{"id":1162,"date":"2015-12-29T23:09:15","date_gmt":"2015-12-29T23:09:15","guid":{"rendered":"http:\/\/mapati.com.br\/blog\/?p=1162"},"modified":"2015-12-29T23:09:15","modified_gmt":"2015-12-29T23:09:15","slug":"nossos-filhos-filhas-coincidencias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/nossos-filhos-filhas-coincidencias\/","title":{"rendered":"Nossos filhos, filhas, coincid\u00eancias"},"content":{"rendered":"<p>Minhas postagens ventilam assuntos nem sempre alegres. Dramas afloram, experi\u00eancias contristadoras ressurgem aqui e ali, decerto angustiando as poucas pessoas que se d\u00e3o ao trabalho de l\u00ea-las.<\/p>\n<p>Seja como for, o que se encontra abaixo reportado \u00e9 uma exorta\u00e7\u00e3o que nos faz resistir, que sem hesita\u00e7\u00f5es nos compele a arrostar os reveses da vida. \u00c9 uma carinhosa resposta, pela mesma via, a <em>e-mail<\/em> \u00a0por mim dirigido ao Marco Antonio Pontes, pai do Marco Antonio Velasco, brutal e covardemente assassinado h\u00e1 vinte anos em Bras\u00edlia por um bando de celerados.<\/p>\n<p>Ousei, pela correspond\u00eancia eletr\u00f4nica, me aproximar do grande jornalista no intuito de trazer \u00e0 cola\u00e7\u00e3o a luta permanente de todos aqueles e aquelas que perderam filho (o meu, Tiago, falecido em 1983; vide minha homenagem neste <em>blog<\/em> \u2013 \u201cMeu Velha\u201d I a V).<\/p>\n<p>O engajamento do casal (a m\u00e3e, Val\u00e9ria Velasco) que brindou o mundo com o garoto Velasco \u00e9 admir\u00e1vel e encorajador, da\u00ed me ser defeso sonegar tal registro.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><em>\u201cPerdoe-me!,<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><em>caro Marcos,<br \/>\nse atraso tr\u00eas meses a resposta a suas comoventes mensagens &#8212; <\/em><em>e-mail<\/em><em> e anexos. Acredite: perdi-as em algum desv\u00e3o de prec\u00e1rios arquivos e s\u00f3 agora, ao reorganiz\u00e1-los, resgato-as e leio.<br \/>\nPois este quase xar\u00e1 leu-lhe a carta com simpatia, curiosidade e dosada emo\u00e7\u00e3o, ante as coincid\u00eancias que apontou. J\u00e1 o pai comoveu-se, muito al\u00e9m do que habitualmente se permite um velho cultor do estoicismo, na leitura das cr\u00f4nicas em que doridamente, por\u00e9m com surpreendente objetividade, relata o que sofreu.<br \/>\nMas voc\u00ea n\u00e3o me entristece. A emo\u00e7\u00e3o sentida, sobretudo pelo carinho (e as fotos!) nos relatos sobre o pequeno Tiago foi at\u00e9 consoladora: recebi e tento retribuir solidariedade e a solidariedade, que nos faz humanos, consola.<br \/>\nVivi um longo tempo sem conseguir falar da morte de meu filho, tentativa de n\u00e3o pensar para n\u00e3o renovar o sofrimento. Refugiei-me, primeiro, na luta que empreendemos Val\u00e9ria e eu para que o crime n\u00e3o ficasse impune. Foram intermin\u00e1veis semanas at\u00e9 que os \u2018menores\u2019 (?) da gangue homicida estivessem devidamente \u2018acolhidos\u2019 (??) nas tais \u2018medidas educativas com priva\u00e7\u00e3o de liberdade\u2019 (???), nos termos euf\u00eamicos do Estatuto do Menor. Depois longu\u00edssimos meses at\u00e9 o julgamento dos outros bandidos, afinal condenados. Dever cumprido.<br \/>\nEscondi-me da dor tamb\u00e9m sob a responsabilidade: eu tinha fun\u00e7\u00f5es executivas no governo do amigo Itamar Franco e tal \u00f4nus de certa forma eximiu-me de assumir a enormidade da trag\u00e9dia que se abateu sobre a m\u00e3e, as cinco irm\u00e3s de meu filho-xar\u00e1 e este pai meio dopado pelos subterf\u00fagios que forjou.<br \/>\nS\u00f3 coisa de ano e meio depois, passados os julgamentos dos fac\u00ednoras e o paroxismo do trabalho num governo curto em muito t\u00ednhamos a fazer &#8212; fizemos; de minha modesta posi\u00e7\u00e3o pude orgulhar dos feitos &#8211;, como que acordei da letargia emotiva e sofri, exponencialmente, a dor. A partir de ent\u00e3o consegui administr\u00e1-la, falar e sobretudo escrever sobre o sofrimento.<br \/>\n\u00c0 \u00e9poca repercutia intensamente assassinato de Daniela Peres, a jovem atriz filha da escritora Gl\u00f3ria, autora de novelas da\u00a0<\/em>Globo, de<em> quem Val\u00e9ria tornara-se amiga na extens\u00e3o da solidariedade entre m\u00e3es sofridas. Para ajuda-las na campanha que empreenderam contra a impunidade participei de encontros, fiz palestras e principalmente escrevi artigos; expus-me, disse do carinho de meu filho, do buraco que a aus\u00eancia abriu em minha vida. At\u00e9 que de tanto escrever, falar, desnudar-me a perplexidade fez-se revolta, a revolta transformou-se em saudade e a saudade, do\u00edda embora, apaziguou-me.<br \/>\nTudo isso foi poss\u00edvel porque, primeiro, assumi como se minha fosse a indigna\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias de Daniela Peres, de Jo\u00e3o Cl\u00e1udio e de todas as que anonimamente sofreram (sofrem) cat\u00e1strofes que tais; em seguida converti insubmiss\u00e3o em a\u00e7\u00e3o concreta contra a ignom\u00ednia, a partir do sentimento solid\u00e1rio; e sobre solidariedade passei a escrever.<br \/>\nImagino, ter\u00e1 subido calv\u00e1rio semelhante voc\u00ea, que alia emo\u00e7\u00e3o e raz\u00e3o nas bel\u00edssimas cr\u00f4nicas que comp\u00f4s, especialmente as cinco de seu \u2018Velha\u2019. Este provecto jornalista, calejado em muitas lutas e consequentes vit\u00f3rias e derrotas, enxuga as l\u00e1grimas e retoma a objetividade para constatar as coincid\u00eancias que identificou e anotar outras.<br \/>\nMarco Ant\u00f4nio, meu filho, como o seu Tiago deixou-nos em 1993; h\u00e1 uma semana dei-me conta outra vez de qu\u00ea, passados exatos 22 anos, como nos anteriores a saudade persiste, jamais deixar\u00e1 de doer.<br \/>\nTamb\u00e9m como voc\u00ea tenho uma filha Patr\u00edcia, que aos onze anos levou ao sepultamento do irm\u00e3o uma bra\u00e7ada de flores que colocou, aos solu\u00e7os, sobre o caix\u00e3o.<br \/>\nReleve se demais me estendi nesta tardia, cat\u00e1rtica resposta. E aceite meu abra\u00e7o fraterno.<br \/>\nM. A.\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">09 de setembro de 2015<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">(146)<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><span style=\"color: #0000ff;\"><a style=\"color: #0000ff;\" href=\"mailto:mmsmarcos1953@hotmail.com\">mmsmarcos1953@hotmail.com<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Minhas postagens ventilam assuntos nem sempre alegres. Dramas afloram, experi\u00eancias contristadoras ressurgem aqui e ali, decerto angustiando as poucas pessoas que se d\u00e3o ao trabalho de l\u00ea-las. Seja como for, o que se encontra abaixo reportado \u00e9 uma exorta\u00e7\u00e3o que nos faz resistir, que sem hesita\u00e7\u00f5es nos compele a arrostar os reveses da vida. \u00c9 uma carinhosa resposta, pela mesma via, a e-mail \u00a0por mim dirigido ao Marco Antonio Pontes, pai do Marco Antonio Velasco, brutal e covardemente assassinado h\u00e1 vinte anos em Bras\u00edlia por um bando de celerados. Ousei, pela correspond\u00eancia eletr\u00f4nica, me aproximar do grande jornalista no intuito de trazer \u00e0 cola\u00e7\u00e3o a luta permanente de todos aqueles e aquelas que perderam filho (o meu, Tiago, falecido em 1983; vide minha homenagem neste blog \u2013 \u201cMeu Velha\u201d I a V). O engajamento do casal (a m\u00e3e, Val\u00e9ria Velasco) que brindou o mundo com o garoto Velasco \u00e9 admir\u00e1vel e encorajador, da\u00ed me ser defeso sonegar tal registro. \u201cPerdoe-me!, caro Marcos, se atraso tr\u00eas meses a resposta a suas comoventes mensagens &#8212; e-mail e anexos. Acredite: perdi-as em algum desv\u00e3o de prec\u00e1rios arquivos e s\u00f3 agora, ao reorganiz\u00e1-los, resgato-as e leio. Pois este quase xar\u00e1 leu-lhe a carta com simpatia, curiosidade e dosada emo\u00e7\u00e3o, ante as coincid\u00eancias que apontou. J\u00e1 o pai comoveu-se, muito al\u00e9m do que habitualmente se permite um velho cultor do estoicismo, na leitura das cr\u00f4nicas em que doridamente, por\u00e9m com surpreendente objetividade, relata o que sofreu. Mas voc\u00ea n\u00e3o me entristece. A emo\u00e7\u00e3o sentida, sobretudo pelo carinho (e as fotos!) nos relatos sobre o pequeno Tiago foi at\u00e9 consoladora: recebi e tento retribuir solidariedade e a solidariedade, que nos faz humanos, consola. Vivi um longo tempo sem conseguir falar da morte de meu filho, tentativa de n\u00e3o pensar para n\u00e3o renovar o sofrimento. Refugiei-me, primeiro, na luta que empreendemos Val\u00e9ria e eu para que o crime n\u00e3o ficasse impune. Foram intermin\u00e1veis semanas at\u00e9 que os \u2018menores\u2019 (?) da gangue homicida estivessem devidamente \u2018acolhidos\u2019 (??) nas tais \u2018medidas educativas com priva\u00e7\u00e3o de liberdade\u2019 (???), nos termos euf\u00eamicos do Estatuto do Menor. 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Marco Ant\u00f4nio, meu filho, como o seu Tiago deixou-nos em 1993; h\u00e1 uma semana dei-me conta outra vez de qu\u00ea, passados exatos 22 anos, como nos anteriores a saudade persiste, jamais deixar\u00e1 de doer. Tamb\u00e9m como voc\u00ea tenho uma filha Patr\u00edcia, que aos onze anos levou ao sepultamento do irm\u00e3o uma bra\u00e7ada de flores que colocou, aos solu\u00e7os, sobre o caix\u00e3o. Releve se demais me estendi nesta tardia, cat\u00e1rtica resposta. E aceite meu abra\u00e7o fraterno. M. 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