UISM

Integro as aguerridas fileiras dos que lutam contra a proliferação das faculdades de Direito no Brasil, herança portuguesa ou não, pouco importa. Nosso país carece, e muito, de outros cursos, de outras especialidades, como por exemplo nas áreas de TI, de engenharia ambiental, de – pasmem – medicina tradicional, jalecos de Cuba à parte.

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Falo de cátedra; mais bem expressando, de cadeira, por não ser titular de coisa alguma. Citando aquela piada de deboche aos goianos, a UnB é a melhor faculdade do mundo – pois conseguiu me formar. Sim, já fui coxinha juramentado, formei-me em Direito na década de 1970, quando ainda era departamento e funcionava no Minhocão, lá na ponta da ala norte, em frente à turma da comunicação, a da vanguarda, rapazes e moças, rapazes e rapazes e moças e moças, conforme já narrei em outra postagem.

A carga de minha agonia com o Direito aumenta, já que, pelo lado paterno, sou neto de advogado (delegado), sobrinho neto de advogado (um dos autores do Código de Processo Civil de 1939), sobrinho de advogado (alto funcionário da Câmara dos Deputados). Ademais, minha filha mais velha, depois de doze anos atuando na área de marketing, resolveu caminhar pelas veredas das ciências jurídicas,  “contaminando” a filha única dela (minha neta mais velha), hoje estudante do terceiro semestre de Direito.

Numa primeira mirada, sobrados motivos para eu comemorar. Querem, no entanto, sinceridade? Não era o que eu queria para as duas, mas, por óbvio, cada indivíduo habitante deste mundão amargo e inóspito deve fazer livremente, soberanamente suas escolhas acadêmicas e profissionais.

Animado por tal espírito de desprendimento, aceitei convite-convocação de minha neta para visitar centro de recuperação de menores em Santa Maria. Em realidade, minha participação – logo tomei conhecimento – cingia-se a botar o quepe e ser o motorista da van do Mapati que levaria a trupe de bacharelandos (esse nome é barroco, rococó) para o local da visita.

Chegamos, meus passageiros e passageiras se dirigiram à portaria para a necessária identificação, enquanto o chofer se preparava para se atualizar no zap e dar uma sapeada na internet. Minutos depois, para minha surpresa, fui convidado a participar da delegação de acadêmicos e, quando dei por mim, me vi enturmado e novamente um estudante de Direito (persistir no erro é…).

O périplo começou pela biblioteca, na medida em que a ação dos/das visitantes centrava-se exatamente na doação de livros (calculei por alto quase uns cem volumes entregues) para os internos e as internas, a maioria dos quais boa literatura, em nada se assemelhando ao que se despeja aleatoriamente nos pontos de ônibus da cidade, uma boa ideia sem acompanhamento e continuidade, porquanto o que ali encontramos são obras que em sua maioria não despertam nenhum interesse por defasadas e em precárias condições para adequada leitura.

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Sinteticamente, meus registros e impressões acerca da visita:

– não nos foi permitido ir aos módulos ocupados (há somente um para as meninas; os demais são masculinos), o que achei correto pois dessa maneira os internos e internas tiveram sua privacidade preservada;

– as “prisões do castigo”, as solitárias, como sói, são assustadoras e deprimentes;

– de comover, no módulo feminino, os cartazes, fotos, bordados e objetos artesanais que decoram as celas (ou que nome o tenham);

– os tocantes depoimentos de dois internos – um deles, pai de uma criança -, marcados pelo desalento e pelo remorso de estarem num lugar que a todo momento afirmavam ser essencialmente ruim, muito ruim;

– o choque cultural entre o pessoal da segurança (os falcões) e o pessoal da área educativa (os pombos);

– pareceu-me que os alunos e alunas (do Uniceub; nem todos do Direito), malgrado a tristeza provocada pelo local, saíram satisfeitos com o resultado da “atividade acadêmica”;

– a boa vontade e atenção dos/das agentes penitenciários que nos receberam;

– meu elogio especial ao agente Abdala, servidor público leal e dedicado, que, não bastasse o bom relacionamento com todo o povo do centro de internação em Santa Maria, é o idealizador e responsável pela manutenção da biblioteca.

 

23.08.2016

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mmsmarcos1953@hotmail.com

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