Memórias/Memorialistas (LXXXVI)
O passado é importante, mas só faz sonhar quando movimenta e agita o presente.
– Tostão –
O Pedro Nava tem aparecido aqui em ocasiões espaçadas.

Não obviamente porque insignificante a sua obra – antes, magnífica por todo e qualquer parâmetro. Despropósito é trazer para este blog, com frequência, pancadas existenciais do memorialista maior do Brasil e achar que sem mais nem menos se vai sair daqui imune e fagueiro. Não vai. Daí recomendar-se parcimônia e cautela na leitura dos mísseis literários disparados das Minas Gerais e do Rio de Janeiro.
Ressalto que o juiz-forano passou por estes lados há cerca de ano e meio (Postagem 370, de 18/08/2024), período quase que suficiente para recompormos força e energia e poder minorar a força dramática dos comentários, das lembranças, dos recados, dos alertas insculpidos no volume 5 de suas memórias, levado a público em 1981. Eu, por exemplo, hoje ainda um menino, na flor dos meus… deixa pra lá, sinto-me por isso mesmo não muito intranquilo para enfrentar o médico visceral amalgamado na pele do escritor na abordagem da finitude (não se impressionem com o local dos pontos de interrogação na origem).
“Então é isso? que impede a libertação e nos faz agarrar pedaços já tão rotos da existência. Ah! Por quanto? Tempo. Novamente penso em me prognosticar a frio diante do espelho de aumento que serve para a hora diálogo mudo do barbear. Inventariar as conjuntivas, a visibilidade da artéria temporal, a queda dos traços, a congestão da cor, o princípio do arco senil, as gengivas, a língua reveladora, os batimentos dos vasos do pescoço… Tudo que olho nos outros – indiscretamente, como quem abre carta que não lhe pertence – lendo as horas marcadas pela natureza.”
Nossas mães (os pais em pouquíssimas vezes, que isso de dar educação é “papel de mãe”), ante laivos de presunção da filharada, mandavam a gente se enxergar no espelho e a metidez logo se esvaía. O Nava mergulhou de com força na imagem dele refletida, desprezando os riscos e desafios, uma vez que, ensinam as cultas redes sociais e seus milhões de terapeutas, olhar-se em demasia e obsessivamente pode ensejar ansiedade e insatisfação, sobretudo em casos de transtorno de imagem. Ao tempo que antecipo a louvação da invejável saúde urológica de nosso protagonista, retomo suas escritas impiedosas.
“Chegando ao banheiro, antes do espelho, vou. Tomo posição e verto longamente. Satisfatório: jato forte, grosso, quantidade abundante, boa trajetória. Penso regalado – nenhum estreitamento, por enquanto nada na próstata (…). Passo então à inspeção. O vidro me manda a cara espessa dum velho onde já não descubro o longo pescoço do adolescente e do moço que fui, nem seus cabelos tão densos que pareciam dois fios nascidos de cada bulbo. Castanho. Meu velho moreno corado. A beiçalhada sadia. Nunca fui bonito mas tinha olhos alegres e ria mostrando dentes dum marfim admirável. Hoje o pescoço encurtou, como se massa dos ombros tivesse subido por ele, como cheia em torno de pilastra de ponte. Cabelos brancos tão rarefeitos que o crânio aparece dentro da transparência que eles fazem. E afinaram. Meu moreno ficou fosco e baço. Olhos avermelhados escleróticas sujas. Sua expressão dentro do empapuçamento e sob o cenho fechado é de tristeza e tem um quê da máscara de choro do teatro. As sobrancelhas continuam escuras e isso me gratifica porque penso no que a sabedoria popular conota à conservação dessa pigmentação. Antes fosse. São duas sarças espessas que quando deixo de tesourar esticam-se em linha demoníaca. Par de sulcos fundos saem dos lados das ventas arreganhadas e seguem com as bochechas caídas até o contorno da cara. A boca também despenhou e tem mais ou menos a forma de um V muito aberto. Dolorosamente encaro o velho que tomou conta de mim e vejo que ele foi configurado à custa de uma espécie de desbarrancamento, avalanche, desmonte – queda dos traços e das partes moles deslizando sobre o esqueleto permanente. Erosão. A pele frontal caiu sobre os olhos e tornou o cenho severo. Dobrou-se numa sinistra ruga transversal sobre a raiz do nariz. As bochechas desabaram, parecem coisa não minha, propostas, colocadas depois como as camadas sucessivas que o escultor vai aplicando num busto de barro.”
Tendo resistido até agora a essa exposição, a esse envilecimento, cuido haver chegado a hora de encerrar a leitura já que o Nava atingira os limites humanos da autoanálise. Qual nada. O dentista/cirurgião plástico/otorrino/oculista/ nada poupa, nada preserva, a incursão prorrogou-se para de forma residual desancar dentes, orelhas, pescoço, bochecha, olhos…
“Dentes? O velho riso? Viro e ponho em posição as duas faces laterais do espelho e considero amargamente o meu perfil. O topete ralo não disfarçando a forma fugidia do crânio. As longas orelhas iguais às de minha avó Inhá Luísa, as pelancas barbelas muxibada do pescoço breve, o dos rond, quase corcunda, dos Nava. As bochechonas como que empurrando para a frente os olhos lineares, o nariz sinuoso e as ventas enormes querendo aspirar ainda toda vida do mundo. Pedaço dum, pedaço doutro – Nava, Pamplona, Jaguaribe, Pinto Coelho – reconheço os fragmentos do meu Frankenstein familiar.”
O bombardeio prossegue, impiedoso, e o morador do bairro carioca da Glória, o Dr. Nava, debaixo desse fogo cruzado existencial (não vou ceder ao clichê “fogo amigo”) reúne vigor e passa a se reconhecer em contexto de impermanência (os destaques são do original).
“Médico, não posso enganar a mim mesmo e sei que já estou contado, pesado e medido. Mas consola-me pensar que nós só somos em função do nosso princípio vital. Só somos enquanto vivos. NÃO TEMOS ABSOLUTAMENTE NADA COM NOSSO CORPO MORTO. Nosso? Nem nosso porque já não somos nem existimos. Nós acabamos no último instante da vida. E sofremos tanto, à ideia da morte, porque emprestamos ao cadáver que continua nossa forma as idéias que temos sobre a morte, o enterro, a decomposição. Nada disso é nós.”
#Pedro Nava
#Galo das trevas , volume 5
#Tostão
23/02/2026
(385)
mmsmarcos1953@hotmail.com
A História é amarela 8
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