{"id":12942,"date":"2015-12-29T23:04:41","date_gmt":"2015-12-29T23:04:41","guid":{"rendered":"http:\/\/mapati.com.br\/blog\/?p=1123"},"modified":"2015-12-29T23:04:41","modified_gmt":"2015-12-29T23:04:41","slug":"memoriasmemorialistas-xxii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/memoriasmemorialistas-xxii\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3rias\/Memorialistas (XXII)"},"content":{"rendered":"<p>No apanhado anterior de descri\u00e7\u00f5es &#8211; que n\u00e3o se limitam em ser fision\u00f4micas &#8211; me fixei num personagem somente, o Dr. Belis\u00e1rio. Para a forja do atual, amontoarei pessoas e um <em>causo<\/em>. Assim procedo obcecado pela magia cir\u00fargica do Pedro Nava vivificando essa turma como se todos e todas estivessem materializados em nosso tempo, \u00e0 nossa vista, desfilando para n\u00f3s, plateia extasiada. Um mosaico, cenas pospostas.<\/p>\n<p>Abro a fun\u00e7\u00e3o com o Dr. Jo\u00e3o da Cruz Abreu.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>\u201c(&#8230;) perseguido pela mesma asma tirana dos Costa Barros que cortava o f\u00f4lego de meu Pai e de minhas tias Dinor\u00e1 e Alice. O Jo\u00e3o Abreu vivia agasalhado e nem no ver\u00e3o carioca deixava seu sobretudo marrom &#8211; do mesmo marrom de seus dedos magros, queimados de nicotina. Ele n\u00e3o cessava de fumar e alternava os cigarros de verdade, os de tabaco, com os de datura e beladona &#8211; favor\u00e1veis \u00e0 sua respira\u00e7\u00e3o. Tinha a voz retumbante dos enfisematosos, era um conversador infatig\u00e1vel e cheio de verve&#8230;\u201d<\/em><\/span><\/p>\n<p>Sequencio convocando a sobrinha de tia Eug\u00eania, a Eponina (como chamar esse nome de mulher a n\u00e3o ser nas novelas das seis?), tudo indica uma das primeiras paix\u00f5es de inf\u00e2ncia do nosso memorialista fenomenal.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>\u201c(&#8230;) Mocetona alourada e de olhos escuros (&#8230;). Sabia hist\u00f3rias t\u00e3o lindas (&#8230;), sobretudo uma, do mancebo \u00edndio que, para dar prova de amor pela cunh\u00e3, n\u00e3o hesitava em enfiar sua destra dentro de iga\u00e7aba cheia de taturanas, sa\u00favas, escorpi\u00f5es, e lacraias. A bicharia deitou fogo na m\u00e3o do guerreiro e ele sorrindo&#8230; O bra\u00e7o t\u00e3o inchado que precisava quebrar o pote. Dor tamanha e ele sorrindo&#8230; Eu come\u00e7ava a chorar, n\u00e3o por causa do mo\u00e7o, mas por motivos mais complicados e que se explicavam pelas acusa\u00e7\u00f5es que eu fazia \u00e0 bela Eponina. (&#8230;) Ai! Eponina, Eponina, voc\u00ea n\u00e3o era capaz de deixar ferrar seu bra\u00e7o por minha causa. Ela dizia que sim, sim, que deixava. Mas como eu poderia saber?\u201d<\/em><\/span><\/p>\n<figure id=\"attachment_1124\" aria-describedby=\"caption-attachment-1124\" style=\"width: 438px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/2017.mapati.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/MM23.jpg\" rel=\"attachment wp-att-1124\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-1124\" src=\"http:\/\/2017.mapati.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/MM23.jpg\" alt=\"http:\/\/griffetattoo.blogspot.com.br\/2011\/11\/tattoo-escorpiao.html\" width=\"438\" height=\"425\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-1124\" class=\"wp-caption-text\"><span style=\"font-size: 8pt;\">http:\/\/griffetattoo.blogspot.com.br\/2011\/11\/tattoo-escorpiao.html<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>Pulo algumas p\u00e1ginas, e n\u00e3o \u00e9 um salto qualitativo pois n\u00e3o h\u00e1 falar em <em>upgrade<\/em>. Os trechos do livro, todos eles, se equivalem, n\u00e3o existe nenhum que seja melhor do que outro, o cl\u00edmax \u00e9 permanente, imorredouro. No que reproduzo abaixo, n\u00e3o \u00e9 enunciado todavia o nome da personagem. \u00c9 que o Nava achara por bem nos sonegar quem era a diva &#8211; em verdade, uma mulher que eu cegamente, obedientemente, tamb\u00e9m me apressei em considerar linda, malgrado travessa.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>\u201c(&#8230;) Com poucos meses de Rio de Janeiro perdera o ar provinciano, aprendera a vestir-se, a cal\u00e7ar-se, a enchapelar-se, botara corpo, corneara o marido e virara naquela princesa, naquela rainha&#8230; Ela tinha o colo redondo e farto, a cintura fina, a amplitude de cadeiras, o vasado anterior fazendo concha, as n\u00e1degas levantadas(&#8230;)\u201d<\/em><\/span><\/p>\n<p>De passagem, penso por causa dessa passagem no Rubem Fonseca, respiro um pouco e torno \u00e0 mo\u00e7a da nobreza, que, porventura nossa real contempor\u00e2nea, surgiria para n\u00f3s desnudada, em sum\u00e1rio biqu\u00edni, abortando por completo o voo de nossa imagina\u00e7\u00e3o lasciva.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><em>\u201c<span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\">(&#8230;) e um remeleixo do andar vagaroso que fixei para sempre. Mais tarde, quando pude dar compara\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias a esses atributos f\u00edsicos, colocava-os ora nas hero\u00ednas amplas e violentamente feminis de Machado de Assis, ora naquela f\u00eamea cheia de curvas e luas-cheias da \u00a0<\/span><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\">Empresa noturna de Bocage. Ela gostava de conversar andando para c\u00e1 e para l\u00e1, batendo sonoramente o tac\u00e3o do salto alto, levantando a cabe\u00e7a, ostentando o busto e trocando devagar os passos. A proje\u00e7\u00e3o anterior das coxas, nessa marcha, desenhava dum lado e do outro dobras na saia azul que sugeriam as id\u00eanticas da primeira an\u00e1gua; depois as da segunda an\u00e1gua, mais a borda do colete devant-droit, a seguir as dobras da camisa, em baixo, as da cal\u00e7a de babados e folhos &#8211; por fim as duas \u00faltimas que eram as das virilhas. Todos olhavam e cada um ia despindo e tirando o \u2018quanto cobria seu airoso corpo\u2019.\u201d<\/span><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">02 de agosto de 2015<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">(141)<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><span style=\"color: #0000ff;\"><a style=\"color: #0000ff;\" href=\"mailto:mmsmarcos1953@hotmail.com\">mmsmarcos1953@hotmail.com<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No apanhado anterior de descri\u00e7\u00f5es &#8211; que n\u00e3o se limitam em ser fision\u00f4micas &#8211; me fixei num personagem somente, o Dr. Belis\u00e1rio. Para a forja do atual, amontoarei pessoas e um causo. Assim procedo obcecado pela magia cir\u00fargica do Pedro Nava vivificando essa turma como se todos e todas estivessem materializados em nosso tempo, \u00e0 nossa vista, desfilando para n\u00f3s, plateia extasiada. Um mosaico, cenas pospostas. Abro a fun\u00e7\u00e3o com o Dr. Jo\u00e3o da Cruz Abreu. \u201c(&#8230;) perseguido pela mesma asma tirana dos Costa Barros que cortava o f\u00f4lego de meu Pai e de minhas tias Dinor\u00e1 e Alice. O Jo\u00e3o Abreu vivia agasalhado e nem no ver\u00e3o carioca deixava seu sobretudo marrom &#8211; do mesmo marrom de seus dedos magros, queimados de nicotina. Ele n\u00e3o cessava de fumar e alternava os cigarros de verdade, os de tabaco, com os de datura e beladona &#8211; favor\u00e1veis \u00e0 sua respira\u00e7\u00e3o. Tinha a voz retumbante dos enfisematosos, era um conversador infatig\u00e1vel e cheio de verve&#8230;\u201d Sequencio convocando a sobrinha de tia Eug\u00eania, a Eponina (como chamar esse nome de mulher a n\u00e3o ser nas novelas das seis?), tudo indica uma das primeiras paix\u00f5es de inf\u00e2ncia do nosso memorialista fenomenal. \u201c(&#8230;) Mocetona alourada e de olhos escuros (&#8230;). Sabia hist\u00f3rias t\u00e3o lindas (&#8230;), sobretudo uma, do mancebo \u00edndio que, para dar prova de amor pela cunh\u00e3, n\u00e3o hesitava em enfiar sua destra dentro de iga\u00e7aba cheia de taturanas, sa\u00favas, escorpi\u00f5es, e lacraias. A bicharia deitou fogo na m\u00e3o do guerreiro e ele sorrindo&#8230; O bra\u00e7o t\u00e3o inchado que precisava quebrar o pote. Dor tamanha e ele sorrindo&#8230; Eu come\u00e7ava a chorar, n\u00e3o por causa do mo\u00e7o, mas por motivos mais complicados e que se explicavam pelas acusa\u00e7\u00f5es que eu fazia \u00e0 bela Eponina. (&#8230;) Ai! Eponina, Eponina, voc\u00ea n\u00e3o era capaz de deixar ferrar seu bra\u00e7o por minha causa. Ela dizia que sim, sim, que deixava. Mas como eu poderia saber?\u201d Pulo algumas p\u00e1ginas, e n\u00e3o \u00e9 um salto qualitativo pois n\u00e3o h\u00e1 falar em upgrade. 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No que reproduzo abaixo, n\u00e3o \u00e9 enunciado todavia o nome da personagem. \u00c9 que o Nava achara por bem nos sonegar quem era a diva &#8211; em verdade, uma mulher que eu cegamente, obedientemente, tamb\u00e9m me apressei em considerar linda, malgrado travessa. \u201c(&#8230;) Com poucos meses de Rio de Janeiro perdera o ar provinciano, aprendera a vestir-se, a cal\u00e7ar-se, a enchapelar-se, botara corpo, corneara o marido e virara naquela princesa, naquela rainha&#8230; Ela tinha o colo redondo e farto, a cintura fina, a amplitude de cadeiras, o vasado anterior fazendo concha, as n\u00e1degas levantadas(&#8230;)\u201d De passagem, penso por causa dessa passagem no Rubem Fonseca, respiro um pouco e torno \u00e0 mo\u00e7a da nobreza, que, porventura nossa real contempor\u00e2nea, surgiria para n\u00f3s desnudada, em sum\u00e1rio biqu\u00edni, abortando por completo o voo de nossa imagina\u00e7\u00e3o lasciva. \u201c(&#8230;) e um remeleixo do andar vagaroso que fixei para sempre. Mais tarde, quando pude dar compara\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias a esses atributos f\u00edsicos, colocava-os ora nas hero\u00ednas amplas e violentamente feminis de Machado de Assis, ora naquela f\u00eamea cheia de curvas e luas-cheias da \u00a0Empresa noturna de Bocage. Ela gostava de conversar andando para c\u00e1 e para l\u00e1, batendo sonoramente o tac\u00e3o do salto alto, levantando a cabe\u00e7a, ostentando o busto e trocando devagar os passos. A proje\u00e7\u00e3o anterior das coxas, nessa marcha, desenhava dum lado e do outro dobras na saia azul que sugeriam as id\u00eanticas da primeira an\u00e1gua; depois as da segunda an\u00e1gua, mais a borda do colete devant-droit, a seguir as dobras da camisa, em baixo, as da cal\u00e7a de babados e folhos &#8211; por fim as duas \u00faltimas que eram as das virilhas. 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