Zap

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Na infausta virada 2016/2017, enfiei-me no litoral baiano, corte por Caraíva, Praia do Espelho, Trancoso, Arraial d’Ajuda, Cabrália, Santo André, Praia das Tartarugas, regiões que nos convidam a deixar o celular desligado. E fazemos isso, zap inativo, com imensa alegria. Se bem que, quando a síndrome de abstinência começa a ficar insuportável, rola um “cerca Lourenço” nos bares e restaurantes com wi fi  e a gente “inventa” um consumo, obtém a senha e cai de novo na neurose, na fissura de enviar/receber/ler mensagens individuais ou distribuídas nos grupos, onde todo mundo se sente engraçadinho e solidário. Pouco o acessei nas terras e águas baianas mas refleti sobre esse sistema de conversas eletrônicas. Me ocorreram alguns apontamentos.

Primeiro, os artistas que mais trabalham, os que, vira e mexe, aparecem em nosso cel e nós ainda assim ouvimos tudo de novo:

  • Louis Armstrong, o homem do vozeirão arrasador, é convocado a todo momento para cantar “What a Wonderful Word”, nas mais variadas figurações, novinho ou já com mais idade, olhão sempre arregalado; fundo da imagem com céu claro ou meio cinza, letras góticas, letras de forma ou letras daquelas de convite de casamento;
  • Ana Vilela, também do ramo, foi chegando de leve, incognita, só no áudio. Depois é que passamos a conhecer a dona daquela voz melodiosa viajando no Trem-bala, também nas mais variadas estampas, nos alertando que aqui somos meros passageiros e devemos segurar, no colo cálido, nosso filho, sem esquecer de abraçar nossos pais;
  • Mario Quintana, o poeta cujos versos ilustram recados partidos “originalmente” de milhares de aparelhos celulares e nas situações as mais diversas. O bom velhinho, que não é o Papai Noel, é obrigado a deixar os pampas gaúchos para dar conteúdo a mensagens de toda ordem, esperança, superação, amores difíceis, amores fáceis; pitacos reconfortantes na vida da turma que se apavora com o ingresso na terceira idade;
  • John Lennon, com sortidas músicas. O interessante é que o seu companheiro de parceria, o beatle Paul McCartney, quase não dá as caras;
  • Shakeaspere, já no terreno das letras, tem causado. O bardo invade sem trégua os celulares com seus textos célebres e empregáveis em situações inúmeras de amizades, frustrações, invejas, ciúmes e traição;
  • Jesus Cristo, provavelmente o mais invocado pelos integrantes mais fiéis, mesmo que o grupo de zap deles seja composto em sua maioria por ateus e agnósticos. Ele, o Filho, nos chega pela voz de padres românticos e  pela performance de pastores exaltados, que nos doutrinam sem nenhuma cerimônia, recomendando rezas e orações em filmetes às vezes com duração de dez minutos; por último e não menos importante,
  • o papagaio. De fato, não sei precisar quantos vídeos me enviaram até hoje com louros de protagonistas que falam palavrões cabeludos por todos os lados.

Agora, as fotos/vídeos que carecem de internação emergencial em casas de repouso, já que é somente passar um tempinho que eles voltam, são uns zumbis a nos atormentar:

  • o do cara fantasiado de árabe que joga uma mala perto de incautos, que fogem em desespero ante a perspectiva de que irão voar pelos ares. Se uma ou outra cena pode parecer engraçada, o que fica é o recado preconceituoso de que todo terrorista é árabe;
  • o do Jordão (podia ser Jorjão), homem enorme que desafia as leis da física ao sentar-se com seu corpanzil numa cadeira de plástico que se mantém inteirinha, quatro pernas firmes como uma rochedo. Oxalá, o gordinho haja emagrecido, fugindo da obesidade mórbida.
  • Remetentes desapercebidos e bem intencionados:
  • os que, mal o sol começa a nascer, dispararam “Bom dia” para todo o planeta. A esse costume meigo, “adorado” por uma das personagens do Paulo Gustavo, deve-se acrescer o de encaminhar, como se em primeira mão, vídeos e filmetes que já foram vistos, analisados e discutidos nos últimos anos por milhões de pessoas.
  • Assinam ponto (eletrônico) todos os dias:
  • os que compartilham filmetes tendo a cerveja como tema. Nunca entendi por que, racistas, chamam a garrafa (com o líquido) de “loura”, e vejam que não existe mais o casco claro. Nem propagandas com mulheres louras, pelo menos (sem trocadilho) em trajes sumários de praia. E a Caracu e a Malzbier por acaso acabaram? Então, vamos passar a chamar a cerveja preta de mulata. Lembrei: mulata agora não pode, inclusive em marchinha de carnaval. Conservo os maiores traumas de censura mas pensando bem, embora o politicamente correto às vezes canse e irrite, é duro  ouvir “a tua cor não pega, mulata/mulata eu quero o teu amor.” Falo como moreno, que sou. Ou não. Na verdade, o IBGE tecnicamente me classificaria de pardo;
  • os que têm fixação no Lula e ou na Dilma. Os dois alvos praticamente fora de combate (sem contar o estado de saúde de dona Marisa Letícia) e os coxinhas e nem tão coxinhas assim… implacáveis… descem a bodurna sem piedade. Catalogam e expedem dezenas de vídeos desbancando o sapo barbudo e a presidentA. Enquanto isso, o jovem candidato – é desse modo que o Helio Fernandes, do alto dos seus 95 anos, se refere ao Aecio Neves -, o neto que nunca será o avô, conta com a boa vontade quase generalizada da imprensa e daquela turma que foi pra rua mas que não vê a hora de se lançar para a Câmara dos Deputados, as assembleias legislativas ou as câmaras de vereadores. Não sou petelho, deixo logo registrado;
  • os que, superando a turma de padres e de pastores, irrigam nossas telas com lições de autoajuda;
  • os que, na mesma toada, mandam recados umas formosuras de delicadeza com flores e bichinhos fofinhos.

28/01/2017

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mmsmarcos1953@hotmail.com

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