{"id":13323,"date":"2017-11-15T14:33:07","date_gmt":"2017-11-15T17:33:07","guid":{"rendered":"http:\/\/mapati.com.br\/?p=13323"},"modified":"2017-11-18T12:13:04","modified_gmt":"2017-11-18T15:13:04","slug":"memoriasmemorialistas-liii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/memoriasmemorialistas-liii\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3rias\/Memorialistas (LII)"},"content":{"rendered":"<p style=\"font-weight: 400; text-align: right;\"><em>Quando nos lembrarmos deste tempo, nos lembraremos de que foi o tempo em que galanteio virou ass\u00e9dio sexual. A pr\u00f3pria palavra \u201cgalanteio\u201d ficou antiga e sem sentido. Era um elogio dirigido por um homem a uma mulher \u2014 nunca de uma mulher a um homem \u2014 enaltecendo sua beleza. Os homens que faziam galanteios eram galantes (outra categoria humana que desapareceu) e agradavam \u00e0s mulheres com seus elogios. Se havia uma inten\u00e7\u00e3o sexual por tr\u00e1s do galanteio, era remota. Importavam mais a criatividade do galanteador e a satisfa\u00e7\u00e3o da mulher lisonjeada, e o elogio raramente levava \u00e0 cama. J\u00e1 havia, claro, uma conota\u00e7\u00e3o de poder machista na lisonja: s\u00f3 homens podiam ser galantes. Uma mulher galanteadora seria uma aberra\u00e7\u00e3o, pr\u00f3pria de despudoradas, provavelmente l\u00e9sbica.<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: right;\"><em>(Luis Fernando Ver\u00edssimo)<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">O assunto bombou nas redes sociais, virou capa de revista semanal, \u00a0reacendeu o debate sobre racismo no Brasil. P\u00f4s na rinha a turma dita letrada, esporas e bicadas fustigantes &#8211; um lado absolvendo o jornalista; o outro, partid\u00e1rio de faz\u00ea-lo arder no caldeir\u00e3o do inferno.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">O William Waack \u00a0(voltar\u00e1 \u00e0 bancada?), se por acaso me conhecesse, carimbaria minha carteira de motorista daquele carro barulhento. Meu pai e minha m\u00e3e trouxeram \u00e0 luz, alternadamente, tr\u00eas filhas e tr\u00eas filhos, sendo eu o segundo da prole, membro do n\u00facleo mesti\u00e7o, tanto que minha irm\u00e3 terceira da fila, integrante do segmento ariano e poeta carioca desgarrada, \u00a0me chama at\u00e9 hoje de crioulo. Com a ressalva de que o tratamento que ela me dispensa \u00e9 absolutamente carinhoso, nada pr\u00f3ximo do revelado naquele momento pelo apresentador ensandecido.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Como ficamos se, nessa jornada que este\u00a0<em>blog<\/em>\u00a0empreende pela obra de tr\u00eas (por ora) grandes memorialistas brasileiros (Paulo Duarte, Afonso Arinos de Melo Franco e Pedro Nava), vez que outra resvalarmos n\u00e3o apenas no racismo, sen\u00e3o tamb\u00e9m no ass\u00e9dio sexual? Tranquilizem-se os\/as que porventura (ou desventura) v\u00e3o ler esta postagem, que deve se desmembrar em outra(s).<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">O Nava reporta epis\u00f3dio acontecido na fam\u00edlia dele quando findava a Grande Guerra, portanto idos de 1918, quando a aboli\u00e7\u00e3o da escravatura (quase revogada nesses dias pelos nossos valorosos representantes p\u00fablicos) completara trinta anos, um tico de tempo diante dos mais de quatro s\u00e9culos de ignom\u00ednia.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: right;\"><em>\u201cEra um sobradinho de por\u00e3o habit\u00e1vel e o Zeg\u00e3o ocupava neste o sal\u00e3o da frente, pe\u00e7a ampla, de dia toda ensolarada mas que dava, para tr\u00e1s, em regi\u00f5es \u00famidas e confusas da casa, nesse ponto n\u00e3o assoalhada e toda cimentada como o eram uns dep\u00f3sitos de coisas velhas, as privadas, o quarto da cozinheira e o cacifro da copeirinha. A propria Maria bem-amada. Pois o Zeg\u00e3o soltou-me o romance. No princ\u00edpio ele apenas desejara o diabo da mulatinha mas acabara naquela paix\u00e3o de que nem era bom pensar. Ele ia e vinha dentro da casa, tomando as posi\u00e7\u00f5es prodigiosas dadas pelo servi\u00e7o dom\u00e9stico. Um bra\u00e7o que se levanta para limpar um alto de arm\u00e1rio e era a manga caindo e mostrando o sovaco, levantando todo o vestido no esfor\u00e7o e deixando entrever um princ\u00edpio de perna. Os agachados favor\u00e1veis \u00e0 forma das n\u00e1degas e aos olhares de quem vem de frente e arrisca um olho nos joelhos, entre as coxas e \u00e0s vezes lobriga o escuro do tri\u00e2ngulo. Sem cal\u00e7a, sem cal\u00e7a. Limpando o ch\u00e3o, de quatro, de cata-cavaco, mostrando por tr\u00e1s a bunda que levanta as an\u00e1guas, de cima para baixo os seios entrevistos pelo decote do vestido ca\u00eddo. A atitude hier\u00e1tica trazendo a oferenda de uma bandeja com a \u00e1gua o caf\u00e9, a m\u00e3o estendida com a carta, o jornal, o embrulho \u2013 perto, perto, perto de se sentir o oleoso dos cabelos, o alm\u00edscar do corpo, o suor seco da roupa ressuada, o ali\u00e1ceo das axilas, o acre do resto, o doce do h\u00e1lito e outros aromas, eflu\u00eancias, odores, exala\u00e7\u00f5es, efl\u00favios que se desprendem e sobem dum corpo jovem e forte e belo como a emana\u00e7\u00e3o das flores, das folhas pisadas, das frutas maduras; como o cheiro concentrado da fuma\u00e7a das aras e dos tur\u00edbulos; o que vem no vento carregado de noite e mar e sal.\u201d<\/em><\/p>\n<figure id=\"attachment_13339\" aria-describedby=\"caption-attachment-13339\" style=\"width: 385px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/mapati.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/267.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-13339\" src=\"http:\/\/mapati.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/267.jpg\" alt=\"\" width=\"385\" height=\"346\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-13339\" class=\"wp-caption-text\">https:\/\/pixabay.com\/<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"font-weight: 400;\">O nome acima referido por duas vezes, que continuar\u00e1 sendo citado, \u00e9 do primo do maior memorialista de nossas plagas. Tanto ele, protagonista, quanto o Nava, mero escada, formavam a dupla alian\u00e7a de adolescentes nessa \u00e9poca de derrota da Tr\u00edplice Alian\u00e7a\u2026<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: right;\"><em>\u201cAh! Nessas horas o Zeg\u00e3o reniflava e absorvia pelas ventas a Maria que ele ainda n\u00e3o ousara atracar. Gostava de esper\u00e1-la vindo das compras, com a tia, uma cesta pesada na cabe\u00e7a, a espinha endurecida no esfor\u00e7o, os seios projetados, a cabe\u00e7a, a espinha endurecida no esfor\u00e7o, os seios projetados, a cabe\u00e7a ereta como as das est\u00e1tuas portantes do Erect\u00eaion. Absorvia-a com os olhos, devorava-a na luz. Gostava de v\u00ea-la, de proa, seguindo o roulis e o tangage da bacia e das n\u00e1degas como os duma ave vogando. Arrostando todos\u00a0 os perigos passara a espion\u00e1-la, vira-a sentada na banca da latrina, uma nesga, pelo buraco da fechadura. Dera para fiscalizar \u00a0o banheiro de baixo, logo depois da hora que ele sabia ser a do seu banho, de tardinha, preparando para servir o jantar.\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\u2026 e de fasc\u00ednio pela Maria.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: right;\"><em>\u201cE que mulata! Teria seus quinze, dezesseis anos. Tinha a roupa em cima do corpo e cada movimento seu era como se se animasse uma rede cheia de pombas. Tinha os olhos excessivos da ra\u00e7a, era cor de cobre escuro, cabelo moroso, bem acamado e aberto ao meio. Admirei sua naturalidade. Olhou o Zeg\u00e3o, depois a mim, deve ter visto nossa semelhan\u00e7a porque achou engra\u00e7ado e sua boca sorriu mostrando os dentes que pareciam mais claros no roxo quase preto das gengivas e dos bei\u00e7os. Tinha os seios pequeninos, desses de esgar\u00e7ar corpinho e vestido \u2013 de t\u00e3o duros. Ao sair apreciei a firmeza de suas n\u00e1degas e o rego onde colava um pouco a saia e pude vislumdeslumbrar, saindo das chinelinhas, seus calcanhares cor-de-rosa contranstando com o bronze da pele da canela onde velha ferida deixara cicatriz de um azul-noturno met\u00e1lico e profundo. Nunca mais esqueci a gra\u00e7a de sua silhueta de menina e mo\u00e7a (\u2026). Toda ela era floral e petalar como um r\u00e1pido beijo adejo.<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: right;\"><em>\u201cMas eu queria saber, saber at\u00e9 que ponto tinham ido as coisas e como. O Zeg\u00e3o disse que tinha sido muito dif\u00edcil. Ele com medo dos tios. E voc\u00ea sabe que nessas coisas eles n\u00e3o brincam\u2026 Mas come\u00e7ara o namoro com cautelas de ladr\u00e3o. A Maria fingia que n\u00e3o via, mas via, porque rebolava mais\u2026\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Iremos saber daqui a pouquinho de que maneira a coisa rolou.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span lang=\"EN-US\">Racismo\u00a0 \u00a0#Ass\u00e9dio sexual\u00a0 \u00a0#Galanteio\u00a0 \u00a0#Luis Fernando Ver\u00edssimo<br \/>\n#<\/span><span lang=\"EN-US\">William Waack\u00a0 \u00a0#Idos de 1918\u00a0 \u00a0#Zeg\u00e3o<\/span><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: right;\">14\/11\/2017<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: right;\">(267)<\/p>\n<p style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit; text-align: right;\"><a href=\"mailto:mmsmarcos1953@hotmail.com\">mmsmarcos1953@hotmail.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando nos lembrarmos deste tempo, nos lembraremos de que foi o tempo em que galanteio virou ass\u00e9dio sexual. A pr\u00f3pria palavra \u201cgalanteio\u201d ficou antiga e sem sentido. Era um elogio dirigido por um homem a uma mulher \u2014 nunca de uma mulher a um homem \u2014 enaltecendo sua beleza. Os homens que faziam galanteios eram galantes (outra categoria humana que desapareceu) e agradavam \u00e0s mulheres com seus elogios. Se havia uma inten\u00e7\u00e3o sexual por tr\u00e1s do galanteio, era remota. Importavam mais a criatividade do galanteador e a satisfa\u00e7\u00e3o da mulher lisonjeada, e o elogio raramente levava \u00e0 cama. J\u00e1 havia, claro, uma conota\u00e7\u00e3o de poder machista na lisonja: s\u00f3 homens podiam ser galantes. Uma mulher galanteadora seria uma aberra\u00e7\u00e3o, pr\u00f3pria de despudoradas, provavelmente l\u00e9sbica. (Luis Fernando Ver\u00edssimo) O assunto bombou nas redes sociais, virou capa de revista semanal, \u00a0reacendeu o debate sobre racismo no Brasil. P\u00f4s na rinha a turma dita letrada, esporas e bicadas fustigantes &#8211; um lado absolvendo o jornalista; o outro, partid\u00e1rio de faz\u00ea-lo arder no caldeir\u00e3o do inferno. O William Waack \u00a0(voltar\u00e1 \u00e0 bancada?), se por acaso me conhecesse, carimbaria minha carteira de motorista daquele carro barulhento. Meu pai e minha m\u00e3e trouxeram \u00e0 luz, alternadamente, tr\u00eas filhas e tr\u00eas filhos, sendo eu o segundo da prole, membro do n\u00facleo mesti\u00e7o, tanto que minha irm\u00e3 terceira da fila, integrante do segmento ariano e poeta carioca desgarrada, \u00a0me chama at\u00e9 hoje de crioulo. Com a ressalva de que o tratamento que ela me dispensa \u00e9 absolutamente carinhoso, nada pr\u00f3ximo do revelado naquele momento pelo apresentador ensandecido. Como ficamos se, nessa jornada que este\u00a0blog\u00a0empreende pela obra de tr\u00eas (por ora) grandes memorialistas brasileiros (Paulo Duarte, Afonso Arinos de Melo Franco e Pedro Nava), vez que outra resvalarmos n\u00e3o apenas no racismo, sen\u00e3o tamb\u00e9m no ass\u00e9dio sexual? Tranquilizem-se os\/as que porventura (ou desventura) v\u00e3o ler esta postagem, que deve se desmembrar em outra(s). O Nava reporta epis\u00f3dio acontecido na fam\u00edlia dele quando findava a Grande Guerra, portanto idos de 1918, quando a aboli\u00e7\u00e3o da escravatura (quase revogada nesses dias pelos nossos valorosos representantes p\u00fablicos) completara trinta anos, um tico de tempo diante dos mais de quatro s\u00e9culos de ignom\u00ednia. \u201cEra um sobradinho de por\u00e3o habit\u00e1vel e o Zeg\u00e3o ocupava neste o sal\u00e3o da frente, pe\u00e7a ampla, de dia toda ensolarada mas que dava, para tr\u00e1s, em regi\u00f5es \u00famidas e confusas da casa, nesse ponto n\u00e3o assoalhada e toda cimentada como o eram uns dep\u00f3sitos de coisas velhas, as privadas, o quarto da cozinheira e o cacifro da copeirinha. A propria Maria bem-amada. Pois o Zeg\u00e3o soltou-me o romance. No princ\u00edpio ele apenas desejara o diabo da mulatinha mas acabara naquela paix\u00e3o de que nem era bom pensar. Ele ia e vinha dentro da casa, tomando as posi\u00e7\u00f5es prodigiosas dadas pelo servi\u00e7o dom\u00e9stico. Um bra\u00e7o que se levanta para limpar um alto de arm\u00e1rio e era a manga caindo e mostrando o sovaco, levantando todo o vestido no esfor\u00e7o e deixando entrever um princ\u00edpio de perna. Os agachados favor\u00e1veis \u00e0 forma das n\u00e1degas e aos olhares de quem vem de frente e arrisca um olho nos joelhos, entre as coxas e \u00e0s vezes lobriga o escuro do tri\u00e2ngulo. Sem cal\u00e7a, sem cal\u00e7a. Limpando o ch\u00e3o, de quatro, de cata-cavaco, mostrando por tr\u00e1s a bunda que levanta as an\u00e1guas, de cima para baixo os seios entrevistos pelo decote do vestido ca\u00eddo. A atitude hier\u00e1tica trazendo a oferenda de uma bandeja com a \u00e1gua o caf\u00e9, a m\u00e3o estendida com a carta, o jornal, o embrulho \u2013 perto, perto, perto de se sentir o oleoso dos cabelos, o alm\u00edscar do corpo, o suor seco da roupa ressuada, o ali\u00e1ceo das axilas, o acre do resto, o doce do h\u00e1lito e outros aromas, eflu\u00eancias, odores, exala\u00e7\u00f5es, efl\u00favios que se desprendem e sobem dum corpo jovem e forte e belo como a emana\u00e7\u00e3o das flores, das folhas pisadas, das frutas maduras; como o cheiro concentrado da fuma\u00e7a das aras e dos tur\u00edbulos; o que vem no vento carregado de noite e mar e sal.\u201d O nome acima referido por duas vezes, que continuar\u00e1 sendo citado, \u00e9 do primo do maior memorialista de nossas plagas. Tanto ele, protagonista, quanto o Nava, mero escada, formavam a dupla alian\u00e7a de adolescentes nessa \u00e9poca de derrota da Tr\u00edplice Alian\u00e7a\u2026 \u201cAh! Nessas horas o Zeg\u00e3o reniflava e absorvia pelas ventas a Maria que ele ainda n\u00e3o ousara atracar. Gostava de esper\u00e1-la vindo das compras, com a tia, uma cesta pesada na cabe\u00e7a, a espinha endurecida no esfor\u00e7o, os seios projetados, a cabe\u00e7a, a espinha endurecida no esfor\u00e7o, os seios projetados, a cabe\u00e7a ereta como as das est\u00e1tuas portantes do Erect\u00eaion. Absorvia-a com os olhos, devorava-a na luz. Gostava de v\u00ea-la, de proa, seguindo o roulis e o tangage da bacia e das n\u00e1degas como os duma ave vogando. Arrostando todos\u00a0 os perigos passara a espion\u00e1-la, vira-a sentada na banca da latrina, uma nesga, pelo buraco da fechadura. Dera para fiscalizar \u00a0o banheiro de baixo, logo depois da hora que ele sabia ser a do seu banho, de tardinha, preparando para servir o jantar.\u201d \u2026 e de fasc\u00ednio pela Maria. \u201cE que mulata! Teria seus quinze, dezesseis anos. Tinha a roupa em cima do corpo e cada movimento seu era como se se animasse uma rede cheia de pombas. Tinha os olhos excessivos da ra\u00e7a, era cor de cobre escuro, cabelo moroso, bem acamado e aberto ao meio. Admirei sua naturalidade. Olhou o Zeg\u00e3o, depois a mim, deve ter visto nossa semelhan\u00e7a porque achou engra\u00e7ado e sua boca sorriu mostrando os dentes que pareciam mais claros no roxo quase preto das gengivas e dos bei\u00e7os. Tinha os seios pequeninos, desses de esgar\u00e7ar corpinho e vestido \u2013 de t\u00e3o duros. Ao sair apreciei a firmeza de suas n\u00e1degas e o rego onde colava um pouco a saia e pude vislumdeslumbrar, saindo das chinelinhas, seus calcanhares cor-de-rosa contranstando com o bronze da pele da canela onde velha ferida deixara cicatriz de um azul-noturno met\u00e1lico e profundo. Nunca mais esqueci a gra\u00e7a de sua silhueta de menina e mo\u00e7a (\u2026). Toda ela era floral e petalar como um r\u00e1pido beijo adejo. \u201cMas eu queria saber, saber at\u00e9 que ponto tinham ido as coisas e como. O Zeg\u00e3o disse que tinha sido muito dif\u00edcil. Ele com medo dos tios. E voc\u00ea sabe que nessas coisas eles n\u00e3o brincam\u2026 Mas come\u00e7ara o namoro com cautelas de ladr\u00e3o. A Maria fingia que n\u00e3o via, mas via, porque rebolava mais\u2026\u201d Iremos saber daqui a pouquinho de que maneira a coisa rolou. 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