Poemas de uma candanga agarrada

Quem eventualmente já se muniu de coragem e desassombro para me ler neste blog sabe que minha praia (marítima) é a prosa. Admiro de forma subsidiária a poesia, minha praia do Araguaia. A dúvida é se eu sairia de casa para percorrer as estantes de uma livraria (hoje, tão poucas, com mais vendedores desinformados, mezaninos e almofadas do que livros) e dali voltaria para a segurança do lar doce lar sobraçando volume só de poemas.

De quando em vez, no papel de coadjuvante, irrompo por este espaço contracenando com duas poetas e um poeta: uma, carioca, perdida nas Minas Gerais; outra, paulista, a deambular pelo cerrado; e por último um piauiense, de igual maneira estabelecido na Capital Federal. Como passeassem pelas artes cênicas, os três fingem que adoram interferência minha na difusão de seus escritos líricos.

Seja como for, disponho de expressa e formal autorização dos três sonhadores, passada em cartório na presença de dezenas e dezenas de testemunhas, para inserir em postagens esporádicas os seus versos, maculados por aberturas da lavra deste blogueiro inzoneiro.

Cuido haver chegado o momento de nos reaproximarmos de um ser multimídia, cujo currículo de realizações profissionais eu levaria dias para aqui transcrever na sua integralidade. Se a personagem não vier a lavrar protesto e ajuizar ação por danos morais, meu desejo é que a aparição da inspiradíssima poeta não aconteça em única oportunidade.

De se anotar que em março de 2012, por ocasião da celebração do Dia Mundial da Poesia, na companhia de cinquenta artistas, a estrela agora homenageada passou por nosso teatro, mais especificamente pelo caminhão-palco do Mapati, por ela chamado graciosamente de palco-caminhão, talvez pelo veículo ser grandinho, ainda assim muito aquém do talento que possui.

De quem se trata? Fazendo sopa de letras, seu nome (seus nomes) aglutina o nome da minha filha Mariana. Vou tratar a poeta como candanga agarrada ao, com perdão pelo clichê, torrão natal.

E a obra que virá à tona? Não é inédita, pois que divulgada no site da autora e também nessa semana no Correio Braziliense, seção Tantas Palavras, do editor José Carlos Vieira, cara que no mesmo caderno, aos domingos, nos brinda com um texto engraçado paca.

Quanto ao poema, não nos percamos pelo título. Demais disso, malgrado estampar amor físico nos seus contornos gerais, deve ser tido como item relevante no meu processo de espiritualização e desapego.

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MARIAS E SUAS MULHERES

Mulher é meio bruxa, é meio bicho, é meio mar
Tem ondas, tem sexto sentido e sangra sem se cortar
Mulher é meio bicha, meio arisca se a lua mandar
É por isso que não há nada mais intenso e sutil
Que duas Marias a se beijar.

Duas Marias – duas belezas. Duas guerreiras
Lutando pelos direitos que delas tiraram,
Como castigo, pelo crime de se amar.
Onde está escrito que esse amor não é lindo
Ou não tão lindo quanto o seu?
Não se é diferente só por amar o seu igual.
Ao final do arco-íris há um pote de respeito
Um pote de um mundo que menstrua mel
Onde Marias, Joanas e Cássias
Possam expressar sua feminilidade
Com notas musicais também
Soprando arrepios nos cangotes das meninas
E uma sinfonia no daquela
Que atende por meu bem.

Marina Mara

12/02/2017
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mmsmarcos1953@hotmail.com

1 comentário em “Poemas de uma candanga agarrada”

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