{"id":12880,"date":"2015-12-18T17:03:09","date_gmt":"2015-12-18T17:03:09","guid":{"rendered":"http:\/\/mapati.com.br\/blog\/?p=114"},"modified":"2015-12-18T17:03:09","modified_gmt":"2015-12-18T17:03:09","slug":"meu-velha-iv","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/meu-velha-iv\/","title":{"rendered":"Meu Velha (IV)"},"content":{"rendered":"<p>Sem for\u00e7a para escrever, socorro-me de Afonso Arinos de Melo Franco,<br \/>\na respeito de quem deverei falar muito doravante, em item pr\u00f3prio, inaugurado nos prim\u00f3rdios destas anota\u00e7\u00f5es com o Paulo Duarte, seguido do Pedro Nava, aos quais desejo ajuntar outros da mesma estirpe. \u00c9 do grande homem das Minas Gerais, nascido em Belo Horizonte, integrante de fam\u00edlia oriunda de Paracatu e t\u00e3o significativa da Hist\u00f3ria do Brasil, que recolho, mantendo \u00edntegra a ortografia da \u00e9poca, as palavras lavradas no segundo volume de suas mem\u00f3rias (&#8220;A Escalada&#8221;), em epis\u00f3dio de av\u00f4 (pai ao quadrado) que perdera neto<br \/>\nde idade tenra:.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><em><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\">&#8220;(&#8230;) A morte tr\u00e1gica de Virgilinho explica em parte o desg\u00f4sto pela escrita, mesmo pela leitura; mas n\u00e3o o justifica totalmente. Esta emo\u00e7\u00e3o dorida que, semana ap\u00f3s semana, arrasta<br \/>\nna torrente da minha imagina\u00e7\u00e3o o corpinho inerte do menino morto. Meu pensamento \u00e9 como um rio que traz, sempre, para dento de mim, o vulto de Virgilinho morto s\u00f4bre as \u00e1guas. (&#8230;).<br \/>\nA morte do pobrezinho chegou-me de ch\u00f4fre, (&#8230;), pelo telefone (&#8230;) Virgilinho f\u00f4ra fulminado por um choque el\u00e9trico dentro<br \/>\nda piscina, em casa de Maria do Carmo. O raio de sol de abril<br \/>\nse engolfara, na treva, no mist\u00e9rio.<\/span><\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><em><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\">&#8220;\u00cale era o mais velho, era meu afilhado. Sua admir\u00e1vel intelig\u00eancia, sua exaltada sensibilidade, seus lindos olhos tristes<br \/>\ne confiantes&#8230; A aten\u00e7\u00e3o rigorosa com que, sentado no meu joelho, ouvia incans\u00e0velmente as mesmas hist\u00f3rias que eu lhe contava, retificando os pontos em que a repeti\u00e7\u00e3o n\u00e3o era exata. Sua voz rouca, de tanto que \u00eale falava; seu riso luminoso, suas m\u00e3ozinhas sempre abertas aos contacto solid\u00e1rio com as coisas,<br \/>\nos bichos; as plantas; o mundo. A esperan\u00e7a &#8211; n\u00e3o, a certeza &#8211; de que sobre \u00eale viria pousar, tranq\u00fcilo, o olhar das velhas sombras ausentes. E a obsess\u00e3o do que \u00eale n\u00e3o chegou a saber, do que \u00eale n\u00e3o viveu e que d\u00e1 g\u00f4sto \u00e0 vida? (&#8230;) Seu corpinho fr\u00e1gil b\u00f3ia, como uma flor, s\u00f4bre as \u00e1guas claras da mem\u00f3ria. Mas ele ficou plantado, florindo dentro de mim. Seus irm\u00e3os crescer\u00e3o, ser\u00e3o mais velhos do que \u00eale, ficar\u00e3o adultos. Para \u00eales Virgilinho ser\u00e1 uma sombra t\u00eanue de inf\u00e2ncia, um daqueles retratinhos tristes<br \/>\nde crian\u00e7a morta, com roupas antiquadas, que eu via em menino, nas largas molduras de veludo. Mas, dentro de mim, enquanto eu viver, \u00eale ficar\u00e1 boiando s\u00f4bre as \u00e1guas, e eu o tirarei do tempo interno uma vida intacta que \u00eale viver\u00e1. Dentro de mim \u00eale viver\u00e1 sem recuos, sem receios, seguindo a linha clara e copiosa. \u00cale ser\u00e1 o mais velho, sempre, e ir\u00e1 crescendo e vivendo<br \/>\ne desabrochando dentro de mim,<br \/>\ne vendo as formas do mundo, e entendendo as coisas belas<br \/>\nque n\u00e3o viu, ou n\u00e3o p\u00f4de entender, trazendo com sua intelig\u00eancia, que fui dos poucos a conhecer, a palavra exata para a esperan\u00e7a dos que sofrem e a imagem reveladora para o g\u00f4sto dos que sentem; e compreender\u00e1 a dor dos humildes e a revolta dos abandonados; e amar\u00e1 a mais pura e a mais bela e por ela ser\u00e1 amado; e sofrer\u00e1 tamb\u00e9m, porque estar\u00e1 vivo e n\u00e3o morto;<br \/>\ne existir\u00e1 intocado do mal at\u00e9 que eu morra; e ent\u00e3o morrer\u00e1 comigo, dentro de mim, e iremos juntos de m\u00e3os dadas, ele pequenino de n\u00f4vo; iremos juntos e \u00eale, com sua vozinha rouca, me contar\u00e1 as hist\u00f3rias que eu lhe contava e me levar\u00e1 pela m\u00e3o, s\u00f4bre as \u00e1guas, ao encontro de Jesus.&#8221;<\/span><\/em><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/2017.mapati.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/FIG16post28.png\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-123\" src=\"http:\/\/2017.mapati.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/FIG16post28.png\" alt=\"FIG16post28\" width=\"368\" height=\"555\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px; text-align: right;\">24 de novembro de 2013<\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px; text-align: right;\">(028)<\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px; text-align: right;\"><span style=\"color: #0000ff;\"><a style=\"color: #0000ff;\" href=\"mailto:mmsmarcos1953@hotmail.com.br\">mmsmarcos1953@hotmail.com.br<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sem for\u00e7a para escrever, socorro-me de Afonso Arinos de Melo Franco, a respeito de quem deverei falar muito doravante, em item pr\u00f3prio, inaugurado nos prim\u00f3rdios destas anota\u00e7\u00f5es com o Paulo Duarte, seguido do Pedro Nava, aos quais desejo ajuntar outros da mesma estirpe. \u00c9 do grande homem das Minas Gerais, nascido em Belo Horizonte, integrante de fam\u00edlia oriunda de Paracatu e t\u00e3o significativa da Hist\u00f3ria do Brasil, que recolho, mantendo \u00edntegra a ortografia da \u00e9poca, as palavras lavradas no segundo volume de suas mem\u00f3rias (&#8220;A Escalada&#8221;), em epis\u00f3dio de av\u00f4 (pai ao quadrado) que perdera neto de idade tenra:. &#8220;(&#8230;) A morte tr\u00e1gica de Virgilinho explica em parte o desg\u00f4sto pela escrita, mesmo pela leitura; mas n\u00e3o o justifica totalmente. Esta emo\u00e7\u00e3o dorida que, semana ap\u00f3s semana, arrasta na torrente da minha imagina\u00e7\u00e3o o corpinho inerte do menino morto. Meu pensamento \u00e9 como um rio que traz, sempre, para dento de mim, o vulto de Virgilinho morto s\u00f4bre as \u00e1guas. (&#8230;). A morte do pobrezinho chegou-me de ch\u00f4fre, (&#8230;), pelo telefone (&#8230;) Virgilinho f\u00f4ra fulminado por um choque el\u00e9trico dentro da piscina, em casa de Maria do Carmo. O raio de sol de abril se engolfara, na treva, no mist\u00e9rio. &#8220;\u00cale era o mais velho, era meu afilhado. Sua admir\u00e1vel intelig\u00eancia, sua exaltada sensibilidade, seus lindos olhos tristes e confiantes&#8230; A aten\u00e7\u00e3o rigorosa com que, sentado no meu joelho, ouvia incans\u00e0velmente as mesmas hist\u00f3rias que eu lhe contava, retificando os pontos em que a repeti\u00e7\u00e3o n\u00e3o era exata. Sua voz rouca, de tanto que \u00eale falava; seu riso luminoso, suas m\u00e3ozinhas sempre abertas aos contacto solid\u00e1rio com as coisas, os bichos; as plantas; o mundo. A esperan\u00e7a &#8211; n\u00e3o, a certeza &#8211; de que sobre \u00eale viria pousar, tranq\u00fcilo, o olhar das velhas sombras ausentes. E a obsess\u00e3o do que \u00eale n\u00e3o chegou a saber, do que \u00eale n\u00e3o viveu e que d\u00e1 g\u00f4sto \u00e0 vida? (&#8230;) Seu corpinho fr\u00e1gil b\u00f3ia, como uma flor, s\u00f4bre as \u00e1guas claras da mem\u00f3ria. Mas ele ficou plantado, florindo dentro de mim. Seus irm\u00e3os crescer\u00e3o, ser\u00e3o mais velhos do que \u00eale, ficar\u00e3o adultos. Para \u00eales Virgilinho ser\u00e1 uma sombra t\u00eanue de inf\u00e2ncia, um daqueles retratinhos tristes de crian\u00e7a morta, com roupas antiquadas, que eu via em menino, nas largas molduras de veludo. Mas, dentro de mim, enquanto eu viver, \u00eale ficar\u00e1 boiando s\u00f4bre as \u00e1guas, e eu o tirarei do tempo interno uma vida intacta que \u00eale viver\u00e1. Dentro de mim \u00eale viver\u00e1 sem recuos, sem receios, seguindo a linha clara e copiosa. \u00cale ser\u00e1 o mais velho, sempre, e ir\u00e1 crescendo e vivendo e desabrochando dentro de mim, e vendo as formas do mundo, e entendendo as coisas belas que n\u00e3o viu, ou n\u00e3o p\u00f4de entender, trazendo com sua intelig\u00eancia, que fui dos poucos a conhecer, a palavra exata para a esperan\u00e7a dos que sofrem e a imagem reveladora para o g\u00f4sto dos que sentem; e compreender\u00e1 a dor dos humildes e a revolta dos abandonados; e amar\u00e1 a mais pura e a mais bela e por ela ser\u00e1 amado; e sofrer\u00e1 tamb\u00e9m, porque estar\u00e1 vivo e n\u00e3o morto; e existir\u00e1 intocado do mal at\u00e9 que eu morra; e ent\u00e3o morrer\u00e1 comigo, dentro de mim, e iremos juntos de m\u00e3os dadas, ele pequenino de n\u00f4vo; iremos juntos e \u00eale, com sua vozinha rouca, me contar\u00e1 as hist\u00f3rias que eu lhe contava e me levar\u00e1 pela m\u00e3o, s\u00f4bre as \u00e1guas, ao encontro de Jesus.&#8221; &nbsp; 24 de novembro de 2013 (028) mmsmarcos1953@hotmail.com.br<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-12880","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12880","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12880"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12880\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12880"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12880"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12880"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}