{"id":12900,"date":"2015-12-22T01:51:19","date_gmt":"2015-12-22T01:51:19","guid":{"rendered":"http:\/\/mapati.com.br\/blog\/?p=702"},"modified":"2015-12-22T01:51:19","modified_gmt":"2015-12-22T01:51:19","slug":"tiradentes-iv-4","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/tiradentes-iv-4\/","title":{"rendered":"Tiradentes (IV)"},"content":{"rendered":"<p>Era normal que ela se apresentasse. Ap\u00f3s eu ter acordado mais de uma vez, dif\u00edcil seria retomar tranquilamente o sono na medida em que n\u00e3o se reingressa na atmosfera sem trancos e barrancos. O inacredit\u00e1vel \u00e9 que, mesmo com a ins\u00f4nia olhando para mim, refestelada no mesmo travesseiro que o meu, deixando-me s\u00f3 a beiradinha, eu voltava a dar sinais de sonol\u00eancia, as p\u00e1lpebras recome\u00e7avam a pesar, logo, logo estaria dormindo&#8230; dormindo. Eu merecia. Afinal de contas, eu me encontrava trabalhando, mas em gozo de f\u00e9rias. Quer dizer, eu estava em f\u00e9rias, mas trabalhando (obrigado, Domenico de Masi).<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/2017.mapati.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/tiradentes7.jpg\" rel=\"attachment wp-att-700\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-full wp-image-700\" src=\"http:\/\/2017.mapati.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/tiradentes7.jpg\" alt=\"tiradentes7\" width=\"750\" height=\"500\" \/><\/a><\/p>\n<p>Esse barulho deveras me agitou e fez aflorar tr\u00eas epis\u00f3dios de medo que jaziam no rec\u00f4ndito da minha mente. O primeiro deles, quando, nos anos 60, \u00edamos com alguma frequ\u00eancia a Ibicu\u00ed, bel\u00edssimo local de veraneio, distrito de Mangaratiba. Fic\u00e1vamos, os bic\u00f5es petizes, os membros do n\u00facleo homeless da fam\u00edlia, hospedados na casa dos av\u00f3s do Claudio, meu primo. N\u00f3s dois, da mesma idade, ele inteligent\u00edssimo, \u00e9ramos pr\u00f3ximos um do outro na inf\u00e2ncia mas a vida jogou um para cada lado: eu, para o Bacen, em Bras\u00edlia; ele, para a Petrobras, no Rio de Janeiro, capital do estado onde situado o balne\u00e1rio acima referido.<\/p>\n<p>Necess\u00e1rio atravessar a linha do trem para dar com os costados (sem trocadilho) no peda\u00e7o de praia em frente, &#8220;propriedade exclusiva nossa&#8221; j\u00e1 que n\u00e3o possuia nem trinta metros de testada e os vizinhos eram poucos (o iate clube ficava \u00e0 esquerda de quem estivesse na areia olhando para o mar, em outro trecho, de acesso dif\u00edcil pela mata e mais ainda pela \u00e1gua).<\/p>\n<figure id=\"attachment_703\" aria-describedby=\"caption-attachment-703\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/2017.mapati.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/tiradentes6.jpg\" rel=\"attachment wp-att-703\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-703\" src=\"http:\/\/2017.mapati.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/tiradentes6.jpg\" alt=\"http:\/\/www.tripmondo.com\/brazil\/rio-de-janeiro\/ibicui\/\" width=\"500\" height=\"375\" srcset=\"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/tiradentes6.jpg 500w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/tiradentes6-300x225.jpg 300w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/tiradentes6-200x150.jpg 200w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/tiradentes6-400x300.jpg 400w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-703\" class=\"wp-caption-text\"><span style=\"font-size: 8pt;\">http:\/\/www.tripmondo.com\/brazil\/rio-de-janeiro\/ibicui\/<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>\u00c0queles meninos e meninas na faixa et\u00e1ria de nove a doze anos, interessava chegar jazinho ao pequeno para\u00edso mar\u00edtimo &#8211; n\u00e3o sem antes da viv\u00eancia do p\u00e2nico, do masoquismo deliberado. Os adultos (eram loucos? irrespons\u00e1veis?) permitiam que aqueles capit\u00e3es de areia (obrigado, Jorge Amado) pequenos burgueses descessem sozinhos a trilha (a casa ficava l\u00e1 em cima do morrote) em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 praia e se limitavam ao alerta: &#8220;Cuidado, muito cuidado ao atravessar a linha do trem.&#8221; Post\u00e1vamo-nos no matagal \u00e0 margem da ferrovia, distantes dois metros no m\u00e1ximo do trilho, e mant\u00ednhamo-nos naquela fascinante mas aterradora expectativa. Era a locomotiva apitar l\u00e1 longe que os cora\u00e7\u00f5es come\u00e7avam a subir para a boca de cada um, respira\u00e7\u00e3o opressa. O estrondo ia num crescendo, ningu\u00e9m do bando mim\u00e9tico de mistura com os insetos se mexia, trepida\u00e7\u00e3o crescente na bitola estreita, o comboio passava ensurdecedor, terrificante, e as meninas e os meninos assomavam, semblantes de al\u00edvio.<\/p>\n<p>Vamos \u00e0 la playa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">02 de maio de 2014<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">(062)<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><span style=\"color: #0000ff;\"><a style=\"color: #0000ff;\" href=\"mailto:mmsmarcos1953@hotmail.com\">mmsmarcos1953@hotmail.com<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Era normal que ela se apresentasse. Ap\u00f3s eu ter acordado mais de uma vez, dif\u00edcil seria retomar tranquilamente o sono na medida em que n\u00e3o se reingressa na atmosfera sem trancos e barrancos. O inacredit\u00e1vel \u00e9 que, mesmo com a ins\u00f4nia olhando para mim, refestelada no mesmo travesseiro que o meu, deixando-me s\u00f3 a beiradinha, eu voltava a dar sinais de sonol\u00eancia, as p\u00e1lpebras recome\u00e7avam a pesar, logo, logo estaria dormindo&#8230; dormindo. Eu merecia. Afinal de contas, eu me encontrava trabalhando, mas em gozo de f\u00e9rias. Quer dizer, eu estava em f\u00e9rias, mas trabalhando (obrigado, Domenico de Masi). Esse barulho deveras me agitou e fez aflorar tr\u00eas epis\u00f3dios de medo que jaziam no rec\u00f4ndito da minha mente. O primeiro deles, quando, nos anos 60, \u00edamos com alguma frequ\u00eancia a Ibicu\u00ed, bel\u00edssimo local de veraneio, distrito de Mangaratiba. Fic\u00e1vamos, os bic\u00f5es petizes, os membros do n\u00facleo homeless da fam\u00edlia, hospedados na casa dos av\u00f3s do Claudio, meu primo. N\u00f3s dois, da mesma idade, ele inteligent\u00edssimo, \u00e9ramos pr\u00f3ximos um do outro na inf\u00e2ncia mas a vida jogou um para cada lado: eu, para o Bacen, em Bras\u00edlia; ele, para a Petrobras, no Rio de Janeiro, capital do estado onde situado o balne\u00e1rio acima referido. Necess\u00e1rio atravessar a linha do trem para dar com os costados (sem trocadilho) no peda\u00e7o de praia em frente, &#8220;propriedade exclusiva nossa&#8221; j\u00e1 que n\u00e3o possuia nem trinta metros de testada e os vizinhos eram poucos (o iate clube ficava \u00e0 esquerda de quem estivesse na areia olhando para o mar, em outro trecho, de acesso dif\u00edcil pela mata e mais ainda pela \u00e1gua). \u00c0queles meninos e meninas na faixa et\u00e1ria de nove a doze anos, interessava chegar jazinho ao pequeno para\u00edso mar\u00edtimo &#8211; n\u00e3o sem antes da viv\u00eancia do p\u00e2nico, do masoquismo deliberado. Os adultos (eram loucos? irrespons\u00e1veis?) permitiam que aqueles capit\u00e3es de areia (obrigado, Jorge Amado) pequenos burgueses descessem sozinhos a trilha (a casa ficava l\u00e1 em cima do morrote) em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 praia e se limitavam ao alerta: &#8220;Cuidado, muito cuidado ao atravessar a linha do trem.&#8221; Post\u00e1vamo-nos no matagal \u00e0 margem da ferrovia, distantes dois metros no m\u00e1ximo do trilho, e mant\u00ednhamo-nos naquela fascinante mas aterradora expectativa. Era a locomotiva apitar l\u00e1 longe que os cora\u00e7\u00f5es come\u00e7avam a subir para a boca de cada um, respira\u00e7\u00e3o opressa. O estrondo ia num crescendo, ningu\u00e9m do bando mim\u00e9tico de mistura com os insetos se mexia, trepida\u00e7\u00e3o crescente na bitola estreita, o comboio passava ensurdecedor, terrificante, e as meninas e os meninos assomavam, semblantes de al\u00edvio. Vamos \u00e0 la playa. &nbsp; 02 de maio de 2014 (062) mmsmarcos1953@hotmail.com<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-12900","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12900","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12900"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12900\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12900"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12900"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12900"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}