Passar uma tarde no HRAN

Passar uma tarde no HRAN

… e numa esteira de vime/beber uma água de coco, é bom/
Passar uma tarde em Itapuã/ao sol que arde em Itapuã/
ouvindo o mar de Itapuã/falar de amor em Itapuã…
– Vinicius de Moraes  e  Toquinho –

Correram alguns dias até que eu retomasse a escrita neste desolado blog. Era de rigor conceder um tempo de arte a que o antibiótico fizesse efeito consoante anunciam as bulas lidas sem muita detença por nós, os/as que ainda relutam em sair do armário e de conseguinte proclamar a inexorável hipocondria.

Choque.

Na segunda-feira retrasada, eu chegava ao Teatro Mapati após haver buscado  minha neta mais velha (vinte e um anos a completar no exato dia da virada deste perverso 2017) no escritório de advocacia onde estagia e – me parece – trabalha feito uma moura. Bem feito, tivesse me ouvido, a escolha acadêmica seria(?) outra, pondo termo a uma história de atuação (direta ou indireta) no ramo do Direito, que se iniciara com o meu tio avô materno ao lado do meu avô paterno, passando por um dos meus tios também do lado paterno, em seguida por mim e por último pela minha filha primogênita.

Eu subia a rampa do teatro quando fui informado de que a Jô, nossa auxiliar de serviços gerais, baiana incansável (perdão pelo paradoxo), estava lá no subsolo com crise de vômitos e praticamente desacordada. Não consegui chegar à caixa cênica pois, ao descer o primeiro lance, o Carlos (outro colaborador nosso) já vencia os degraus escada acima com a padecente balbuciando respostas a perguntas aflitas que a ela dirigíamos.

Frustrando-se a chamada do Samu, pusemo-la em meu carro e partimos para o hospital mais próximo. Logo na entrada, de par com a desolação pela gente simples e sofrida, encostada em paredes sujas e descascadas, avultava cartaz com o famoso  Estamos em greve. Apurei a leitura,  a paralisação era da turma da limpeza. Menos mal? O burocra na casamata, seco e quase grosseiro, nada de salamaleques, termina a função burocrática importante mas irritante e ali ficamos nós três, Marcos, Jô e Daiane (professora de circo em nosso espaço cultural) no aguardo do anúncio para atendimento. Cerca de quinze minutos transcorridos, gritam o nome da nossa colega e o segurança, seco e quase grosseiro, nada de salamaleques, fazendo as vezes de recepcionista, decreta que “entra somente um acompanhante.”

Rendo a Daiane, necessitada de retornar ao Mapati por causa da Colônia de Férias (a 53ª, agora já na quinta semana, matrículas abertas) e me lanço na selva do pronto-socorro do HRAN. Com toda a sinceridade, não é dos piores da Capital Federal. Dito isso, vou logo contando o que, nas cinco horas de jornada, acontecera naqueles corredores e salas onde campeiam a angústia e o desalento.

Não poderia ser de outro modo, a narrativa volta a pescar nossa protagonista.

foto: Marcos Martins

Ultrapassada a fase de triagem e depois de quase meia-hora de espera na maca (uma mordomia, adiante vocês a confirmarão), atacada por dores de cabeça e pontadas na barriga, a Jô enfim se avista com a médica. Porém, a medicação de alívio, sob pena de atrapalhar o resultado do exame, não podia ainda ser aplicada – havia que colher o sangue. Procedimento efetuado, o soro de mistura com o bálsamo da dipirona e do Buscopan se insinua pelas veias da combalida Jô. No entremeio, a urina vertida é enviada ao laboratório. Checados o vermelho e o amarelo, desagua-se (sem trocadilho) no diagnóstico: infecção urinária.

Concluo o boletim médico-hospitalar.

Naquele panorama, vi coisas, muitas coisas, típicas dos hospitais públicos brasileiros, carência por todo lado, zumbis pelos corredores e…

  • na porta do laboratório, a velhinha sentada altiva na cadeira de rodas, pele alvíssima, oferece o braço lazuli à seringa hematófoga. Com bonomia, olha para a enfermeira, espalha lucidez e nos brinda com uma coragem de arrepiar nos seus noventa anos de idade segundo informara a filha setentona;
  • nessa singradura, outra guerreira, grávida de uns duzentos meses, a debochar da agulha que provoca vertigem em todos os homens do mundo;
  • mais lá na frente, moça perto dos 30/35 anos de idade, corpo lapidado, tão linda quanto a Dra. Maíra, a jovem médica que eficientemente atendera a Jô, acompanhava um senhor (paciente sessentão) que, souberam os presentes, era o pai dela, aluindo minha invejazinha pois eu os tinha por namorados;
  • por todos os corredores,vagava um rapaz magro mas com barriga descomunal (que doença horripilante seria aquela, minha gente?); perto dele, seu Boneco seria um tanquinho;
  • na fila de exames laboratoriais outros, estudante universitária de enfermagem, também paciente, dizia para quem quisesse ouvir não temer a morte embora panicada com o universo do hospital (precisamos dar uma conferida no seu boletim da faculdade);
  • dois enfermeiros – um, do HRAN; o outro, do Samu – disputando a única maca sobrante. Diga-se que o faziam com certa graça e bom humor, comportamento salutar e reconfortante num ambiente daqueles;
  • súbito, uma das pacientes levanta-se da maca, pede saco de lixo, par de luvas de borracha. Calça-as e promove um verdadeiro arrastão saneador. Em pouco mais de dez minutos, a Rosinete, como que furando a greve de início mencionada, acabou com aquela sujeira pela enfermaria toda, não sem antes gritar entusiasmada: “perto do lixão, o HRAN é um luxo.”.

No pronto-socorro/ambulatório do HRAN, a esses artistas se sobrepunha personagem admirável.

Anotem que, durante o período no qual permaneci ao lado da Jô, uma figura cuidou sozinha de todos e todas que ali buscavam alívio para suas dores e agonias. O homem enorme, perto do 1,90m, jaleco verde,  não parava pra nada. Ou melhor, permitia-se sentar na cadeira – mas para preparar os medicamentos a ser ministrados. Tramol num, dipirona noutra, máscara de oxigênio na velhinha (epa, de novo a nonagenária da coleta de sangue), coquetel de antibióticos para o moço infectado…

Para o Daniel (esse o nome da fera), enfermeiro exemplar, alegre e simpaticíssimo, academia de ginástica não se afigura importante, o desfilar diário e sistemático pelas camas dos/das doentes atinge, num cálculo conservador, as distâncias percorridas por maratonistas. Desconheço os proventos auferidos pelo anjo grandalhão, os quais decerto não devem estar à altura de sua dedicação e empenho.

É por virtude da conduta de profissionais desse jaez que o setor público ainda resiste.

Daniel

foto: Marcos Martins

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29/12/2017

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mmsmarcos1953@hotmail.com

2017-12-29T20:26:01+00:00 29 de dezembro de 2017|0 Comments

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