Obsessões musicais (VI)

Obsessões musicais (VI)

Nas separações de casais heteros, os homens padecem mais, mesmo quando a ruptura é iniciativa deles. Resolutas e convictas, as mulheres tendem a não ingressar em novos relacionamentos, ao menos aqueles com a moldura tradicional – morar junto com o novo parceiro ou parceira, novos cunhados e cunhadas, novos sogro e sogra.

O término do meu casamento foi paulada, machucou o lombo, o neo solteiro desatinou. Nem a diminuição gradativa da área das minhas moradias pós, de 5 quartos para 4 quartos, depois para 3 quartos, atenuou a solidão; hoje, resido num flat de um quarto,  apenas, mas isso é outra história. Ora me via sentado no “cantinho do pensamento” meditando sobre as besteiras cometidas, ora me via condenado, de joelhos no caroço de milho. Tentava reagir. Improfícuo viver como uma craca, grudado na lembrança das mais de três décadas de casório.

Nesse estágio do purgatório, uma cena sintomática e reveladora.

Estávamos na rua do Teatro Mapati eu, minha filha Mariana e um de nossos cães, Pitanga (todos os nossos cachorros tinham – e têm – nome de fruta: Açaí, Siriguela, Marula, Amora, Damasco, Abiu). Havia chovido muito, água descia com força, alagando tudo, formando rios sobretudo nas duas margens. Numa delas a dálmata, já idosa nos seus quinze anos e com o câncer a lhe destroçar a coluna, caiu e por mais se esforçasse não conseguia se reerguer. Ouvi então, naquele panorama de cachoeira pluvial, o comentário feito pela minha filha apontando pra cachorra a cascalhar no asfalto limoso, de olhos esbugalhados (os animais expressam sentimentos bem melhor do que os humanos):

“Pai, olha você aí.”

Isso foi um baque em mim. No entanto, logo a seguir desencadeou-se minha recuperação; me compeliram a dar rumos inusitados na minha vida. O afeto e a compreensão das pessoas incríveis que ao longo de dez anos fui conhecendo (e namorando) me tonificaram realmente. Não significa que eram muitas mulheres (não sou nenhum Dom Juan); ao revés, eram poucas. Mas muito especiais.

Jo Alencar, mãe novíssima, avó novíssima, amorosa, parceira de todas as horas, cantora formidável, gosto musical refinadíssimo. Entre as inúmeras alegrias e coisas boas que essa minha namorada daqueles tempos me proporcionou, destaco apresentação que me fez de uma dupla fantástica, um espanhol, quarentão; o outro, oitentão, cubano. Pouco importa quem é da Europa, quem é da América Central. Para mim, os dois são da mesma idade, do mesmo país, da mesma cidade, do mesmo vilarejo, da mesma casa. O piano cede vez à voz, a voz cede vez ao piano.

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Não logrei obter letra em português de Em Aranjuez com Tu Amor – De La Mano del Viento. As versões com rum e castanholas podem ser conferidas abaixo, a teor do site  http://luz-eraseunavez.blogspot.com.br/2013/04/video-y-letra-diego-el-cigala-bebo.html.

Precisou de nossa língua pátria?Agora, sugiro darem um pulinho em

https://www.youtube.com/watch?v=kEkTWvvkmgE&list=RDkEkTWvvkmgE

 

19/07/2017

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mmsmarcos1953@hotmail.com

2017-07-20T02:19:54+00:00 20 de julho de 2017|0 Comments

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