Tribuna poética
Saber ouvir uma história, (…), parece-me tão importante quanto saber contá-la. Saber ouvir o outro,
aceitar a história do outro, é já aceitá-lo.
– José Eduardo Agualusa –
Mais que célebre o comentário do doutor Ulysses Guimarães a um indivíduo que reclamava dos senadores e deputados federais eleitos à época da conversa: “Não está gostando? Espere o próximo Congresso.”
O Senhor Diretas teria feito tal afirmação como um alerta aos críticos. À sociedade, não é permitido em hipótese alguma descurar do fato de que, sendo a representação política resultado da escolha pelo povo, urge se conduzir para a eleição seguinte no propósito de não renovar o mandato dos(as) parlamentares com atuação institucional marcada pela inépcia.
Basta mirar, nos últimos anos (ponha anos nisso), a formação e a atuação das casas legislativas brasileiras e a lição do Velhinho se adensa no seu matiz pedagógico. Hoje, a gente cai em choro convulso quando analisa os projetos de lei discutidos e ou aprovados e assistimos as intervenções dos parlamentares nas comissões distribuídas pelos prédios das casas de fabricação das leis – com o fito de nos poupar, esqueçamos por ora os frequentes desatinos no plenário.
Me concedo, entretanto, um aparte e declaro: qualquer congresso legislativo em funcionamento é sempre melhor do que qualquer ditadura.
Na intenção de exacerbar a saudade dos bons tempos de parlamento profícuo, fértil, animador, daqui por diante e esporadicamente pinçarei determinados discursos históricos de seleção efetuada pelo Senado Federal, que para o mister jogou tudo em “CDs”, acessível mediante digitalização contratada por este pobre blogueiro.
Tudo é pretérito, mais de sessenta anos, tudo é ex, porém nada vou atualizar. O personagem será referenciado senador, e não ex-senador; deputado, e não então deputado, e por aí vai; assinale-se que pela data do evento todos e todas já embarcaram, deixando de existir neste vale de lágrimas.
Inicio a empreitada trazendo à colação discurso do deputado federal padre Godinho, proferido na sessão de 26 de novembro de 1963, publicado no DCD de 27 de novembro de 1963, página 9261.
Não pela batina, mas eu o tinha na política como integrante do espectro da direita. Cuidei no entanto que deveria alterar meu julgamento desse personagem, tirá-lo dessa errônea categorização, porquanto vi que o religioso fora cassado pelos milicos durante a ditadura militar. Um “padre de passeata”, na concepção de Nelson Rodrigues? Não sei.
Não vou me aprofundar na sua biografia, senão que tornar presente a mensagem que ele veiculara diretamente da tribuna da Câmara dos Deputados a propósito do assassinato do presidente Kennedy. São páginas e páginas (sete? oito?), que recomendo leitura assim que puderem. Me cingirei a determinados trechos, formidáveis na sua dimensão poética, destacando-se que há, no meu sentir, uns poucos escorregões literários, barroquismo e gongorismo, sem contar que o presidente americano vitimado sai da narrativa em foco como se fora um herói por todos os títulos, quase um santo.

Desconsidere-se a questão sob o prisma político para em sequência se poder fruir os versos espocados, a enaltecer a oratória do deputado sacerdote.
“(…) foi como se uma luz se tivesse apagado, de repente, no mundo (…). Foi como se uma noite de angústia e soturnos incubos tivesse baixado, repentinamente, sobre a face da terra, (…). Foi como se um pesadelo e uma delirante alucinação tivessem, inesperadamente, dilacerado nas suas garras de loucura o coração de milhões de homens. (…). Eram aquelas horas mansas e preguiçosas, quando a tarde escorre, plácida, para os braços do crepúsculo, velho e cansado porteiro da noite. Mas, aquele dia, a noite se antecipou. Ia descer, primeiro sobre os corações. Depois, sobre o mundo. (…). A noite com o seu mistério, a noite com os seus fantasmas, a noite com o seu pavor, a noite com a sua mentira, a noite com as suas armadilhas sagazes e as suas emboscadas traiçoeiras, a noite com os seus laços bem urdidos e os seus venenos sutis, com os seus gritos, solitários e os seus uivos lancinantes, a noite que gela o coração e acoberta o crime, a noite que atrai vítima desprevenida o empresta à morte o seu regaço de sombra para a solerte tocaia – aquele dia, a noite chegou inesperada, trazendo no seu bojo a gargalhada sinistra que, num átimo – num átimo quase eterno, num átimo que fixou o tempo e estancou o fluxo da História – ecoou pelos quatro cantos do mundo, como que desafiando a mais tenaz capacidade de crer, zombando da mais desesperada esperança e deixando escorrer a baba envenenada do ódio inimaginável, do ódio que se julgara proscrito, para sempre, da conveniência humana (…)”
Lidas tais palavras, qual a motivação para abandonar agora postagem, desligando-se o celular ou o notebook? Realmente, ela já vai longa, mas interrompê-la e remergulhar em nossas rotinas nem sempre encantadoras, nem sempre estimulantes? Porque o quadro que se me afigura neste momento é o de perdigotos expelidos da boca do deputado padre Godinho. Os quais não são gotas de saliva, são gotas de dizeres poéticos estampados no discurso como que onomatopeias, a nos inebriar sem trégua.
“(…) Com os olhos vendados pela súbita escuridão e velados pelas primeiras lágrimas que nenhuma força humana consegue reter, homens e mulheres de todas as raças e de todas as crenças tentaram agarrar-se a alguma coisa que lhes permitisse não crer, que desmentisse as palavras sinistras que, aquela hora, já se atropelavam nas asas das ondas velozes por sobre montanhas e mares, cidades e vales, até a última fronteira do mundo. (…). A milhares de quilômetros, numa cidade embandeirada em festa, entre flores e aclamações, entre os gritos dos peões na padaria sem fim, ao cheiro acre do petróleo brotando aos borbotões do solo esturricado, alguém fechara a derradeira porta à compreensão e à fraternidade, e uma janela se abrira ao ódio assassino, covarde e desvairado.”
É evidente, o ódio não é sentimento aflorado nos dias de hoje, voga desde a antiguidade pelo impulso da maldade humana, que reluta em prestigiar a tolerância, a compreensão, a boa vontade.
“Foi assim que alguns estampidos ecoaram na hora do triunfo, no instante do mais belo sorriso, quando a árvore jovem era mais forte do que nunca, quando deitava sólidas raízes no chão de um mundo áspero e agressivo, quando os primeiros frutos da luta tenaz e da teimosa esperança apenas amadureciam para a fartura dos vazios celeiros e para a expectativas das alegres colheitas das balas assassinas partidas da janela do ódio, das mãos de um jovem cevado no ódio e educado para o ódio; que, podendo renegar a sua pátria, como desejou, concebeu o plano sinistro de privá-la de quem dedicara a vida a restituir ao mundo, no plano temporal, o amor banido e a fraternidade perdida. (…)”
A tragédia ainda resta descrita em muitos parágrafos da peça oratória. Porém, contrariando o que eu afirmara anteriormente, ponho termo prematuro a vertente postagem com reprodução das seguintes passagens – entre as quais as que detalham a cena macabra do crime protagonizada pelo sniper, pelo atirador de elite, figura tão presente na cultura dos Estados Unidos -, deixando as demais conservadas na fonte de onde tudo aqui proveio:
“Lá em cima, uma janela se esvaziava, uma sombra se perdia na multidão um rosto e uma mão chamuscados eram apenas duas manchas de pólvora numa página virada da história dos homens.
“Lá em baixo, uma fronte jovem se curvava para sempre, repousando sobre os joelhos da esposa jovem e bela, com uma grinalda vermelha a envolver-lhe os densos e revoltos cabelos negros. A grinalda da sua vitória, a coroa da sua luta, apaga da sua esperança, o prêmio da sua vida (…).
“Lá em cima, a mansarda vazia, uma arma escondida entre livros, restos de uma refeição feita com sossego e sem temores de olhos indiscretos.
“Lá em baixo, um mundo vazio, um corpo exânime e os restos de uma vida (…)
“Lá em cima e lá em baixo, dois jovens, dois mundos – o mundo do desespero, que o ódio engendra e constrói e o fundo da esperança, que só o amor é capaz de plasmar com os pobres materiais que a condição humana oferece, numa visão que ultrapassa o tempo e tira a sua força dos valores eternos. Uma janela se fechou para o mundo, uma porta se abriu para a eternidade. Uma rua de Dallas, manchada de sangue quente como o perdão rubro, como as flores do martírio, é a nova fronteira entre o amor que redime e o ódio que esteriliza e mata, entre a liberdade que é capaz de dar a vida para que outros a tenham e a opressão que a estanca nas mais recônditas fontes do espírito, antes mesmo de destruí-la na pobre e frágil argila do corpo humano.”
Finalizo. Na minha livre transcrição, a lápide do túmulo de John Fitzgerald Kennedy desfecha as exéquias e se apresenta com recado de otimismo, com perspectivas de transcendência.
“Aos olhos dos insensatos, parece ter morrido. Ele, porém, está em paz. Suas crianças não o tiveram ontem, não o terão amanhã, não o terão nunca mais, para ajudá-las a apagar as pequeninas velas do pequeno bolo dourado da vida. Foram vê-lo sob a cúpula do Capitólio, a fronte coroada de uma estranha grinalda vermelha. As crianças, menos do que ninguém, entendem a morte. Estão próximas demais das eternas fontes da vida. (…) Que importa, se tanta gente chorava? As crianças entendem o choro, é seu companheiro constante. É a voz antiga da dor que, por sua vez, é a teimosa mensageira da morte(…) Aos olhos dos insensatos, (Kennedy) parece ter morrido: ele, porém, está em paz. Ele está em paz. Sua vida recomeça. Sua voz não se apagará, não envelhecerá, não perderá o timbre argentino e o nobre sotaque da velha cidade natal.”
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01/06/2026
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