{"id":13665,"date":"2018-01-27T22:07:21","date_gmt":"2018-01-28T01:07:21","guid":{"rendered":"http:\/\/mapati.com.br\/?p=13665"},"modified":"2018-01-27T22:07:21","modified_gmt":"2018-01-28T01:07:21","slug":"memorias-memorialistas-liv","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/memorias-memorialistas-liv\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3rias\/Memorialistas (LIV)"},"content":{"rendered":"<p style=\"font-weight: 400;\">Nos anos de 1960 a 1980, quem viajava de carro ou de \u00f4nibus do Rio de Janeiro para Bras\u00edlia (ou vice-versa) encarava uma BR\u2013 040 in\u00f3spita, parada decente quase nenhuma e postos de gasolina (j\u00e1 havia \u00e1lcool?) distantes muitos e muitos quil\u00f4metros uns dos outros, a maioria deles fechava cedo. Os motoristas (as motoristas eram poucas) esquecidos desse detalhe, tanque de combust\u00edvel \u00e0 m\u00edngua, punham-se a comemorar quando, impedidos de seguir a jornada pelo ponteirinho na reserva, eram todavia bafejados pela lei das compensa\u00e7\u00f5es por se encontrar pr\u00f3ximos a um dos raros hot\u00e9is \u00e0 beira da rodovia.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">N\u00e3o t\u00ednhamos autoestradas (a coisa come\u00e7ou por Juiz de Fora), os nossos carros e os \u00f4nibus interestaduais n\u00e3o serpenteavam as cidades, que eram por n\u00f3s atravessadas em meio a ruas prec\u00e1rias e j\u00e1 razoavelmente movimentadas. Percebam que n\u00e3o falo de Belo Horizonte, que, pela exist\u00eancia de montanhas de ferro ao derredor, \u201cprendia\u201d nossos ve\u00edculos, colava-os no asfalto, a for\u00e7a do magnetismo, um custo desenvolver velocidade, torque barricheliano.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">N\u00e3o falei de BH, falei de minas de ferro, o que evoca mais uma vez o\u00a0<em>Ch\u00e3o de ferro<\/em>, o Zeg\u00e3o aqui dando lugar nas \u201cproezas\u201d ao seu primo Pedro Nava, de cujas mem\u00f3rias me sinto impotente para me desprender, me descolar.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: right;\"><em>\u201cNuma aberta destas grandes chuvas, vendo chegar a roupa lavada na cabe\u00e7a duma mulata velha, lembrei-me da negra Cec\u00edlia. Perguntei por ela \u00e0 Deolinda. A Cec\u00edlia lavadeira? Tinha tempos que n\u00e3o via. Tava sumida. Sumida das vistas mas presente na lembran\u00e7a daquelas f\u00e9rias em que eu fora ao seu barrac\u00e3o em v\u00e3o. De noite deitei com sua lembran\u00e7a borboleta escura, pensei nela at\u00e9 pegar no sono e decidi, de mim para mim, procur\u00e1-la no dia seguinte.\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Da mesma sorte (ou azar), volvemos ao racismo n\u00e3o sucumbente mesmo duas d\u00e9cadas ap\u00f3s a mistifica\u00e7\u00e3o do abolicionismo. Epa, cumpre repetir: ele, o racismo \u2013 e n\u00e3o o abolicionismo \u2013 ainda est\u00e1 por aqui, firme e forte. Verdade que o Nava \u201cbate\u201d na mulata, mas n\u00e3o livra a pele (valem as duas acep\u00e7\u00f5es) do vasca\u00edno, desprotegido, candidat\u00edssimo aos cornos que o memorialista ent\u00e3o na juventude tencionava pregar-lhe sem piedade .<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: right;\"><em>\u201cFui nos passos do caminho conhecido. Gritei \u00f4! de casa \u2013 na porta aberta. Apareceu outra crioula e a alma caiu-me aos p\u00e9s com as informa\u00e7\u00f5es recebidas. A Cec\u00edlia estava amigada com um galego, Seu Antoninho, dono duma bodega no alto de Pirapetinga, quase na esquina do Cara\u00e7a, rente ao\u00a0<\/em>Chal\u00e9 das Vi\u00favas<em>. Eu tinha passado mais de ano sem pensar no diabo da preta mas \u00e0 id\u00e9ia do portugu\u00eas de cama e pucarinho com ela \u2013 minha cabe\u00e7a esquentou prodigiosamente. Subi Ghumbo como uma fera e justamente na esquina do Cara\u00e7a percebi o berda merda do Seu Antoninho descendo, de gravata e colarinho, como quem\u00a0vai para a cidade. Deixei passar, acompanhei de longe, parei defronte ao Doutor Aleixo e fiquei de alcat\u00e9ia para ver se ele ia mesmo descer. Veio o bonde. Parou no ponto. O motorneiro virou a lan\u00e7a. Ele entrou. Desceu. Campo livre, voltei e tomei pela ladeira do Cara\u00e7a. No alto, logo \u00e0 esquerda, o botequim. Vazio. Entrei, bati com um n\u00edquel no balc\u00e3o e &#8230;<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">D\u00favida n\u00e3o havia de que, muito mais interessante do que o posto de combust\u00edvel da propaganda destes nossos tempos de pr\u00e9-sal, o boteco guardava preciosidade outra. Atr\u00e1s do balc\u00e3o, o predador n\u00e3o divisava pinga, aguardente, cerveja nem pretendia bater um prato de gororoba.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: right;\"><em>&#8230; logo a apari\u00e7\u00e3o de Cec\u00edlia, negra e toda vestida de branco. Sua roupa estalava de goma e ela trazia um ramo verde no pixaim. Riu toda, tranq\u00fcila como se tivesse me visto na v\u00e9spera. Perturbado pedi uma com\u00a0<\/em>fernete<strong><em>.\u00a0<\/em><\/strong><em>Bebi, puxei o pigarro, esquentei e soltei o que queria.\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">N\u00e3o se sabe se o pri\u00e1pico trajava cal\u00e7as curtas, talvez n\u00e3o, porque j\u00e1 na adolesc\u00eancia, fase na qual achamos que tudo \u00e9 poss\u00edvel, tudo \u00e9 alcan\u00e7\u00e1vel. Os planos restariam alterados quando do outro lado do balc\u00e3o havia pessoa astuciosa e fidel\u00edssima. Vemos ent\u00e3o o registro da negativa categ\u00f3rica da hero\u00edna em \u00e9poca muito antes do surgimento da bem vinda milit\u00e2ncia das atrizes americanas e das (mais temperadas) cong\u00eaneres francesas.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: right;\"><em>\u201cContinuou se rindo e disse docemente que n\u00e3o. N\u00e3o, n\u00e3o adianta, o Toninho me traz no trinque e eu n\u00e3o fa\u00e7o isso com ele n\u00e3o. N\u00e3o perco minha situa\u00e7\u00e3o. Se n\u00e3o lembro? se n\u00e3o gosto? Gosto, bem! mas n\u00e3o pode ser. E n\u00e3o p\u00f4de mesmo. Por mais que eu insistisse a diaba foi inflex\u00edvel. Negava sorrindo, me olhando docemente, mas negava. Implorei&#8230;\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">O Pedro Nava, tomado pelo recalque, apela para a inj\u00faria e a grosseria.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: right;\"><em>\u201cAmeacei. N\u00e3o e n\u00e3o e n\u00e3o. Perdi a paci\u00eancia. Ent\u00e3o melhor pra mim, sua vaca! que n\u00e3o pego gonorr\u00e9ia nessa rabo podre. Desci a ladeira trambulhando feito enxurrada. Parei embaixo e olhei para atr\u00e1s. Ela tinha vindo at\u00e9 sua esquina, tinha. E l\u00e1 de cima ria docemente, toda de branco, sobrevestida da tarde que ca\u00eda. Duas vezes ela n\u00e3o pudera, da terceira n\u00e3o queria. Da quarta tinha de ser. Ai! de mim: n\u00e3o seria e a Cec\u00edlia de impossibilidade em impossibilidade desfar-se-ia no meu desejo e ficaria, eterna, a oportunidade sempre perdida (&#8230;).\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>\u00a0<\/em>O mach\u00e3o n\u00e3o esmorece. Abandona o protetorado luso onde ambientada a Cec\u00edlia, a ingrata, como ele a qualificaria p\u00e1ginas adiante do livro, e delibera se enovelar no protetorado italiano.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: right;\"><em>\u201cChamava-se Valentina e era filha dum carcamano&#8230;\u201d\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">27\/01\/2018<\/p>\n<p style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit; text-align: right;\">(273)<\/p>\n<p style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit; text-align: right;\"><a href=\"mailto:mmsmarcos1953@hotmail.com\">mmsmarcos1953@hotmail.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nos anos de 1960 a 1980, quem viajava de carro ou de \u00f4nibus do Rio de Janeiro para Bras\u00edlia (ou vice-versa) encarava uma BR\u2013 040 in\u00f3spita, parada decente quase nenhuma e postos de gasolina (j\u00e1 havia \u00e1lcool?) distantes muitos e muitos quil\u00f4metros uns dos outros, a maioria deles fechava cedo. Os motoristas (as motoristas eram poucas) esquecidos desse detalhe, tanque de combust\u00edvel \u00e0 m\u00edngua, punham-se a comemorar quando, impedidos de seguir a jornada pelo ponteirinho na reserva, eram todavia bafejados pela lei das compensa\u00e7\u00f5es por se encontrar pr\u00f3ximos a um dos raros hot\u00e9is \u00e0 beira da rodovia. N\u00e3o t\u00ednhamos autoestradas (a coisa come\u00e7ou por Juiz de Fora), os nossos carros e os \u00f4nibus interestaduais n\u00e3o serpenteavam as cidades, que eram por n\u00f3s atravessadas em meio a ruas prec\u00e1rias e j\u00e1 razoavelmente movimentadas. Percebam que n\u00e3o falo de Belo Horizonte, que, pela exist\u00eancia de montanhas de ferro ao derredor, \u201cprendia\u201d nossos ve\u00edculos, colava-os no asfalto, a for\u00e7a do magnetismo, um custo desenvolver velocidade, torque barricheliano. 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Epa, cumpre repetir: ele, o racismo \u2013 e n\u00e3o o abolicionismo \u2013 ainda est\u00e1 por aqui, firme e forte. Verdade que o Nava \u201cbate\u201d na mulata, mas n\u00e3o livra a pele (valem as duas acep\u00e7\u00f5es) do vasca\u00edno, desprotegido, candidat\u00edssimo aos cornos que o memorialista ent\u00e3o na juventude tencionava pregar-lhe sem piedade . \u201cFui nos passos do caminho conhecido. Gritei \u00f4! de casa \u2013 na porta aberta. Apareceu outra crioula e a alma caiu-me aos p\u00e9s com as informa\u00e7\u00f5es recebidas. A Cec\u00edlia estava amigada com um galego, Seu Antoninho, dono duma bodega no alto de Pirapetinga, quase na esquina do Cara\u00e7a, rente ao\u00a0Chal\u00e9 das Vi\u00favas. Eu tinha passado mais de ano sem pensar no diabo da preta mas \u00e0 id\u00e9ia do portugu\u00eas de cama e pucarinho com ela \u2013 minha cabe\u00e7a esquentou prodigiosamente. Subi Ghumbo como uma fera e justamente na esquina do Cara\u00e7a percebi o berda merda do Seu Antoninho descendo, de gravata e colarinho, como quem\u00a0vai para a cidade. Deixei passar, acompanhei de longe, parei defronte ao Doutor Aleixo e fiquei de alcat\u00e9ia para ver se ele ia mesmo descer. Veio o bonde. Parou no ponto. O motorneiro virou a lan\u00e7a. Ele entrou. Desceu. Campo livre, voltei e tomei pela ladeira do Cara\u00e7a. No alto, logo \u00e0 esquerda, o botequim. Vazio. Entrei, bati com um n\u00edquel no balc\u00e3o e &#8230; D\u00favida n\u00e3o havia de que, muito mais interessante do que o posto de combust\u00edvel da propaganda destes nossos tempos de pr\u00e9-sal, o boteco guardava preciosidade outra. Atr\u00e1s do balc\u00e3o, o predador n\u00e3o divisava pinga, aguardente, cerveja nem pretendia bater um prato de gororoba. &#8230; logo a apari\u00e7\u00e3o de Cec\u00edlia, negra e toda vestida de branco. Sua roupa estalava de goma e ela trazia um ramo verde no pixaim. Riu toda, tranq\u00fcila como se tivesse me visto na v\u00e9spera. Perturbado pedi uma com\u00a0fernete.\u00a0Bebi, puxei o pigarro, esquentei e soltei o que queria.\u201d N\u00e3o se sabe se o pri\u00e1pico trajava cal\u00e7as curtas, talvez n\u00e3o, porque j\u00e1 na adolesc\u00eancia, fase na qual achamos que tudo \u00e9 poss\u00edvel, tudo \u00e9 alcan\u00e7\u00e1vel. Os planos restariam alterados quando do outro lado do balc\u00e3o havia pessoa astuciosa e fidel\u00edssima. Vemos ent\u00e3o o registro da negativa categ\u00f3rica da hero\u00edna em \u00e9poca muito antes do surgimento da bem vinda milit\u00e2ncia das atrizes americanas e das (mais temperadas) cong\u00eaneres francesas. \u201cContinuou se rindo e disse docemente que n\u00e3o. N\u00e3o, n\u00e3o adianta, o Toninho me traz no trinque e eu n\u00e3o fa\u00e7o isso com ele n\u00e3o. N\u00e3o perco minha situa\u00e7\u00e3o. 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