{"id":1181,"date":"2015-12-29T23:16:38","date_gmt":"2015-12-29T23:16:38","guid":{"rendered":"http:\/\/mapati.com.br\/blog\/?p=1181"},"modified":"2015-12-29T23:16:38","modified_gmt":"2015-12-29T23:16:38","slug":"memoriasmemorialistas-xxvi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/memoriasmemorialistas-xxvi\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3rias\/Memorialistas (XXVI)"},"content":{"rendered":"<p style=\"padding-left: 90px;\"><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>O antrop\u00f3logo Claude Levy-Strauss detestou a Ba\u00eda\/de Guanabara:\/Pareceu-lhe uma boca banguela.\/E eu menos a conhecera mais a amara?\/Sou cego de tanto v\u00ea-la, te tanto t\u00ea-la estrela \/O que \u00e9 uma coisa bela?<\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>(Caetano Veloso)<\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u00c9 das m\u00fasicas que, de par com a mastiga\u00e7\u00e3o das palavras, todo mundo deveria ouvir, pelo menos uma vez por dia, antes de enfrentar o notici\u00e1rio sobre as \u00faltimas manobras solertes da oposi\u00e7\u00e3o e o desvario oficioso\u00a0 e oficial no que \u201cest\u00e3o dizendo aquele cara e aquela.\u201d<\/p>\n<p>Na audi\u00eancia e na leitura, ir\u00edamos (aqui, sim) dar o abra\u00e7a\u00e7o e sentir a empolga\u00e7\u00e3o antropol\u00f3gica.<\/p>\n<p>De mistura com uma atriz, cuja hor\u00e1rio de volta j\u00e1 sabemos, a embalar a filha que tamb\u00e9m vai residir na casa grande da patroa em S\u00e3o Paulo, um cantor ingl\u00eas universal e \u00edndios, muitos \u00edndios, o <em>clip<\/em> (*) esteticamente nos mostra, sem laivos de Nabokov malgrado os seios desnudos, \u201cuma menina ainda adolescente e muito linda\u201d. Ela caminha ao lado de \u201cum velho com cabelos nas narinas\u201d e capot\u00e3o preto. Nada menos que o rebelde e iconoclasta do mundo das artes c\u00eanicas transmutado (<em>downgrade<\/em>?) em ator, a seguir, est\u00f3ico, os comandos do chefe do filmete: concatena\u00e7\u00e3o, altivez e firmeza nos passos pela areia fofa da praia da segunda divis\u00e3o e tudo, a\u00ed mais um paradoxo, sem afetar cara de paisagem.<\/p>\n<p>Corta.<\/p>\n<p>O diretor do v\u00eddeo amplifica seus dom\u00ednios e poderes e determina que eu retorne \u00e0quele soci\u00f3logo pernambucano afeito \u00e0 antropologia, ainda sem sobrenome completo, que andara pela C\u00e2mara Federal numa \u00e9poca dignificante para todos e todas que labutavam elaborando leis.<\/p>\n<p>Obediente, de igual maneira ao anci\u00e3o da praia, arremato a mat\u00e9ria postada no primeiro dia deste m\u00eas da primavera(Mem\u00f3rias\/Memorialistas XXV).<\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>\u201c(&#8230;) aproveito aqui o ensejo para deixar o meu depoimento s\u00f4bre Gilberto Freyre, como deputado. Antes de entrar na mat\u00e9ria, por\u00e9m, devo acentuar que nada do que escrevi ou venha a escrever s\u00f4bre Gilberto Freyre pode representar falha na antiga estima que dedico ao homem e respeito que devoto ao escritor. Apesar das reservas que se possam fazer \u00e0 sua obra, a verdade \u00e9 que ela representa o maior esf\u00f4r\u00e7o individual j\u00e1 feito no sentido de interpreta\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e social do Brasil. Sua obra de an\u00e1lise hist\u00f3rico-social (insisto\u00a0na jun\u00e7\u00e3o dos dois f\u00e2tores) \u00e9 muito superior.\u201d<\/em><\/span><\/p>\n<p>Espraia-se a nobreza do homem p\u00fablico que foi Afonso Arinos de Melo Franco. Desassossegado perante a atividade pol\u00edtica e parlamentar de Gilberto Freyre, o memorialista mineiro entretanto n\u00e3o se furta em dirigir enc\u00f4mios a quem desenhara no recesso da sociologia, com sinais po\u00e9ticos, a casa grande e a senzala:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>\u201cNingu\u00e9m captou, como \u00eale, o significado mais \u00edntimo da nossa forma\u00e7\u00e3o social. O campo espiritual, por\u00e9m, lhe \u00e9 estranho: o liter\u00e1rio, pouco frequentado, e o pol\u00edtico (no sentido jur\u00eddico e institucional), surpreendentemente mal concebido nos seus escritos. A falta de estudos jur\u00eddicos e de experi\u00eancia pol\u00edtica (Gilberto faz pra\u00e7a de desprezar uns e outra) tornam-no pouco apto ao julgamento das nossas institui\u00e7\u00f5es, o que n\u00e3o pode deixar de se ver refletido na sua vida p\u00fablica. O que me deixa perplexo, diante da obra de Gilberto Freyre \u00e9 exatamente o chocante contraste entre a inventiva justa e penetrante e abrangente que \u00eale revela na an\u00e1lise da forma\u00e7\u00e3o hist\u00f3rico-social brasileira, e as suposi\u00e7\u00f5es extremamente discut\u00edveis que arrisca na observa\u00e7\u00e3o do fato pol\u00edtico institucional contempor\u00e2neo. Ali\u00e1s s\u00f3 a contragosto Gilberto ensaia an\u00e1lises do tempo presente. (&#8230;) Despreparo e inadapta\u00e7\u00e3o que o desarmam para o julgamento e a compreens\u00e3o dos acontecimentos do seu tempo. N\u00e3o quero dizer que \u00eale seja um homem do passado. Um soci\u00f3logo da Hist\u00f3ria do seu quilate \u00e9 sempre atual. O que digo \u00e9 que lhe faltam os instrumentos para aferi\u00e7\u00e3o do presente. Atual\u00edssimo falando do passado, inatual observando o presente. Talvez a falta de experi\u00eancia pol\u00edtica (que \u00e9 diferente da sociol\u00f3gica) o leve a teorizar s\u00f4bre o presente, em vez de interpret\u00e1-lo, como fez com o passado. E essa teoriza\u00e7\u00e3o \u00e9 que o afastaria da realidade.\u201d<\/em><\/span><\/p>\n<figure id=\"attachment_1182\" aria-describedby=\"caption-attachment-1182\" style=\"width: 328px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/2017.mapati.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/MM27.jpg\" rel=\"attachment wp-att-1182\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-1182\" src=\"http:\/\/2017.mapati.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/MM27.jpg\" alt=\"http:\/\/photos1.blogger.com\/blogger\/3809\/2647\/1600\/freyre.jpg\" width=\"328\" height=\"429\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-1182\" class=\"wp-caption-text\"><span style=\"font-size: 8pt;\">http:\/\/photos1.blogger.com\/blogger\/3809\/2647\/1600\/freyre.jpg<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>Eis o quarteto de luminares &#8211; haja vista que eu agreguei \u00e0 dupla de cr\u00edtico e criticado o antrop\u00f3logo franc\u00eas e o compositor brasileiro\/baiano.<\/p>\n<p>Pelo meu turno, olho para tr\u00e1s mas n\u00e3o sei de nada.<\/p>\n<p><iframe title=\"Caetano Veloso - O Estrangeiro (1988) HQ Audio.avi\" width=\"960\" height=\"720\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/faPc0Uxa3F4?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10.6667px; line-height: 19.5212px;\">(*)\u00a0https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=faPc0Uxa3F4&amp;feature=youtu.be&amp;list=RDfaPc0Uxa3F4<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">28 de setembro de 2015<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">(150)<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><span style=\"color: #0000ff;\"><a style=\"color: #0000ff;\" href=\"mailto:mmsmarcos1953@hotmail.com\">mmsmarcos1953@hotmail.com<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O antrop\u00f3logo Claude Levy-Strauss detestou a Ba\u00eda\/de Guanabara:\/Pareceu-lhe uma boca banguela.\/E eu menos a conhecera mais a amara?\/Sou cego de tanto v\u00ea-la, te tanto t\u00ea-la estrela \/O que \u00e9 uma coisa bela? 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Nada menos que o rebelde e iconoclasta do mundo das artes c\u00eanicas transmutado (downgrade?) em ator, a seguir, est\u00f3ico, os comandos do chefe do filmete: concatena\u00e7\u00e3o, altivez e firmeza nos passos pela areia fofa da praia da segunda divis\u00e3o e tudo, a\u00ed mais um paradoxo, sem afetar cara de paisagem. Corta. O diretor do v\u00eddeo amplifica seus dom\u00ednios e poderes e determina que eu retorne \u00e0quele soci\u00f3logo pernambucano afeito \u00e0 antropologia, ainda sem sobrenome completo, que andara pela C\u00e2mara Federal numa \u00e9poca dignificante para todos e todas que labutavam elaborando leis. Obediente, de igual maneira ao anci\u00e3o da praia, arremato a mat\u00e9ria postada no primeiro dia deste m\u00eas da primavera(Mem\u00f3rias\/Memorialistas XXV). \u201c(&#8230;) aproveito aqui o ensejo para deixar o meu depoimento s\u00f4bre Gilberto Freyre, como deputado. Antes de entrar na mat\u00e9ria, por\u00e9m, devo acentuar que nada do que escrevi ou venha a escrever s\u00f4bre Gilberto Freyre pode representar falha na antiga estima que dedico ao homem e respeito que devoto ao escritor. Apesar das reservas que se possam fazer \u00e0 sua obra, a verdade \u00e9 que ela representa o maior esf\u00f4r\u00e7o individual j\u00e1 feito no sentido de interpreta\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e social do Brasil. Sua obra de an\u00e1lise hist\u00f3rico-social (insisto\u00a0na jun\u00e7\u00e3o dos dois f\u00e2tores) \u00e9 muito superior.\u201d Espraia-se a nobreza do homem p\u00fablico que foi Afonso Arinos de Melo Franco. Desassossegado perante a atividade pol\u00edtica e parlamentar de Gilberto Freyre, o memorialista mineiro entretanto n\u00e3o se furta em dirigir enc\u00f4mios a quem desenhara no recesso da sociologia, com sinais po\u00e9ticos, a casa grande e a senzala: \u201cNingu\u00e9m captou, como \u00eale, o significado mais \u00edntimo da nossa forma\u00e7\u00e3o social. O campo espiritual, por\u00e9m, lhe \u00e9 estranho: o liter\u00e1rio, pouco frequentado, e o pol\u00edtico (no sentido jur\u00eddico e institucional), surpreendentemente mal concebido nos seus escritos. A falta de estudos jur\u00eddicos e de experi\u00eancia pol\u00edtica (Gilberto faz pra\u00e7a de desprezar uns e outra) tornam-no pouco apto ao julgamento das nossas institui\u00e7\u00f5es, o que n\u00e3o pode deixar de se ver refletido na sua vida p\u00fablica. O que me deixa perplexo, diante da obra de Gilberto Freyre \u00e9 exatamente o chocante contraste entre a inventiva justa e penetrante e abrangente que \u00eale revela na an\u00e1lise da forma\u00e7\u00e3o hist\u00f3rico-social brasileira, e as suposi\u00e7\u00f5es extremamente discut\u00edveis que arrisca na observa\u00e7\u00e3o do fato pol\u00edtico institucional contempor\u00e2neo. Ali\u00e1s s\u00f3 a contragosto Gilberto ensaia an\u00e1lises do tempo presente. (&#8230;) Despreparo e inadapta\u00e7\u00e3o que o desarmam para o julgamento e a compreens\u00e3o dos acontecimentos do seu tempo. N\u00e3o quero dizer que \u00eale seja um homem do passado. Um soci\u00f3logo da Hist\u00f3ria do seu quilate \u00e9 sempre atual. O que digo \u00e9 que lhe faltam os instrumentos para aferi\u00e7\u00e3o do presente. Atual\u00edssimo falando do passado, inatual observando o presente. Talvez a falta de experi\u00eancia pol\u00edtica (que \u00e9 diferente da sociol\u00f3gica) o leve a teorizar s\u00f4bre o presente, em vez de interpret\u00e1-lo, como fez com o passado. E essa teoriza\u00e7\u00e3o \u00e9 que o afastaria da realidade.\u201d Eis o quarteto de luminares &#8211; haja vista que eu agreguei \u00e0 dupla de cr\u00edtico e criticado o antrop\u00f3logo franc\u00eas e o compositor brasileiro\/baiano. Pelo meu turno, olho para tr\u00e1s mas n\u00e3o sei de nada. (*)\u00a0https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=faPc0Uxa3F4&amp;feature=youtu.be&amp;list=RDfaPc0Uxa3F4 &nbsp; 28 de setembro de 2015 (150) mmsmarcos1953@hotmail.com<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-1181","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1181","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1181"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1181\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1181"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1181"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1181"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}