenho mais de vinte anos

#anos 60, 70 e 80   #Os dias eram assim  #golpe militar  #Elis Regina
#Sueli Costa #irmão do Henfil   #Aquele abraço

10/06/2017

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mmsmarcos1953@hotmail.com

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