{"id":12950,"date":"2015-12-30T17:24:10","date_gmt":"2015-12-30T17:24:10","guid":{"rendered":"http:\/\/mapati.com.br\/blog\/?p=1202"},"modified":"2015-12-30T17:24:10","modified_gmt":"2015-12-30T17:24:10","slug":"memoriasmemorialistas-xxviii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/memoriasmemorialistas-xxviii\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3rias\/Memorialistas (XXVIII)"},"content":{"rendered":"<p>Se somarmos todos os volumes das mem\u00f3rias de Afonso Arinos de Melo Franco, de Paulo Duarte e de Pedro\u00a0 Nava (os dois solos do \u00c9rico Ver\u00edssimo est\u00e3o na fila aguardando meu ataque), chegaremos a n\u00famero perto de 20. Considerando uma m\u00e9dia de 300 p\u00e1ginas por cada (o cac\u00f3fato \u00e9 proposital) tomo, vamos atingir o total de cerca de 6.000 p\u00e1ginas dessa pequena e important\u00edssima biblioteca.<\/p>\n<p>O que custa emprestar a este <em>blog<\/em> \u00a0umas poucas dezenas de passagens dessas obras primas?<\/p>\n<p>Animado por essa salada de n\u00fameros, reenceto minha visita \u00e0 cozinha de familiares do Nava.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>\u201c(&#8230;) Do feij\u00e3o, cheio de lombo de porco, de orelha de porco, de pistola de porco, de rabo de porco, de p\u00e9 de porco. Do tutu, com carne de porco. Do angu vazado no meio da massa dourada e pegando fogo para receber, nesse c\u00f4ncavo, o picadinho de mi\u00fado de porco. Das farofas cheias de rodelas de ovo e de toucinho de porco. O porco. O porco inici\u00e1tico dos congoleses e sacrificial dos eg\u00edpcios \u2013 grato \u00e0 lua e \u00e0 Osiris. O porco sacr\u00edlego e imundo em cujas varas Nosso Senhor fez entrar um bando de dem\u00f4nios. \u201cO mineiro planta o milho. O mineiro cria o porco. O porco come o milho. O mineiro come o porco.\u201d O porco tamb\u00e9m fossa e come a merda do mineiro que cai das latrinas das fazendas \u2013 especadas sobre os chiqueiros. Esp\u00edrito de porco, c\u00edrculo vicioso, meio antropof\u00e1gico&#8230; Porco nosso, imenso e tot\u00eamico&#8230; Cozido, frito, assado, recheado&#8230; Almo\u00e7ado, jantado, ceado, comungado, incorporado, consubstanciado.\u201d<\/em><\/span><\/p>\n<p>Somos fracos, nos dobramos \u00e0s dobradinhas do memorialista juizforano, que assim como quem n\u00e3o quer nada vai deitando li\u00e7\u00f5es de antropologia.<\/p>\n<p>O que\u00a0 bem caracteriza as cozinhas s\u00e3o os cheiros. O que bem caracteriza a mineirada, os meus ancestrais pelo lado paterno, \u00e9 a cacha\u00e7a, \u00e9 o caf\u00e9 fraco e enxaropado; a cariocada, nunca em detrimento da cerveja, se ajoelha diante duma batida de lim\u00e3o, mas o caf\u00e9, o caf\u00e9 tem que ser forte e n\u00e3o muito doce.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>\u201cOutros cheiros. O ac\u00eddulo do molho pardo dos judeus noturnos. N\u00e3o sabem? Judeu em culin\u00e1ria mineira \u00e9, em geral, nome da b\u00f3ia de ceia e mais particularmente da cabidela da galinha para depois das prociss\u00f5es e para depois das coroa\u00e7\u00f5es da \u00a0Nossa Senhora, nas noites de seu m\u00eas de maio. O cheiro das pa\u00e7ocas. Farinha torrada socada com carne-seca frita num banho de banha. Depois de tudo bem batido no pil\u00e3o, uma passada na frigideira, para tornar a esquentar na chama viva. Boas de comer antecedidas de uma lambada de pinga e acompanhadas do caf\u00e9 aguado e quente que acabou de ser pulverizado no outro lado do pil\u00e3o.\u201d<\/em><\/span><\/p>\n<figure id=\"attachment_1203\" aria-describedby=\"caption-attachment-1203\" style=\"width: 427px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/2017.mapati.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/MM29.gif\" rel=\"attachment wp-att-1203\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-1203\" src=\"http:\/\/2017.mapati.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/MM29.gif\" alt=\"http:\/\/albumclaudia.blogspot.com.br\/2011\/04\/\" width=\"427\" height=\"253\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-1203\" class=\"wp-caption-text\"><span style=\"font-size: 8pt;\">http:\/\/albumclaudia.blogspot.com.br\/2011\/04\/<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>Perseveremos nos cheiros, nas carnes, nos legumes e verduras a decorar a \u00e1rea tomada pelos sabores e pela fuma\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>\u201cCheiro de ab\u00f3bora, inhame, abobrinha, car\u00e1, quiabo e de cove cortada fino (&#8230;) ou de couve s\u00f3 rasgada (&#8230;) e est\u00e3o a\u00ed os cheiros todos da cozinha da Inh\u00e1 Lu\u00edsa. Seus ru\u00eddos: o dito da m\u00e3o de pil\u00e3o, o sussurro das panelas, o ronrom dos caldeir\u00f5es de ferro, o chiado dos tachos de cobre, a batida de uma pedra redonda &#8211; biface paleol\u00edtico &#8211; amaciando os bifes sobre a t\u00e1bua de cabi\u00fana e a cantiga das negras.\u201d<\/em><\/span><\/p>\n<p>S\u00fabito, o historiador Nava francamente entrega a av\u00f3 e nos desperta para a \u00e9poca da escravid\u00e3o ainda n\u00e3o terminada, na qual aos patr\u00f5es n\u00e3o se impunham limites. O labor era pesado. Procuradoria do trabalho era fic\u00e7\u00e3o. N\u00e3o faziam parte da cena instrumentos de defesa dos direitos trabalhistas, formando um quadro distante, muito distante dos nossos dias de FGTS obrigat\u00f3rio em favor de quem formalmente exerce afazeres dom\u00e9sticos nos lares da classe m\u00e9dia brasileira.<\/p>\n<p>Em vis\u00e3o retrospectiva, nem os belos cantos entoados seriam capazes de atenuar a explora\u00e7\u00e3o patronal. Ao contr\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>\u201cPorque minha av\u00f3 exigia que elas trabalhassem cantando &#8211; o que era maneira de fiscaliz\u00e1-las pela inflex\u00e3o da m\u00fasica, de impedir conjura\u00e7\u00e3o de preto e de juntar esse \u00fatil ao agrad\u00e1vel das vozes solfejando. Ora era uma modinha inteira que vinha da mem\u00f3ria e da garganta de ouro da Rosa, fazendo desferir em trenos, palavras mais lindas, meu Deus! Como batel, virginal, quimera, vergel, albente, ala\u00fade, bardo, debalde, eviterna, brisa, langor. Era, por exemplo, o Gondoleiro do Amor, eram os olhos negros, negros como as noites sem luar, quando a praia beija a vaga, quando a vaga beija o vento. Outras cavatinas, aos peda\u00e7os, cantadas por uma, por outra, batendo roupa, ralando coco, picando lenha. O metro tamb\u00e9m vinha aos peda\u00e7os.\u201d<\/em><\/span><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">04 de outubro de 2015<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">(152)<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><span style=\"color: #0000ff;\"><a style=\"color: #0000ff;\" href=\"mailto:mmsmarcos1953@hotmail.com\">mmsmarcos1953@hotmail.com<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Se somarmos todos os volumes das mem\u00f3rias de Afonso Arinos de Melo Franco, de Paulo Duarte e de Pedro\u00a0 Nava (os dois solos do \u00c9rico Ver\u00edssimo est\u00e3o na fila aguardando meu ataque), chegaremos a n\u00famero perto de 20. Considerando uma m\u00e9dia de 300 p\u00e1ginas por cada (o cac\u00f3fato \u00e9 proposital) tomo, vamos atingir o total de cerca de 6.000 p\u00e1ginas dessa pequena e important\u00edssima biblioteca. O que custa emprestar a este blog \u00a0umas poucas dezenas de passagens dessas obras primas? Animado por essa salada de n\u00fameros, reenceto minha visita \u00e0 cozinha de familiares do Nava. \u201c(&#8230;) Do feij\u00e3o, cheio de lombo de porco, de orelha de porco, de pistola de porco, de rabo de porco, de p\u00e9 de porco. Do tutu, com carne de porco. Do angu vazado no meio da massa dourada e pegando fogo para receber, nesse c\u00f4ncavo, o picadinho de mi\u00fado de porco. Das farofas cheias de rodelas de ovo e de toucinho de porco. O porco. O porco inici\u00e1tico dos congoleses e sacrificial dos eg\u00edpcios \u2013 grato \u00e0 lua e \u00e0 Osiris. O porco sacr\u00edlego e imundo em cujas varas Nosso Senhor fez entrar um bando de dem\u00f4nios. \u201cO mineiro planta o milho. O mineiro cria o porco. O porco come o milho. O mineiro come o porco.\u201d O porco tamb\u00e9m fossa e come a merda do mineiro que cai das latrinas das fazendas \u2013 especadas sobre os chiqueiros. Esp\u00edrito de porco, c\u00edrculo vicioso, meio antropof\u00e1gico&#8230; Porco nosso, imenso e tot\u00eamico&#8230; Cozido, frito, assado, recheado&#8230; Almo\u00e7ado, jantado, ceado, comungado, incorporado, consubstanciado.\u201d Somos fracos, nos dobramos \u00e0s dobradinhas do memorialista juizforano, que assim como quem n\u00e3o quer nada vai deitando li\u00e7\u00f5es de antropologia. O que\u00a0 bem caracteriza as cozinhas s\u00e3o os cheiros. O que bem caracteriza a mineirada, os meus ancestrais pelo lado paterno, \u00e9 a cacha\u00e7a, \u00e9 o caf\u00e9 fraco e enxaropado; a cariocada, nunca em detrimento da cerveja, se ajoelha diante duma batida de lim\u00e3o, mas o caf\u00e9, o caf\u00e9 tem que ser forte e n\u00e3o muito doce. \u201cOutros cheiros. O ac\u00eddulo do molho pardo dos judeus noturnos. N\u00e3o sabem? Judeu em culin\u00e1ria mineira \u00e9, em geral, nome da b\u00f3ia de ceia e mais particularmente da cabidela da galinha para depois das prociss\u00f5es e para depois das coroa\u00e7\u00f5es da \u00a0Nossa Senhora, nas noites de seu m\u00eas de maio. O cheiro das pa\u00e7ocas. Farinha torrada socada com carne-seca frita num banho de banha. Depois de tudo bem batido no pil\u00e3o, uma passada na frigideira, para tornar a esquentar na chama viva. Boas de comer antecedidas de uma lambada de pinga e acompanhadas do caf\u00e9 aguado e quente que acabou de ser pulverizado no outro lado do pil\u00e3o.\u201d Perseveremos nos cheiros, nas carnes, nos legumes e verduras a decorar a \u00e1rea tomada pelos sabores e pela fuma\u00e7a. \u201cCheiro de ab\u00f3bora, inhame, abobrinha, car\u00e1, quiabo e de cove cortada fino (&#8230;) ou de couve s\u00f3 rasgada (&#8230;) e est\u00e3o a\u00ed os cheiros todos da cozinha da Inh\u00e1 Lu\u00edsa. Seus ru\u00eddos: o dito da m\u00e3o de pil\u00e3o, o sussurro das panelas, o ronrom dos caldeir\u00f5es de ferro, o chiado dos tachos de cobre, a batida de uma pedra redonda &#8211; biface paleol\u00edtico &#8211; amaciando os bifes sobre a t\u00e1bua de cabi\u00fana e a cantiga das negras.\u201d S\u00fabito, o historiador Nava francamente entrega a av\u00f3 e nos desperta para a \u00e9poca da escravid\u00e3o ainda n\u00e3o terminada, na qual aos patr\u00f5es n\u00e3o se impunham limites. O labor era pesado. Procuradoria do trabalho era fic\u00e7\u00e3o. N\u00e3o faziam parte da cena instrumentos de defesa dos direitos trabalhistas, formando um quadro distante, muito distante dos nossos dias de FGTS obrigat\u00f3rio em favor de quem formalmente exerce afazeres dom\u00e9sticos nos lares da classe m\u00e9dia brasileira. Em vis\u00e3o retrospectiva, nem os belos cantos entoados seriam capazes de atenuar a explora\u00e7\u00e3o patronal. Ao contr\u00e1rio. \u201cPorque minha av\u00f3 exigia que elas trabalhassem cantando &#8211; o que era maneira de fiscaliz\u00e1-las pela inflex\u00e3o da m\u00fasica, de impedir conjura\u00e7\u00e3o de preto e de juntar esse \u00fatil ao agrad\u00e1vel das vozes solfejando. Ora era uma modinha inteira que vinha da mem\u00f3ria e da garganta de ouro da Rosa, fazendo desferir em trenos, palavras mais lindas, meu Deus! Como batel, virginal, quimera, vergel, albente, ala\u00fade, bardo, debalde, eviterna, brisa, langor. Era, por exemplo, o Gondoleiro do Amor, eram os olhos negros, negros como as noites sem luar, quando a praia beija a vaga, quando a vaga beija o vento. Outras cavatinas, aos peda\u00e7os, cantadas por uma, por outra, batendo roupa, ralando coco, picando lenha. O metro tamb\u00e9m vinha aos peda\u00e7os.\u201d \u00a0 04 de outubro de 2015 (152) mmsmarcos1953@hotmail.com<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-12950","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12950","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12950"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12950\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12950"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12950"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12950"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}