{"id":12877,"date":"2015-12-18T16:03:01","date_gmt":"2015-12-18T16:03:01","guid":{"rendered":"http:\/\/mapati.com.br\/blog\/?p=98"},"modified":"2015-12-18T16:03:01","modified_gmt":"2015-12-18T16:03:01","slug":"arte-sobre-rodas-v","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/arte-sobre-rodas-v\/","title":{"rendered":"Arte sobre rodas (V)"},"content":{"rendered":"<p>No epis\u00f3dio que passo a narrar, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas sobrepairando como<br \/>\nde outras vezes, o munic\u00edpio era Campos Belos, l\u00e1 no nordeste do (preciso me acostumar com esse &#8220;do&#8221;) Goi\u00e1s, proximidades da divisa com o estado de Tocantins, que, antes do desmembramento, amalgamado, era terra do pequi.<\/p>\n<p>Execut\u00e1vamos um grande contrato no bojo do Pronac\/Lei Rouanet<br \/>\n(a bem da verdade, nunca cobramos um centavo de ingresso do p\u00fablico), parceiros na empreitada de uma empresa de telefonia celular provinda da pen\u00ednsula ib\u00e9rica e tornada grande aqui no Brasil tamb\u00e9m<br \/>\npor consequ\u00eancia de incorpora\u00e7\u00f5es e fus\u00f5es v\u00e1rias, num processo reverso ao do que ocorrera no territ\u00f3rio goiano original.<\/p>\n<p>A praxe consistia em que, ao chegar \u00e0 cidade, escolhida geralmente<br \/>\nde comum acordo entre patrocinadora e patrocinada, o(a) representante da companhia nos procurava para articular, no local, a encena\u00e7\u00e3o<br \/>\nda pe\u00e7a com as promo\u00e7\u00f5es de vendas de linhas telef\u00f4nicas<br \/>\ne difus\u00e3o da marca.<\/p>\n<p>O ano, provavelmente 2005, feira agropecu\u00e1ria, ambiente pouco afeito<br \/>\na apresenta\u00e7\u00f5es teatrais pelo vozerio misturado dos locutores in\u00fameros e dispers\u00e3o das pessoas de chap\u00e9us, botas e cintur\u00f5es embaladas pela m\u00fasica sertaneja. O homem que nos recebera para os preparativos andava (mais para frente, ele vai cambalear) pelos 50\/60 anos de idade<br \/>\ne era propriet\u00e1rio de duas lojas de comercializa\u00e7\u00e3o de telefones<br \/>\nna localidade. Enquanto nossa equipe (inclusive o carregador que <em>vos<\/em> \u00a0fala) ia montando o caminh\u00e3o-palco do Mapati no dia anterior<br \/>\nao da abertura das festividades, o cicerone sorvia repetidas, generosas doses de <em>scotch<\/em> do bom, r\u00f3tulo preto. (De notar que n\u00e3o poucas regi\u00f5es do interior do Brasil eram endinheiradas havia tempos, hoje mais ainda, e os intelectuais dos centros urbanos demoraram muito a perceber isso).<\/p>\n<p>Na minha fun\u00e7\u00e3o de estiva, eu era interrompido pelo empres\u00e1rio para <em>convers\u00ea<\/em>\u00a0ora curioso, ora enfadonho e cansativo. Depois de uma tr\u00eas horas (per\u00edodo de resist\u00eancia de nosso her\u00f3i), a voz dele come\u00e7ava<br \/>\na ficar pastosa. O u\u00edsque, \u00a0<em>cachorro engarrafado, melhor amigo<br \/>\ndo homem\u00a0<\/em>segundo Vinicius de Moraes, empolgava em todas as acep\u00e7\u00f5es<br \/>\ndo termo aquele ser j\u00e1 um pouco tr\u00f4pego que, mesmo assim, n\u00e3o tirava os olhos da Tereza (os que t\u00eam mulher bonita ficam com os b\u00f4nus<br \/>\ne os \u00f4nus do desfrute). Essa atitude do pingu\u00e7o emergente pelos ouros<br \/>\ne an\u00e9is e submergente pelo malte escoc\u00eas foi-me irritando <em>dum tanto,<br \/>\nruim demais, gente<\/em>&#8230; (vejam meu linguajar goiano\/mineiro a\u00ed).<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/2017.mapati.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/FIG11post24.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-99 aligncenter\" src=\"http:\/\/2017.mapati.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/FIG11post24.jpg\" alt=\"FIG11post24\" width=\"369\" height=\"246\" \/><\/a><\/p>\n<p>Mas o melhor, ou o pior, estava por vir.<\/p>\n<p>Utiliza-se a parte de cima do caminh\u00e3o como recurso c\u00eanico. Em muitas pe\u00e7as teatrais nossas, \u00e9 o lugar onde atores, atrizes, cantores e cantoras fazem suas brejeirices e sapequices (os dois termos evocam musicais<br \/>\ndo cinema nacional de s\u00e9culos idos), verdadeiro cercadinho de beb\u00eas coalhado de bons profissionais. Pois era (e ainda \u00e9, o Mapati pontifica vivinho da silva) ali, na grade levantada \u00e0 guisa de parapeito, que nosso personagem cogitou de esticar uma faixa com propagandas<br \/>\nda companhia da qual era preposto.<\/p>\n<p>N\u00e3o, essa n\u00e3o, nem morta!<\/p>\n<p>De que maneira poder\u00edamos admitir aquele v\u00e9u publicit\u00e1rio afixado<br \/>\nde ponta a ponta toldando a plena encena\u00e7\u00e3o da turma exaustivamente ensaiada? Como sonegar ao p\u00fablico l\u00e1 embaixo, no espet\u00e1culo do dia seguinte, a vis\u00e3o dos p\u00e9s, das pernas e da barriga daqueles agitados perform\u00e1ticos atr\u00e1s da mureta gradeada? Discuss\u00e3o, p\u00f5e-a-faixa\/n\u00e3o-p\u00f5e-a-faixa,\u00a0 carteiradas de lado a lado, contendores aguerridos e o motorista travestido de paladino da excel\u00eancia do fazer art\u00edstico<br \/>\n&#8211; &#8220;At\u00e9 hoje, o Mapati nunca fez isso&#8221;; &#8220;\u00c9 important\u00edssimo dar aos atores<br \/>\ne atrizes reais condi\u00e7\u00f5es de mostrar seu trabalho&#8221;; &#8220;N\u00e3o se deve desprezar o p\u00fablico&#8221;; &#8220;Teatro \u00e9 uma arte elaborada&#8221;;<br \/>\n&#8220;Prestigiemos a cultura&#8221;.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/2017.mapati.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/FIG12post24.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-100\" src=\"http:\/\/2017.mapati.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/FIG12post24.jpg\" alt=\"FIG12post24\" width=\"590\" height=\"442\" \/><\/a><\/p>\n<p>Foi nesse momento da perora\u00e7\u00e3o do montador do ve\u00edculo e <em>chauffeur<\/em> (assim diziam meu pai e minha av\u00f3, por muitos anos aluna do Col\u00e9gio Sion) que o liquefeito preposto da empresa &#8220;X&#8221; (vamos escolher outra letra porque essa ficou complicada &#8211; &#8220;Y&#8221;, por exemplo), deslembrado<br \/>\nda longa parceria comercial e das boas regras de hospitalidade, berrou furibundo ap\u00f3s constatar que a faixa iria ficar por todo o sempre enroladinha, enroladinha, como realmente ficou :<\/p>\n<p>&#8220;O neg\u00f3cio da &#8216;Y&#8217; \u00e9 vender celulares, a cultura que se ph\u00f4da.&#8221;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px; text-align: right;\">17 de novembro de 2015<\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px; text-align: right;\">(024)<\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px; text-align: right;\"><span style=\"color: #0000ff;\"><a style=\"color: #0000ff;\" href=\"mailto:mmsmarcos1953@hotmail.com\">mmsmarcos1953@hotmail.com<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No epis\u00f3dio que passo a narrar, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas sobrepairando como de outras vezes, o munic\u00edpio era Campos Belos, l\u00e1 no nordeste do (preciso me acostumar com esse &#8220;do&#8221;) Goi\u00e1s, proximidades da divisa com o estado de Tocantins, que, antes do desmembramento, amalgamado, era terra do pequi. Execut\u00e1vamos um grande contrato no bojo do Pronac\/Lei Rouanet (a bem da verdade, nunca cobramos um centavo de ingresso do p\u00fablico), parceiros na empreitada de uma empresa de telefonia celular provinda da pen\u00ednsula ib\u00e9rica e tornada grande aqui no Brasil tamb\u00e9m por consequ\u00eancia de incorpora\u00e7\u00f5es e fus\u00f5es v\u00e1rias, num processo reverso ao do que ocorrera no territ\u00f3rio goiano original. A praxe consistia em que, ao chegar \u00e0 cidade, escolhida geralmente de comum acordo entre patrocinadora e patrocinada, o(a) representante da companhia nos procurava para articular, no local, a encena\u00e7\u00e3o da pe\u00e7a com as promo\u00e7\u00f5es de vendas de linhas telef\u00f4nicas e difus\u00e3o da marca. O ano, provavelmente 2005, feira agropecu\u00e1ria, ambiente pouco afeito a apresenta\u00e7\u00f5es teatrais pelo vozerio misturado dos locutores in\u00fameros e dispers\u00e3o das pessoas de chap\u00e9us, botas e cintur\u00f5es embaladas pela m\u00fasica sertaneja. O homem que nos recebera para os preparativos andava (mais para frente, ele vai cambalear) pelos 50\/60 anos de idade e era propriet\u00e1rio de duas lojas de comercializa\u00e7\u00e3o de telefones na localidade. Enquanto nossa equipe (inclusive o carregador que vos \u00a0fala) ia montando o caminh\u00e3o-palco do Mapati no dia anterior ao da abertura das festividades, o cicerone sorvia repetidas, generosas doses de scotch do bom, r\u00f3tulo preto. (De notar que n\u00e3o poucas regi\u00f5es do interior do Brasil eram endinheiradas havia tempos, hoje mais ainda, e os intelectuais dos centros urbanos demoraram muito a perceber isso). Na minha fun\u00e7\u00e3o de estiva, eu era interrompido pelo empres\u00e1rio para convers\u00ea\u00a0ora curioso, ora enfadonho e cansativo. Depois de uma tr\u00eas horas (per\u00edodo de resist\u00eancia de nosso her\u00f3i), a voz dele come\u00e7ava a ficar pastosa. O u\u00edsque, \u00a0cachorro engarrafado, melhor amigo do homem\u00a0segundo Vinicius de Moraes, empolgava em todas as acep\u00e7\u00f5es do termo aquele ser j\u00e1 um pouco tr\u00f4pego que, mesmo assim, n\u00e3o tirava os olhos da Tereza (os que t\u00eam mulher bonita ficam com os b\u00f4nus e os \u00f4nus do desfrute). Essa atitude do pingu\u00e7o emergente pelos ouros e an\u00e9is e submergente pelo malte escoc\u00eas foi-me irritando dum tanto, ruim demais, gente&#8230; (vejam meu linguajar goiano\/mineiro a\u00ed). Mas o melhor, ou o pior, estava por vir. Utiliza-se a parte de cima do caminh\u00e3o como recurso c\u00eanico. Em muitas pe\u00e7as teatrais nossas, \u00e9 o lugar onde atores, atrizes, cantores e cantoras fazem suas brejeirices e sapequices (os dois termos evocam musicais do cinema nacional de s\u00e9culos idos), verdadeiro cercadinho de beb\u00eas coalhado de bons profissionais. Pois era (e ainda \u00e9, o Mapati pontifica vivinho da silva) ali, na grade levantada \u00e0 guisa de parapeito, que nosso personagem cogitou de esticar uma faixa com propagandas da companhia da qual era preposto. N\u00e3o, essa n\u00e3o, nem morta! De que maneira poder\u00edamos admitir aquele v\u00e9u publicit\u00e1rio afixado de ponta a ponta toldando a plena encena\u00e7\u00e3o da turma exaustivamente ensaiada? Como sonegar ao p\u00fablico l\u00e1 embaixo, no espet\u00e1culo do dia seguinte, a vis\u00e3o dos p\u00e9s, das pernas e da barriga daqueles agitados perform\u00e1ticos atr\u00e1s da mureta gradeada? Discuss\u00e3o, p\u00f5e-a-faixa\/n\u00e3o-p\u00f5e-a-faixa,\u00a0 carteiradas de lado a lado, contendores aguerridos e o motorista travestido de paladino da excel\u00eancia do fazer art\u00edstico &#8211; &#8220;At\u00e9 hoje, o Mapati nunca fez isso&#8221;; &#8220;\u00c9 important\u00edssimo dar aos atores e atrizes reais condi\u00e7\u00f5es de mostrar seu trabalho&#8221;; &#8220;N\u00e3o se deve desprezar o p\u00fablico&#8221;; &#8220;Teatro \u00e9 uma arte elaborada&#8221;; &#8220;Prestigiemos a cultura&#8221;. Foi nesse momento da perora\u00e7\u00e3o do montador do ve\u00edculo e chauffeur (assim diziam meu pai e minha av\u00f3, por muitos anos aluna do Col\u00e9gio Sion) que o liquefeito preposto da empresa &#8220;X&#8221; (vamos escolher outra letra porque essa ficou complicada &#8211; &#8220;Y&#8221;, por exemplo), deslembrado da longa parceria comercial e das boas regras de hospitalidade, berrou furibundo ap\u00f3s constatar que a faixa iria ficar por todo o sempre enroladinha, enroladinha, como realmente ficou : &#8220;O neg\u00f3cio da &#8216;Y&#8217; \u00e9 vender celulares, a cultura que se ph\u00f4da.&#8221; &nbsp; 17 de novembro de 2015 (024) mmsmarcos1953@hotmail.com<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-12877","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12877","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12877"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12877\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12877"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12877"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12877"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}