{"id":12965,"date":"2016-04-17T16:49:01","date_gmt":"2016-04-17T16:49:01","guid":{"rendered":"http:\/\/mapati.com.br\/blog\/?p=1442"},"modified":"2016-04-17T16:49:01","modified_gmt":"2016-04-17T16:49:01","slug":"memoriasmemorialistas-xliii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/memoriasmemorialistas-xliii\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3rias\/Memorialistas (XLIII)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>Muitas vezes pressinto que a vida est\u00e1 prestes a come\u00e7ar,<br \/>\ne percebo que est\u00e1 quase tudo no fim.<\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>(Oliver Sacks)<\/em><\/span><\/p>\n<p>Como falar de algo que n\u00e3o seja a vota\u00e7\u00e3o de hoje na C\u00e2mara dos Deputados?<\/p>\n<p>Malgrado relevant\u00edssima, tentarei fugir dela, abordagem monotem\u00e1tica. O coment\u00e1rio pol\u00edtico talvez seja feito brevemente, na retomada da s\u00e9rie aqui iniciada meses atr\u00e1s, <em>Sociologu\u00eas<\/em>, quatro postagens j\u00e1 lan\u00e7adas<em>.<\/em><\/p>\n<p>Pauto-me agora sem compromisso com a met\u00e1fora e a ironia. A ressalva n\u00e3o \u00e9 gratuita pois estou me despedindo temporariamente do Pedro Nava para novo encontro com o Afonso Arinos, da Banda de m\u00fasica da UDN (atual\u00edssima. Mas quase ningu\u00e9m sabe do que se trata).<\/p>\n<p>Enveredo (o termo \u00e9 apropriado, vejam no par\u00e1grafo a seguir) pela releitura do vol. 3, intitulado <em>Planalto<\/em>.<\/p>\n<figure id=\"attachment_1443\" aria-describedby=\"caption-attachment-1443\" style=\"width: 240px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-1443\" src=\"http:\/\/2017.mapati.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/183_planalto_afonsoarinos.png\" alt=\"http:\/\/produto.mercadolivre.com.br\/MLB-732261091-planalto-afonso-arinos-de-melo-franco-autografado-_JM\" width=\"240\" height=\"505\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1443\" class=\"wp-caption-text\"><span style=\"font-size: 8pt;\">http:\/\/produto.mercadolivre.com.br\/MLB-732261091-planalto-afonso-arinos-de-melo-franco-autografado-_JM<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>No qual, interpostas na Nota da Editora, encontram-se refer\u00eancias ao memorialista chanceler feitas por Guimar\u00e3es Rosa quando tomou posse na Academia Brasileira de Letras (grifos do original):<\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>\u201c&#8230; Demais que vindo-me o bom modo de vosso\u00a0 agasalho pela palavra de um a mim bem pr\u00f3ximo, admirado e querido, malungo, autorizado. Afonso Arinos de Melo Franco \u2013 : capaz para pretender-se \u2018<strong>mineiro<\/strong>, <strong>totalmente<\/strong>\u2019, por estirpe e por esp\u00e9cie, \u2018<strong>das Gerais e dos Gerais<\/strong>\u2019; id\u00f4neo de declarar tudo o que sente de mais espont\u00e2neo e natural no seu esp\u00edrito \u2018<strong>tende a considerar intelectualmente e mesmo liter\u00e0riamente a vida<\/strong>\u2019; autor de <strong>A Alma do Tempo<\/strong>, que fundo releio, para alongamento e cons\u00f4lo, um dos livros maiores do pensar e sentir brasileiros; origin\u00e1rio desse Paracatu \u2013 grande e memoriosa entre chapad\u00f5es sert\u00f5es \u2013, e cuja estranha not\u00edcia, trazida por vaqueiros, boiadeiros, tropeiros, desde a meninice enriquecia-me a imagina\u00e7\u00e3o, qual outrotanta maravilhosa Tombuctu, a depois do Saara, sobrenomeada \u2018<strong>a Raina das Areias<\/strong>\u2019.\u201d \u00a0<\/em><\/span><\/p>\n<p>Devolvo a palavra ao politico mineiro nas suas considera\u00e7\u00f5es acerca dos sessenta anos que ent\u00e3o completava.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>\u201cTranspostos, h\u00e1 um m\u00eas, os sessenta novembros, sinto que os cabelos brancos, a ligeira inseguran\u00e7a no andar, a menor resist\u00eancia ao esf\u00f4r\u00e7o, denunciam a discreta chegada do decl\u00ednio f\u00edsico, daqui por diante meu companheiro de viagem, pelo resto do caminho. Companheiro cada vez mais ass\u00edduo, mais pr\u00f3ximo, implac\u00e1vel na sua presen\u00e7a progressiva e confidencial.<\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>\u201cPor\u00e9m a nossa sensibilidade, emo\u00e7\u00e3o e intelig\u00eancia resistem mais ao desgaste da vida que o inv\u00f3lucro f\u00edsico. Talvez porque cres\u00e7am e se apurem mais demoradamente que as do corpo, as faculdades do esp\u00edrito, modeladas por lento amadurecimento, permanecessem intocadas, ainda quando a velhice inicia a sua vagarosa obra de destrui\u00e7\u00e3o.\u201d<\/em><\/span><\/p>\n<p>O que dizer daqueles e daquelas que, a pretexo de mitigar as agruras do ingresso na velhice, cuidaram em batizar essa fase de \u201cMelhor idade\u201d?<\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>\u201cPenso que a minha idade atual constitui a fase representativa d\u00easte constraste entre o vigor f\u00edsico, que se afasta, e a f\u00f4r\u00e7a da raz\u00e3o e do sentimento, que se aprimoram. \u00c9 bem o crep\u00fasculo, naquele momento incompar\u00e1vel, em que as sombras que descem n\u00e3o apagam, sen\u00e3o que d\u00e3o mais do\u00e7ura e colorido ao clar\u00e3o terminal do dia.\u201d<\/em><\/span><\/p>\n<p>O \u00a0nosso Afonso Arinos desenha com tinta pesada e escura a situa\u00e7\u00e3o \u00a0de quem, idade avan\u00e7ada, chega \u00e0 \u00faltima quadra da vida. S\u00e3o as observa\u00e7\u00f5es iniciais que nos levam a uma impress\u00e3o enganosa da pretens\u00e3o do autor. \u00c0 medida que transpomos os par\u00e1grafos, vemos um conformismo, uma impot\u00eancia que no entanto gradativamente v\u00e3o evoluindo para perspectivas novas, reveladoras, prof\u00edcuas, um est\u00e1gio por outras formas privilegiado da exist\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>\u201cEm mim, o que poderia ter sido flama vai se transformando em um pouco de luz; fraca luz, sem d\u00favida, luz bruxuleante e pobre, mas que serve, ao menos, para clarear meus passos de alma. Nunca, como agora, ecoaram, dentro de mim, as queixas e alegrias do mundo; as formas da natureza; as cria\u00e7\u00f5es abstratas do g\u00eanio. Nunca, como agora, senti t\u00e3o pr\u00f2ximamente o riso das crian\u00e7as, a esperan\u00e7a dos desamparados, a grandeza dos gestos simples, o infinito que h\u00e1 no amor. A pr\u00f3pria imagem de Deus como que se revela melhor \u00e0 superf\u00edcie tranq\u00fcila da intelig\u00eancia vivida do que ao tumulto do esp\u00edrito em ascens\u00e3o. Assim o c\u00e9u se reflete nas lagunas, mas n\u00e3o no oceano.\u201d<\/em><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">17 de abril de 2016<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">(183)<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><span style=\"color: #0000ff;\"><a style=\"color: #0000ff;\" href=\"mailto:mmsmarcos1953@hotmail.com\">mmsmarcos1953@hotmail.com<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Muitas vezes pressinto que a vida est\u00e1 prestes a come\u00e7ar, e percebo que est\u00e1 quase tudo no fim. (Oliver Sacks) Como falar de algo que n\u00e3o seja a vota\u00e7\u00e3o de hoje na C\u00e2mara dos Deputados? Malgrado relevant\u00edssima, tentarei fugir dela, abordagem monotem\u00e1tica. O coment\u00e1rio pol\u00edtico talvez seja feito brevemente, na retomada da s\u00e9rie aqui iniciada meses atr\u00e1s, Sociologu\u00eas, quatro postagens j\u00e1 lan\u00e7adas. Pauto-me agora sem compromisso com a met\u00e1fora e a ironia. A ressalva n\u00e3o \u00e9 gratuita pois estou me despedindo temporariamente do Pedro Nava para novo encontro com o Afonso Arinos, da Banda de m\u00fasica da UDN (atual\u00edssima. Mas quase ningu\u00e9m sabe do que se trata). Enveredo (o termo \u00e9 apropriado, vejam no par\u00e1grafo a seguir) pela releitura do vol. 3, intitulado Planalto. No qual, interpostas na Nota da Editora, encontram-se refer\u00eancias ao memorialista chanceler feitas por Guimar\u00e3es Rosa quando tomou posse na Academia Brasileira de Letras (grifos do original): \u201c&#8230; Demais que vindo-me o bom modo de vosso\u00a0 agasalho pela palavra de um a mim bem pr\u00f3ximo, admirado e querido, malungo, autorizado. Afonso Arinos de Melo Franco \u2013 : capaz para pretender-se \u2018mineiro, totalmente\u2019, por estirpe e por esp\u00e9cie, \u2018das Gerais e dos Gerais\u2019; id\u00f4neo de declarar tudo o que sente de mais espont\u00e2neo e natural no seu esp\u00edrito \u2018tende a considerar intelectualmente e mesmo liter\u00e0riamente a vida\u2019; autor de A Alma do Tempo, que fundo releio, para alongamento e cons\u00f4lo, um dos livros maiores do pensar e sentir brasileiros; origin\u00e1rio desse Paracatu \u2013 grande e memoriosa entre chapad\u00f5es sert\u00f5es \u2013, e cuja estranha not\u00edcia, trazida por vaqueiros, boiadeiros, tropeiros, desde a meninice enriquecia-me a imagina\u00e7\u00e3o, qual outrotanta maravilhosa Tombuctu, a depois do Saara, sobrenomeada \u2018a Raina das Areias\u2019.\u201d \u00a0 Devolvo a palavra ao politico mineiro nas suas considera\u00e7\u00f5es acerca dos sessenta anos que ent\u00e3o completava. \u201cTranspostos, h\u00e1 um m\u00eas, os sessenta novembros, sinto que os cabelos brancos, a ligeira inseguran\u00e7a no andar, a menor resist\u00eancia ao esf\u00f4r\u00e7o, denunciam a discreta chegada do decl\u00ednio f\u00edsico, daqui por diante meu companheiro de viagem, pelo resto do caminho. Companheiro cada vez mais ass\u00edduo, mais pr\u00f3ximo, implac\u00e1vel na sua presen\u00e7a progressiva e confidencial. \u201cPor\u00e9m a nossa sensibilidade, emo\u00e7\u00e3o e intelig\u00eancia resistem mais ao desgaste da vida que o inv\u00f3lucro f\u00edsico. Talvez porque cres\u00e7am e se apurem mais demoradamente que as do corpo, as faculdades do esp\u00edrito, modeladas por lento amadurecimento, permanecessem intocadas, ainda quando a velhice inicia a sua vagarosa obra de destrui\u00e7\u00e3o.\u201d O que dizer daqueles e daquelas que, a pretexo de mitigar as agruras do ingresso na velhice, cuidaram em batizar essa fase de \u201cMelhor idade\u201d? \u201cPenso que a minha idade atual constitui a fase representativa d\u00easte constraste entre o vigor f\u00edsico, que se afasta, e a f\u00f4r\u00e7a da raz\u00e3o e do sentimento, que se aprimoram. \u00c9 bem o crep\u00fasculo, naquele momento incompar\u00e1vel, em que as sombras que descem n\u00e3o apagam, sen\u00e3o que d\u00e3o mais do\u00e7ura e colorido ao clar\u00e3o terminal do dia.\u201d O \u00a0nosso Afonso Arinos desenha com tinta pesada e escura a situa\u00e7\u00e3o \u00a0de quem, idade avan\u00e7ada, chega \u00e0 \u00faltima quadra da vida. S\u00e3o as observa\u00e7\u00f5es iniciais que nos levam a uma impress\u00e3o enganosa da pretens\u00e3o do autor. \u00c0 medida que transpomos os par\u00e1grafos, vemos um conformismo, uma impot\u00eancia que no entanto gradativamente v\u00e3o evoluindo para perspectivas novas, reveladoras, prof\u00edcuas, um est\u00e1gio por outras formas privilegiado da exist\u00eancia. \u201cEm mim, o que poderia ter sido flama vai se transformando em um pouco de luz; fraca luz, sem d\u00favida, luz bruxuleante e pobre, mas que serve, ao menos, para clarear meus passos de alma. Nunca, como agora, ecoaram, dentro de mim, as queixas e alegrias do mundo; as formas da natureza; as cria\u00e7\u00f5es abstratas do g\u00eanio. Nunca, como agora, senti t\u00e3o pr\u00f2ximamente o riso das crian\u00e7as, a esperan\u00e7a dos desamparados, a grandeza dos gestos simples, o infinito que h\u00e1 no amor. A pr\u00f3pria imagem de Deus como que se revela melhor \u00e0 superf\u00edcie tranq\u00fcila da intelig\u00eancia vivida do que ao tumulto do esp\u00edrito em ascens\u00e3o. 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