{"id":13955,"date":"2018-05-10T15:02:40","date_gmt":"2018-05-10T18:02:40","guid":{"rendered":"http:\/\/mapati.com.br\/?p=13955"},"modified":"2018-05-11T12:44:05","modified_gmt":"2018-05-11T15:44:05","slug":"memorias-memorialistas-lvi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/memorias-memorialistas-lvi\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3rias\/Memorialistas (LVI)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">\n\t<em>Eis porque adoro a conversa calma e amig&aacute;vel; o ambiente que acolhe e n&atilde;o acusa; a amizade que n&atilde;o pressup&otilde;e mal&iacute;cia da outra parte; a autoridade do saber,<br \/>\n\te n&atilde;o a de mando; a democracia parlamentar, e n&atilde;o a tirania.<\/em>\n<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">\n\t(Francisco Daudt)\n<\/p>\n<p>\n\tN&atilde;o me desprego do s&eacute;culo p. passado, o foco ainda nas d&eacute;cadas iniciais, na companhia do Paulo Duarte, festejado pelo &Eacute;rico Ver&iacute;ssimo, autor da obra formid&aacute;vel; em pr&oacute;ximas postagens, dever&aacute; surgir a parte memorial&iacute;stica, constante nos livros Solo da Clarineta I e II, reafirmando compromisso que assumi aqui em 2015, n&atilde;o honrado.\n<\/p>\n<p>\n\tAos tr&ecirc;s mosqueteiros estrelas deste t&oacute;pico do blog, os mineiros Afonso Arinos e Pedro Nava e o paulista Paulo Duarte, juntarei pois o escritor ga&uacute;cho (pai do Luiz Fernando Ver&iacute;ssimo) que bradou na contracapa do volume 3, Selva Oscura, ora em tela:\n<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">\n\t<em>&ldquo;Quero chamar a aten&ccedil;&atilde;o de quem me l&ecirc; para uma figura humana de nosso tempo, um certo Paulo Duarte&#8230; Trata-se fundamentalmente dum humanista a servi&ccedil;o dos direitos e da dignidade do homem&#8230;&rdquo;<\/em>\n<\/p>\n<p>\n\tEvadiu-se da minha mente tisnada o fato de o Paulo Duarte haver percorrido as veredas do Direito. E que import&acirc;ncia o advogado-antrop&oacute;logo ou antrop&oacute;logo-advogado n&atilde;o teria nestes nossos dias violentos e mesquinhos.\n<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">\n\t<em>&ldquo;(&#8230;) Desde a adolesc&ecirc;ncia, a ci&ecirc;ncia criminol&oacute;gica me fascinava. Talvez o eco imenso de Lombroso e Ferri, depois. Creio mesmo que esse fasc&iacute;nio viera ao mesmo tempo que a atra&ccedil;&atilde;o pela Antropologia, a come&ccedil;ar pela Pr&eacute;-Hist&oacute;ria&#8230; Li atabalhoadamente muita coisa a respeito at&eacute; matricular-me na Faculdade de Direito, escola med&iacute;ocre e desatualizada que, apesar de tudo, possu&iacute;a alguns professores de respeito, como&#8230; Gama Cerqueira. Foi&#8230; quem me despertou voca&ccedil;&atilde;o para a Criminologia. &Eacute; que Gama Cerqueira, apesar de pouco ass&iacute;duo &agrave; c&aacute;tedra, era um grande professor. Culto, de uma clareza did&aacute;tica invej&aacute;vel, o &uacute;nico professor do meu tempo que atra&iacute;a para as suas aulas esparsas alunos de outros anos e at&eacute; alguns m&eacute;dicos e advogados j&aacute; formados.&rdquo;<\/em>\n<\/p>\n<p>\n\tEsse Gama me evoca mais uma vez meu professor de Medicina Legal na UnB (Hermes) da primeira metade dos anos de 1970, a capturar igualmente alunos de outros cursos fora do Direito (sobretudo os da Comunica&ccedil;&atilde;o, os porra-loucas) para suas aulas, momentos em que, trajando indefect&iacute;vel jaleco, conduzia-se com pitadas mordazes e alus&otilde;es as mais sacanas, um tapa na censura vigente, deixando nas lonjuras o t&eacute;trico, l&uacute;gubre ambiente do necrot&eacute;rio.\n<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">\n\t<em>&ldquo;(&#8230;) n&atilde;o foi dif&iacute;cil cair na atra&ccedil;&atilde;o exercida por Gama Cerqueira quando iniciei um estudo met&oacute;dico da ci&ecirc;ncia criminal. Um dia, ou melhor, uma noite, em casa de Gama Cerqueira, j&aacute; eu ia adiantadinho nos meus estudos, embebido na palestra tranq&uuml;ila e l&uacute;cida deste, quando ele me falava da precariedade das penitenci&aacute;rias de todo mundo que ainda encaravam o criminoso como um simples homem mau que devia ser castigado pelos seus crimes ou receber a justa vingan&ccedil;a da sociedade(&#8230;)&rdquo;<\/em>\n<\/p>\n<p>\n\t<a href=\"http:\/\/mapati.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/prisao278.jpg\" rel=\"\" style=\"\" target=\"\" title=\"\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" alt=\"\" class=\"size-full wp-image-13960 aligncenter\" height=\"672\" src=\"http:\/\/mapati.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/prisao278.jpg\" style=\"\" title=\"\" width=\"502\" srcset=\"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/prisao278.jpg 717w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/prisao278-224x300.jpg 224w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/prisao278-200x268.jpg 200w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/prisao278-400x536.jpg 400w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/prisao278-600x803.jpg 600w\" sizes=\"(max-width: 502px) 100vw, 502px\" \/><\/a>\n<\/p>\n<p>\n\tFico me perguntando o que o Paulo Duarte, porventura reencarnado, acharia desta nossa &eacute;poca do Carandiru demolido com suas 111 almas penadas; do Pinhais coalhado de homens de colarinho branco (ou n&atilde;o); de Bangu 8 repleto de moradores sa&iacute;dos do Leblon e de bairros cariocas n&atilde;o menos nobres. Conservador embora, nosso bacharel da cidade de Franca narrava, com tinturas liberalizantes e atento &agrave;s linhas da sociologia e da antropologia, os descaminhos daqueles que foram jogados naquilo que se chama do mundo do crime e l&aacute; permanecer&atilde;o ou, libertados, para l&aacute; retornar&atilde;o logo, porquanto impratic&aacute;vel apelarem (sem trocadilho) para o resgate da dignidade pela via do trabalho (que nem hoje existe) e assim reintegrarem-se &agrave; sociedade.\n<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">\n\t<em>&ldquo;(&#8230;) A maioria, mais de 70% dos condenados da penitenci&aacute;ria industrial de S&atilde;o Paulo &eacute; composta de homens do campo, lavradores transformados coercitivamente em oper&aacute;rios de m&aacute;quinas. M&aacute;quinas que os desadaptavam mas n&atilde;o os convertiam em trabalhadores industriais. &Agrave;s vezes m&aacute;quinas que n&atilde;o existiam no Brasil, como uma de abrir casas e pregar bot&otilde;es utilizada na alfaiataria do Carandiru. O trabalhador ou, melhor, a v&iacute;tima aprendia a lidar admiravelmente com aquele maquinismo, mas quando de l&aacute; sa&iacute;a, n&atilde;o encontrava no Brasil inteirinho uma alfaiataria ou uma f&aacute;brica que possu&iacute;sse o &uacute;nico instrumento com o qual aprendera a trabalhar. E n&atilde;o havia nem uma penitenci&aacute;ria agr&iacute;cola.&rdquo;<\/em>\n<\/p>\n<p>\n\tSem perder de vista no meu horizonte os indiv&iacute;duos que consideram aposento de luxo o cub&iacute;culo no pr&eacute;dio da pol&iacute;cia federal em Curitiba onde &ldquo;hospedado&rdquo; Luis Inacio Lula da Silva, continuo a dirigir-me indaga&ccedil;&otilde;es. Que coment&aacute;rios tais progressistas fariam a respeito da tese defendida pelo memorialista no trecho a seguir, agora que se completa um m&ecirc;s de estada, permitidas visitas somente de alguns membros da fam&iacute;lia do ex-presidente e de seus advogados?\n<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">\n\t<em>&ldquo;(&#8230;) Acabar definitivamente com o absurdo isolamento total do encarcerado durante os tr&ecirc;s primeiros meses de cumprimento da pena. Um traumatismo desumano e in&uacute;til, pior ainda, que poderia marcar indelevelmente a v&iacute;tima j&aacute; enferma, pois o criminoso &eacute; um enfermo. Patologia Social semelhante &agrave; Patologia Cl&iacute;nica. Mas haveria ainda um hospital para tuberculosos condenados. A tuberculose &eacute; a enfermidade mais freq&uuml;ente nos hosp&iacute;cios e nas pris&otilde;es.&rdquo;<\/em>\n<\/p>\n<p>\n\tModificou-se coisa alguma&nbsp;no sistema prisional nesses mais de setenta anos transcorridos. Perduram os ataques de piolhos, doen&ccedil;as de pele at&eacute; a dissemina&ccedil;&atilde;o do HIV, expectativas da popula&ccedil;&atilde;o carcer&aacute;ria. A postagem chega ao seu termo aditando mais pol&ecirc;micas, ainda que mitigadas pelo aconselh&aacute;vel distanciamento hist&oacute;rico.\n<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">\n\t<em>&ldquo;(&#8230;) O nosso projeto n&atilde;o ignoraria nenhum dos princ&iacute;pios da Criminologia moderna&#8230; era indispens&aacute;vel n&atilde;o s&oacute; a liberdade condicional, a assist&ecirc;ncia ao egresso, sen&atilde;o tamb&eacute;m at&eacute;, para determinados criminosos isentos de deforma&ccedil;&otilde;es cong&ecirc;nitas, a pris&atilde;o sem grades&#8230; Jo&atilde;o Pessoa tentou-o na Para&iacute;ba e, entusiasmado, me levou a visitar os condenados da capital daquele Estado, todos trabalhando em obras p&uacute;blicas, praticamente sem vigil&acirc;ncia e nunca tivera um s&oacute; caso de evas&atilde;o. Quando visitei as instala&ccedil;&otilde;es da Penitenci&aacute;ria, pedi os prontu&aacute;rios dos condenados que estavam entregues &agrave;queles trabalhos, havia entre eles assassinos e ladr&otilde;es, mas os assassinos eram todos sertanejos que mataram levados pela san&ccedil;&atilde;o social da regi&atilde;o, quer dizer aqueles para os quais uma bofetada s&oacute; se lava com sangue e a honra conjugal com a morte da mulher ad&uacute;ltera e do seu amante. N&atilde;o eram pois assassinos propriamente, eram homens de uma sociedade que exigia o rito da morte para os culpados, para a reabilita&ccedil;&atilde;o do marido ou do esbofeteado. Da mesma forma os ladr&otilde;es, eram, de pequenos furtos e roubos de alimento para matar a fome, de armas necess&aacute;rias &agrave; vida sertaneja, objetos de pouco valor que jamais poderiam servir de pe&ccedil;a de diagn&oacute;stico de uma deforma&ccedil;&atilde;o pessoal profunda.&rdquo;<\/em>\n<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">\n\t<a href=\"http:\/\/www.franciscodaudt.com.br\/\">#Francisco Daudt<\/a>&nbsp;&#8211; <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/%C3%89rico_Ver%C3%ADssimo\">#&Eacute;rico Ver&iacute;ssimo<\/a> &#8211; <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Solo_de_Clarineta\">#Solo de Clarineta<\/a> &#8211; #Selva Oscura &#8211; <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Cesare_Lombroso\">#Lombroso &ndash; Ferri<\/a> &#8211; <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Criminologia\">#Criminologia<\/a> &#8211; <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Eduardo_Ernesto_da_Gama_Cerqueira\">#Gama Cerqueira<\/a> &#8211; <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Casa_de_Deten%C3%A7%C3%A3o_de_S%C3%A3o_Paulo\">#Carandiru<\/a> &ndash; #Pinhais &#8211; <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Complexo_Penitenci%C3%A1rio_de_Gericin%C3%B3\">#Bangu 8<\/a> &#8211; <a href=\"https:\/\/www.infopedia.pt\/$patologia-social\">#Patologia Social<\/a> &#8211; <a href=\"#Patologia Cl\u00ednica\">#Patologia Cl&iacute;nica<\/a>\n<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">\n\t&nbsp;\n<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">\n\t10\/05\/2018\n<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">\n\t(278)\n<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">\n\t<a href=\"http:\/\/mmsmarcos1953@hotmail.com\">mmsmarcos1953@hotmail.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eis porque adoro a conversa calma e amig&aacute;vel; o ambiente que acolhe e n&atilde;o acusa; a amizade que n&atilde;o pressup&otilde;e mal&iacute;cia da outra parte; a autoridade do saber, e n&atilde;o a de mando; a democracia parlamentar, e n&atilde;o a tirania. (Francisco Daudt) N&atilde;o me desprego do s&eacute;culo p. passado, o foco ainda nas d&eacute;cadas iniciais, na companhia do Paulo Duarte, festejado pelo &Eacute;rico Ver&iacute;ssimo, autor da obra formid&aacute;vel; em pr&oacute;ximas postagens, dever&aacute; surgir a parte memorial&iacute;stica, constante nos livros Solo da Clarineta I e II, reafirmando compromisso que assumi aqui em 2015, n&atilde;o honrado. Aos tr&ecirc;s mosqueteiros estrelas deste t&oacute;pico do blog, os mineiros Afonso Arinos e Pedro Nava e o paulista Paulo Duarte, juntarei pois o escritor ga&uacute;cho (pai do Luiz Fernando Ver&iacute;ssimo) que bradou na contracapa do volume 3, Selva Oscura, ora em tela: &ldquo;Quero chamar a aten&ccedil;&atilde;o de quem me l&ecirc; para uma figura humana de nosso tempo, um certo Paulo Duarte&#8230; Trata-se fundamentalmente dum humanista a servi&ccedil;o dos direitos e da dignidade do homem&#8230;&rdquo; Evadiu-se da minha mente tisnada o fato de o Paulo Duarte haver percorrido as veredas do Direito. E que import&acirc;ncia o advogado-antrop&oacute;logo ou antrop&oacute;logo-advogado n&atilde;o teria nestes nossos dias violentos e mesquinhos. &ldquo;(&#8230;) Desde a adolesc&ecirc;ncia, a ci&ecirc;ncia criminol&oacute;gica me fascinava. Talvez o eco imenso de Lombroso e Ferri, depois. Creio mesmo que esse fasc&iacute;nio viera ao mesmo tempo que a atra&ccedil;&atilde;o pela Antropologia, a come&ccedil;ar pela Pr&eacute;-Hist&oacute;ria&#8230; Li atabalhoadamente muita coisa a respeito at&eacute; matricular-me na Faculdade de Direito, escola med&iacute;ocre e desatualizada que, apesar de tudo, possu&iacute;a alguns professores de respeito, como&#8230; Gama Cerqueira. Foi&#8230; quem me despertou voca&ccedil;&atilde;o para a Criminologia. &Eacute; que Gama Cerqueira, apesar de pouco ass&iacute;duo &agrave; c&aacute;tedra, era um grande professor. Culto, de uma clareza did&aacute;tica invej&aacute;vel, o &uacute;nico professor do meu tempo que atra&iacute;a para as suas aulas esparsas alunos de outros anos e at&eacute; alguns m&eacute;dicos e advogados j&aacute; formados.&rdquo; Esse Gama me evoca mais uma vez meu professor de Medicina Legal na UnB (Hermes) da primeira metade dos anos de 1970, a capturar igualmente alunos de outros cursos fora do Direito (sobretudo os da Comunica&ccedil;&atilde;o, os porra-loucas) para suas aulas, momentos em que, trajando indefect&iacute;vel jaleco, conduzia-se com pitadas mordazes e alus&otilde;es as mais sacanas, um tapa na censura vigente, deixando nas lonjuras o t&eacute;trico, l&uacute;gubre ambiente do necrot&eacute;rio. &ldquo;(&#8230;) n&atilde;o foi dif&iacute;cil cair na atra&ccedil;&atilde;o exercida por Gama Cerqueira quando iniciei um estudo met&oacute;dico da ci&ecirc;ncia criminal. Um dia, ou melhor, uma noite, em casa de Gama Cerqueira, j&aacute; eu ia adiantadinho nos meus estudos, embebido na palestra tranq&uuml;ila e l&uacute;cida deste, quando ele me falava da precariedade das penitenci&aacute;rias de todo mundo que ainda encaravam o criminoso como um simples homem mau que devia ser castigado pelos seus crimes ou receber a justa vingan&ccedil;a da sociedade(&#8230;)&rdquo; Fico me perguntando o que o Paulo Duarte, porventura reencarnado, acharia desta nossa &eacute;poca do Carandiru demolido com suas 111 almas penadas; do Pinhais coalhado de homens de colarinho branco (ou n&atilde;o); de Bangu 8 repleto de moradores sa&iacute;dos do Leblon e de bairros cariocas n&atilde;o menos nobres. Conservador embora, nosso bacharel da cidade de Franca narrava, com tinturas liberalizantes e atento &agrave;s linhas da sociologia e da antropologia, os descaminhos daqueles que foram jogados naquilo que se chama do mundo do crime e l&aacute; permanecer&atilde;o ou, libertados, para l&aacute; retornar&atilde;o logo, porquanto impratic&aacute;vel apelarem (sem trocadilho) para o resgate da dignidade pela via do trabalho (que nem hoje existe) e assim reintegrarem-se &agrave; sociedade. &ldquo;(&#8230;) A maioria, mais de 70% dos condenados da penitenci&aacute;ria industrial de S&atilde;o Paulo &eacute; composta de homens do campo, lavradores transformados coercitivamente em oper&aacute;rios de m&aacute;quinas. M&aacute;quinas que os desadaptavam mas n&atilde;o os convertiam em trabalhadores industriais. &Agrave;s vezes m&aacute;quinas que n&atilde;o existiam no Brasil, como uma de abrir casas e pregar bot&otilde;es utilizada na alfaiataria do Carandiru. O trabalhador ou, melhor, a v&iacute;tima aprendia a lidar admiravelmente com aquele maquinismo, mas quando de l&aacute; sa&iacute;a, n&atilde;o encontrava no Brasil inteirinho uma alfaiataria ou uma f&aacute;brica que possu&iacute;sse o &uacute;nico instrumento com o qual aprendera a trabalhar. E n&atilde;o havia nem uma penitenci&aacute;ria agr&iacute;cola.&rdquo; Sem perder de vista no meu horizonte os indiv&iacute;duos que consideram aposento de luxo o cub&iacute;culo no pr&eacute;dio da pol&iacute;cia federal em Curitiba onde &ldquo;hospedado&rdquo; Luis Inacio Lula da Silva, continuo a dirigir-me indaga&ccedil;&otilde;es. Que coment&aacute;rios tais progressistas fariam a respeito da tese defendida pelo memorialista no trecho a seguir, agora que se completa um m&ecirc;s de estada, permitidas visitas somente de alguns membros da fam&iacute;lia do ex-presidente e de seus advogados? &ldquo;(&#8230;) Acabar definitivamente com o absurdo isolamento total do encarcerado durante os tr&ecirc;s primeiros meses de cumprimento da pena. Um traumatismo desumano e in&uacute;til, pior ainda, que poderia marcar indelevelmente a v&iacute;tima j&aacute; enferma, pois o criminoso &eacute; um enfermo. Patologia Social semelhante &agrave; Patologia Cl&iacute;nica. Mas haveria ainda um hospital para tuberculosos condenados. A tuberculose &eacute; a enfermidade mais freq&uuml;ente nos hosp&iacute;cios e nas pris&otilde;es.&rdquo; Modificou-se coisa alguma&nbsp;no sistema prisional nesses mais de setenta anos transcorridos. Perduram os ataques de piolhos, doen&ccedil;as de pele at&eacute; a dissemina&ccedil;&atilde;o do HIV, expectativas da popula&ccedil;&atilde;o carcer&aacute;ria. A postagem chega ao seu termo aditando mais pol&ecirc;micas, ainda que mitigadas pelo aconselh&aacute;vel distanciamento hist&oacute;rico. &ldquo;(&#8230;) O nosso projeto n&atilde;o ignoraria nenhum dos princ&iacute;pios da Criminologia moderna&#8230; era indispens&aacute;vel n&atilde;o s&oacute; a liberdade condicional, a assist&ecirc;ncia ao egresso, sen&atilde;o tamb&eacute;m at&eacute;, para determinados criminosos isentos de deforma&ccedil;&otilde;es cong&ecirc;nitas, a pris&atilde;o sem grades&#8230; Jo&atilde;o Pessoa tentou-o na Para&iacute;ba e, entusiasmado, me levou a visitar os condenados da capital daquele Estado, todos trabalhando em obras p&uacute;blicas, praticamente sem vigil&acirc;ncia e nunca tivera um s&oacute; caso de evas&atilde;o. Quando visitei as instala&ccedil;&otilde;es da Penitenci&aacute;ria, pedi os prontu&aacute;rios dos condenados que estavam entregues &agrave;queles trabalhos, havia entre eles assassinos e ladr&otilde;es, mas os assassinos eram todos sertanejos que mataram levados pela san&ccedil;&atilde;o social da regi&atilde;o, quer dizer aqueles para os quais uma bofetada s&oacute; se lava com sangue e a honra conjugal com a morte da mulher ad&uacute;ltera e do seu amante. N&atilde;o eram pois assassinos propriamente, eram homens de uma sociedade que exigia o rito da morte para os culpados, para a reabilita&ccedil;&atilde;o do marido ou do esbofeteado. Da mesma forma os ladr&otilde;es, eram, de pequenos furtos e roubos de alimento para matar a fome, de armas necess&aacute;rias &agrave; vida sertaneja, objetos de pouco valor que jamais poderiam servir de pe&ccedil;a de diagn&oacute;stico de uma deforma&ccedil;&atilde;o pessoal profunda.&rdquo; #Francisco Daudt&nbsp;&#8211; #&Eacute;rico Ver&iacute;ssimo &#8211; #Solo de Clarineta &#8211; #Selva Oscura &#8211; #Lombroso &ndash; Ferri &#8211; #Criminologia &#8211; #Gama Cerqueira &#8211; #Carandiru &ndash; #Pinhais &#8211; #Bangu 8 &#8211; #Patologia Social &#8211; #Patologia Cl&iacute;nica &nbsp; 10\/05\/2018 (278) mmsmarcos1953@hotmail.com<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-13955","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13955","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13955"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13955\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13964,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13955\/revisions\/13964"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13955"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13955"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13955"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}