Poemas de uma carioca desgarrada (XX)

A III Bienal Brasil do Livro e da Leitura, de Brasília, ora em andamento, tem Adélia Prado como homenageada.

Poema é inexplicável, não há dúvidas quanto a isso. Mas não é de poesia que falarei/escreverei neste trecho. Refiro uma entrevista na qual a divina de Divinópolis nos fizera aprender que vaidade é não usar maquiagem; com encenação ou não, os dotes físicos do indivíduo se impõem à plateia logo na primeira visada.

Na conversa com a repórter (qual o nome da moça? qual o veículo de imprensa?), a frase proferida pela mineiríssima dama dos versos desvela sutilmente, por via oblíqua, que a simplicidade nem sempre é sinônimo de desapego ou sinal de franca renúncia aos padrões estéticos instituídos por nossa sociedade. O andrajoso pode dissimular suprema vaidade em suas vestes.

Há outras poetas que dissentem dessa conjectura adeliana e creem que o ser humano precisaria de artifícios externos, sendo opção quase irresistível o uso de estratagemas para se sentir belo e ou desse modo ser enxergado por todo mundo.

Verdade absoluta, ao menos para quem é do signo de gêmeos.

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ALMA DE GÊMEOS

 Estou oca
Preenchida de nada
Plena,
Serena,
Perene.
Passei creme
Para mais bela ficar.
Chá de camomila
no olho
para ele desinchar,
colírio para desenvermelhar.

No coração, uma pitada
de quietude,
para ele cessar de disparar.
Na cabeça, uma dose
de alegria,
para ela frear
e parar de tontear.

Na mão uma porção
de pétalas
que amassei, arremessei
e pedi ao vento para levar.

___Norma Martins*
_ bHz _

 

28/10/2016

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mmsmarcos1953@hotmail.com

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