{"id":12890,"date":"2015-12-21T21:35:21","date_gmt":"2015-12-21T21:35:21","guid":{"rendered":"http:\/\/mapati.com.br\/blog\/?p=544"},"modified":"2015-12-21T21:35:21","modified_gmt":"2015-12-21T21:35:21","slug":"lady-darbanville-iii-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/lady-darbanville-iii-2\/","title":{"rendered":"Lady D\u2019Arbanville (III)"},"content":{"rendered":"<p>Barulho de sirene, zum de besouro um im\u00e3 (obrigado, Djavan). A ambul\u00e2ncia entra na quadra cantando pneus \u2013 prudentemente(?), o marido fizera o pedido do socorro m\u00e9dico antes do buzina\u00e7o na portaria que interrompera meu namoro. Supervisionados pelo m\u00e9dico e pelos param\u00e9dicos, os maqueiros conduzem a deusa exangue para o interior do ve\u00edculo que vemos por a\u00ed avan\u00e7ando os sinais de tr\u00e2nsito para salvamento de algu\u00e9m. A verdade verdadeira \u00e9 que nunca nos imaginamos l\u00e1 dentro; n\u00f3s, os imortais, sempre achamos e acharemos que o carro branco de cruz vermelha foi feito para os outros.<\/p>\n<p>Sem a moment\u00e2nea e inc\u00f4moda companhia do vizinho \u2013 que se consumia prorrompendo em choro (abandono? remorso? os dois?), sentado num daqueles g\u00e9lidos, torturantes bancos de hospital -, eu me via p\u00e9ssimo na madrugada de transtornos, errando pelos longos corredores de paredes descascadas do pronto-socorro. Minha torcida era para que o rel\u00f3gio voasse e o comunicado verbal ou boletim da equipe de branco nos tranquilizasse, a paciente apresentava sinais de recupera\u00e7\u00e3o importantes (a macaquice brasileira n\u00e3o larga essa palavra usada \u00e0 exaust\u00e3o pelos acad\u00eamicos norteamericanos).<\/p>\n<p>No retorno ao meu trabalho, creio que tr\u00eas dias ap\u00f3s a trag\u00e9dia, meus colegas correm ansiosos para mim. Perguntam-me por que e como a mo\u00e7a se jogara da janela do meu apartamento, consoante informavam os jornais. Liberdade de imprensa absoluta, biografias sempre livres para evitarmos o vitup\u00e9rio, mas n\u00e3o devemos, n\u00e3o podemos editar os fatos e erigir vers\u00e3o descolada da verdade material. N\u00e3o, n\u00e3o fora daquela maneira, da altura mais baixa. O salto para a eternidade acontecera na janela de outro apartamento, muito mais alto, do nosso pr\u00e9dio. Mor\u00e1vamos no segundo andar (ap. 204) da segunda prumada; o casal que se desaviera residia mais pr\u00f3ximo do terra\u00e7o, exatamente no quinto andar de outra portaria, a primeira.<\/p>\n<p>J\u00e1 inscrito na OAB, com alguma no\u00e7\u00e3o das linhas do Direito, eu intu\u00eda que meu depoimento, seja na pol\u00edcia, seja no ju\u00edzo competente, poderia demarcar o destino daquele infeliz. D\u00favida na alma: como temperar minha fala e meu registro sobre o encontro dos quatro convivas no tangente \u00e0 determinante, ou n\u00e3o (obrigado a quem inspirou o Caetano Veloso), dissid\u00eancia do casal de arte a que o Estado n\u00e3o absolvesse um culpado ou condenasse um inocente?<\/p>\n<p>Sem carregar nas tintas nem descarregar nas tintas, reportei ao delegado a briga conjugal, ele j\u00e1 de posse do laudo do perito consignando, inclusive, os arranh\u00f5es e riscos no parapeito, resultado dos movimentos da v\u00edtima que se debatera, ou na empresa de se jogar l\u00e1 de cima malgrado o impotente apelo do marido para que ela n\u00e3o se suicidasse (vers\u00e3o dele), ou na tentativa (v\u00e3) de lutar contra o mais poderoso, o homicida que com ela coabitara antes, muito antes da Lei Maria da Penha e quando parte da sociedade brasileira coonestava crimes passionais em nome da honra.<\/p>\n<p>Nunca me intimaram para depor na Justi\u00e7a, se \u00e9 que os procedimentos evolu\u00edram para l\u00e1. At\u00e9 hoje, ignoro o desfecho nem me interessei por sab\u00ea-lo.<\/p>\n<figure id=\"attachment_332\" aria-describedby=\"caption-attachment-332\" style=\"width: 468px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/2017.mapati.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/FIG36post44.jpg\" rel=\"attachment wp-att-332\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-332\" src=\"http:\/\/2017.mapati.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/FIG36post44.jpg\" alt=\"http:\/\/www.deviantart.com\/art\/Day-2-Sleeping-Beauty-196268543 - by Beautiful-Nightmaree\" width=\"468\" height=\"414\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-332\" class=\"wp-caption-text\"><span style=\"font-size: 8pt;\">http:\/\/www.deviantart.com\/art\/Day-2-Sleeping-Beauty-196268543 &#8211; by Beautiful-Nightmaree<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: center;\">\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\">Dama d\u2019Arbanville<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\">Minha Dama d\u2019Arbanville,<\/span><\/em><br \/>\n<em><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\">por que voc\u00ea dorme t\u00e3o im\u00f3vel?<\/span><\/em><br \/>\n<em><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\">Eu te acordarei amanh\u00e3<\/span><\/em><br \/>\n<em><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\">E voc\u00ea ser\u00e1 meu tudo, sim, voc\u00ea ser\u00e1 meu tudo.<\/span><\/em><br \/>\n<em><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\">Minha Dama d\u2019Arbanville, por que isso d\u00f3i tanto?<\/span><\/em><br \/>\n<em><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\">Mas seu cora\u00e7\u00e3o parece t\u00e3o silencioso.<\/span><\/em><br \/>\n<em><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\">Por que voc\u00ea respira t\u00e3o baixo, por que voc\u00ea respira t\u00e3o baixo?<\/span><\/em><br \/>\n<em><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\">Minha Dama d\u2019Arbanville,<\/span><\/em><br \/>\n<em><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\">voc\u00ea parece t\u00e3o fria esta noite.<\/span><\/em><br \/>\n<em><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\">Seus l\u00e1bios parecem o inverno,<\/span><\/em><br \/>\n<em><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\">Sua pele ficou branca, sua pele ficou branca..<\/span><\/em><br \/>\n<em><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\">Eu te amei, minha dama,<\/span><\/em><br \/>\n<em><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\">mas em seu t\u00famulo voc\u00ea descansa,<\/span><\/em><br \/>\n<em><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\">Eu sempre estarei com voc\u00ea<\/span><\/em><br \/>\n<em><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\">Essa rosa nunca vai morrer, essa rosa nunca vai morrer.<\/span><\/em><\/p>\n<p>Obrigado, Cat Stevens.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">09 de fevereiro de 2014<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">(046)<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><span style=\"text-decoration: underline;\"><span style=\"color: #0000ff; text-decoration: underline;\">mmsmarcos1953@hotmail..com<\/span><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Barulho de sirene, zum de besouro um im\u00e3 (obrigado, Djavan). A ambul\u00e2ncia entra na quadra cantando pneus \u2013 prudentemente(?), o marido fizera o pedido do socorro m\u00e9dico antes do buzina\u00e7o na portaria que interrompera meu namoro. Supervisionados pelo m\u00e9dico e pelos param\u00e9dicos, os maqueiros conduzem a deusa exangue para o interior do ve\u00edculo que vemos por a\u00ed avan\u00e7ando os sinais de tr\u00e2nsito para salvamento de algu\u00e9m. A verdade verdadeira \u00e9 que nunca nos imaginamos l\u00e1 dentro; n\u00f3s, os imortais, sempre achamos e acharemos que o carro branco de cruz vermelha foi feito para os outros. Sem a moment\u00e2nea e inc\u00f4moda companhia do vizinho \u2013 que se consumia prorrompendo em choro (abandono? remorso? os dois?), sentado num daqueles g\u00e9lidos, torturantes bancos de hospital -, eu me via p\u00e9ssimo na madrugada de transtornos, errando pelos longos corredores de paredes descascadas do pronto-socorro. Minha torcida era para que o rel\u00f3gio voasse e o comunicado verbal ou boletim da equipe de branco nos tranquilizasse, a paciente apresentava sinais de recupera\u00e7\u00e3o importantes (a macaquice brasileira n\u00e3o larga essa palavra usada \u00e0 exaust\u00e3o pelos acad\u00eamicos norteamericanos). No retorno ao meu trabalho, creio que tr\u00eas dias ap\u00f3s a trag\u00e9dia, meus colegas correm ansiosos para mim. Perguntam-me por que e como a mo\u00e7a se jogara da janela do meu apartamento, consoante informavam os jornais. Liberdade de imprensa absoluta, biografias sempre livres para evitarmos o vitup\u00e9rio, mas n\u00e3o devemos, n\u00e3o podemos editar os fatos e erigir vers\u00e3o descolada da verdade material. N\u00e3o, n\u00e3o fora daquela maneira, da altura mais baixa. O salto para a eternidade acontecera na janela de outro apartamento, muito mais alto, do nosso pr\u00e9dio. Mor\u00e1vamos no segundo andar (ap. 204) da segunda prumada; o casal que se desaviera residia mais pr\u00f3ximo do terra\u00e7o, exatamente no quinto andar de outra portaria, a primeira. J\u00e1 inscrito na OAB, com alguma no\u00e7\u00e3o das linhas do Direito, eu intu\u00eda que meu depoimento, seja na pol\u00edcia, seja no ju\u00edzo competente, poderia demarcar o destino daquele infeliz. D\u00favida na alma: como temperar minha fala e meu registro sobre o encontro dos quatro convivas no tangente \u00e0 determinante, ou n\u00e3o (obrigado a quem inspirou o Caetano Veloso), dissid\u00eancia do casal de arte a que o Estado n\u00e3o absolvesse um culpado ou condenasse um inocente? Sem carregar nas tintas nem descarregar nas tintas, reportei ao delegado a briga conjugal, ele j\u00e1 de posse do laudo do perito consignando, inclusive, os arranh\u00f5es e riscos no parapeito, resultado dos movimentos da v\u00edtima que se debatera, ou na empresa de se jogar l\u00e1 de cima malgrado o impotente apelo do marido para que ela n\u00e3o se suicidasse (vers\u00e3o dele), ou na tentativa (v\u00e3) de lutar contra o mais poderoso, o homicida que com ela coabitara antes, muito antes da Lei Maria da Penha e quando parte da sociedade brasileira coonestava crimes passionais em nome da honra. Nunca me intimaram para depor na Justi\u00e7a, se \u00e9 que os procedimentos evolu\u00edram para l\u00e1. At\u00e9 hoje, ignoro o desfecho nem me interessei por sab\u00ea-lo. Dama d\u2019Arbanville Minha Dama d\u2019Arbanville, por que voc\u00ea dorme t\u00e3o im\u00f3vel? Eu te acordarei amanh\u00e3 E voc\u00ea ser\u00e1 meu tudo, sim, voc\u00ea ser\u00e1 meu tudo. Minha Dama d\u2019Arbanville, por que isso d\u00f3i tanto? Mas seu cora\u00e7\u00e3o parece t\u00e3o silencioso. Por que voc\u00ea respira t\u00e3o baixo, por que voc\u00ea respira t\u00e3o baixo? Minha Dama d\u2019Arbanville, voc\u00ea parece t\u00e3o fria esta noite. Seus l\u00e1bios parecem o inverno, Sua pele ficou branca, sua pele ficou branca.. Eu te amei, minha dama, mas em seu t\u00famulo voc\u00ea descansa, Eu sempre estarei com voc\u00ea Essa rosa nunca vai morrer, essa rosa nunca vai morrer. Obrigado, Cat Stevens. &nbsp; 09 de fevereiro de 2014 (046) mmsmarcos1953@hotmail..com<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-12890","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12890","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12890"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12890\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12890"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12890"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12890"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}