{"id":12945,"date":"2015-12-29T23:07:10","date_gmt":"2015-12-29T23:07:10","guid":{"rendered":"http:\/\/mapati.com.br\/blog\/?p=1152"},"modified":"2015-12-29T23:07:10","modified_gmt":"2015-12-29T23:07:10","slug":"memoriasmemorialistas-xxiv","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/memoriasmemorialistas-xxiv\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3rias\/Memorialistas (XXIV)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\">Me desprendi do Ba\u00fa de ossos.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">De conseguinte, come\u00e7ou minha s\u00edndrome de abstin\u00eancia &#8211; tonturas, calafrios, vertigens, suor frio, mal estar generalizado. Fui superando a crise \u00e0 medida que lobrigava no horizonte o segundo volume das mem\u00f3rias. Fi-lo (vejam que nesse ponto n\u00e3o renuncio \u00e0 linguagem formal) ap\u00f3s leitura do trecho logo adiante transcrito. Nele, aprendi que repasse n\u00e3o era a opera\u00e7\u00e3o tratada na Resolu\u00e7\u00e3o 63 do CMN dos meus tempos de Bacen; que n\u00e3o era um quadro de um programa popular de televis\u00e3o; que dizia &#8211; isso, sim &#8211; com as pitadas (pintadas?) antropol\u00f3gicas do Gilberto Freyre em Casa grande &amp; Senzala.<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 120px;\"><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>\u201c(&#8230;) Com a ama viera seu filho, um molequinho fabuloso, cor de havana (aquela negra havia de ter sido repassada por galego), imediatamente en vedete e no colo dos patr\u00f5es. Gordo, gordo, duma gordura dourada e contagiosa que foi passando para minha irm\u00e3. O mulatinho era t\u00e3o corado que ficava cor de laranja madura, cor de cobre areado. E ria o dia inteiro, babando uma baba de leite e zumbindo que nem enxame de abelhas. Jamais chorava.\u201d<\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Tal passagem do livro, como todas as outras postadas neste blog sob o t\u00edtulo Mem\u00f3rias\/Memorialistas (que tamb\u00e9m contemplam, at\u00e9 agora, Paulo Duarte e Afonso Arinos de Melo Franco), foi aleatoriamente pin\u00e7ada. Consigno-a n\u00e3o para me trazer dolorosas lembran\u00e7as de meu filho, sen\u00e3o que no prop\u00f3sito de enunciar, atrav\u00e9s da formid\u00e1vel escrita do Pedro Nava, os costumes de nossa gente, a mineira, a paulista, a carioca, nas primeiras d\u00e9cadas dos anos de 1900, a ternura, a amizade, o compadrio, a aten\u00e7\u00e3o e paradoxalmente o racismo expl\u00edcito (e tolerado) em quase todos os estratos sociais.<br \/>\nE o gorduchinho que sorria?<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 120px;\"><em><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\">\u201cUm dia, ningu\u00e9m sabe por qu\u00ea, foi aquela febre e logo as convuls\u00f5es que s\u00f3 pararam quando ele se inteiri\u00e7ou num \u00faltimo arranco e amoleceu, morto! no colo da minha M\u00e3e. Ela e a negra, as duas e minhas tias choravam todas taco-a-taco. Sem parar. Meu pai fez quest\u00e3o de enterro de branco e vel\u00f3rio como de parente. O defuntinho foi para nossa sala de visitas. Sobre uma mesa coberta de forro de seda e colcha de renda, o caix\u00e3o. No caix\u00e3o de rosa e prata, o anjinho. Fizeram para ele uma t\u00fanica de Menino Jesus, sapatinhos de cetim pousados num bolo de algod\u00e3o afei\u00e7oado em nuvem e cheio de estrelas douradas. A testa cingida de uma profus\u00e3o de flores e fios met\u00e1licos que faiscavam como artif\u00edcio de S\u00e3o Jo\u00e3o. A linda cor de fruta sazonada do garoto fora substitu\u00edda por um esverdeado de azeitona.\u201d<\/span><\/em><\/p>\n<figure id=\"attachment_1153\" aria-describedby=\"caption-attachment-1153\" style=\"width: 640px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/2017.mapati.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/MM25.jpg\" rel=\"attachment wp-att-1153\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1153\" src=\"http:\/\/2017.mapati.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/MM25.jpg\" alt=\"http:\/\/www.os5elementos.com\/ar\/sobre-as-nuvens\/\" width=\"640\" height=\"371\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-1153\" class=\"wp-caption-text\"><span style=\"font-size: 8pt;\">http:\/\/www.os5elementos.com\/ar\/sobre-as-nuvens\/<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: left;\">As travessuras do Nava de cal\u00e7a curta representavam inconformismo com a morte e todo o cerimonial que a envolve. Quanta l\u00f3gica na rebeldia do menino que n\u00e3o aceitava que outro menino fosse embora daqui, m\u00e1xime daquela forma. A rigor, n\u00e3o podia ser atoleimado quem repugnava personagem e figurino, morto e mortalha.<br \/>\nImperioso resistir, lutar contra a finitude, posto que inexor\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 90px;\"><em><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\">\u201cEu n\u00e3o me conformava com aquele aspecto e sobretudo com aquela imobilidade, aquele sil\u00eancio, aquele v\u00e1cuo. Num momento de distra\u00e7\u00e3o dos grandes, puxei-o pelas m\u00e3ozinhas e desengrenei os dedos que ficaram apontando duramente para cima. Aterrou-me a rigidez coagulada que senti como uma esp\u00e9cie de resist\u00eancia, de teimosia, de hostilidade. Aterraram-me o frio daquela carne impass\u00edvel, a p\u00e1lpebra de cera que eu abri e que n\u00e3o voltou a descer sobre um olho coberto de cinza. Eu queria arranc\u00e1-lo do caix\u00e3o cujo fundo era al\u00e7ap\u00e3o abrindo na \u2018treva do ch\u00e3o da cova\u2019. N\u00e3o pude com o peso. Fui tomado de p\u00e2nico em que havia aquele pasmo do trem entre o primata antrop\u00f3ide e o bicho hom\u00ednido, quando pela primeira vez percebeu noutro bruto morto o albor da id\u00e9ia da pr\u00f3pria morte e, em vez de comer-lhe os restos, uivou de horror na escurid\u00e3o da noite quarten\u00e1ria. A esse clamor inarticulado fenderam-se os c\u00e9us e apareceu a destra divina para toc\u00e1-lo. Ad\u00e3o, Ad\u00e3o com cuja descoberta da morte desvendaram-se religi\u00f5es, \u00e9ticas, filosofias, culturas; grandezas, mis\u00e9rias; caridade e massacre; o \u00f3dio, o amor. Comecei a urrar tamb\u00e9m, todos acorreram, tia Candoca, escandalizada, recomp\u00f4s, morto e mortalha. Meu Pai ficou indignado. Esse menino est\u00e1 ficando completamente idiota! Fui arrastado para fora da sala (N\u00e3o quero que enterrem ele! Gente! N\u00e3o quero que enterrem ele!)&#8230;\u201d<\/span><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">25 de agosto de 2015<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">(144)<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><span style=\"color: #0000ff;\">mmsmarcos1953@hotmail.com<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Me desprendi do Ba\u00fa de ossos. De conseguinte, come\u00e7ou minha s\u00edndrome de abstin\u00eancia &#8211; tonturas, calafrios, vertigens, suor frio, mal estar generalizado. Fui superando a crise \u00e0 medida que lobrigava no horizonte o segundo volume das mem\u00f3rias. Fi-lo (vejam que nesse ponto n\u00e3o renuncio \u00e0 linguagem formal) ap\u00f3s leitura do trecho logo adiante transcrito. Nele, aprendi que repasse n\u00e3o era a opera\u00e7\u00e3o tratada na Resolu\u00e7\u00e3o 63 do CMN dos meus tempos de Bacen; que n\u00e3o era um quadro de um programa popular de televis\u00e3o; que dizia &#8211; isso, sim &#8211; com as pitadas (pintadas?) antropol\u00f3gicas do Gilberto Freyre em Casa grande &amp; Senzala. \u201c(&#8230;) Com a ama viera seu filho, um molequinho fabuloso, cor de havana (aquela negra havia de ter sido repassada por galego), imediatamente en vedete e no colo dos patr\u00f5es. Gordo, gordo, duma gordura dourada e contagiosa que foi passando para minha irm\u00e3. O mulatinho era t\u00e3o corado que ficava cor de laranja madura, cor de cobre areado. E ria o dia inteiro, babando uma baba de leite e zumbindo que nem enxame de abelhas. Jamais chorava.\u201d Tal passagem do livro, como todas as outras postadas neste blog sob o t\u00edtulo Mem\u00f3rias\/Memorialistas (que tamb\u00e9m contemplam, at\u00e9 agora, Paulo Duarte e Afonso Arinos de Melo Franco), foi aleatoriamente pin\u00e7ada. Consigno-a n\u00e3o para me trazer dolorosas lembran\u00e7as de meu filho, sen\u00e3o que no prop\u00f3sito de enunciar, atrav\u00e9s da formid\u00e1vel escrita do Pedro Nava, os costumes de nossa gente, a mineira, a paulista, a carioca, nas primeiras d\u00e9cadas dos anos de 1900, a ternura, a amizade, o compadrio, a aten\u00e7\u00e3o e paradoxalmente o racismo expl\u00edcito (e tolerado) em quase todos os estratos sociais. E o gorduchinho que sorria? \u201cUm dia, ningu\u00e9m sabe por qu\u00ea, foi aquela febre e logo as convuls\u00f5es que s\u00f3 pararam quando ele se inteiri\u00e7ou num \u00faltimo arranco e amoleceu, morto! no colo da minha M\u00e3e. Ela e a negra, as duas e minhas tias choravam todas taco-a-taco. Sem parar. Meu pai fez quest\u00e3o de enterro de branco e vel\u00f3rio como de parente. O defuntinho foi para nossa sala de visitas. Sobre uma mesa coberta de forro de seda e colcha de renda, o caix\u00e3o. No caix\u00e3o de rosa e prata, o anjinho. Fizeram para ele uma t\u00fanica de Menino Jesus, sapatinhos de cetim pousados num bolo de algod\u00e3o afei\u00e7oado em nuvem e cheio de estrelas douradas. A testa cingida de uma profus\u00e3o de flores e fios met\u00e1licos que faiscavam como artif\u00edcio de S\u00e3o Jo\u00e3o. A linda cor de fruta sazonada do garoto fora substitu\u00edda por um esverdeado de azeitona.\u201d As travessuras do Nava de cal\u00e7a curta representavam inconformismo com a morte e todo o cerimonial que a envolve. Quanta l\u00f3gica na rebeldia do menino que n\u00e3o aceitava que outro menino fosse embora daqui, m\u00e1xime daquela forma. A rigor, n\u00e3o podia ser atoleimado quem repugnava personagem e figurino, morto e mortalha. Imperioso resistir, lutar contra a finitude, posto que inexor\u00e1vel. \u201cEu n\u00e3o me conformava com aquele aspecto e sobretudo com aquela imobilidade, aquele sil\u00eancio, aquele v\u00e1cuo. Num momento de distra\u00e7\u00e3o dos grandes, puxei-o pelas m\u00e3ozinhas e desengrenei os dedos que ficaram apontando duramente para cima. Aterrou-me a rigidez coagulada que senti como uma esp\u00e9cie de resist\u00eancia, de teimosia, de hostilidade. Aterraram-me o frio daquela carne impass\u00edvel, a p\u00e1lpebra de cera que eu abri e que n\u00e3o voltou a descer sobre um olho coberto de cinza. Eu queria arranc\u00e1-lo do caix\u00e3o cujo fundo era al\u00e7ap\u00e3o abrindo na \u2018treva do ch\u00e3o da cova\u2019. N\u00e3o pude com o peso. Fui tomado de p\u00e2nico em que havia aquele pasmo do trem entre o primata antrop\u00f3ide e o bicho hom\u00ednido, quando pela primeira vez percebeu noutro bruto morto o albor da id\u00e9ia da pr\u00f3pria morte e, em vez de comer-lhe os restos, uivou de horror na escurid\u00e3o da noite quarten\u00e1ria. A esse clamor inarticulado fenderam-se os c\u00e9us e apareceu a destra divina para toc\u00e1-lo. Ad\u00e3o, Ad\u00e3o com cuja descoberta da morte desvendaram-se religi\u00f5es, \u00e9ticas, filosofias, culturas; grandezas, mis\u00e9rias; caridade e massacre; o \u00f3dio, o amor. Comecei a urrar tamb\u00e9m, todos acorreram, tia Candoca, escandalizada, recomp\u00f4s, morto e mortalha. Meu Pai ficou indignado. Esse menino est\u00e1 ficando completamente idiota! Fui arrastado para fora da sala (N\u00e3o quero que enterrem ele! Gente! 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