{"id":12876,"date":"2015-12-18T15:57:52","date_gmt":"2015-12-18T15:57:52","guid":{"rendered":"http:\/\/mapati.com.br\/blog\/?p=96"},"modified":"2015-12-18T15:57:52","modified_gmt":"2015-12-18T15:57:52","slug":"viva-a-descortesia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/viva-a-descortesia\/","title":{"rendered":"Viva a descortesia"},"content":{"rendered":"<p>Publicado no Jornal de Bras\u00edlia, o artigo abaixo (t\u00edtulo \u201cViva<br \/>\na descortesia\u201d) foi escrito h\u00e1 quase dezoito anos e tudo ali deduzido<br \/>\n\u00e9 de inquestion\u00e1vel contemporaneidade. Vejam que lamentavelmente<br \/>\no quadro resta inalterado at\u00e9 hoje, n\u00e3o fosse o embarque de quase toda a turma de O Pasquim &#8211; dos citados, todos geniais, resistem neste plano os oitent\u00f5es Ziraldo, nascido na mineira Caratinga, vizinha da Carangola do meu pai, e Jaguar, morador de Bras\u00edlia por um tempo.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>\u201cH\u00e1 pessoas que desesperadamente reivindicam o esquecimento, sem saber que h\u00e1 necessidade de requerer, solicitar, pleitear. Por outro lado, existem aqueles cujo nome jamais deixamos<br \/>\nde invocar e que sempre devemos ter ao nosso lado. Querem<br \/>\num exemplo: Aur\u00e9lio.<\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>\u201cEm seu livr\u00e3o o mestre nos ensina que descortesia significa \u201ca\u00e7\u00e3o descort\u00eas; grosseria, indelicadeza\u201d. Essa a\u00e7\u00e3o<br \/>\n\u00e9 sistematicamente praticada por todos os que n\u00e3o sabem fazer mais nada do que pedir cortesia. \u00c9 cortesia, ingresso de cortesia, entrada gr\u00e1tis, convite, b\u00f4nus. N\u00e3o me refiro ao penetra, bic\u00e3o, safo, vaselina, pois esse, bruta perform\u00e1tico, tem verve, ginga, demonstradas no ato mesmo de pedir, esgueirar-se, introduzir-se, e que valem um ingresso, \u00e0s vezes at\u00e9 mais de um. Quero, sim, trazer \u00e0 cena o politizado, o militante, o remotamente egresso de Mau\u00e1, de Alto Para\u00edso, de Ouro Preto, o vanguarda,<br \/>\no contra-tudo-isso-que-est\u00e1-a\u00ed, melhor expressando,<br \/>\no indignado, que se revolta mais ainda quando n\u00e3o consegue assistir a qualquer espet\u00e1culo sem pagar nada, \u201cporque<br \/>\n\u00e9 um absurdo, eu sou amigo do cara do som; eu fiz o prim\u00e1rio com a assistente de dire\u00e7\u00e3o; uma vez, eu almocei com a atriz principal l\u00e1 em Cambori\u00fa&#8230;\u201d, e por a\u00ed vai. N\u00e3o se trata<br \/>\nde falta de recursos, n\u00e3o. Ou o papai tem, ou o bom emprego continua a lhe sorrir (apesar do avan\u00e7o tecnol\u00f3gico, da reforma administrativa\u00a0em marcha),\u00a0ou o socorro<br \/>\ndo(a) namorado(a) nunca falha.<\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>\u201cOcorre que esse suporte financeiro n\u00e3o \u00e9 utilizado para atender a despesas, digamos, culturais e art\u00edsticas, salvo se for para dar uma for\u00e7a \u00e0queles rapazes e mo\u00e7as globais que, cansados<br \/>\nde aparecer na televis\u00e3o, de segunda a s\u00e1bado, \u00e0s cinco, \u00e0s seis, \u00e0s sete ou \u00e0s oito e trinta da noite, deliberaram correr o pa\u00eds<br \/>\nno intuito de mostrar que sabem enrodilhar-se no palco<br \/>\nsem a malha de gin\u00e1stica pespegada de merchandising. A verba colhe utiliza\u00e7\u00e3o nas liba\u00e7\u00f5es alco\u00f3licas pelos bares da moda \u2013 locais onde n\u00e3o raro o nosso ilustre personagem desanca a pol\u00edtica governamental para a cultura e enfatiza o c\u00e9lebre descaso dos empres\u00e1rios -, bem assim na compra de roupinhas<br \/>\nde grife e nos bingos da vida. Queima uma notinha boa nessas incurs\u00f5es, por isso \u00e9 que n\u00e3o sobram cinco ou dez reais para despender no teatro.<\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>\u201cSaudades de outras patotas. Portanto, j\u00e1 que no in\u00edcio se falou sutilmente de lembran\u00e7as, busquemos nosso tempo perdido, aquele no qual alguns pegaram em armas, por convic\u00e7\u00e3o, deslumbramento, entusiasmo, porralouquice, ao passo<br \/>\nque outros, talvez mais sensatos, enveredaram pelas mais diversas formas de luta contra-tudo-aquilo-que-estava-aqui.<br \/>\nA luta por assim dizer se dava no plano cultural (pe\u00e7as, filmes, livros, exposi\u00e7\u00f5es), pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o, destacadamente a imprensa, mais destacadamente ainda o O Pasquim, do Jaguar, do Ziraldo, do Tarso de Castro, do Paulo Francis (ele mesmo, garotada), do Mill\u00f4r, do Henfil, do Ivan Lessa (autor da at\u00e9 ent\u00e3o c\u00e9lebre sacada: \u201cNa vida, tudo \u00e9 passageiro, menos o general,<br \/>\no almirante e o brigadeiro\u201d. Mister Lessa, eles tamb\u00e9m caem, principalmente o \u00faltimo), do Newton Carlos, dos leitores&#8230; Que turma! Nas fases, incont\u00e1veis, em que o hebdoman\u00e1rio entrava em crises de tiragem, era um tal de mudar de formato, chamar novos colaboradores (nunca um voc\u00e1bulo foi t\u00e3o apropriado, haja vista o que se pagava, ou n\u00e3o se pagava, pelos artigos),<br \/>\nmas o que sobressa\u00eda eram os leitores, carregando piano, brigando, imprecando, dando uma dimens\u00e3o num\u00e9rica que<br \/>\no jornaleco com efeito n\u00e3o tinha. Exortavam parente a fazer assinatura, puxavam uma que outra coluna e comentavam-na<br \/>\nem qualquer rodinha que se formasse, alguns chegando ao belo expediente de compra-lo a cada semana numa banca diferente para que os jornaleiros n\u00e3o desanimassem com o ratinho Sig.<\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><em><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\">\u201cPerdoem a digress\u00e3o e uma certa melancolia, o que n\u00e3o significa que nego o moderno. Para provar, em singela homenagem ao suor de todos os artistas, requeiro a pena de morte para todos os incentivos fiscais e um viva aos fiscais de incentivos,<br \/>\nque doravante n\u00e3o deixar\u00e3o ningu\u00e9m assistir a mais nada sem pagar ingressinho, ainda que o show seja um animado bate-boca numa das inacabadas esta\u00e7\u00f5es do metr\u00f4 de Bras\u00edlia; um suarento e barrigudo empurra-empurra de parlamentares n\u00e3o detect\u00e1vel pelos taqu\u00edgrafos; descabeladas e barulhentas (olha os vizinhos, meu Deus do c\u00e9u!) agress\u00f5es entre noras e sogras, maridos<br \/>\ne esposas, ex-maridos e ex-esposas; barbados e babados xingamentos em semin\u00e1rios de partidos de esquerda; arregalados e obl\u00edquos improp\u00e9rios em mesas-redondas de televis\u00e3o&#8230;<\/span><\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><em><br \/>\n<\/em><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>(Marcos Martins de Souza \u00e9 produtor teatral e diretor do Teatro Mapa\u2019ti)<\/em>.<\/span><em> \u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\">&#8211; Jornal de Bras\u00edlia \u2013 Caderno de Opini\u00e3o \u2013 Ter\u00e7a-feira, 7\/5\/96<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px; text-align: right;\">15 de novembro de 2013<\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px; text-align: right;\">(023)<\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px; text-align: right;\"><span style=\"color: #0000ff;\"><a style=\"color: #0000ff;\" href=\"mailto:mmsmarcos1953@hotmail.com\">mmsmarcos1953@hotmail.com<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Publicado no Jornal de Bras\u00edlia, o artigo abaixo (t\u00edtulo \u201cViva a descortesia\u201d) foi escrito h\u00e1 quase dezoito anos e tudo ali deduzido \u00e9 de inquestion\u00e1vel contemporaneidade. Vejam que lamentavelmente o quadro resta inalterado at\u00e9 hoje, n\u00e3o fosse o embarque de quase toda a turma de O Pasquim &#8211; dos citados, todos geniais, resistem neste plano os oitent\u00f5es Ziraldo, nascido na mineira Caratinga, vizinha da Carangola do meu pai, e Jaguar, morador de Bras\u00edlia por um tempo. \u201cH\u00e1 pessoas que desesperadamente reivindicam o esquecimento, sem saber que h\u00e1 necessidade de requerer, solicitar, pleitear. Por outro lado, existem aqueles cujo nome jamais deixamos de invocar e que sempre devemos ter ao nosso lado. Querem um exemplo: Aur\u00e9lio. \u201cEm seu livr\u00e3o o mestre nos ensina que descortesia significa \u201ca\u00e7\u00e3o descort\u00eas; grosseria, indelicadeza\u201d. Essa a\u00e7\u00e3o \u00e9 sistematicamente praticada por todos os que n\u00e3o sabem fazer mais nada do que pedir cortesia. \u00c9 cortesia, ingresso de cortesia, entrada gr\u00e1tis, convite, b\u00f4nus. N\u00e3o me refiro ao penetra, bic\u00e3o, safo, vaselina, pois esse, bruta perform\u00e1tico, tem verve, ginga, demonstradas no ato mesmo de pedir, esgueirar-se, introduzir-se, e que valem um ingresso, \u00e0s vezes at\u00e9 mais de um. Quero, sim, trazer \u00e0 cena o politizado, o militante, o remotamente egresso de Mau\u00e1, de Alto Para\u00edso, de Ouro Preto, o vanguarda, o contra-tudo-isso-que-est\u00e1-a\u00ed, melhor expressando, o indignado, que se revolta mais ainda quando n\u00e3o consegue assistir a qualquer espet\u00e1culo sem pagar nada, \u201cporque \u00e9 um absurdo, eu sou amigo do cara do som; eu fiz o prim\u00e1rio com a assistente de dire\u00e7\u00e3o; uma vez, eu almocei com a atriz principal l\u00e1 em Cambori\u00fa&#8230;\u201d, e por a\u00ed vai. N\u00e3o se trata de falta de recursos, n\u00e3o. Ou o papai tem, ou o bom emprego continua a lhe sorrir (apesar do avan\u00e7o tecnol\u00f3gico, da reforma administrativa\u00a0em marcha),\u00a0ou o socorro do(a) namorado(a) nunca falha. \u201cOcorre que esse suporte financeiro n\u00e3o \u00e9 utilizado para atender a despesas, digamos, culturais e art\u00edsticas, salvo se for para dar uma for\u00e7a \u00e0queles rapazes e mo\u00e7as globais que, cansados de aparecer na televis\u00e3o, de segunda a s\u00e1bado, \u00e0s cinco, \u00e0s seis, \u00e0s sete ou \u00e0s oito e trinta da noite, deliberaram correr o pa\u00eds no intuito de mostrar que sabem enrodilhar-se no palco sem a malha de gin\u00e1stica pespegada de merchandising. A verba colhe utiliza\u00e7\u00e3o nas liba\u00e7\u00f5es alco\u00f3licas pelos bares da moda \u2013 locais onde n\u00e3o raro o nosso ilustre personagem desanca a pol\u00edtica governamental para a cultura e enfatiza o c\u00e9lebre descaso dos empres\u00e1rios -, bem assim na compra de roupinhas de grife e nos bingos da vida. Queima uma notinha boa nessas incurs\u00f5es, por isso \u00e9 que n\u00e3o sobram cinco ou dez reais para despender no teatro. \u201cSaudades de outras patotas. Portanto, j\u00e1 que no in\u00edcio se falou sutilmente de lembran\u00e7as, busquemos nosso tempo perdido, aquele no qual alguns pegaram em armas, por convic\u00e7\u00e3o, deslumbramento, entusiasmo, porralouquice, ao passo que outros, talvez mais sensatos, enveredaram pelas mais diversas formas de luta contra-tudo-aquilo-que-estava-aqui. A luta por assim dizer se dava no plano cultural (pe\u00e7as, filmes, livros, exposi\u00e7\u00f5es), pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o, destacadamente a imprensa, mais destacadamente ainda o O Pasquim, do Jaguar, do Ziraldo, do Tarso de Castro, do Paulo Francis (ele mesmo, garotada), do Mill\u00f4r, do Henfil, do Ivan Lessa (autor da at\u00e9 ent\u00e3o c\u00e9lebre sacada: \u201cNa vida, tudo \u00e9 passageiro, menos o general, o almirante e o brigadeiro\u201d. Mister Lessa, eles tamb\u00e9m caem, principalmente o \u00faltimo), do Newton Carlos, dos leitores&#8230; Que turma! Nas fases, incont\u00e1veis, em que o hebdoman\u00e1rio entrava em crises de tiragem, era um tal de mudar de formato, chamar novos colaboradores (nunca um voc\u00e1bulo foi t\u00e3o apropriado, haja vista o que se pagava, ou n\u00e3o se pagava, pelos artigos), mas o que sobressa\u00eda eram os leitores, carregando piano, brigando, imprecando, dando uma dimens\u00e3o num\u00e9rica que o jornaleco com efeito n\u00e3o tinha. Exortavam parente a fazer assinatura, puxavam uma que outra coluna e comentavam-na em qualquer rodinha que se formasse, alguns chegando ao belo expediente de compra-lo a cada semana numa banca diferente para que os jornaleiros n\u00e3o desanimassem com o ratinho Sig. \u201cPerdoem a digress\u00e3o e uma certa melancolia, o que n\u00e3o significa que nego o moderno. Para provar, em singela homenagem ao suor de todos os artistas, requeiro a pena de morte para todos os incentivos fiscais e um viva aos fiscais de incentivos, que doravante n\u00e3o deixar\u00e3o ningu\u00e9m assistir a mais nada sem pagar ingressinho, ainda que o show seja um animado bate-boca numa das inacabadas esta\u00e7\u00f5es do metr\u00f4 de Bras\u00edlia; um suarento e barrigudo empurra-empurra de parlamentares n\u00e3o detect\u00e1vel pelos taqu\u00edgrafos; descabeladas e barulhentas (olha os vizinhos, meu Deus do c\u00e9u!) agress\u00f5es entre noras e sogras, maridos e esposas, ex-maridos e ex-esposas; barbados e babados xingamentos em semin\u00e1rios de partidos de esquerda; arregalados e obl\u00edquos improp\u00e9rios em mesas-redondas de televis\u00e3o&#8230; (Marcos Martins de Souza \u00e9 produtor teatral e diretor do Teatro Mapa\u2019ti). \u201d &#8211; Jornal de Bras\u00edlia \u2013 Caderno de Opini\u00e3o \u2013 Ter\u00e7a-feira, 7\/5\/96 &nbsp; 15 de novembro de 2013 (023) mmsmarcos1953@hotmail.com<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-12876","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12876","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12876"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12876\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12876"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12876"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12876"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}