{"id":1285,"date":"2016-01-15T17:35:46","date_gmt":"2016-01-15T17:35:46","guid":{"rendered":"http:\/\/mapati.com.br\/blog\/?p=1285"},"modified":"2016-01-15T17:35:46","modified_gmt":"2016-01-15T17:35:46","slug":"odaleia-noites-brasileiras-ii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/odaleia-noites-brasileiras-ii\/","title":{"rendered":"Odal\u00e9ia, Noites Brasileiras (II)"},"content":{"rendered":"<p>Das doses de pinguinha que bebi em dois copinhos de vidro grosso, caprichadas pelo dono do botequim (vasca\u00edno que nem eu) onde de conseguinte pude reaparecer e mostrar meus \u201cconhecimentos gerais\u201d, sobrou nada para o santo. Sorvi tudinho, n\u00e3o ficou uma gota sequer. Para o bem e para o mal, me embriaguei com as hist\u00f3rias de vida familiar e musical do Tim Maia e do Gonzag\u00e3o\/Gonzaguinha.<\/p>\n<p>Quanto a esse filho largado pelo pai no Morro de S\u00e3o Carlos no Rio de Janeiro (com um casal amigo, <em>\u201cdiz l\u00e1 pra Dina que eu volto\/que seu guri n\u00e3o fugiu\u201d<\/em>) e num internato em moldes su\u00ed\u00e7os na cidade fluminense de Miguel Pereira, praticamente o document\u00e1rio contempla apenas a vida em fam\u00edlia; o menino penou.<\/p>\n<p>No tocante (sem trocadilho) \u00e0 musical, o diretor limita-se a referi-la como trajet\u00f3ria de sucesso. \u00a0A qual, vale frisar, representou um b\u00e1lsamo pra gente durante certa fase da ditadura militar, m\u00e0xime na poeticamente subversiva \u201cComportamento geral\u201d, cantada no filme e que gera emblem\u00e1tica discuss\u00e3o entre pai e filho <em>(\u201cDeve pois s\u00f3 fazer pelo bem da Na\u00e7\u00e3o\/Tudo aquilo que for ordenado\/Pra ganhar um Fusc\u00e3o no ju\u00edzo final\/E diploma de bem comportado\u201d).<\/em><\/p>\n<p>Na tela (no meu caso, telinha), destaca-se uma personagem preciosa, retroanunciada e injustamente esquecida at\u00e9 nossos dias.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>Ai de quem quer negar esse mar de veneno<br \/>\nMil vezes maldito na inconsci\u00eancia das vidas \u00e0 margem<br \/>\nH\u00e1 de ser<br \/>\nMinha cantora esquecida das noites brasileiras<br \/>\nTe amo<br \/>\nCompositora esmagada dessa barras brasileiras<br \/>\nTe amo<\/em><\/span><em><br \/>\n<\/em><\/p>\n<p>Recordo que, na minha pr\u00e9-adolesc\u00eancia, meu pai, tido por p\u00e9 de valsa, falava muito do ambiente de sensualidade e certo exibicionismo dos <em>dancings <\/em>do Rio de Janeiro, esp\u00e9cie de cabar\u00e9 onde as mo\u00e7as contratadas da casa se distribu\u00edam estrategicamente no sal\u00e3o aguardando o chamamento que os rapazes (alguns j\u00e1 nem t\u00e3o rapazes assim) faziam para com elas formar par dan\u00e7ante. Erro se digo convite. Cuidava-se, isso sim, de relacionamento profissional desde que o pretendente ia ao guich\u00ea e comprava um cart\u00e3o (um pr\u00e9-pago <em>avant la lettre<\/em>) para se habilitar ao prazer da contradan\u00e7a. Aos amadores em todos os sentidos, indiv\u00edduos do dia, sol na cabe\u00e7a a arder os olhos, cabia curtir a tranquilidade sensaborona do lar.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>Minha hero\u00edna doente do peito<br \/>\nMinha menina da luta<br \/>\nminha morena catita<br \/>\nAh! minha preta<\/em><\/span><\/p>\n<p>Eu ouvia fascinado aqueles relatos, o que, sendo fidedigno, n\u00e3o durava muito tempo. S\u00fabito, vinha meu desconforto porque meu velho trazia a lume os graves problemas cl\u00ednicos sofridos n\u00e3o raro pelos bo\u00eamios que batiam ponto todas as noites e se aventuravam durante toda a madrugada nas boates, desbragadamente fumando, bebendo e dan\u00e7ando. Foi nessa ocasi\u00e3o que me dei conta da exist\u00eancia de uma palavra terrificante: hemoptise.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>Furando cart\u00e3o<br \/>\ncantando nos becos<br \/>\ntossindo nos cantos<br \/>\no len\u00e7o na boca, o sangue<br \/>\nA m\u00e3o na garganta<br \/>\na perna j\u00e1 bamba<br \/>\na for\u00e7a n\u00e3o tanta<br \/>\na vida t\u00e3o tonta<\/em><\/span><em><br \/>\n<\/em><\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Meu pai venceu uma tuberculose (ganglionar) mas Odaleia n\u00e3o teve a mesma sorte e sucumbiu conforme t\u00e3o sentidamente a Nanda interpretou no filme.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>Eis Odal\u00e9ia em busca de um sonho dourado<br \/>\nvai Odal\u00e9ia, del\u00edrio de um dia<br \/>\nL\u00e9ia, retrato guardado em meu quarto<br \/>\nMinha Dalva<br \/>\nMinha estrela guia<br \/>\nna fome de amor<br \/>\nna voz estancada<br \/>\nno ouro da lama<br \/>\nnos humildes enganos<br \/>\nsaiba Odal\u00e9ia pequena<br \/>\nTe ou\u00e7o<br \/>\nTe vivo<br \/>\nTe amo<\/em><\/span><\/p>\n<p>Depois de tanta tosse e expectora\u00e7\u00e3o, convido voc\u00eas, sem necessidade de furar cart\u00e3o, a se comover com esta m\u00fasica, para mim a mais bela do Gonzaguinha.<\/p>\n<p><iframe title=\"Gonzaguinha - Odal\u00e9a, Noites brasileiras\" width=\"960\" height=\"720\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/ccblJf0Wfkk?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">18 de janeiro de 2016<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">(166)<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><span style=\"color: #0000ff;\"><a style=\"color: #0000ff;\" href=\"mailto:mmsmarcos1953@hotmail.com\">mmsmarcos1953@hotmail.com<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Das doses de pinguinha que bebi em dois copinhos de vidro grosso, caprichadas pelo dono do botequim (vasca\u00edno que nem eu) onde de conseguinte pude reaparecer e mostrar meus \u201cconhecimentos gerais\u201d, sobrou nada para o santo. Sorvi tudinho, n\u00e3o ficou uma gota sequer. Para o bem e para o mal, me embriaguei com as hist\u00f3rias de vida familiar e musical do Tim Maia e do Gonzag\u00e3o\/Gonzaguinha. Quanto a esse filho largado pelo pai no Morro de S\u00e3o Carlos no Rio de Janeiro (com um casal amigo, \u201cdiz l\u00e1 pra Dina que eu volto\/que seu guri n\u00e3o fugiu\u201d) e num internato em moldes su\u00ed\u00e7os na cidade fluminense de Miguel Pereira, praticamente o document\u00e1rio contempla apenas a vida em fam\u00edlia; o menino penou. No tocante (sem trocadilho) \u00e0 musical, o diretor limita-se a referi-la como trajet\u00f3ria de sucesso. \u00a0A qual, vale frisar, representou um b\u00e1lsamo pra gente durante certa fase da ditadura militar, m\u00e0xime na poeticamente subversiva \u201cComportamento geral\u201d, cantada no filme e que gera emblem\u00e1tica discuss\u00e3o entre pai e filho (\u201cDeve pois s\u00f3 fazer pelo bem da Na\u00e7\u00e3o\/Tudo aquilo que for ordenado\/Pra ganhar um Fusc\u00e3o no ju\u00edzo final\/E diploma de bem comportado\u201d). Na tela (no meu caso, telinha), destaca-se uma personagem preciosa, retroanunciada e injustamente esquecida at\u00e9 nossos dias. Ai de quem quer negar esse mar de veneno Mil vezes maldito na inconsci\u00eancia das vidas \u00e0 margem H\u00e1 de ser Minha cantora esquecida das noites brasileiras Te amo Compositora esmagada dessa barras brasileiras Te amo Recordo que, na minha pr\u00e9-adolesc\u00eancia, meu pai, tido por p\u00e9 de valsa, falava muito do ambiente de sensualidade e certo exibicionismo dos dancings do Rio de Janeiro, esp\u00e9cie de cabar\u00e9 onde as mo\u00e7as contratadas da casa se distribu\u00edam estrategicamente no sal\u00e3o aguardando o chamamento que os rapazes (alguns j\u00e1 nem t\u00e3o rapazes assim) faziam para com elas formar par dan\u00e7ante. Erro se digo convite. Cuidava-se, isso sim, de relacionamento profissional desde que o pretendente ia ao guich\u00ea e comprava um cart\u00e3o (um pr\u00e9-pago avant la lettre) para se habilitar ao prazer da contradan\u00e7a. Aos amadores em todos os sentidos, indiv\u00edduos do dia, sol na cabe\u00e7a a arder os olhos, cabia curtir a tranquilidade sensaborona do lar. Minha hero\u00edna doente do peito Minha menina da luta minha morena catita Ah! minha preta Eu ouvia fascinado aqueles relatos, o que, sendo fidedigno, n\u00e3o durava muito tempo. S\u00fabito, vinha meu desconforto porque meu velho trazia a lume os graves problemas cl\u00ednicos sofridos n\u00e3o raro pelos bo\u00eamios que batiam ponto todas as noites e se aventuravam durante toda a madrugada nas boates, desbragadamente fumando, bebendo e dan\u00e7ando. Foi nessa ocasi\u00e3o que me dei conta da exist\u00eancia de uma palavra terrificante: hemoptise. Furando cart\u00e3o cantando nos becos tossindo nos cantos o len\u00e7o na boca, o sangue A m\u00e3o na garganta a perna j\u00e1 bamba a for\u00e7a n\u00e3o tanta a vida t\u00e3o tonta \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Meu pai venceu uma tuberculose (ganglionar) mas Odaleia n\u00e3o teve a mesma sorte e sucumbiu conforme t\u00e3o sentidamente a Nanda interpretou no filme. Eis Odal\u00e9ia em busca de um sonho dourado vai Odal\u00e9ia, del\u00edrio de um dia L\u00e9ia, retrato guardado em meu quarto Minha Dalva Minha estrela guia na fome de amor na voz estancada no ouro da lama nos humildes enganos saiba Odal\u00e9ia pequena Te ou\u00e7o Te vivo Te amo Depois de tanta tosse e expectora\u00e7\u00e3o, convido voc\u00eas, sem necessidade de furar cart\u00e3o, a se comover com esta m\u00fasica, para mim a mais bela do Gonzaguinha. 18 de janeiro de 2016 (166) mmsmarcos1953@hotmail.com<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-1285","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1285","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1285"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1285\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1285"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1285"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1285"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}