Memórias/Memorialistas (LXXXVI)

“Então é isso? que impede a libertação e nos faz agarrar pedaços já tão rotos da existência. Ah! Por quanto? Tempo. Novamente penso em me prognosticar a frio diante do espelho de aumento que serve para a hora diálogo mudo do barbear. Inventariar as conjuntivas, a visibilidade da artéria temporal, a queda dos traços, a congestão da cor, o princípio do arco senil, as gengivas, a língua reveladora, os batimentos dos vasos do pescoço… Tudo que olho nos outros – indiscretamente, como quem abre carta que não lhe pertence – lendo as horas marcadas pela natureza.”

“Chegando ao banheiro, antes do espelho, vou. Tomo posição e verto longamente. Satisfatório: jato forte, grosso, quantidade abundante, boa trajetória. Penso regalado – nenhum estreitamento, por enquanto nada na próstata (…). Passo então à inspeção. O vidro me manda a cara espessa dum velho onde já não descubro o longo pescoço do adolescente e do moço que fui, nem seus cabelos tão densos que pareciam dois fios nascidos de cada bulbo. Castanho. Meu velho moreno corado. A beiçalhada sadia. Nunca fui bonito mas tinha olhos alegres e ria mostrando dentes dum marfim admirável. Hoje o pescoço encurtou, como se massa dos ombros tivesse subido por ele, como cheia em torno de pilastra de ponte. Cabelos brancos tão rarefeitos que o crânio aparece dentro da transparência que eles fazem. E afinaram. Meu moreno ficou fosco e baço. Olhos avermelhados escleróticas sujas. Sua expressão dentro do empapuçamento e sob o cenho fechado é de tristeza e tem um quê da máscara de choro do teatro. As sobrancelhas continuam escuras e isso me gratifica porque penso no que a sabedoria popular conota à conservação dessa pigmentação. Antes fosse. São duas sarças espessas que quando deixo de tesourar esticam-se em linha demoníaca. Par de sulcos fundos saem dos lados das ventas arreganhadas e seguem com as bochechas caídas até o contorno da cara. A boca também despenhou e tem mais ou menos a forma de um V muito aberto. Dolorosamente encaro o velho que tomou conta de mim e vejo que ele foi configurado à custa de uma espécie de desbarrancamento, avalanche, desmonte – queda dos traços e das partes moles deslizando sobre o esqueleto permanente. Erosão. A pele frontal caiu sobre os olhos e tornou o cenho severo. Dobrou-se numa sinistra ruga transversal sobre a raiz do nariz. As bochechas desabaram, parecem coisa não minha, propostas, colocadas depois como as camadas sucessivas que o escultor vai aplicando num busto de barro.”

“Dentes? O velho riso? Viro e ponho em posição as duas faces laterais do espelho e considero amargamente o meu perfil. O topete ralo não disfarçando a forma fugidia do crânio. As longas orelhas iguais às de minha avó Inhá Luísa, as pelancas barbelas muxibada do pescoço breve, o dos rond, quase corcunda, dos Nava. As bochechonas como que empurrando para a frente os olhos lineares, o nariz sinuoso e as ventas enormes querendo aspirar ainda toda vida do mundo. Pedaço dum, pedaço doutro – Nava, Pamplona, Jaguaribe, Pinto Coelho – reconheço os fragmentos do meu Frankenstein familiar.”

“Médico, não posso enganar a mim mesmo e sei que já estou contado, pesado e medido. Mas consola-me pensar que nós só somos em função do nosso princípio vital. Só somos enquanto vivos. NÃO TEMOS ABSOLUTAMENTE NADA COM NOSSO CORPO MORTO. Nosso? Nem nosso porque já não somos nem existimos. Nós acabamos no último instante da vida. E sofremos tanto, à ideia da morte, porque emprestamos ao cadáver que continua nossa forma as idéias que temos sobre a morte, o enterro, a decomposição. Nada disso é nós.”

#Pedro Nava
#Galo das trevas , volume 5
#Tostão

23/02/2026
(385)
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