{"id":1218,"date":"2015-12-30T17:34:18","date_gmt":"2015-12-30T17:34:18","guid":{"rendered":"http:\/\/mapati.com.br\/blog\/?p=1218"},"modified":"2015-12-30T17:34:18","modified_gmt":"2015-12-30T17:34:18","slug":"memoriasmemorialistas-xxxii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/memoriasmemorialistas-xxxii\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3rias\/Memorialistas (XXXII)"},"content":{"rendered":"<p>Falei que iria evocar a velhota numa outra ocasi\u00e3o. Mentira. Foi eu sentir o aroma das flores e rapidamente me arrependi da protela\u00e7\u00e3o. A presen\u00e7a da av\u00f3 do Pedro Nava se adensara e n\u00e3o havia como ignorar sua experimentada presen\u00e7a no roseiral com mais de cem variedades, rosa guardi\u00e3o, rosa marnel, rosa palmeir\u00e3o, segundo nos conta o neto, at\u00e9 ent\u00e3o admirado.<em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>\u201c(&#8230;) Vi\u00e7avam em tufos, coberturas, cachos; brancas, do amarelado do marfim, ou do esverdeado das \u00e1guas l\u00edmpidas; brancas, compactas como o jaspe ou transl\u00facidas como as opalas; de cor amarela-clara e da de ouro-p\u00e1lido; vermelhas do escarlate do sangue arterial ou do rubro do sangue venoso; ou ainda, solferino, ou arroxeadas, ou quase negras; as vestidas de r\u00f3seo-vivo ou empalidecendo num r\u00f3seo-azulado, de asfixia. Fechadas em bot\u00f5es g\u00f3ticos, entrefechadas, entreabertas, abertas num giro amplo de p\u00e9talas barrocas.\u201d<\/em><\/span><\/p>\n<p>Rec\u00e9m-ingressamos na primavera, o que torna pertinente, oportuna e ilustrativa a descri\u00e7\u00e3o da flora. Sucede que n\u00e3o era essa a nossa vontade predominante. Onde o perfil da jardineira de presen\u00e7a noticiada bem na abertura desta postagem? A gente permanece sentindo o perfume das flores para, sem nos dar conta, assistir \u00e0s pinceladas do Nava iniciando o esbo\u00e7o da m\u00e3e da m\u00e3e dele.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>\u201cMinha av\u00f3 orgulhava-se da posse dessas obras-primas que rivalizam com outras perfei\u00e7\u00f5es da natureza como a laranja, o ovo, o diamante, o ouro, a pubesc\u00eancia. N\u00e3o admitia seus ramalhetes em jarro e s\u00f3 gostava de apreci\u00e1-las no p\u00e9 &#8211; exalando \u00e0 noite, orvalhadas na manh\u00e3, crestando ao sol, despetaladas ao vento. S\u00f3 excepcionalmente colhia uma para dar a visita (&#8230;) ou ia buscar entre seus espinhos as que serviam sua farmacop\u00e9ia dom\u00e9stica como a rosa-de-c\u00e3o ou silva-macha, a rosa-damascena, a rubra ou de Provins &#8211; com que ela e a Justina manipulavam col\u00edrios, laxantes, hemost\u00e1ticos, constipantes e o mel rosado caseiros.\u201d<\/em><\/span><\/p>\n<p>Se ainda n\u00e3o lhes foi poss\u00edvel ter a exata no\u00e7\u00e3o de quem era a mulher que se cansara das estrepulias do Major, passemos a tesoura nas flores, crime ecol\u00f3gico, e vamos nos alicer\u00e7ar nas frutas. Tudo indica que assim, dentro do pomar, nos seja permitido conhecer o julgamento que o menino fazia da av\u00f3, uma pessoinha boa se ressaltarmos sua virtude de n\u00e3o engaiolar as flores, criadas em total liberdade n\u00e3o fossem as ra\u00edzes que, como s\u00f3i, as prendiam ao solo da casa, uma ch\u00e1cara como nos informa o autor.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>\u201cEra sempre pela manh\u00e3 que minha av\u00f3 o \u00a0<\/em>(port\u00e3o)<em> abria e ia tratar das suas \u00e1rvores de fruta, pod\u00e1-las, arrancar-lhes as parasitas, livr\u00e1-las dos bichos, da erva-de-passarinho, dos fios-d\u2019ovos do cip\u00f3-chumbo. \u00c0s vezes, simplesmente para dar sua volta de silvana. Estou a v\u00ea-la de costas, coque meio descido sobre a nuca, a saia arrastando nas folhas secas, atarracada, r\u00e1pida, trocando passos l\u00e9pidos, dando com os bra\u00e7os, atenta a cada galho, a cada flor, a cada fruto. Arrancava aqui um ramo seco, desfolhava ali, sacudia mais adiante, colhia e ia pondo o que apanhava na saia de cima, dobrada como embornal. Eu trotinava atr\u00e1s. \u00c0s vezes, ela sentava num toco, numa pedra, num resto de muro, olhava as \u00e1rvores, ouvia os p\u00e1ssaros, fitava os raios de sol que a folhagem filtrava, desfiava e debulhava no ch\u00e3o como os punhados dum milho todo dourado, vivo e mais movedi\u00e7o que o azougue.\u201d<\/em><\/span><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em>Principio a escutar reclama\u00e7\u00f5es dos leitores e das leitoras deste <em>blog<\/em>. \u00a0Rodada boa parte da fita, ainda faltam seguros elementos para se enxergar a esposa at\u00e9 um certo tempo do Major, a Maria Luisa do roseiral. A miss\u00e3o, como se sabe, fica a cargo do memorialista, que, encoberto pela vegeta\u00e7\u00e3o c\u00famplice, enfim nos apresenta o retrato (impiedoso) de sua progenitora.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>\u201cComia das suas frutas, sem me oferecer. Minto; deu-me, uma vez, para provar, um caro\u00e7o de manga j\u00e1 chupado, quente e babujado por ela. Foi engulhado que aproveitei esse \u00fanico gesto am\u00e1vel que conheci de minha av\u00f3 materna. Jamais vi jardineiro, hortel\u00e3o ou capineiro cuidando de suas plantas. Ela \u00e9 que o fazia, com o bando das negrinhas e &#8211; sob a invoca\u00e7\u00e3o de Flora e Pomona &#8211; rebentavam flores e frutos de suas m\u00e3os. Semeava, mudava, transplantava, reentocava, enxertava, podava, estrumava, colhia. Sabia os meses, os signos, as esta\u00e7\u00f5es, os solst\u00edcios e as luas de cada vegetal. Germinal, floreal, frutidor, messidor&#8230;\u201d<\/em><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">25 de outubro de 2015<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">(158)<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><span style=\"color: #0000ff;\"><a style=\"color: #0000ff;\" href=\"mailto:mmsmarcos1953@hotmail.com\">mmsmarcos1953@hotmail.com<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Falei que iria evocar a velhota numa outra ocasi\u00e3o. Mentira. Foi eu sentir o aroma das flores e rapidamente me arrependi da protela\u00e7\u00e3o. A presen\u00e7a da av\u00f3 do Pedro Nava se adensara e n\u00e3o havia como ignorar sua experimentada presen\u00e7a no roseiral com mais de cem variedades, rosa guardi\u00e3o, rosa marnel, rosa palmeir\u00e3o, segundo nos conta o neto, at\u00e9 ent\u00e3o admirado.\u00a0 \u201c(&#8230;) Vi\u00e7avam em tufos, coberturas, cachos; brancas, do amarelado do marfim, ou do esverdeado das \u00e1guas l\u00edmpidas; brancas, compactas como o jaspe ou transl\u00facidas como as opalas; de cor amarela-clara e da de ouro-p\u00e1lido; vermelhas do escarlate do sangue arterial ou do rubro do sangue venoso; ou ainda, solferino, ou arroxeadas, ou quase negras; as vestidas de r\u00f3seo-vivo ou empalidecendo num r\u00f3seo-azulado, de asfixia. Fechadas em bot\u00f5es g\u00f3ticos, entrefechadas, entreabertas, abertas num giro amplo de p\u00e9talas barrocas.\u201d Rec\u00e9m-ingressamos na primavera, o que torna pertinente, oportuna e ilustrativa a descri\u00e7\u00e3o da flora. Sucede que n\u00e3o era essa a nossa vontade predominante. Onde o perfil da jardineira de presen\u00e7a noticiada bem na abertura desta postagem? A gente permanece sentindo o perfume das flores para, sem nos dar conta, assistir \u00e0s pinceladas do Nava iniciando o esbo\u00e7o da m\u00e3e da m\u00e3e dele. \u201cMinha av\u00f3 orgulhava-se da posse dessas obras-primas que rivalizam com outras perfei\u00e7\u00f5es da natureza como a laranja, o ovo, o diamante, o ouro, a pubesc\u00eancia. N\u00e3o admitia seus ramalhetes em jarro e s\u00f3 gostava de apreci\u00e1-las no p\u00e9 &#8211; exalando \u00e0 noite, orvalhadas na manh\u00e3, crestando ao sol, despetaladas ao vento. S\u00f3 excepcionalmente colhia uma para dar a visita (&#8230;) ou ia buscar entre seus espinhos as que serviam sua farmacop\u00e9ia dom\u00e9stica como a rosa-de-c\u00e3o ou silva-macha, a rosa-damascena, a rubra ou de Provins &#8211; com que ela e a Justina manipulavam col\u00edrios, laxantes, hemost\u00e1ticos, constipantes e o mel rosado caseiros.\u201d Se ainda n\u00e3o lhes foi poss\u00edvel ter a exata no\u00e7\u00e3o de quem era a mulher que se cansara das estrepulias do Major, passemos a tesoura nas flores, crime ecol\u00f3gico, e vamos nos alicer\u00e7ar nas frutas. Tudo indica que assim, dentro do pomar, nos seja permitido conhecer o julgamento que o menino fazia da av\u00f3, uma pessoinha boa se ressaltarmos sua virtude de n\u00e3o engaiolar as flores, criadas em total liberdade n\u00e3o fossem as ra\u00edzes que, como s\u00f3i, as prendiam ao solo da casa, uma ch\u00e1cara como nos informa o autor. \u201cEra sempre pela manh\u00e3 que minha av\u00f3 o \u00a0(port\u00e3o) abria e ia tratar das suas \u00e1rvores de fruta, pod\u00e1-las, arrancar-lhes as parasitas, livr\u00e1-las dos bichos, da erva-de-passarinho, dos fios-d\u2019ovos do cip\u00f3-chumbo. \u00c0s vezes, simplesmente para dar sua volta de silvana. Estou a v\u00ea-la de costas, coque meio descido sobre a nuca, a saia arrastando nas folhas secas, atarracada, r\u00e1pida, trocando passos l\u00e9pidos, dando com os bra\u00e7os, atenta a cada galho, a cada flor, a cada fruto. Arrancava aqui um ramo seco, desfolhava ali, sacudia mais adiante, colhia e ia pondo o que apanhava na saia de cima, dobrada como embornal. Eu trotinava atr\u00e1s. \u00c0s vezes, ela sentava num toco, numa pedra, num resto de muro, olhava as \u00e1rvores, ouvia os p\u00e1ssaros, fitava os raios de sol que a folhagem filtrava, desfiava e debulhava no ch\u00e3o como os punhados dum milho todo dourado, vivo e mais movedi\u00e7o que o azougue.\u201d \u00a0Principio a escutar reclama\u00e7\u00f5es dos leitores e das leitoras deste blog. \u00a0Rodada boa parte da fita, ainda faltam seguros elementos para se enxergar a esposa at\u00e9 um certo tempo do Major, a Maria Luisa do roseiral. A miss\u00e3o, como se sabe, fica a cargo do memorialista, que, encoberto pela vegeta\u00e7\u00e3o c\u00famplice, enfim nos apresenta o retrato (impiedoso) de sua progenitora. \u201cComia das suas frutas, sem me oferecer. Minto; deu-me, uma vez, para provar, um caro\u00e7o de manga j\u00e1 chupado, quente e babujado por ela. Foi engulhado que aproveitei esse \u00fanico gesto am\u00e1vel que conheci de minha av\u00f3 materna. Jamais vi jardineiro, hortel\u00e3o ou capineiro cuidando de suas plantas. Ela \u00e9 que o fazia, com o bando das negrinhas e &#8211; sob a invoca\u00e7\u00e3o de Flora e Pomona &#8211; rebentavam flores e frutos de suas m\u00e3os. Semeava, mudava, transplantava, reentocava, enxertava, podava, estrumava, colhia. Sabia os meses, os signos, as esta\u00e7\u00f5es, os solst\u00edcios e as luas de cada vegetal. Germinal, floreal, frutidor, messidor&#8230;\u201d &nbsp; 25 de outubro de 2015 (158) mmsmarcos1953@hotmail.com<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-1218","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1218","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1218"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1218\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1218"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1218"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1218"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}