A História é amarela 8 

É preciso dar tempo ao passado para fantasiar com conhecimento de causa, assim ele volta com mais força, não só como lembrança, mas como imaginação(…). Sem imaginação, não há personagem, não há conflito, tudo gira ao redor do umbigo.
– Milton Hatoum –

– Minha casca é um pouco discutível. As pessoas esquecem que durante anos e anos vivi de porta aberta, numa repartição pública, atendendo gregos e goianos, como dizia o Aporelly. Era minha obrigação, como chefe de gabinete do ministro Gustavo Capanema, conversar com todas as pessoas que me procurassem.

– Eu adoro, (…), crianças. Os pais eu não ligo, não, … Quando vão lá em casa, sento no chão, invento brinquedos. Mesmo criança não falando eu adoro. Eu gosto muito de bicho. A sociedade humana, para mim, já está um pouco mais difícil.

– Tenho uma coluna em que, quando quero emitir uma opinião política, emito. Ou uma conversa, ou um devaneio. Sou cronista de segundo caderno mas, em meio às amenidades, me permito reclamar contra o excesso de generais que comandam o Brasil com o título de presidente da República, assim como me permito satirizar o Congresso, quando, em vez de trabalhar e de reivindicar as próprias prerrogativas, se torna um instrumento dócil ao governo. Quero reivindicar uma liberdade que conquistei com um preço bastante alto, que é dizer aquilo que eu quero dizer no momento em que me forçam a dizer. Isso porque eu já tive uma espécie de militância política de resultado pouco favorável.

– …fui me desinteressando do problema político e mergulhei assim numa espécie de solidão em que me interessavam só os problemas, não digo metafísicos, mas os ligados ao destino final do homem, à natureza do homem, à existência, ao mistério da existência do homem e da sua finalidade, do seu próprio ser. Esporadicamente me vem o desejo de participar.

– É muito difícil você dizer se o Fernando Pessoa é maior ou menor que Camões. Não há possibilidade real ou científica de avaliar o tamanho dos poetas.

– Quando vejo os poetas que dominavam o Rio quando vim para cá e hoje não tem quem reedite suas obras… O julgamento contemporâneo é muito falível. Não temos distanciamento para julgar as pessoas. Temos pessoas na moda e pessoas fora da moda. Vamos admitir que no momento eu estou na moda.

– (…) não faço concorrência a ninguém, não ameaço, não pretendo ocupar nenhum lugar, não desejo nada, quero ficar quieto no meu canto, ouvindo a minha musicazinha, conversando com uns pouco amigos. Falo muito ao telefone porque, além do mais, sair à rua no Rio não é muito fácil, eu não tenho carro. Mesmo tendo, a pessoa já corre risco, imagine então uma pessoa como eu, que não tem defesa, que é frágil.

– (…) se há uma pessoa que se sente relativamente feliz sendo uma pessoa cética e até pessimista sou eu. Levei sempre uma vida de classe média modesta, nunca aspirei a subir a um grau mais elevado, nunca cultivei pessoas poderosas e nunca tive necessidade de pedir emprego. Quer dizer: passei a vida sem maiores dificuldades, também sem maiores glórias.

– (…) não me permito, como criticado, responder à crítica. A pessoa que publica um livro, compõe uma canção, faz uma escultura ou pinta um quadro expõe a carne às feras. Aquilo já é um produto que saiu dele, certamente não pertence mais a ele, pertence à comunidade. Eu sempre expus a isso. (…) a gente tem de receber a crítica com humildade. Se o crítico não compreendeu, se ele é burro, paciência.

– Felicidade pessoal é exagero. Prefiro serenidade pessoal marcada com alguns relâmpagos, porque de vez em quando perco a paciência. Não me cabendo ser um ator ativo no espetáculo do mundo, sendo apenas mais um observador, eu me limito a dizer alguma coisa do que penso, do que sinto, com a convicção de que isso não vai adiantar nada. Nunca entendi bem o mundo, acho o mundo um teatro de injustiças e de ferocidades extraordinárias. Dizer que nós evoluímos desde o homem das cavernas é um pouco de exagero, porque criamos, com a tecnologia, aparelhos mais sofisticados para a felicidade do mundo e esses aparelhos estão sendo utilizados para sua destruição. Isso não é civilização, francamente. Isso é uma porcaria.

   - Abraçar é costume muito brasileiro; a pessoa quer uma pancadinha nas costas. Nem sempre isso me ocorre, até por timidez. Eu não sei se de fato a pessoa está disposta a ter aquela exuberância, aquela veemência comigo. Então, eu a poupo da reação. Agora, procuro ser polido com todo mundo. E nunca recusei coisas por orgulho.

– Eu invejava o conceito que o Vinicius teve de vida, de independência de espírito, de falta de compromisso com as convenções sociais. Ele fazia o que queria e sempre com aquela doçura, com aquela capacidade de encantar que fazia com que as donas de casa mais severas o adorassem. Conta-se que, entre as muitas namoradas que teve, uma era particularmente feia. Vinicius explicava que ela “era muito feiazinha, coitadinha”, por isso a namorava. É a suprema delicadeza.

– Acho minha obra uma obra falha, uma obra que poderia ser melhor. Ela não teve um desenvolvimento assim consciente, lógico. Fui levado pela intuição e pelo instinto, pelas emoções do momento. Não creio muito na validade dessa obra. Acho o seguinte: como sou um homem do meu tempo, exprimi paixões e emoções do meu tempo, e isso naturalmente tocou as pessoas. Não vou dizer que, para mim, não é agradável. É realmente agradável quando uma pessoa do interior do Brasil, de uma cidade qualquer, para dizer que se comoveu com uma coisa que fiz. Isso vale mais do que o elogio técnico de um especialista em literatura.

– Daqui a cinco ou dez anos, terei desaparecido e virão novos poetas, novas formas de poesia, novos critérios, novas tendências. Amanhã ou depois, daqui a cinquenta anos, um sujeito diz:”Olha, descobrimos um poeta chamado Drummond, que tinha uma pedra no meio do caminho. Que coisa curiosa”. Ou “que coisa mais chata”.

– Daqui a cinco ou dez anos, terei desaparecido e virão novos poetas, novas formas de poesia, novos critérios, novas tendências. Amanhã ou depois, daqui a cinquenta anos, um sujeito diz:”Olha, descobrimos um poeta chamado Drummond, que tinha uma pedra no meio do caminho. Que coisa curiosa”. Ou “que coisa mais chata”.

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23/01/2026
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