{"id":1198,"date":"2015-12-30T17:22:33","date_gmt":"2015-12-30T17:22:33","guid":{"rendered":"http:\/\/mapati.com.br\/blog\/?p=1198"},"modified":"2015-12-30T17:22:33","modified_gmt":"2015-12-30T17:22:33","slug":"memoriasmemorialistas-xxvii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/memoriasmemorialistas-xxvii\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3rias\/Memorialistas (XXVII)"},"content":{"rendered":"<p>Quando vi que o Pedro Nava fazia gestos de chamamento, deliberei voltar pela mesma ponte, ap\u00f3s me despedir do Afonso Arinos. Havia nova troca de pessoas mas nada permitia intuir que a situa\u00e7\u00e3o mudara. Embora o deputado, senador, chanceler aludisse ao soci\u00f3logo de Pernambuco, tudo a rigor recendia, na linguagem alinhavada pelos dois ex\u00edmios contadores de hist\u00f3rias, aos paladares, cheiros e sabores das Minas Gerais. Efetivamente, ao me encontrar com o que era m\u00e9dico, ouvi a prop\u00f3sito narrativa ainda centrada nos anos iniciais do s\u00e9culo passado.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>\u201c(&#8230;) A cozinha do 179 era negra e encardida como convinha a uma boa cozinha de Minas. Tinha um teto alto e incerto, de cujos barrotes algodoados de picum\u00e3 desciam, em cima do fog\u00e3o, as serpentes mosqueadas e lustrosas das lingui\u00e7as em carne viva; as mantas de peles de porco escorrendo gordura; e as espirais das cascas de laranja que ali ficavam defumando e secando. As cascas de laranjas serviam para ajudar a acender o fogo, pela manh\u00e3. Primeiro elas, palhas de milho e jornal velho. Depois gravetos frescos, sabugos, tran\u00e7as de cebola. Logo as achas mi\u00fadas e por fim, as toras de lenha de que o fogo se levantava vermelho e impetuoso como o pesco\u00e7o dum galo cantando de madrugada. Essa chama, para ser alta ou baixa, abundante ou diminuta, para cozinhar depressa ou mijotar devagarinho, era feita \u00e0 custa de diferentes paus. Lenha de goiaba, de p\u00e9 de p\u00eassego, de candeia, de jaqueira, de pinho, de mangueira, de \u00e1rvore do mato. Seca ou verde &#8211; se queria labareda violenta e s\u00fabita para as omeletes e as fritadas ou lume mais cativo e concentrado para os molhos pardos e os cozidos&#8230;\u201d<\/em><\/span><\/p>\n<p>Cabe uma interrup\u00e7\u00e3o. Me detive na hist\u00f3ria capturado (em parte) pela nem t\u00e3o nova mania, espalhada por todos os cantos, de aulas de gastronomia, <em>chefs <\/em>pontificando em p\u00e1ginas e mais p\u00e1ginas de revistas e jornais e em in\u00fameros programas de tv, aberta ou fechada. Minha neta mais velha, Aline, com seus 19 anos incompletos, se enfileira h\u00e1 d\u00e9cadas e d\u00e9cadas nesse pelot\u00e3o de admiradores e admiradoras da culin\u00e1ria. Em contrapartida, na qualidade de rebelde com causa, este pobre escriba apela ao <em>modus faciendi<\/em> do Mill\u00f4r Fernandes. Na leitura di\u00e1ria dos artigos do (infelizmente extinto) Jornal do Brasil, o genial nativo do bairro carioca do M\u00e9ier ia pulando um padre aqui, outro ali, que recheiavam o espa\u00e7o nobre do JB com doutrina\u00e7\u00f5es ortodoxas e conservadoras n\u00e3o s\u00f3 a respeito de religi\u00e3o, enquanto que eu passo batido naquelas p\u00e1ginas com fotos as mais sedutoras dos pratos nos quais prepondera a decora\u00e7\u00e3o, encobrindo-se a comida, de ordin\u00e1rio em por\u00e7\u00f5es m\u00ednimas.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, esse meu radicalismo n\u00e3o se sustenta. Sou tamb\u00e9m da cozinha, e assim me exprimo com muito temor pois observa\u00e7\u00e3o dessa natureza j\u00e1 gerou muita confus\u00e3o quando um renomado soci\u00f3logo carioca\/paulista, talvez sem pretender discrimina\u00e7\u00e3o, declarou possuir um p\u00e9 l\u00e1 dentro do aposento ao lado da copa. Abstraio os luxuosos e car\u00edssimos utens\u00edlios de hoje &#8211; notadamente as panelas \u2013 e, na esteira das apetitosas mem\u00f3rias do Nava, me agarro \u00e0 ambi\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>&#8220;Graduava-se ainda, o calor, abrindo ou fechando a manivela da tiragem da chamin\u00e9 que subia como um grosso cilindro caliginoso para as negruras dos c\u00famulos-nimbos do picum\u00e3 &#8211; bom para segurar sangria de corte. Ao seu lado e mais finos, os canos das serpentinas que esquentavam a \u00e1gua da caixa para o chuveiro e as torneiras da banheira de lat\u00e3o. O fog\u00e3o, como ser vivo, tinha um cheiro diferente em cada parte. O fuliginoso e duro das trempes, cujos buracos redondos se abriam primeiro, pequenos, com a retirada do tucho e depois, maiores, com\u00a0 a de um anel de ferro que lembrava os de Saturno. O resinoso e tremulante das lenhas vari\u00e1veis, queimando na fornalha. O calc\u00e1rio e morno do borralho, onde brasas cintilavam e morriam sobre a cinza. O nauseante e gorduroso da caldeira cheia de \u00e1gua choca. Dominando todos esses, o olor peculiar da comida-nossa-de-cada-dia. Do arroz, nadando em banha de porco&#8230;\u201d<\/em><\/span><\/p>\n<p>Rendo minhas homenagens \u00e0 torcida do Palmeiras, a qual, soube muitos anos depois, \u00e9 irm\u00e3 da torcida do meu Vasc\u00e3o, e transfiro para a pr\u00f3xima postagem os coment\u00e1rios antropol\u00f3gicos sobre o porco (e mais uma por\u00e7\u00e3o de itens aliment\u00edcios) feitos por nosso maior memorialista.<\/p>\n<figure id=\"attachment_1200\" aria-describedby=\"caption-attachment-1200\" style=\"width: 256px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/2017.mapati.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/MM28-1.png\" rel=\"attachment wp-att-1200\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-1200\" src=\"http:\/\/2017.mapati.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/MM28-1.png\" alt=\"https:\/\/www.iconfinder.com\/icons\/275581\/food_meat_pig_pork_icon\" width=\"256\" height=\"256\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-1200\" class=\"wp-caption-text\"><span style=\"font-size: 8pt;\">https:\/\/www.iconfinder.com\/icons\/275581\/food_meat_pig_pork_icon<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">29 de setembro de 2015<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">(151)<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><span style=\"color: #0000ff;\"><a style=\"color: #0000ff;\" href=\"mailto:mmsmarcos1953@hotmail.com\">mmsmarcos1953@hotmail.com<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando vi que o Pedro Nava fazia gestos de chamamento, deliberei voltar pela mesma ponte, ap\u00f3s me despedir do Afonso Arinos. Havia nova troca de pessoas mas nada permitia intuir que a situa\u00e7\u00e3o mudara. Embora o deputado, senador, chanceler aludisse ao soci\u00f3logo de Pernambuco, tudo a rigor recendia, na linguagem alinhavada pelos dois ex\u00edmios contadores de hist\u00f3rias, aos paladares, cheiros e sabores das Minas Gerais. Efetivamente, ao me encontrar com o que era m\u00e9dico, ouvi a prop\u00f3sito narrativa ainda centrada nos anos iniciais do s\u00e9culo passado. \u201c(&#8230;) A cozinha do 179 era negra e encardida como convinha a uma boa cozinha de Minas. Tinha um teto alto e incerto, de cujos barrotes algodoados de picum\u00e3 desciam, em cima do fog\u00e3o, as serpentes mosqueadas e lustrosas das lingui\u00e7as em carne viva; as mantas de peles de porco escorrendo gordura; e as espirais das cascas de laranja que ali ficavam defumando e secando. As cascas de laranjas serviam para ajudar a acender o fogo, pela manh\u00e3. Primeiro elas, palhas de milho e jornal velho. Depois gravetos frescos, sabugos, tran\u00e7as de cebola. Logo as achas mi\u00fadas e por fim, as toras de lenha de que o fogo se levantava vermelho e impetuoso como o pesco\u00e7o dum galo cantando de madrugada. Essa chama, para ser alta ou baixa, abundante ou diminuta, para cozinhar depressa ou mijotar devagarinho, era feita \u00e0 custa de diferentes paus. Lenha de goiaba, de p\u00e9 de p\u00eassego, de candeia, de jaqueira, de pinho, de mangueira, de \u00e1rvore do mato. Seca ou verde &#8211; se queria labareda violenta e s\u00fabita para as omeletes e as fritadas ou lume mais cativo e concentrado para os molhos pardos e os cozidos&#8230;\u201d Cabe uma interrup\u00e7\u00e3o. Me detive na hist\u00f3ria capturado (em parte) pela nem t\u00e3o nova mania, espalhada por todos os cantos, de aulas de gastronomia, chefs pontificando em p\u00e1ginas e mais p\u00e1ginas de revistas e jornais e em in\u00fameros programas de tv, aberta ou fechada. Minha neta mais velha, Aline, com seus 19 anos incompletos, se enfileira h\u00e1 d\u00e9cadas e d\u00e9cadas nesse pelot\u00e3o de admiradores e admiradoras da culin\u00e1ria. Em contrapartida, na qualidade de rebelde com causa, este pobre escriba apela ao modus faciendi do Mill\u00f4r Fernandes. Na leitura di\u00e1ria dos artigos do (infelizmente extinto) Jornal do Brasil, o genial nativo do bairro carioca do M\u00e9ier ia pulando um padre aqui, outro ali, que recheiavam o espa\u00e7o nobre do JB com doutrina\u00e7\u00f5es ortodoxas e conservadoras n\u00e3o s\u00f3 a respeito de religi\u00e3o, enquanto que eu passo batido naquelas p\u00e1ginas com fotos as mais sedutoras dos pratos nos quais prepondera a decora\u00e7\u00e3o, encobrindo-se a comida, de ordin\u00e1rio em por\u00e7\u00f5es m\u00ednimas. Por\u00e9m, esse meu radicalismo n\u00e3o se sustenta. Sou tamb\u00e9m da cozinha, e assim me exprimo com muito temor pois observa\u00e7\u00e3o dessa natureza j\u00e1 gerou muita confus\u00e3o quando um renomado soci\u00f3logo carioca\/paulista, talvez sem pretender discrimina\u00e7\u00e3o, declarou possuir um p\u00e9 l\u00e1 dentro do aposento ao lado da copa. Abstraio os luxuosos e car\u00edssimos utens\u00edlios de hoje &#8211; notadamente as panelas \u2013 e, na esteira das apetitosas mem\u00f3rias do Nava, me agarro \u00e0 ambi\u00eancia. &#8220;Graduava-se ainda, o calor, abrindo ou fechando a manivela da tiragem da chamin\u00e9 que subia como um grosso cilindro caliginoso para as negruras dos c\u00famulos-nimbos do picum\u00e3 &#8211; bom para segurar sangria de corte. Ao seu lado e mais finos, os canos das serpentinas que esquentavam a \u00e1gua da caixa para o chuveiro e as torneiras da banheira de lat\u00e3o. O fog\u00e3o, como ser vivo, tinha um cheiro diferente em cada parte. O fuliginoso e duro das trempes, cujos buracos redondos se abriam primeiro, pequenos, com a retirada do tucho e depois, maiores, com\u00a0 a de um anel de ferro que lembrava os de Saturno. O resinoso e tremulante das lenhas vari\u00e1veis, queimando na fornalha. O calc\u00e1rio e morno do borralho, onde brasas cintilavam e morriam sobre a cinza. O nauseante e gorduroso da caldeira cheia de \u00e1gua choca. Dominando todos esses, o olor peculiar da comida-nossa-de-cada-dia. Do arroz, nadando em banha de porco&#8230;\u201d Rendo minhas homenagens \u00e0 torcida do Palmeiras, a qual, soube muitos anos depois, \u00e9 irm\u00e3 da torcida do meu Vasc\u00e3o, e transfiro para a pr\u00f3xima postagem os coment\u00e1rios antropol\u00f3gicos sobre o porco (e mais uma por\u00e7\u00e3o de itens aliment\u00edcios) feitos por nosso maior memorialista. &nbsp; 29 de setembro de 2015 (151) mmsmarcos1953@hotmail.com<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-1198","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1198","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1198"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1198\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1198"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1198"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1198"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}