{"id":12869,"date":"2015-12-16T18:24:08","date_gmt":"2015-12-16T18:24:08","guid":{"rendered":"http:\/\/mapati.com.br\/blog\/?p=42"},"modified":"2015-12-16T18:24:08","modified_gmt":"2015-12-16T18:24:08","slug":"memoriasmemorialistas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/memoriasmemorialistas\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3rias\/Memorialistas"},"content":{"rendered":"<p>Recebi um est\u00edmulo da cr\u00f4nica escrita pela Clara Arreguy na \u00faltima Vejinha\/Cerrado, uma boa ideia de &#8220;regionaliza\u00e7\u00e3o&#8221; (da Vejona, saudades de quando era menos partid\u00e1ria). Nela, a jornalista registrou sua &#8220;Paix\u00e3o pelos livros&#8221;.<\/p>\n<p>Numa primeira mirada, poder\u00edamos critic\u00e1-la por expor vaidades, embora o <em>Livro de Eclesiastes<\/em> (obrigado, amigo Cunha) nos diga sabiamente que &#8220;tudo \u00e9 vaidade&#8221;, inclusive este\u00a0<em>blog<\/em><br \/>\nno qual me encaixei, sem nenhuma cerim\u00f4nia, vaidosamente.<\/p>\n<p>Vamos e venhamos, numa era em que alguns e algumas se gabam<br \/>\n(a nossa linguagem nos trai, revela nossa idade) de ter carros, lanchas, fazendas, joi\u00e1s, roupas car\u00edssimas, por que n\u00e3o o regozijo com os livros?<\/p>\n<p>No meu caso (ser\u00e1 que isso interessa a algu\u00e9m?), destacam-se da minha razo\u00e1vel lista os livros de mem\u00f3ria. Seguramente, \u00e9 coisa para mais<br \/>\nde cem, de autoria tanto de escritores quanto de escritoras. O Pedro Nava vai merecer coment\u00e1rios \u00e0 parte, em postagem mais l\u00e1 para frente &#8211; se porventura essas anota\u00e7\u00f5es ainda tiverem resistido \u00e0 saraivada<br \/>\ndos meus poucos e raivosos leitores e leitoras.<\/p>\n<p>Queria me referir ao Paulo Duarte, cujas mem\u00f3rias, se n\u00e3o me engano, foram dispostas em oito livros, dois a mais dos que eu li desse grande escritor (n\u00e3o d\u00e1 para escrever todo o curr\u00edculo do homem neste modesto espa\u00e7o) de S\u00e3o Paulo, um mestre da cena cultural brasileira durante<br \/>\nboa parte do s\u00e9culo passado.<\/p>\n<p>Para quem n\u00e3o d\u00e1 f\u00e9 a tais palavras, limito-me a dizer que suas mem\u00f3rias foram apresentadas por \u00c9rico Ver\u00edssimo, o que solou<br \/>\na clarineta poeticamente em dois tomos e agora novamente em voga com <em>O Tempo e o Vento <\/em>\u00a0na telona. Trago a lume quem hoje \u00e9 mais conhecido pela meninada como o pai do Luiz Fernando Ver\u00edssimo<br \/>\ne que assim discorrera sobre o colega paulista<br \/>\nem epis\u00f3dio dos anos 1950:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>&#8220;(&#8230;) N\u00e3o tenho muita paci\u00eancia com confer\u00eancias, nem mesmo<br \/>\n&#8211; ou especialmente &#8211; quando o conferecista sou eu. Paulo Duarte come\u00e7ou a falar, sentado a uma mesa, sobre pequeno estrado.<br \/>\nA voz era branda, clara, agrad\u00e1vel, os gestos naturais,<br \/>\no ar despretensioso. Dirigia-se\u00a0 a um audit\u00f3rio numeroso<br \/>\ne ecl\u00e9tico como se estivesse a conversar naturalmente com meia d\u00fazia\u00a0de amigos \u00edntimos ao redor duma mesa de caf\u00e9.<br \/>\nSua linguagem\u00a0era clara, precisa mas nunca preciosa.<br \/>\nN\u00e3o se comprazia\u00a0com essas tecnicalidades que em geral transformam certas disciplinas universit\u00e1rias<br \/>\nnuma esp\u00e9cie de seita secreta acess\u00edvel apenas aos iniciados.<br \/>\nPor outro lado, sua preocupa\u00e7\u00e3o\u00a0com divulgar conhecimentos sobre arqueologia e etnologia jamais\u00a0o levava \u00e0 vulgaridade. Surpreendi-me\u00a0t\u00e3o interessado na confer\u00eancia como se estivesse ouvindo a leitura duma novela policial. E, se pensarmos bem,<br \/>\nn\u00e3o ser\u00e1 o trabalho\u00a0do investigador da pr\u00e9-hist\u00f3ria um pouco como o do detetive,\u00a0isto \u00e9, dum Sherlock Holmes que com cacos de objetos dom\u00e9sticos de cer\u00e2mica, pedras lascadas ou polidas, armas e esqueletos humanos, consegue reconstituir a vida<br \/>\ne at\u00e9\u00a0os h\u00e1bitos de civiliza\u00e7\u00f5es h\u00e1 mil\u00eanios?<\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>&#8220;O auditorio escutava Paulo Duarte em tamanho sil\u00eancio,<br \/>\nque ele nem sequer precisava alterar a voz. Senti o interesse<br \/>\ndos ouvintes dum modo quase f\u00edsico, como algo que pudesse<br \/>\nser medido, pesado e apalpado. E aquela disserta\u00e7\u00e3o t\u00e3o rica<br \/>\nde ensinamentos e ao mesmo tempo t\u00e3o amena durou<br \/>\nuns sessenta minutos, segundo os rel\u00f3gios mas apenas<br \/>\nuns quinze ou vinte medidos pela minha mente,<br \/>\nsim, e pelo meu corpo.&#8221;<\/em><\/span><\/p>\n<p>Viram que estou falando de um intelectual palestrante que, n\u00e3o bastasse empolgar os alunos espectadores (muitos deles provavelmente futuros cientistas renomados), ainda contava na plateia com um tiete chamado \u00c9rico Ver\u00edssimo. Sem hesita\u00e7\u00f5es, isso merecer\u00e1 mais coment\u00e1rios<br \/>\ne refer\u00eancias.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px; text-align: right;\">28 de setembro de 2013<\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px; text-align: right;\">(009)<\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px; text-align: right;\"><span style=\"color: #0000ff;\"><a style=\"color: #0000ff;\" href=\"mailto:mmsmarcos1953@hotmail.com\">mmsmarcos1953@hotmail.com<\/a><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Recebi um est\u00edmulo da cr\u00f4nica escrita pela Clara Arreguy na \u00faltima Vejinha\/Cerrado, uma boa ideia de &#8220;regionaliza\u00e7\u00e3o&#8221; (da Vejona, saudades de quando era menos partid\u00e1ria). Nela, a jornalista registrou sua &#8220;Paix\u00e3o pelos livros&#8221;. Numa primeira mirada, poder\u00edamos critic\u00e1-la por expor vaidades, embora o Livro de Eclesiastes (obrigado, amigo Cunha) nos diga sabiamente que &#8220;tudo \u00e9 vaidade&#8221;, inclusive este\u00a0blog no qual me encaixei, sem nenhuma cerim\u00f4nia, vaidosamente. Vamos e venhamos, numa era em que alguns e algumas se gabam (a nossa linguagem nos trai, revela nossa idade) de ter carros, lanchas, fazendas, joi\u00e1s, roupas car\u00edssimas, por que n\u00e3o o regozijo com os livros? No meu caso (ser\u00e1 que isso interessa a algu\u00e9m?), destacam-se da minha razo\u00e1vel lista os livros de mem\u00f3ria. Seguramente, \u00e9 coisa para mais de cem, de autoria tanto de escritores quanto de escritoras. O Pedro Nava vai merecer coment\u00e1rios \u00e0 parte, em postagem mais l\u00e1 para frente &#8211; se porventura essas anota\u00e7\u00f5es ainda tiverem resistido \u00e0 saraivada dos meus poucos e raivosos leitores e leitoras. Queria me referir ao Paulo Duarte, cujas mem\u00f3rias, se n\u00e3o me engano, foram dispostas em oito livros, dois a mais dos que eu li desse grande escritor (n\u00e3o d\u00e1 para escrever todo o curr\u00edculo do homem neste modesto espa\u00e7o) de S\u00e3o Paulo, um mestre da cena cultural brasileira durante boa parte do s\u00e9culo passado. Para quem n\u00e3o d\u00e1 f\u00e9 a tais palavras, limito-me a dizer que suas mem\u00f3rias foram apresentadas por \u00c9rico Ver\u00edssimo, o que solou a clarineta poeticamente em dois tomos e agora novamente em voga com O Tempo e o Vento \u00a0na telona. Trago a lume quem hoje \u00e9 mais conhecido pela meninada como o pai do Luiz Fernando Ver\u00edssimo e que assim discorrera sobre o colega paulista em epis\u00f3dio dos anos 1950: &#8220;(&#8230;) N\u00e3o tenho muita paci\u00eancia com confer\u00eancias, nem mesmo &#8211; ou especialmente &#8211; quando o conferecista sou eu. Paulo Duarte come\u00e7ou a falar, sentado a uma mesa, sobre pequeno estrado. A voz era branda, clara, agrad\u00e1vel, os gestos naturais, o ar despretensioso. Dirigia-se\u00a0 a um audit\u00f3rio numeroso e ecl\u00e9tico como se estivesse a conversar naturalmente com meia d\u00fazia\u00a0de amigos \u00edntimos ao redor duma mesa de caf\u00e9. Sua linguagem\u00a0era clara, precisa mas nunca preciosa. N\u00e3o se comprazia\u00a0com essas tecnicalidades que em geral transformam certas disciplinas universit\u00e1rias numa esp\u00e9cie de seita secreta acess\u00edvel apenas aos iniciados. Por outro lado, sua preocupa\u00e7\u00e3o\u00a0com divulgar conhecimentos sobre arqueologia e etnologia jamais\u00a0o levava \u00e0 vulgaridade. Surpreendi-me\u00a0t\u00e3o interessado na confer\u00eancia como se estivesse ouvindo a leitura duma novela policial. E, se pensarmos bem, n\u00e3o ser\u00e1 o trabalho\u00a0do investigador da pr\u00e9-hist\u00f3ria um pouco como o do detetive,\u00a0isto \u00e9, dum Sherlock Holmes que com cacos de objetos dom\u00e9sticos de cer\u00e2mica, pedras lascadas ou polidas, armas e esqueletos humanos, consegue reconstituir a vida e at\u00e9\u00a0os h\u00e1bitos de civiliza\u00e7\u00f5es h\u00e1 mil\u00eanios? &#8220;O auditorio escutava Paulo Duarte em tamanho sil\u00eancio, que ele nem sequer precisava alterar a voz. Senti o interesse dos ouvintes dum modo quase f\u00edsico, como algo que pudesse ser medido, pesado e apalpado. E aquela disserta\u00e7\u00e3o t\u00e3o rica de ensinamentos e ao mesmo tempo t\u00e3o amena durou uns sessenta minutos, segundo os rel\u00f3gios mas apenas uns quinze ou vinte medidos pela minha mente, sim, e pelo meu corpo.&#8221; Viram que estou falando de um intelectual palestrante que, n\u00e3o bastasse empolgar os alunos espectadores (muitos deles provavelmente futuros cientistas renomados), ainda contava na plateia com um tiete chamado \u00c9rico Ver\u00edssimo. Sem hesita\u00e7\u00f5es, isso merecer\u00e1 mais coment\u00e1rios e refer\u00eancias. &nbsp; 28 de setembro de 2013 (009) mmsmarcos1953@hotmail.com &nbsp;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-12869","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12869","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12869"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12869\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12869"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12869"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12869"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}