{"id":12951,"date":"2015-12-30T17:32:22","date_gmt":"2015-12-30T17:32:22","guid":{"rendered":"http:\/\/mapati.com.br\/blog\/?p=1205"},"modified":"2015-12-30T17:32:22","modified_gmt":"2015-12-30T17:32:22","slug":"memoriasmemorialistas-xxix","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/memoriasmemorialistas-xxix\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3rias\/Memorialistas (XXIX)"},"content":{"rendered":"<p>Vim a S\u00e3o Paulo no in\u00edcio desse \u00faltimo setembro e retornei a Bras\u00edlia nove dias depois. Para l\u00e1 novamente tive de voltar, no dia 24 do mesmo m\u00eas e onde estive at\u00e9 13 de outubro. Por isso, dentro do t\u00f3pico \u201cMem\u00f3rias\u201d, me sentiria movido ao convite a Paulo Duarte para continuar nos brindando com as virtudes e os desvarios da Pauliceia. Todavia, desde que retomei a releitura de uns trechos do segundo volume das lembran\u00e7as do Afonso Arinos de Melo Franco, fiquei sugestionado a adiar um pouco a <em>rentr\u00e9e<\/em> \u00a0do nosso historiador ligado \u00e0 USP dos idos de sua funda\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ali, no livro <em>A Escalada<\/em>, revelam-se novos degraus da prof\u00edcua subida do chanceler mineiro na pol\u00edtica, um apaixonado pelo Rio de Janeiro, seu pouso quando retornava das viagens in\u00fameras \u00a0pelo mundo e em decorr\u00eancia das quais tombava exaurido. Era um homem nessa ocasi\u00e3o de balan\u00e7o da vida prestes a se tornar sexagen\u00e1rio, mais novo do que eu portanto, noves fora a circunst\u00e2ncia de o livro haver sido escrito por volta de 1965.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>\u201c(&#8230;) Os meus 57 anos, ontem cumpridos, j\u00e1 tornam, al\u00e9m disso, um pouco penosas essas viagens seguidas. N\u00e3o raras v\u00eazes fico a lembrar com uma esp\u00e9cie de sentimento de culpa a casa acolhedora da Rua Mariana <\/em>(no bairro de Botafogo; este blogueiro j\u00e1 foi l\u00e1 mas s\u00f3 na varanda)<em>, as pe\u00e7as amplas e tranquilas, meus velhos m\u00f3veis brasileiros, meus quadros, retratos e imagens de santos, meus livros, amigos fi\u00e9is e silenciosos, os sabi\u00e1s nas \u00e1rvores, o P\u00e3o de A\u00e7\u00facar, que vejo ao fundo, o Corcovado, que diviso \u00e0 frente, marcando com suas fortes presen\u00e7as aqu\u00eale arco azul do c\u00e9u carioca.\u201d<\/em><\/span><\/p>\n<p>Imposs\u00edvel encerrarmos o assunto sem apontar uma curiosidade sociol\u00f3gica, digamos assim. O fen\u00f4nemo da ascens\u00e3o da classe \u201cC\u201d (vamos fingir que n\u00e3o h\u00e1 crise econ\u00f4mica neste 2015), que passou a andar de avi\u00e3o, trouxe de cambulhada not\u00f3rio desconforto \u00e0 turma do andar de cima. Ali\u00e1s, esclare\u00e7a-se que, para usar a feliz express\u00e3o do jornalista Elio Gaspari, nossa figura\u00e7\u00e3o se d\u00e1 no jato 747, aquele monstrengo com duas fileiras de janelinhas (numa delas, as de cima da aeronave, eu vislumbrei um rosto muito parecido com o do senador Rom\u00e1rio).<\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>\u201cStendhal, que criou a palavra turista <\/em>(M\u00e9moires d\u2019un Touriste)<em> n\u00e3o previa, por certo, a expans\u00e3o social do tipo humano que \u00eale designava com o seu neologismo. De resto, o turista de hoje nada tem a ver com aqu\u00eale que foi Stendhal, viajante de posses modestas, mas de luxuoso g\u00f4sto e requintada percep\u00e7\u00e3o(&#8230;).\u201d<\/em><\/span><\/p>\n<p>Ao refinado escritor franc\u00eas repugnava a participa\u00e7\u00e3o do que denominar\u00edamos classe ent\u00e3o desfavorecida invadindo avi\u00f5es e navios. N\u00e3o destoava do preconceito o nosso parlamentar, integrante de fam\u00edlia da elite, falando com restri\u00e7\u00f5es dessa turma que tentava aflorar naqueles dias da d\u00e9cada de 1960. Existem diferen\u00e7as entre o que acontece nesta nossa \u00e9poca e o que acontecia h\u00e1 cinquenta anos atr\u00e1s?<\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>\u201cO turista de hoje faria horror a Stendhal, pois \u00e9 a classe m\u00e9dia do esp\u00edrito. Devo reconhecer, aqui, que a mim tamb\u00e9m me enjoa. Mesmo quando fa\u00e7o viagens mais econ\u00f4micas, n\u00e3o sou capaz das excurs\u00f5es em grupo. As duas v\u00eazes que tentei isso, uma na B\u00e9lgica, para visitar os campos de batalha da Primeira Guerra, e outra na Espanha, para percorrer Granada, senti-me profundamente infeliz com a burrice palavrosa dos guias e a trivialidade din\u00e2mica dos meus companheiros de excurs\u00e3o, pessoas que olhavam tudo sem nada ver. Come\u00e7a que para se ver muito precisa-se olhar pouco.\u201d<\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">E a navalhada final nos emergentes de ent\u00e3o:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>\u201cA expans\u00e3o do turismo corresponde tamb\u00e9m \u00e0 substitui\u00e7\u00e3o, na vida, do misterioso pelo pitoresco.\u201d<\/em><\/span><\/p>\n<figure id=\"attachment_1206\" aria-describedby=\"caption-attachment-1206\" style=\"width: 510px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/2017.mapati.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/MM29.jpg\" rel=\"attachment wp-att-1206\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-1206\" src=\"http:\/\/2017.mapati.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/MM29.jpg\" alt=\"http:\/\/litoralsign.com.br\/adesivos-de-aviao\/adesivo-aviao-de-frente.html#\" width=\"510\" height=\"352\" srcset=\"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/MM29.jpg 640w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/MM29-300x208.jpg 300w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/MM29-200x138.jpg 200w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/MM29-400x277.jpg 400w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/MM29-600x415.jpg 600w\" sizes=\"(max-width: 510px) 100vw, 510px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-1206\" class=\"wp-caption-text\"><span style=\"font-size: 8pt;\">http:\/\/litoralsign.com.br\/adesivos-de-aviao\/adesivo-aviao-de-frente.html#<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Marcos Martins<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">(154)<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><span style=\"color: #0000ff;\"><a style=\"color: #0000ff;\" href=\"mailto:mmsmarcos1953@hotmail.com\">mmsmarcos1953@hotmail.com<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vim a S\u00e3o Paulo no in\u00edcio desse \u00faltimo setembro e retornei a Bras\u00edlia nove dias depois. Para l\u00e1 novamente tive de voltar, no dia 24 do mesmo m\u00eas e onde estive at\u00e9 13 de outubro. Por isso, dentro do t\u00f3pico \u201cMem\u00f3rias\u201d, me sentiria movido ao convite a Paulo Duarte para continuar nos brindando com as virtudes e os desvarios da Pauliceia. Todavia, desde que retomei a releitura de uns trechos do segundo volume das lembran\u00e7as do Afonso Arinos de Melo Franco, fiquei sugestionado a adiar um pouco a rentr\u00e9e \u00a0do nosso historiador ligado \u00e0 USP dos idos de sua funda\u00e7\u00e3o. Ali, no livro A Escalada, revelam-se novos degraus da prof\u00edcua subida do chanceler mineiro na pol\u00edtica, um apaixonado pelo Rio de Janeiro, seu pouso quando retornava das viagens in\u00fameras \u00a0pelo mundo e em decorr\u00eancia das quais tombava exaurido. Era um homem nessa ocasi\u00e3o de balan\u00e7o da vida prestes a se tornar sexagen\u00e1rio, mais novo do que eu portanto, noves fora a circunst\u00e2ncia de o livro haver sido escrito por volta de 1965. \u201c(&#8230;) Os meus 57 anos, ontem cumpridos, j\u00e1 tornam, al\u00e9m disso, um pouco penosas essas viagens seguidas. N\u00e3o raras v\u00eazes fico a lembrar com uma esp\u00e9cie de sentimento de culpa a casa acolhedora da Rua Mariana (no bairro de Botafogo; este blogueiro j\u00e1 foi l\u00e1 mas s\u00f3 na varanda), as pe\u00e7as amplas e tranquilas, meus velhos m\u00f3veis brasileiros, meus quadros, retratos e imagens de santos, meus livros, amigos fi\u00e9is e silenciosos, os sabi\u00e1s nas \u00e1rvores, o P\u00e3o de A\u00e7\u00facar, que vejo ao fundo, o Corcovado, que diviso \u00e0 frente, marcando com suas fortes presen\u00e7as aqu\u00eale arco azul do c\u00e9u carioca.\u201d Imposs\u00edvel encerrarmos o assunto sem apontar uma curiosidade sociol\u00f3gica, digamos assim. O fen\u00f4nemo da ascens\u00e3o da classe \u201cC\u201d (vamos fingir que n\u00e3o h\u00e1 crise econ\u00f4mica neste 2015), que passou a andar de avi\u00e3o, trouxe de cambulhada not\u00f3rio desconforto \u00e0 turma do andar de cima. Ali\u00e1s, esclare\u00e7a-se que, para usar a feliz express\u00e3o do jornalista Elio Gaspari, nossa figura\u00e7\u00e3o se d\u00e1 no jato 747, aquele monstrengo com duas fileiras de janelinhas (numa delas, as de cima da aeronave, eu vislumbrei um rosto muito parecido com o do senador Rom\u00e1rio). \u201cStendhal, que criou a palavra turista (M\u00e9moires d\u2019un Touriste) n\u00e3o previa, por certo, a expans\u00e3o social do tipo humano que \u00eale designava com o seu neologismo. De resto, o turista de hoje nada tem a ver com aqu\u00eale que foi Stendhal, viajante de posses modestas, mas de luxuoso g\u00f4sto e requintada percep\u00e7\u00e3o(&#8230;).\u201d Ao refinado escritor franc\u00eas repugnava a participa\u00e7\u00e3o do que denominar\u00edamos classe ent\u00e3o desfavorecida invadindo avi\u00f5es e navios. N\u00e3o destoava do preconceito o nosso parlamentar, integrante de fam\u00edlia da elite, falando com restri\u00e7\u00f5es dessa turma que tentava aflorar naqueles dias da d\u00e9cada de 1960. Existem diferen\u00e7as entre o que acontece nesta nossa \u00e9poca e o que acontecia h\u00e1 cinquenta anos atr\u00e1s? \u201cO turista de hoje faria horror a Stendhal, pois \u00e9 a classe m\u00e9dia do esp\u00edrito. Devo reconhecer, aqui, que a mim tamb\u00e9m me enjoa. Mesmo quando fa\u00e7o viagens mais econ\u00f4micas, n\u00e3o sou capaz das excurs\u00f5es em grupo. As duas v\u00eazes que tentei isso, uma na B\u00e9lgica, para visitar os campos de batalha da Primeira Guerra, e outra na Espanha, para percorrer Granada, senti-me profundamente infeliz com a burrice palavrosa dos guias e a trivialidade din\u00e2mica dos meus companheiros de excurs\u00e3o, pessoas que olhavam tudo sem nada ver. 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