{"id":12918,"date":"2015-12-25T04:19:14","date_gmt":"2015-12-25T04:19:14","guid":{"rendered":"http:\/\/mapati.com.br\/blog\/?p=898"},"modified":"2015-12-25T04:19:14","modified_gmt":"2015-12-25T04:19:14","slug":"memoriasmemorialistas-xvi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/memoriasmemorialistas-xvi\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3rias\/Memorialistas (XVI)"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o d\u00e1 mesmo para largar o tio Constantino assim, sem mais nem menos. N\u00e3o d\u00e1 porque, a pretexto de esquadrinh\u00e1-lo nestas transcri\u00e7\u00f5es, serei \u00a0<em>free-rider<\/em> \u00a0em face do grupo de leitores que passar\u00e3o a conhecer em profundidade os tra\u00e7os da personalidade do Pedro Nava.<\/p>\n<p>Com efeito, o escritor chacoalha o tio, desconstruindo-o, inclusive quando analisa o &#8220;lar&#8221; do velho e da esposa. Nessa singradura, ficamos todos n\u00f3s sabendo, pelas lembran\u00e7as em geral do memorialista e em particular por esse tomo (<em>Ba\u00fa de Ossos<\/em>), que o garoto inofensivo iria se vingar um dia de muitos daqueles injuriadores, parentes ou n\u00e3o. Para tanto, tra\u00e7aria fidedignamente o perfil de cada um, malgrado (o termo vale <em>per se<\/em>) com \u00eanfase arrepiante na faceta, digamos, n\u00e3o agrad\u00e1vel dos personagens, juntando palavras formadoras de literatura fenomenal, que \u00e9 o que mais vai nos interessar de perto.<\/p>\n<p>Desconfio que, ao ler tais mem\u00f3rias, l\u00e1 do c\u00e9u (ou do inferno), onde j\u00e1 deviam estar aboletados havia muito tempo, o Constantino\/Paletta\/Bicanca e sua mulher n\u00e3o suportaram a f\u00faria, as diatribes do Nava e&#8230; sucumbiram em definitivo.<\/p>\n<figure id=\"attachment_899\" aria-describedby=\"caption-attachment-899\" style=\"width: 306px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/2017.mapati.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/MM21.jpg\" rel=\"attachment wp-att-899\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-899\" src=\"http:\/\/2017.mapati.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/MM21.jpg\" alt=\"http:\/\/juventudecaju.blogspot.com.br\/2012\/05\/o-menino-dos-olhos-tristes.html\" width=\"306\" height=\"382\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-899\" class=\"wp-caption-text\"><span style=\"font-size: 8pt;\">http:\/\/juventudecaju.blogspot.com.br\/2012\/05\/o-menino-dos-olhos-tristes.html<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>A casa:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>&#8220;(&#8230;) Nunca entrei na casa desses tios sem mal-estar. Tudo ali estava impregnado da vida que eles viviam: a de dois gatos cozidos dentro de um saco de couro. A ala de entrada, com seus dois renques de espinheiro, era agressiva; triste, o jardim de tanques secos e p\u00e1ssaros calados; os p\u00f3rticos da varanda, no alto, faziam como que cara nauseada e hostil. Vi a casa posti\u00e7amente festiva uma vez, com m\u00fasicas, dan\u00e7as e gente de casaca. Por ocasi\u00e3o do casamento de minha prima Estela com um irm\u00e3o de tio Meton, chamado Ant\u00f4nio Meton de Alencar. Lembro bem sua cara proustiana parecida com a de Boni de Castellane. O mesmo ar am\u00edmico de boneca de lou\u00e7a e o mesmo bigode feito uma poeira de ouro sobre a boca enf\u00e1tica. Lembro depois da casa desamparada quando l\u00e1 nos hospedamos, a pedido do Paletta, para meu Pai assistir dia e noite uma de suas filhas com uma infec\u00e7\u00e3o puerperal. Meu pai deixou o pr\u00f3prio consult\u00f3rio, minha M\u00e3e foi servir de enfermeira, a doente salvou-se e ainda tivemos de acompanhar a convalescen\u00e7a no s\u00edtio do Paletta, na esta\u00e7\u00e3o da Creosotagem, logo adiante de Mariano Proc\u00f3pio. Tenho ideia de meu Pai, todas as manh\u00e3s dessa \u00e9poca, apanhando turva\u00e7\u00f5es numa \u00e1gua de banho ou de lavagem, colhia as nuvens com um pequeno arame recurvo e estendia-as sobre um paralelograma de vidro. Vim conhecer esses objetos &#8211; al\u00e7a de platina e l\u00e2minas &#8211; no meu curso m\u00e9dico.&#8221;<\/em><\/span><\/p>\n<p>O trauma do menino:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>&#8220;Guardo da creosotagem a assustada lembran\u00e7a da carreira que me deu um bezerro de que escapei cerca abaixo. Guardei tamb\u00e9m as gargalhadas divertidas do Paletta e do Antonio com a situa\u00e7\u00e3o e do nenhum gesto esbo\u00e7ado em meu socorro. Eu tinha seis para sete anos, mas nascera com o dom de observar e guardar. Como adulto, bastante tenho desculpado as bordoadas e safan\u00f5es que tenho levado e vou levando. \u00c0s vezes reajo e ataco tamb\u00e9m. De outras, n\u00e3o, por nojo das canalhices e dos canalhas, por &#8216;t\u00e9dio \u00e0 controv\u00e9rsia&#8230;&#8217; Vou perdoando, vou. J\u00e1 os agravos feitos ao menino desarmado que fui&#8230;&#8221;<\/em><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">12 de setembro de 2014<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">(093)<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><span style=\"color: #0000ff;\"><a style=\"color: #0000ff;\" href=\"mailto:mmsmarcos1953@hotmail.com\">mmsmarcos1953@hotmail.com<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o d\u00e1 mesmo para largar o tio Constantino assim, sem mais nem menos. N\u00e3o d\u00e1 porque, a pretexto de esquadrinh\u00e1-lo nestas transcri\u00e7\u00f5es, serei \u00a0free-rider \u00a0em face do grupo de leitores que passar\u00e3o a conhecer em profundidade os tra\u00e7os da personalidade do Pedro Nava. Com efeito, o escritor chacoalha o tio, desconstruindo-o, inclusive quando analisa o &#8220;lar&#8221; do velho e da esposa. Nessa singradura, ficamos todos n\u00f3s sabendo, pelas lembran\u00e7as em geral do memorialista e em particular por esse tomo (Ba\u00fa de Ossos), que o garoto inofensivo iria se vingar um dia de muitos daqueles injuriadores, parentes ou n\u00e3o. Para tanto, tra\u00e7aria fidedignamente o perfil de cada um, malgrado (o termo vale per se) com \u00eanfase arrepiante na faceta, digamos, n\u00e3o agrad\u00e1vel dos personagens, juntando palavras formadoras de literatura fenomenal, que \u00e9 o que mais vai nos interessar de perto. Desconfio que, ao ler tais mem\u00f3rias, l\u00e1 do c\u00e9u (ou do inferno), onde j\u00e1 deviam estar aboletados havia muito tempo, o Constantino\/Paletta\/Bicanca e sua mulher n\u00e3o suportaram a f\u00faria, as diatribes do Nava e&#8230; sucumbiram em definitivo. A casa: &#8220;(&#8230;) Nunca entrei na casa desses tios sem mal-estar. Tudo ali estava impregnado da vida que eles viviam: a de dois gatos cozidos dentro de um saco de couro. A ala de entrada, com seus dois renques de espinheiro, era agressiva; triste, o jardim de tanques secos e p\u00e1ssaros calados; os p\u00f3rticos da varanda, no alto, faziam como que cara nauseada e hostil. Vi a casa posti\u00e7amente festiva uma vez, com m\u00fasicas, dan\u00e7as e gente de casaca. Por ocasi\u00e3o do casamento de minha prima Estela com um irm\u00e3o de tio Meton, chamado Ant\u00f4nio Meton de Alencar. Lembro bem sua cara proustiana parecida com a de Boni de Castellane. O mesmo ar am\u00edmico de boneca de lou\u00e7a e o mesmo bigode feito uma poeira de ouro sobre a boca enf\u00e1tica. Lembro depois da casa desamparada quando l\u00e1 nos hospedamos, a pedido do Paletta, para meu Pai assistir dia e noite uma de suas filhas com uma infec\u00e7\u00e3o puerperal. Meu pai deixou o pr\u00f3prio consult\u00f3rio, minha M\u00e3e foi servir de enfermeira, a doente salvou-se e ainda tivemos de acompanhar a convalescen\u00e7a no s\u00edtio do Paletta, na esta\u00e7\u00e3o da Creosotagem, logo adiante de Mariano Proc\u00f3pio. Tenho ideia de meu Pai, todas as manh\u00e3s dessa \u00e9poca, apanhando turva\u00e7\u00f5es numa \u00e1gua de banho ou de lavagem, colhia as nuvens com um pequeno arame recurvo e estendia-as sobre um paralelograma de vidro. Vim conhecer esses objetos &#8211; al\u00e7a de platina e l\u00e2minas &#8211; no meu curso m\u00e9dico.&#8221; O trauma do menino: &#8220;Guardo da creosotagem a assustada lembran\u00e7a da carreira que me deu um bezerro de que escapei cerca abaixo. Guardei tamb\u00e9m as gargalhadas divertidas do Paletta e do Antonio com a situa\u00e7\u00e3o e do nenhum gesto esbo\u00e7ado em meu socorro. Eu tinha seis para sete anos, mas nascera com o dom de observar e guardar. 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