A História é amarela 8
É preciso dar tempo ao passado para fantasiar com conhecimento de causa, assim ele volta com mais força, não só como lembrança, mas como imaginação(…). Sem imaginação, não há personagem, não há conflito, tudo gira ao redor do umbigo.
– Milton Hatoum –
Mais um assalto meu, mais uma apropriação que cometo. É a oitava entrevista que extraio de “A história é amarela”, de Veja – que saudades do Mino Carta. Abuso, trago à colação declarações de um indivíduo oriundo de Itabira (adorável sobrinha minha ocupou a Diretoria de Turismo do município) das Minas Gerais e depois radicado no Rio de Janeiro, conhecida como Carlos Drummond de Andrade. Aliás, meu pai, vinte e dois anos mais novo do que o poeta, era também mineiro, de Carangola, e da mesma sorte foi durante décadas morador de Copacabana, além de igualmente servidor público federal, lotado no Ministério da Fazenda.
Luxo só: o entrevistador é o Zuenir Ventura, um dos maiores jornalistas deste país que, nonagenário, ainda meio sumido para nosso desamparo.
– Minha casca é um pouco discutível. As pessoas esquecem que durante anos e anos vivi de porta aberta, numa repartição pública, atendendo gregos e goianos, como dizia o Aporelly. Era minha obrigação, como chefe de gabinete do ministro Gustavo Capanema, conversar com todas as pessoas que me procurassem.
– Eu adoro, (…), crianças. Os pais eu não ligo, não, … Quando vão lá em casa, sento no chão, invento brinquedos. Mesmo criança não falando eu adoro. Eu gosto muito de bicho. A sociedade humana, para mim, já está um pouco mais difícil.
Nosso ilustríssimo personagem trabalhou no Ministério da Educação inclusive durante o chamado Estado Novo mas quase nada tinha a ver com esse regime totalitário como ele faz questão de frisar. Duvido que alguém duvidasse (ou ainda duvide) da ideologia do grande poeta brasileiro, tanto que, referindo-se ao depois à ditadura militar de 1964, externalizou antipatia (i) pelos milicos que se transmudaram em presidente da República, (II) pelo Congresso e (iii) pelo Executivo, decorrendo de tudo isso provavelmente um quadro psicológico que hoje poderia até ser considerado de depressão.

– Tenho uma coluna em que, quando quero emitir uma opinião política, emito. Ou uma conversa, ou um devaneio. Sou cronista de segundo caderno mas, em meio às amenidades, me permito reclamar contra o excesso de generais que comandam o Brasil com o título de presidente da República, assim como me permito satirizar o Congresso, quando, em vez de trabalhar e de reivindicar as próprias prerrogativas, se torna um instrumento dócil ao governo. Quero reivindicar uma liberdade que conquistei com um preço bastante alto, que é dizer aquilo que eu quero dizer no momento em que me forçam a dizer. Isso porque eu já tive uma espécie de militância política de resultado pouco favorável.
– …fui me desinteressando do problema político e mergulhei assim numa espécie de solidão em que me interessavam só os problemas, não digo metafísicos, mas os ligados ao destino final do homem, à natureza do homem, à existência, ao mistério da existência do homem e da sua finalidade, do seu próprio ser. Esporadicamente me vem o desejo de participar.
Pondere-se, o Drummond rejeitava essa coisa de poeta maior. E os seus argumentos apresentavam-se com uma procedência inatacável. A questão não era da suposta falsa modéstia dele, resulta impraticável categorizar poetas, mesmo arrostando os subjetivismos.
– É muito difícil você dizer se o Fernando Pessoa é maior ou menor que Camões. Não há possibilidade real ou científica de avaliar o tamanho dos poetas.
– Quando vejo os poetas que dominavam o Rio quando vim para cá e hoje não tem quem reedite suas obras… O julgamento contemporâneo é muito falível. Não temos distanciamento para julgar as pessoas. Temos pessoas na moda e pessoas fora da moda. Vamos admitir que no momento eu estou na moda.
– (…) não faço concorrência a ninguém, não ameaço, não pretendo ocupar nenhum lugar, não desejo nada, quero ficar quieto no meu canto, ouvindo a minha musicazinha, conversando com uns pouco amigos. Falo muito ao telefone porque, além do mais, sair à rua no Rio não é muito fácil, eu não tenho carro. Mesmo tendo, a pessoa já corre risco, imagine então uma pessoa como eu, que não tem defesa, que é frágil.
– (…) se há uma pessoa que se sente relativamente feliz sendo uma pessoa cética e até pessimista sou eu. Levei sempre uma vida de classe média modesta, nunca aspirei a subir a um grau mais elevado, nunca cultivei pessoas poderosas e nunca tive necessidade de pedir emprego. Quer dizer: passei a vida sem maiores dificuldades, também sem maiores glórias.
– (…) não me permito, como criticado, responder à crítica. A pessoa que publica um livro, compõe uma canção, faz uma escultura ou pinta um quadro expõe a carne às feras. Aquilo já é um produto que saiu dele, certamente não pertence mais a ele, pertence à comunidade. Eu sempre expus a isso. (…) a gente tem de receber a crítica com humildade. Se o crítico não compreendeu, se ele é burro, paciência.
– Felicidade pessoal é exagero. Prefiro serenidade pessoal marcada com alguns relâmpagos, porque de vez em quando perco a paciência. Não me cabendo ser um ator ativo no espetáculo do mundo, sendo apenas mais um observador, eu me limito a dizer alguma coisa do que penso, do que sinto, com a convicção de que isso não vai adiantar nada. Nunca entendi bem o mundo, acho o mundo um teatro de injustiças e de ferocidades extraordinárias. Dizer que nós evoluímos desde o homem das cavernas é um pouco de exagero, porque criamos, com a tecnologia, aparelhos mais sofisticados para a felicidade do mundo e esses aparelhos estão sendo utilizados para sua destruição. Isso não é civilização, francamente. Isso é uma porcaria.
Se ele afirmou isso há mais de quarenta e cinco anos – pura verdade -, imaginem o que o itabirano diria hoje do celular, do Whatsapp, do Instagram. Jamais o veríamos fazendo dancinha, salvo se na companhia de crianças, que decerto iriam rir junto dele das bobajadas da internet. Porque, em relação aos adultos, o homem era introspectivo e reservado paca.
- Abraçar é costume muito brasileiro; a pessoa quer uma pancadinha nas costas. Nem sempre isso me ocorre, até por timidez. Eu não sei se de fato a pessoa está disposta a ter aquela exuberância, aquela veemência comigo. Então, eu a poupo da reação. Agora, procuro ser polido com todo mundo. E nunca recusei coisas por orgulho.
Reservado, mas um pouco, um pouquinho corporativista, haja vista as frases de encômio dirigidas ao colega poetinha.
– Eu invejava o conceito que o Vinicius teve de vida, de independência de espírito, de falta de compromisso com as convenções sociais. Ele fazia o que queria e sempre com aquela doçura, com aquela capacidade de encantar que fazia com que as donas de casa mais severas o adorassem. Conta-se que, entre as muitas namoradas que teve, uma era particularmente feia. Vinicius explicava que ela “era muito feiazinha, coitadinha”, por isso a namorava. É a suprema delicadeza.
Finalmente, ponho que, se fizesse provas de concurso público para o cargo de profeta, nosso Carlos Drummond de Andrade não ultrapassaria sequer a primeira fase do certame. Onde já se viu tamanho despautério, tamanho equívoco, o chefe de gabinete de ministro (mas principalmente escritor, cronista, jornalista… e poeta) asseverar que sua obra iria desaparecer. De que maneira ele reunia elementos (tirante a autêntica modéstia) para nos assegurar que em 2030, cinquenta anos após a entrevista sob comento, os seus livros todos teriam tomado chá de sumiço, desconhecidos dos leitores e leitoras havia muito tempo? A pá de cal: se eventualmente redescobertos, um entojo.
– Acho minha obra uma obra falha, uma obra que poderia ser melhor. Ela não teve um desenvolvimento assim consciente, lógico. Fui levado pela intuição e pelo instinto, pelas emoções do momento. Não creio muito na validade dessa obra. Acho o seguinte: como sou um homem do meu tempo, exprimi paixões e emoções do meu tempo, e isso naturalmente tocou as pessoas. Não vou dizer que, para mim, não é agradável. É realmente agradável quando uma pessoa do interior do Brasil, de uma cidade qualquer, para dizer que se comoveu com uma coisa que fiz. Isso vale mais do que o elogio técnico de um especialista em literatura.
– Daqui a cinco ou dez anos, terei desaparecido e virão novos poetas, novas formas de poesia, novos critérios, novas tendências. Amanhã ou depois, daqui a cinquenta anos, um sujeito diz:”Olha, descobrimos um poeta chamado Drummond, que tinha uma pedra no meio do caminho. Que coisa curiosa”. Ou “que coisa mais chata”.
– Daqui a cinco ou dez anos, terei desaparecido e virão novos poetas, novas formas de poesia, novos critérios, novas tendências. Amanhã ou depois, daqui a cinquenta anos, um sujeito diz:”Olha, descobrimos um poeta chamado Drummond, que tinha uma pedra no meio do caminho. Que coisa curiosa”. Ou “que coisa mais chata”.
#Carlos Drummond de Andrade
#Milton Hatoum
#Zuenir Ventura
#Gustavo Capanema
#Mino Carta
#Aporelly
#Fernando Pessoa
#Camões
23/01/2026
(384)
mmsmarcos1953@hotmail.com
Alice, triste cinquentenário
Você pode gostar
Alguns guardados (VI)
21/06/2020
Obsessões musicais XXIX
04/03/2023