{"id":12944,"date":"2015-12-29T23:06:21","date_gmt":"2015-12-29T23:06:21","guid":{"rendered":"http:\/\/mapati.com.br\/blog\/?p=1147"},"modified":"2015-12-29T23:06:21","modified_gmt":"2015-12-29T23:06:21","slug":"memoriasmemorialistas-xxiii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/memoriasmemorialistas-xxiii\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3rias\/Memorialistas (XXIII)"},"content":{"rendered":"<p style=\"padding-left: 90px;\"><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>\u201cMinas n\u00e3o esquece. Minas \u00e9 boa de lembran\u00e7as. Livro de mineiro est\u00e1 sempre relembrando. O passado \u00e9 o adubo da alma. Como em Guimar\u00e3es Rosa e Pedro Nava. Ou em Drummond.\u201d<\/em> (Sebasti\u00e3o Nery)<\/span><\/p>\n<p>Largar na estante o Ba\u00fa de ossos, n\u00e3o processando mais um epis\u00f3dio do in\u00edcio do s\u00e9culo passado. \u00c9 promessa que fa\u00e7o ao Pedro Nava &#8211; sem ele perceber que cruzo os dedos. N\u00e3o me envergonho disso, dessa mentira sincera, n\u00e3o \u00e9 mesmo, Cazuza?<\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><em><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\">\u201c(&#8230;) a febre subiu, virou febr\u00e3o e come\u00e7ou em minha M\u00e3e a infec\u00e7\u00e3o contra\u00edda tratando da sobrinha. Meu Pai chamou logo o Dr. Duarte. O Dr. Duarte pediu a presen\u00e7a de um especialista de senhoras e indicou o Dr. Lincoln de Ara\u00fajo, vizinho de bairro que, coerentemente, tinha domic\u00edlio na Rua dos Ara\u00fajos.\u201d<\/span><\/em><\/p>\n<p>Ignoro a raz\u00e3o por que o Nava escrevia pai e m\u00e3e com mai\u00fasculas. Talvez fosse o costume da \u00e9poca: cinzelar o respeito e a defer\u00eancia \u00e0 genitora e ao genitor tamb\u00e9m no mundo da letras, da literatura. Desconsideremos. Vamos nos prender na farmacologia (imaginem que Electrargol devia doer paca), no ritual de m\u00e9dicos se encontrando, se congregando, se preparando para cuidar, e cuidando, da doente.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><em><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\">\u201cLembro-me bem de sua figura: fino, pequenino, magricela, olhos vivos, bigodes e cavanhaque, sempre de fraque cinza e chap\u00e9u do Chile. Ele e o Dr. Duarte ministraram a quinina, o laudanum, as cataplasmas emolientes; manipulavam os drenos, os irrigadores; institu\u00edram uma dieta de fome e sede, mas admitindo tr\u00eas ou quatro ta\u00e7as de champanha por dia. Quando as coisas ficaram pretas, mandaram chamar o Dr. Miguel Couto. Horas antes da marcada para sua visita j\u00e1 estava brunida a bacia de prata, escolhida a mais rendada toalha de linho e desembrulhando o sabonete de Reuter novo em folha para o sacerdote purificar as m\u00e3os. Meu Pai foi busc\u00e1-lo de carro. \u00c0 sua chegada, o Dr. Lincoln e o Dr. Duarte receberam-no no topo da escada. Trancaram-se na sala. Depois subiram.\u201d<\/span><\/em><\/p>\n<p>O segundo texto acima posto desenha o perfil do Dr. Lincoln de Ara\u00fajo; no que apresento a seguir, desmembrado daquele para situarmos cada um em seu espa\u00e7o c\u00eanico, o memorialista recorta o do Dr. Miguel Couto, a quem o menino Nava, futuro m\u00e9dico renomado, vira atuar e que para n\u00f3s, pobres mortais, \u00e9 nome de importante hospital p\u00fablico na zona sul do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><em><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\">\u201cO Couto fez esvaziar uma mesa e ele pr\u00f3prio, com seus bra\u00e7os possantes, tirou a doente da cama para estend\u00ea-la no m\u00f3vel duro onde iam examin\u00e1-la. Desceu e pude gravar indelevelmente sua figura. Nesse tempo o vitiligo ainda n\u00e3o o arianizara como na velhice e, em vez do rosado despigmentado que ele apresentava no fim da vida, tinha uma bela cor acobreada de moreno. Trazia da parte posterior da cabe\u00e7a um pouco de cabelo, disfar\u00e7ando a calva invasora. Sombra de olhos serenos e mansos, dentro do po\u00e7o das olheiras. Os bigodes como roscas da Penha, como duas volutas entalhadas em \u00e9bano. Vestindo uma sobrecasaca marrom e a cal\u00e7a colante e estreita que lhe moldava a perna (anos mais tarde, um seu alfaiate que me cosia os ternos revelou que isto era uma de suas exig\u00eancias).\u201d<\/span><\/em><\/p>\n<p>Minha m\u00e3e, Dulcin\u00e9a, n\u00e3o logrou escapar, digamos assim. Octogen\u00e1ria, internada na UTI, aqui em Bras\u00edlia, embarcou h\u00e1 dois anos e seis meses numa carruagem com destino a outro plano, enquanto que a M\u00e3e do nosso escritor, entregue ao Dr. Miguel Couto&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 90px;\"><em><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\">\u201cNo fim da visita nem sentou. Enquanto lavava as m\u00e3os, disse que estava de acordo com tudo que faziam os colegas, mas que queria apenas lembrar que dessem \u00e0 doente inje\u00e7\u00f5es de Electrargol. E voc\u00ea, Nava, v\u00e1 todos os dias ao consult\u00f3rio para me dar not\u00edcias. O Dr. Duarte e o Dr. Lincoln foram lev\u00e1-lo at\u00e9 o port\u00e3o da rua, meu Pai at\u00e9 sua casa, de carruagem. Minha M\u00e3e salvou-se(&#8230;)\u201d<\/span><\/em><\/p>\n<figure id=\"attachment_1148\" aria-describedby=\"caption-attachment-1148\" style=\"width: 1920px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"http:\/\/2017.mapati.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/MM24.png\" rel=\"attachment wp-att-1148\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1148\" src=\"http:\/\/2017.mapati.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/MM24.png\" alt=\"https:\/\/dereflexion.files.wordpress.com\/2014\/08\/estructura-quimica-penicilina-3d.png\" width=\"1920\" height=\"844\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-1148\" class=\"wp-caption-text\"><span style=\"font-size: 8pt;\">https:\/\/dereflexion.files.wordpress.com\/2014\/08\/estructura-quimica-penicilina-3d.png<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">15 de agosto de 2015<br \/>\n(143)<br \/>\n<span style=\"color: #0000ff;\">mmsmarcos1953@hotmail.com<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cMinas n\u00e3o esquece. 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Talvez fosse o costume da \u00e9poca: cinzelar o respeito e a defer\u00eancia \u00e0 genitora e ao genitor tamb\u00e9m no mundo da letras, da literatura. Desconsideremos. Vamos nos prender na farmacologia (imaginem que Electrargol devia doer paca), no ritual de m\u00e9dicos se encontrando, se congregando, se preparando para cuidar, e cuidando, da doente. \u201cLembro-me bem de sua figura: fino, pequenino, magricela, olhos vivos, bigodes e cavanhaque, sempre de fraque cinza e chap\u00e9u do Chile. Ele e o Dr. Duarte ministraram a quinina, o laudanum, as cataplasmas emolientes; manipulavam os drenos, os irrigadores; institu\u00edram uma dieta de fome e sede, mas admitindo tr\u00eas ou quatro ta\u00e7as de champanha por dia. Quando as coisas ficaram pretas, mandaram chamar o Dr. Miguel Couto. Horas antes da marcada para sua visita j\u00e1 estava brunida a bacia de prata, escolhida a mais rendada toalha de linho e desembrulhando o sabonete de Reuter novo em folha para o sacerdote purificar as m\u00e3os. Meu Pai foi busc\u00e1-lo de carro. \u00c0 sua chegada, o Dr. Lincoln e o Dr. Duarte receberam-no no topo da escada. Trancaram-se na sala. Depois subiram.\u201d O segundo texto acima posto desenha o perfil do Dr. Lincoln de Ara\u00fajo; no que apresento a seguir, desmembrado daquele para situarmos cada um em seu espa\u00e7o c\u00eanico, o memorialista recorta o do Dr. Miguel Couto, a quem o menino Nava, futuro m\u00e9dico renomado, vira atuar e que para n\u00f3s, pobres mortais, \u00e9 nome de importante hospital p\u00fablico na zona sul do Rio de Janeiro. \u201cO Couto fez esvaziar uma mesa e ele pr\u00f3prio, com seus bra\u00e7os possantes, tirou a doente da cama para estend\u00ea-la no m\u00f3vel duro onde iam examin\u00e1-la. Desceu e pude gravar indelevelmente sua figura. Nesse tempo o vitiligo ainda n\u00e3o o arianizara como na velhice e, em vez do rosado despigmentado que ele apresentava no fim da vida, tinha uma bela cor acobreada de moreno. Trazia da parte posterior da cabe\u00e7a um pouco de cabelo, disfar\u00e7ando a calva invasora. Sombra de olhos serenos e mansos, dentro do po\u00e7o das olheiras. Os bigodes como roscas da Penha, como duas volutas entalhadas em \u00e9bano. Vestindo uma sobrecasaca marrom e a cal\u00e7a colante e estreita que lhe moldava a perna (anos mais tarde, um seu alfaiate que me cosia os ternos revelou que isto era uma de suas exig\u00eancias).\u201d Minha m\u00e3e, Dulcin\u00e9a, n\u00e3o logrou escapar, digamos assim. Octogen\u00e1ria, internada na UTI, aqui em Bras\u00edlia, embarcou h\u00e1 dois anos e seis meses numa carruagem com destino a outro plano, enquanto que a M\u00e3e do nosso escritor, entregue ao Dr. Miguel Couto&#8230; \u201cNo fim da visita nem sentou. 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