{"id":13919,"date":"2018-04-07T16:58:38","date_gmt":"2018-04-07T19:58:38","guid":{"rendered":"http:\/\/mapati.com.br\/?p=13919"},"modified":"2018-04-07T16:58:38","modified_gmt":"2018-04-07T19:58:38","slug":"memorias-memorialistas-lv","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/memorias-memorialistas-lv\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3rias\/Memorialistas (LV)"},"content":{"rendered":"<p style=\"font-weight: 400; text-align: right;\"><em>Acho que a resposta est\u00e1 em como o c\u00e9rebro processa experi\u00eancias e mem\u00f3rias n\u00e3o como registros dos sentidos em isolado, e, sim, um registro unificado do am\u00e1lgama de tudo o que acontecia no momento, do lado de fora e de dentro do corpo.<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: right;\"><em>\u00a0<\/em><em>Suzana Herculano-Houzel<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Oriundo das Minas Gerais, meu pai n\u00e3o era todavia muito discreto no jeit\u00e3o e nos relacionamentos interpessoais. Quanto \u00e0s prefer\u00eancias alimentares, n\u00e3o se lhe podia negar nascimento no estado das montanhas de ferro: o velho se liquefazia em l\u00e1grimas diante de um torresminho. Nada de levar ao prato comidas despercebidas no palato pois o que despenhava no es\u00f4fago havia de incendiar a boca do estombrago.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Em nossa casa, falta de picles era impens\u00e1vel. Nos almo\u00e7os, cortavam-se os ingredientes acondicionados no vidro \u2013 pepino, couve-flor, cenoura, azeitona \u2013, migalhas espalhadas pelos pratos condimentando a refei\u00e7\u00e3o de arte a tornar o feij\u00e3o e tamb\u00e9m o arroz em iguarias saboros\u00edssimas.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/mapati.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/277_PASQUIM.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-13921 aligncenter\" src=\"http:\/\/mapati.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/277_PASQUIM.jpg\" alt=\"\" width=\"426\" height=\"541\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Nesse passo (ou nessa sentada \u2013 \u00e0 mesa), aflora na minha mente a lembran\u00e7a de\u00a0<em>O Pasquim<\/em>, c\u00e9lebre e revolucion\u00e1rio jornaleco fundado por Jaguar, Ziraldo (pai da Daniela Thomas), Tarso de Castro (pai do Jo\u00e3o Vicente, do \u201cPorta dos fundos\u201d), entre outros, que tinha uma se\u00e7\u00e3o denominada \u00a0<em>Picles<\/em>, trocadilhos enviados pelos leitores (numa das edi\u00e7\u00f5es, publicaram alguns de minha lavra; imaginem como eu me senti).<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Estimulado pelo picles, palavrinha sobremodo picante, e substituindo o leite (mineiro, do Pedro Nava e do Afonso Arinos) pelo caf\u00e9 (paulista), volto a me encontrar com o Paulo Duarte para inserir nesta postagem (precisarei de outras) algumas iguarias do\u00a0<em>Selva oscura<\/em>\u00a0(senhor revisor, n\u00e3o \u00e9 obscura), volume 3 das mem\u00f3rias do grande antrop\u00f3logo sa\u00eddo da cidade de Franca, autor de fa\u00e7anhas em prol do Brasil, m\u00e1xime a de ter sido um dos fundadores da Universidade de S\u00e3o Paulo \u2013 USP.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">De vida material sofrida, o memorialista sem embargo pontificava ao lado de figuras not\u00e1veis da pol\u00edtica e da cultura \u2013 cito rapidamente Armando Sales e quase toda a fam\u00edlia Mesquita, fundadora e propriet\u00e1ria do jornal Estad\u00e3o \u2013 e nos anos de 1970 gratificou os leitores e leitoras com essa vasta e admir\u00e1vel obra, de que destaco estes trechos abordando os anos de 1920, mas que n\u00e3o deixam de significar cr\u00edticas a uma parte da direita.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: right;\"><em>\u201cOra P\u00e1tria para muitos militares n\u00e3o tem o conte\u00fado do patriotismo, mas o da patriotice ou da patriotada. P\u00e1tria para tantos brasileiros \u00e9 ficar im\u00f3vel, perfilado com emo\u00e7\u00e3o quando se desfralda a bandeira ou quando se toca o hino nacional. Os civis ent\u00e3o, estes passaram a imitar os Estados Unidos; \u2018nesses momentos solenes\u2019 eles estufam o peito, chupam a barriga e p\u00f5em a m\u00e3o direita aberta sobre o cora\u00e7\u00e3o. E proclamam que o nosso pa\u00eds \u00e9 o maior do mundo; que as aves que gorjeiam l\u00e1 fora n\u00e3o gorjeiam como as de c\u00e1; que o brasileiro \u00e9 o maior povo do mundo; pensam at\u00e9 que a lama dos outros pa\u00edses \u00e9 mais impura do que a nossa e chegam ao m\u00e1ximo de repetir sem pensar na incongru\u00eancia: Deus \u00e9 brasileiro. Voltaire, ironizando o conceito j\u00e1 caduco no seu tempo dizia risonhamente que o amor \u00e0 P\u00e1tria \u00e9 aquele que nos obriga a adorar como a um deus o nosso pa\u00eds e odiar como a um diabo todos os outros.\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">N\u00e3o saciado, par\u00e1grafos abaixo o Paulo Duarte se escora no aux\u00edlio luxuoso de declara\u00e7\u00e3o dada por ningu\u00e9m menos que Rui Barbosa. A dupla aleat\u00f3ria fustiga o pessoal que clama por interven\u00e7\u00e3o militar e se acha dono exclusivo dos s\u00edmbolos da Rep\u00fablica.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: right;\"><em>\u201c\u2019A mem\u00f3ria hist\u00f3rica conhece bem hoje o que sofreu este com a intromiss\u00e3o militar na prote\u00e7\u00e3o a governos desp\u00f3ticos, que s\u00f3 permaneceram com a guarda das baionetas do Ex\u00e9rcito e da sem-vergonhice de civis sabujos.\u2019\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>\u00a0<\/em>Como este\u00a0<em>blog<\/em>\u00a0pouco ou nada lido n\u00e3o faz proselitismo, brevemente trarei \u00e0 cola\u00e7\u00e3o passagens do livro em tela nas quais o memorialista critica uma parte da esquerda.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">06\/04\/2018<\/p>\n<p style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit;\">(277)<\/p>\n<p style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit;\"><a href=\"mailto:mmsmarcos1953@hotmail.com\">mmsmarcos1953@hotmail.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Acho que a resposta est\u00e1 em como o c\u00e9rebro processa experi\u00eancias e mem\u00f3rias n\u00e3o como registros dos sentidos em isolado, e, sim, um registro unificado do am\u00e1lgama de tudo o que acontecia no momento, do lado de fora e de dentro do corpo. \u00a0Suzana Herculano-Houzel Oriundo das Minas Gerais, meu pai n\u00e3o era todavia muito discreto no jeit\u00e3o e nos relacionamentos interpessoais. 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Nesse passo (ou nessa sentada \u2013 \u00e0 mesa), aflora na minha mente a lembran\u00e7a de\u00a0O Pasquim, c\u00e9lebre e revolucion\u00e1rio jornaleco fundado por Jaguar, Ziraldo (pai da Daniela Thomas), Tarso de Castro (pai do Jo\u00e3o Vicente, do \u201cPorta dos fundos\u201d), entre outros, que tinha uma se\u00e7\u00e3o denominada \u00a0Picles, trocadilhos enviados pelos leitores (numa das edi\u00e7\u00f5es, publicaram alguns de minha lavra; imaginem como eu me senti). Estimulado pelo picles, palavrinha sobremodo picante, e substituindo o leite (mineiro, do Pedro Nava e do Afonso Arinos) pelo caf\u00e9 (paulista), volto a me encontrar com o Paulo Duarte para inserir nesta postagem (precisarei de outras) algumas iguarias do\u00a0Selva oscura\u00a0(senhor revisor, n\u00e3o \u00e9 obscura), volume 3 das mem\u00f3rias do grande antrop\u00f3logo sa\u00eddo da cidade de Franca, autor de fa\u00e7anhas em prol do Brasil, m\u00e1xime a de ter sido um dos fundadores da Universidade de S\u00e3o Paulo \u2013 USP. De vida material sofrida, o memorialista sem embargo pontificava ao lado de figuras not\u00e1veis da pol\u00edtica e da cultura \u2013 cito rapidamente Armando Sales e quase toda a fam\u00edlia Mesquita, fundadora e propriet\u00e1ria do jornal Estad\u00e3o \u2013 e nos anos de 1970 gratificou os leitores e leitoras com essa vasta e admir\u00e1vel obra, de que destaco estes trechos abordando os anos de 1920, mas que n\u00e3o deixam de significar cr\u00edticas a uma parte da direita. \u201cOra P\u00e1tria para muitos militares n\u00e3o tem o conte\u00fado do patriotismo, mas o da patriotice ou da patriotada. P\u00e1tria para tantos brasileiros \u00e9 ficar im\u00f3vel, perfilado com emo\u00e7\u00e3o quando se desfralda a bandeira ou quando se toca o hino nacional. Os civis ent\u00e3o, estes passaram a imitar os Estados Unidos; \u2018nesses momentos solenes\u2019 eles estufam o peito, chupam a barriga e p\u00f5em a m\u00e3o direita aberta sobre o cora\u00e7\u00e3o. E proclamam que o nosso pa\u00eds \u00e9 o maior do mundo; que as aves que gorjeiam l\u00e1 fora n\u00e3o gorjeiam como as de c\u00e1; que o brasileiro \u00e9 o maior povo do mundo; pensam at\u00e9 que a lama dos outros pa\u00edses \u00e9 mais impura do que a nossa e chegam ao m\u00e1ximo de repetir sem pensar na incongru\u00eancia: Deus \u00e9 brasileiro. Voltaire, ironizando o conceito j\u00e1 caduco no seu tempo dizia risonhamente que o amor \u00e0 P\u00e1tria \u00e9 aquele que nos obriga a adorar como a um deus o nosso pa\u00eds e odiar como a um diabo todos os outros.\u201d N\u00e3o saciado, par\u00e1grafos abaixo o Paulo Duarte se escora no aux\u00edlio luxuoso de declara\u00e7\u00e3o dada por ningu\u00e9m menos que Rui Barbosa. A dupla aleat\u00f3ria fustiga o pessoal que clama por interven\u00e7\u00e3o militar e se acha dono exclusivo dos s\u00edmbolos da Rep\u00fablica. \u201c\u2019A mem\u00f3ria hist\u00f3rica conhece bem hoje o que sofreu este com a intromiss\u00e3o militar na prote\u00e7\u00e3o a governos desp\u00f3ticos, que s\u00f3 permaneceram com a guarda das baionetas do Ex\u00e9rcito e da sem-vergonhice de civis sabujos.\u2019\u201d \u00a0Como este\u00a0blog\u00a0pouco ou nada lido n\u00e3o faz proselitismo, brevemente trarei \u00e0 cola\u00e7\u00e3o passagens do livro em tela nas quais o memorialista critica uma parte da esquerda. 06\/04\/2018 (277) mmsmarcos1953@hotmail.com<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-13919","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13919","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13919"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13919\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13922,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13919\/revisions\/13922"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13919"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13919"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13919"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}