{"id":12878,"date":"2015-12-18T16:10:05","date_gmt":"2015-12-18T16:10:05","guid":{"rendered":"http:\/\/mapati.com.br\/blog\/?p=102"},"modified":"2015-12-18T16:10:05","modified_gmt":"2015-12-18T16:10:05","slug":"meu-velha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/meu-velha\/","title":{"rendered":"Meu Velha"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>&#8220;Voc\u00ea vai perder seu homem quando ele tiver 30 anos.&#8221;<\/em><\/span><\/p>\n<p>Idos de 1980. Viagem de f\u00e9rias em Olinda, cidade pernambucana<br \/>\ndo carnaval de fortes ra\u00edzes e maravilhoso. Tereza ouviu a apavorante profecia de uma quiromante que exalava convic\u00e7\u00e3o. Nada no rosto<br \/>\nde pergaminho daquela mulher de maus bofes, dona do futuro, trazia preocupa\u00e7\u00f5es com o quadro psicol\u00f3gico de sua quase revel cliente<br \/>\nem face do aug\u00fario. O fato \u00e9 que a turista de Bras\u00edlia ficou l\u00edvida<br \/>\npela revela\u00e7\u00e3o de que o desenho das linhas de suas m\u00e3os significava<br \/>\no fim pr\u00f3ximo do pai de suas duas filhas, uma vida (a partir dali, sobrevida) que s\u00f3 duraria curt\u00edssimos tr\u00eas anos.<\/p>\n<p>Em 1982, um ano antes do desenlace anunciado pelo or\u00e1culo<br \/>\ne um ano depois do nascimento do ca\u00e7ulinha, o casal de cariocas volta<br \/>\n\u00e0 terra natal, <em>avec les<\/em> tr\u00eas filhos candangos (acho &#8220;brasiliense&#8221; gent\u00edlico preconceituoso e segregador), para estada de seis meses.<\/p>\n<p>Fomos morar em S\u00e3o Conrado, pr\u00f3ximo \u00e0 Praia do Pepino, que entrava na moda salpicada com as pioneiras asas deltas, mas n\u00e3o dispens\u00e1vamos, aos domingos, a praia do Leblon.<\/p>\n<p>Mitificado pelo noveleiro Manoel Carlos e mistificado pelos pensantes,<br \/>\no bairro outrora de classe m\u00e9dia nos atra\u00eda por ser o local onde meus pais haviam morado, na Ataulfo de Paiva, e onde os pais da Tereza residiam, na Afr\u00e2nio de Melo Franco, endere\u00e7o do Scala, do Paisandu,<br \/>\nda Cruzada, pr\u00e9dios extremamente simples idealizados pelo saudoso Dom Helder C\u00e2mara e para os quais a burguesia e a turma da especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria da Cidade Maravilhosa dirigiam r\u00fatilos olhares j\u00e1 os imaginando implodidos rapidinho, sem choro nem vela.<\/p>\n<p>Ah, ia me esquecendo: essa importante avenida do hoje luxuoso<br \/>\ne inacess\u00edvel Leblon desemboca no Clube do Flamengo (\u00e9 dif\u00edcil declinar o nome do time das minhas tr\u00eas netas), num terreno imenso, formado em boa parte por aluvi\u00e3o. Ali\u00e1s, o termo n\u00e3o \u00e9 adequado, uma vez<br \/>\nque o aterramento n\u00e3o tinha nada de natural, \u00e9 o que comentavam<br \/>\nas m\u00e1s l\u00ednguas, talvez com algum fundamento porquanto,<br \/>\nnos jogos de futebol do campo oficial, as bolas chutadas para fora ca\u00edam nas margens da Lagoa Rodrigo de Freitas, ali pertinho, nas imedia\u00e7\u00f5es, depois foram se deslocando at\u00e9 o est\u00e1dio de remo.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/2017.mapati.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/FIG12post24.png\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-103\" src=\"http:\/\/2017.mapati.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/FIG12post24.png\" alt=\"FIG12post24\" width=\"369\" height=\"552\" srcset=\"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/FIG12post24.png 369w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/FIG12post24-201x300.png 201w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/FIG12post24-200x299.png 200w\" sizes=\"(max-width: 369px) 100vw, 369px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Desde aquela \u00e9poca e em dias n\u00e3o \u00fateis, a Delfim Moreira era bloqueada sentido Leblon\/Ipanema, destinando-se a via do lado da praia ao lazer<br \/>\nda popula\u00e7\u00e3o. Encontr\u00e1vamo-nos os cinco meio espalhados, cada um curtindo \u00e0 sua maneira o dia de sol (\u201co Rio de Janeiro continua lindo,<br \/>\no Rio de Janeiro continua sendo&#8230;\u201d), quando resolvo me sentar<br \/>\nna cal\u00e7ada que divide as duas pistas. Passados alguns minutos de minha contempla\u00e7\u00e3o, olho \u00e0 direita e vejo um carro sa\u00eddo da Niemeyer<br \/>\nou do Canal avan\u00e7ando pela rua interditada, em velocidade cada vez maior. Assustadas com aquela invas\u00e3o do espa\u00e7o que se supunha tranquilo e seguro, as pessoas na rua havia pouco tranquila corriam para a margem mais pr\u00f3xima de modo a se proteger<br \/>\ndo inevit\u00e1vel atropelamento.<\/p>\n<p>Menos meu filho, que estava no cal\u00e7ad\u00e3o da praia e principiava<br \/>\na travessia da rua em dire\u00e7\u00e3o ao pai-coruja, no passinho<br \/>\nde crian\u00e7a de um ano e meio de idade, balan\u00e7ar de pinguim. Num \u00e1timo, o que antes era brincadeira e relaxamento virou exatamente o horror de que falava o coronel Kurtz. Seja porque n\u00e3o daria tempo, seja porque a essa altura eu estava transido e inerte como se diante de um felino selvagem, restou-me a expectativa da trag\u00e9dia iminente e inevit\u00e1vel.<br \/>\nO ve\u00edculo passou e cad\u00ea coragem para olhar o que tinha acontecido.<\/p>\n<p>Logo que pude dar por mim, vi a carinha dele de assustado com o fino que o carro tirou.<\/p>\n<p>Em 1983&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px; text-align: right;\">20 de novembro de 2013<\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px; text-align: right;\">(025)<\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px; text-align: right;\"><span style=\"color: #0000ff;\"><a style=\"color: #0000ff;\" href=\"mailto:mmsmarcos1953@hotmail.com\">mmsmarcos1953@hotmail.com<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Voc\u00ea vai perder seu homem quando ele tiver 30 anos.&#8221; Idos de 1980. 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Fomos morar em S\u00e3o Conrado, pr\u00f3ximo \u00e0 Praia do Pepino, que entrava na moda salpicada com as pioneiras asas deltas, mas n\u00e3o dispens\u00e1vamos, aos domingos, a praia do Leblon. Mitificado pelo noveleiro Manoel Carlos e mistificado pelos pensantes, o bairro outrora de classe m\u00e9dia nos atra\u00eda por ser o local onde meus pais haviam morado, na Ataulfo de Paiva, e onde os pais da Tereza residiam, na Afr\u00e2nio de Melo Franco, endere\u00e7o do Scala, do Paisandu, da Cruzada, pr\u00e9dios extremamente simples idealizados pelo saudoso Dom Helder C\u00e2mara e para os quais a burguesia e a turma da especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria da Cidade Maravilhosa dirigiam r\u00fatilos olhares j\u00e1 os imaginando implodidos rapidinho, sem choro nem vela. Ah, ia me esquecendo: essa importante avenida do hoje luxuoso e inacess\u00edvel Leblon desemboca no Clube do Flamengo (\u00e9 dif\u00edcil declinar o nome do time das minhas tr\u00eas netas), num terreno imenso, formado em boa parte por aluvi\u00e3o. Ali\u00e1s, o termo n\u00e3o \u00e9 adequado, uma vez que o aterramento n\u00e3o tinha nada de natural, \u00e9 o que comentavam as m\u00e1s l\u00ednguas, talvez com algum fundamento porquanto, nos jogos de futebol do campo oficial, as bolas chutadas para fora ca\u00edam nas margens da Lagoa Rodrigo de Freitas, ali pertinho, nas imedia\u00e7\u00f5es, depois foram se deslocando at\u00e9 o est\u00e1dio de remo. Desde aquela \u00e9poca e em dias n\u00e3o \u00fateis, a Delfim Moreira era bloqueada sentido Leblon\/Ipanema, destinando-se a via do lado da praia ao lazer da popula\u00e7\u00e3o. Encontr\u00e1vamo-nos os cinco meio espalhados, cada um curtindo \u00e0 sua maneira o dia de sol (\u201co Rio de Janeiro continua lindo, o Rio de Janeiro continua sendo&#8230;\u201d), quando resolvo me sentar na cal\u00e7ada que divide as duas pistas. Passados alguns minutos de minha contempla\u00e7\u00e3o, olho \u00e0 direita e vejo um carro sa\u00eddo da Niemeyer ou do Canal avan\u00e7ando pela rua interditada, em velocidade cada vez maior. Assustadas com aquela invas\u00e3o do espa\u00e7o que se supunha tranquilo e seguro, as pessoas na rua havia pouco tranquila corriam para a margem mais pr\u00f3xima de modo a se proteger do inevit\u00e1vel atropelamento. Menos meu filho, que estava no cal\u00e7ad\u00e3o da praia e principiava a travessia da rua em dire\u00e7\u00e3o ao pai-coruja, no passinho de crian\u00e7a de um ano e meio de idade, balan\u00e7ar de pinguim. Num \u00e1timo, o que antes era brincadeira e relaxamento virou exatamente o horror de que falava o coronel Kurtz. 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