Poemas de um piauiense desgarrado (VIII)

Poemas de um piauiense desgarrado (VIII)

Vincent Van Gogh - 1853/1890 - Holanda Vincent Van Gogh – 1853/1890 – Holanda

À medida que “capela” chegava aos meus ouvidos, a associação da palavra era com as igrejinhas do Palácio da Alvorada e do Soldado, ou, num rasgo pelo Oceano Atlântico, com a Capela Sistina, que não conheço.

Na linguagem afetuosa – e no diminutivo – do poeta Vinicius de Moraes, reponta no mapa o município de Capelinha, pertencente às Minas Gerais, estado com centenas de matrizes em suas praças e onde ainda se canta  a capella.  Nessa cidadezinha mineira, colegas meus de juventude, quase que membros da minha família, iam passar férias de fim de ano, período que, ô saudade, durava quase três meses, os professores e professoras se livravam da estudantada burguesa no início de dezembro para reencontro nas águas de março. Meus “parentes” falavam maravilhas desse recanto para eles turístico, o qual, se não me engano, à época (cinquenta anos atrás) era distrito, marcado por bucolismo, noites enluaradas, comidas caseiras feitas no fogão a lenha ou no calor da lenha crepitando na fogueira, passeios a cavalo, mergulhos em rios, cachoeiras…

Há entretanto uma outra Capela, estrela de galáxia encaixada nas lonjuras do universo e cujos habitantes possuiriam grau de evolução muitíssimo maior que o nosso, daí não terem vindo para a Terra, plataforma de gente reencarnante, necessitada de aprimoramento e regeneração espiritual.

Inebriado pela sonoridade e riqueza dos versos de nosso poeta que se desgarrou do Piauí, fui até lá, até Capela, a estrela que nenhum telescópio alcança.

Abdução.

S A U D A D E S    D A    E S T R E L A    D I S T A N T E

Oh, Capela, distante Capela,
Que mais para o infinito te deixo…
Tão longe estás… já me és só u’a quimera…
Já não me és um fato… só um conceito…

Só um sonho inalcançável, perdido
No limiar da noite do tempo,
Porém, vivo em meu coração ardido
Pela chama do vil desalento.

Já me sinto muito fatigado
Nessa mi’árdua luta mal querida,
Resultado de erros malfadados
Presentes, ainda, em minha vida.

Aonde estás que não mais te enxergo?
Teu brilho ofusca minha visão
Que, fraca, bem sei, tornou-me um cego
E, de granito, meu coração.

Tornou-se negra, em meu ser, minh’alma!
Num malogro, de mim, a bondade,
Expulsei p’ra longe que, cansada,
Deu lugar a u’a potente maldade.

Oh, cegueira vil que me domina!
Em mim, de ti, há uma tênue fagulha.
Tu progrides e eu, nessa mi’a sina,
Sigo caindo… como sem cura!

É-me indelével tua promessa…
E eu te quero, mas… forte inda é o instinto
Que fez de mim, p’ra ti, abjeta peça,
Lançada fora de teu doce imo!

Mas aquela fagulha persiste.
Também eu, à custa de vastos erros,
Canso-me e, num relance de olvide,
Quero, enfim, fugir deste desterro.

Quero voltar para ti, Capela…
Quero-te de novo… sem luxúria!
O sofrer fez-me ver-te mais bela…
Oh, quanto perdi com minha incúria!

Vê que Osíris me ensinou os mistérios
Da vida, da morte e eternidade
E eu, que de conhecimentos era ébrio,
Sorvi-os do Nilo… que saudades!

Mas, incauto, fui cair nas teias
De Baal, um deus feito de sangue
E, em seu mar, afoguei minhas veias
Pois, afins, ainda eram no instante.

Co’o povo hebreu, cortei o mar Vermelho;
Comi de seu maná no deserto;
Soube de seu Deus e, por inteiro,
Em seu ensino embebi-me… eu um imberbe!

Índia, terra milenar de ascetas…
No Ganges, purifiquei meu corpo,
Na esperança de, como uma seta,
Disparar minh’alma desse escopo.

Porém, minha belicosidade,
De novo foi desperta em Esparta.
Ares, e sua ferocidade,
Tornaram-me seu ator… sua espada.

Grécia… dos deuses, filha bendita,
Pátria da inesquecível Atena.
Ávido, as artes, de ti saídas,
Sorvi… em ti fui escravo, fui mecenas.

No entanto, veio o fausto de Roma
E, de Baco, vi-me sacerdote…
Vil sacerdócio… deixou-me em coma,
Inserto, em mim, inda hoje… que golpe!

Veio a luz na Belém pequenina
Porém, eu, envolto nas trevas, cego,
Refutei-a com fúria canina
E ajudei a apagá-la, qual possesso…

Medievo fui e quis, na alquimia,
Achar a pedra filosofal…
Quis tudo tornar ouro, tal Midas…
Juventude… ganância mortal!

América, doce e vasta América!
Viste-me entre os filhos do Sol inca…
Mas chegaram as frotas ibéricas…
Lá se foi meu império… ódio que vinga!

Eis-me de novo na África… a negra,
Em tribo torpe e animalizada.
Vida difícil – era um degredo –
Com destino a ser escravizada.

(Me era aquela cor abominável!
E, a despeito de meu “sangue azul”,
Me impunha um existir execrável…
Tarefa árdua nas terras do Sul!)

Brasil… do cone o enorme gigante!
Cá estive quando tu, inda colônia,
Abrias teus braços, debochante,
Aos párias d’África… eis-te em vergonha!

Mais vezes voltei… de ti gostei
E, inda hoje, apesar dos dissabores
A mim impostos por dura lei
– bem sei, ora, a origem de seus odores –

Cá estou a aurir, desta terra de anil,
Ensinamento a custo de lágrimas…
Fruto de meu passado plantio
De épocas idas… o que é uma lástima!!

Não mais o esoterismo do Nilo…
– quantas vezes percorri seus templos! –
Mas vaguear nas ruas da vida
Que nos amolda ao correr do tempo;

Não mais a altivez da antiga Grécia,
Que me disse da beleza humana…
Mas o negro incolor da Nigéria
P’ra que eu o visse sem cor… que ditame;

Não mais, de Roma, as festas bacantes
(Tempo que me foi largo e pomposo)
Mas bailar da razão – inda que infante –,
A que insto ser adepto ditoso;

Não mais o culto à guerra de Esparta
Que me deixava, em êxtase, o sangue…
Mas ódio a fraticidas embates
Que progresso não trazem… são infames!

Cá inda estou nesse longo desterro…
Será que nada, ainda, aprendi?
Quero sair desse desespero…
Não vês que há muito choro sem ti?

Quero voltar para ti, Capela…
Quero-te de novo… sem luxúria…
O sofrer me fez ver-te mais bela…
Oh, quanto perdi com minha incúria!

Aceita-me de novo… como o último!
Inda que assim seja… me retoma,
Suga-me… esquece meus desatinos…
Meus pecados já não são uma soma.

Vê que a vida algo já me ensinou:
Do orgulho… torno a ti cabisbaixo;
Da avareza… sua flor murchou;
Da vaidade… desatei o laço;

Da invigilância… aprendi a rezar;
Do egoísmo… vi o amor de meu irmão…
Tento amá-lo e, por ele, velar;
Ensinei a ser bom meu coração;

De meus instintos desenfreados,
Sofri grandes e amargas lições…
Um bendito sofrer norteado
Que me fez retornar à razão.

Oh, Capela, distante Capela…
Mais para junto de ti me achego.
Ainda é certa tua promessa?
Eu te espero, neste trilho estreito…

Espero porque, a crer, aprendi
E, mesmo a esperar, me acostumei.
Até quando ficarei sem ti?
Saudade… há tanto de ti rumei!

– José Rodrigues – BsB, 28jun1980 –

#Capela     #Estrela distante    #Galáxia    #Capelinha    #A capella

16/08/2017

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mmsmarcos1953@hotmail.com

2017-08-16T23:15:41+00:00 16 de agosto de 2017|1 Comment

One Comment

  1. Aristeu 22/08/2017 at 19:41 - Reply

    Zequinha, muito lindo e saudoso o poema. Vc já percebeu que todo povoado tem sua capela? E tudo começa por ela? Aqui em Brasília temos a nossa Igrejinha, 107/108 sul. Se não fosse ela, sei não. 

    Tudo é saudade de tempos remotos que o homem traz insculpida em sua alma. Capela, tudo a ver com os homens, herdeiros de milhares de reencarnações, até que uma purificada dos vícios da vida, dá certo e somos resgatados para um mundo sem véus e sem fantasias. Onde a consciência surfa sobre as águas do conhecimento límpido e para nós mágico.

    37 anos se passaram de seu poema, que continua vivo. O tempo é uma fração da eternidade, ele não termina. O seu poema também não, é uma reflexão, é atemporal.

    Muito grato e abraços

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