{"id":1411,"date":"2016-03-27T14:13:07","date_gmt":"2016-03-27T14:13:07","guid":{"rendered":"http:\/\/mapati.com.br\/blog\/?p=1411"},"modified":"2016-03-27T14:13:07","modified_gmt":"2016-03-27T14:13:07","slug":"memoriasmemorialistas-xl","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/memoriasmemorialistas-xl\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3rias\/Memorialistas (XL)"},"content":{"rendered":"<p>Como entoaria a banda mineira <em>pop<\/em>, \u00a0\u00e9 f\u00e1cil, extremamente f\u00e1cil&#8230; cumprir a promessa feita na postagem imediatamente anterior, sob este t\u00edtulo. N\u00e3o \u00e9 problem\u00e1tico &#8211; \u00e9 prazeroso &#8211; manter em cena Luiz C\u00e2ndido Paranhos de Macedo, o professsor do Col\u00e9gio Pedro II onde o adolescente Pedro Nava fazia seus estudos e traquinagens, termo antigo, por\u00e9m n\u00e3o sei se j\u00e1 usado por volta dos anos de 1910\/1920.<\/p>\n<p>Na contram\u00e3o dos prop\u00f3sitos do padre que batizara o menino e do serventu\u00e1rio do cart\u00f3rio que registrara o sobrenome, o preceptor e figura principal aqui renovada nada tinha de c\u00e2ndido, de ing\u00eanuo, pois <span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>\u201c<\/em>c<em>onhecia Casa e Pessoal de fio a pavio e as baldas dos alunos de cor e salteado. Quando vinham com milho ele mostrava o fub\u00e1.\u201d<\/em><\/span><\/p>\n<p>V\u00ea-se que retomamos uma das principais qualidades do escritor nesse tomo 3, <em>Ch\u00e3o de ferro<\/em>, \u00a0que continuamos a evocar: a de nos permitir conhecer, atrav\u00e9s da sua pena de legista, os personagens na sua inteireza, expostos n\u00e3o facciosamente os defeitos e as virtudes. No trecho a seguir, usando de mistura, como met\u00e1fora, li\u00e7\u00f5es de geografia, a c\u00e1tedra em foco, o aluno posteriormente travestido de um dos maiores memorialistas do Brasil causou com sua descri\u00e7\u00f5es impag\u00e1veis e irretorqu\u00edveis.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>\u201cSeu aspecto era formidando e olh\u00e1-lo era como fitar a cabe\u00e7a de Medusa. Tinha a face toda serpenteada de veiazinhas roxas cujos cursos, conflu\u00eancias, estu\u00e1rios, embocaduras e deltas se multiplicavam no nariz a pique e nas boche\u00e7as sens\u00edveis como dunas ao vento. Toda a superf\u00edcie de sua pele era cheia de cicratizes de acne juvenil. De fur\u00fanculos e bexigas \u2013 que faziam de sua testa e queixo uma sucess\u00e3o de montanhas e vales, uma teoria de picos, talvegues, escarpas, encostas, ravinas, eros\u00f5es, gargantas, ocos de declives. Tudo isso era cor de p\u00farpura e reluzia da seborr\u00e9ia. Essa cara de apoplexia contrastava seu escarlate com o negro dos vidros do pincen\u00ea colado aos olhos, impedindo que se os visse e com a brancura dos cabelos broscarr\u00ea, do bigode de escova e da dentadura imaculada \u2013 que aparecia inteira, densa, numerosa, replicada, como se fosse de duas filas como as da queixada dos jacar\u00e9s \u2013 quando ele ria de gozo, aplicando a <\/em>\u00a0nota m\u00e1<em>. Era bojudo de tronco, s\u00f3 usava fraque, tinha pernas curtas e p\u00e9s, decerto, ultra-sens\u00edveis que justificavam que todas suas botinas fossem feitas de pano, de modo que ele dava a impress\u00e3o de estar sempre de galochas.\u201d<\/em><\/span><\/p>\n<figure id=\"attachment_1412\" aria-describedby=\"caption-attachment-1412\" style=\"width: 372px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1412\" src=\"http:\/\/2017.mapati.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/180_mapa-rs.jpg\" alt=\"http:\/\/www.brasil-turismo.com\/rio-grande-sul\/mapas-rs.htm\" width=\"372\" height=\"316\" srcset=\"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/180_mapa-rs.jpg 372w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/180_mapa-rs-300x255.jpg 300w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/180_mapa-rs-200x170.jpg 200w\" sizes=\"(max-width: 372px) 100vw, 372px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1412\" class=\"wp-caption-text\"><span style=\"font-size: 8pt;\">http:\/\/www.brasil-turismo.com\/rio-grande-sul\/mapas-rs.htm<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>Vencemos nossa batalha ((l\u00e1 em cima, f\u00e1cil; aqui, dif\u00edcil) ao conseguir penetrar nos significados desse mapa f\u00edsico esbo\u00e7ado pelo cult\u00edssimo Nava (estu\u00e1rios, talvegues, ravinas; e broscarr\u00ea?), fazendo tro\u00e7a do ga\u00facho decerto branquelo, e ca\u00edmos de sopet\u00e3o, e mais uma vez, no consult\u00f3rio do m\u00e9dico com seu diagn\u00f3stico preciso.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 120px;\"><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>\u201cHoje \u00e9 que imagino que despotismo de colesterol, que fabulosa hipertens\u00e3o! que magn\u00edfico cora\u00e7\u00e3o bovino! que fant\u00e1sticas sufoca\u00e7\u00f5es! \u2013 deviam afligir as madrugadas do nosso mestre.\u201d<\/em><\/span><\/p>\n<p>Nesta passagem adiante transcrita, curta mas emblem\u00e1tica, minha mente alcan\u00e7ou o Col\u00e9gio Dom Bosco de Bras\u00edlia, onde fiz tr\u00eas anos (1965\/1967) do ginasial (nome estranho pra turma de hoje). Estudavam ali, na W3 Sul, Quadras 702\/902, somente meninos; as meninas, no vizinho Maria Auxiliadora, comandado por freiras. Um muro de Berlim, uma muralha da China a polarizar os dois estabelecimentos unisex (ainda existe essa palavra). Contato f\u00edsico quase nenhum, a grade (verde? azul?) s\u00f3 ensejava olhares furtivos e audaciosas pegadas na m\u00e3o, iniciativas n\u00e3o raro dos meninos ou de algumas meninas tidas por \u201cmais saidinhas\u201d. A maioria de nossos professores era de padres salesianos e alguns deles nos metiam medo a partir do momento em que entravam em classe, n\u00f3s todos de uniforme e de p\u00e9 para receber o pedagogo, a autoridade, que n\u00e3o usava anel nem era cardeal &#8211; mas nos infundia temor reverencial.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>\u201cQuando ele entrou na aula, andando sobre solas de feltro, fechado, maci\u00e7o, jeito de barrica, assim feito uma calamidade silenciosa e vasta \u2013 levantamo-nos aterrados.\u201d<\/em><\/span><\/p>\n<p>Empregando outra das atual\u00edssimas express\u00f5es ventiladas neste <em>blog<\/em>, \u00a0pode-se garantir que o C\u00e2ndido ainda ir\u00e1 dar pano pra manga.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">27 de mar\u00e7o de 2016<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">(180)<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><span style=\"color: #0000ff;\"><a style=\"color: #0000ff;\" href=\"mailto:mmsmarcos1953@hotmail.com\">mmsmarcos1953@hotmail.com<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como entoaria a banda mineira pop, \u00a0\u00e9 f\u00e1cil, extremamente f\u00e1cil&#8230; cumprir a promessa feita na postagem imediatamente anterior, sob este t\u00edtulo. N\u00e3o \u00e9 problem\u00e1tico &#8211; \u00e9 prazeroso &#8211; manter em cena Luiz C\u00e2ndido Paranhos de Macedo, o professsor do Col\u00e9gio Pedro II onde o adolescente Pedro Nava fazia seus estudos e traquinagens, termo antigo, por\u00e9m n\u00e3o sei se j\u00e1 usado por volta dos anos de 1910\/1920. Na contram\u00e3o dos prop\u00f3sitos do padre que batizara o menino e do serventu\u00e1rio do cart\u00f3rio que registrara o sobrenome, o preceptor e figura principal aqui renovada nada tinha de c\u00e2ndido, de ing\u00eanuo, pois \u201cconhecia Casa e Pessoal de fio a pavio e as baldas dos alunos de cor e salteado. Quando vinham com milho ele mostrava o fub\u00e1.\u201d V\u00ea-se que retomamos uma das principais qualidades do escritor nesse tomo 3, Ch\u00e3o de ferro, \u00a0que continuamos a evocar: a de nos permitir conhecer, atrav\u00e9s da sua pena de legista, os personagens na sua inteireza, expostos n\u00e3o facciosamente os defeitos e as virtudes. No trecho a seguir, usando de mistura, como met\u00e1fora, li\u00e7\u00f5es de geografia, a c\u00e1tedra em foco, o aluno posteriormente travestido de um dos maiores memorialistas do Brasil causou com sua descri\u00e7\u00f5es impag\u00e1veis e irretorqu\u00edveis. \u201cSeu aspecto era formidando e olh\u00e1-lo era como fitar a cabe\u00e7a de Medusa. Tinha a face toda serpenteada de veiazinhas roxas cujos cursos, conflu\u00eancias, estu\u00e1rios, embocaduras e deltas se multiplicavam no nariz a pique e nas boche\u00e7as sens\u00edveis como dunas ao vento. Toda a superf\u00edcie de sua pele era cheia de cicratizes de acne juvenil. De fur\u00fanculos e bexigas \u2013 que faziam de sua testa e queixo uma sucess\u00e3o de montanhas e vales, uma teoria de picos, talvegues, escarpas, encostas, ravinas, eros\u00f5es, gargantas, ocos de declives. Tudo isso era cor de p\u00farpura e reluzia da seborr\u00e9ia. Essa cara de apoplexia contrastava seu escarlate com o negro dos vidros do pincen\u00ea colado aos olhos, impedindo que se os visse e com a brancura dos cabelos broscarr\u00ea, do bigode de escova e da dentadura imaculada \u2013 que aparecia inteira, densa, numerosa, replicada, como se fosse de duas filas como as da queixada dos jacar\u00e9s \u2013 quando ele ria de gozo, aplicando a \u00a0nota m\u00e1. Era bojudo de tronco, s\u00f3 usava fraque, tinha pernas curtas e p\u00e9s, decerto, ultra-sens\u00edveis que justificavam que todas suas botinas fossem feitas de pano, de modo que ele dava a impress\u00e3o de estar sempre de galochas.\u201d Vencemos nossa batalha ((l\u00e1 em cima, f\u00e1cil; aqui, dif\u00edcil) ao conseguir penetrar nos significados desse mapa f\u00edsico esbo\u00e7ado pelo cult\u00edssimo Nava (estu\u00e1rios, talvegues, ravinas; e broscarr\u00ea?), fazendo tro\u00e7a do ga\u00facho decerto branquelo, e ca\u00edmos de sopet\u00e3o, e mais uma vez, no consult\u00f3rio do m\u00e9dico com seu diagn\u00f3stico preciso. \u201cHoje \u00e9 que imagino que despotismo de colesterol, que fabulosa hipertens\u00e3o! que magn\u00edfico cora\u00e7\u00e3o bovino! que fant\u00e1sticas sufoca\u00e7\u00f5es! \u2013 deviam afligir as madrugadas do nosso mestre.\u201d Nesta passagem adiante transcrita, curta mas emblem\u00e1tica, minha mente alcan\u00e7ou o Col\u00e9gio Dom Bosco de Bras\u00edlia, onde fiz tr\u00eas anos (1965\/1967) do ginasial (nome estranho pra turma de hoje). Estudavam ali, na W3 Sul, Quadras 702\/902, somente meninos; as meninas, no vizinho Maria Auxiliadora, comandado por freiras. Um muro de Berlim, uma muralha da China a polarizar os dois estabelecimentos unisex (ainda existe essa palavra). Contato f\u00edsico quase nenhum, a grade (verde? azul?) s\u00f3 ensejava olhares furtivos e audaciosas pegadas na m\u00e3o, iniciativas n\u00e3o raro dos meninos ou de algumas meninas tidas por \u201cmais saidinhas\u201d. A maioria de nossos professores era de padres salesianos e alguns deles nos metiam medo a partir do momento em que entravam em classe, n\u00f3s todos de uniforme e de p\u00e9 para receber o pedagogo, a autoridade, que n\u00e3o usava anel nem era cardeal &#8211; mas nos infundia temor reverencial. \u201cQuando ele entrou na aula, andando sobre solas de feltro, fechado, maci\u00e7o, jeito de barrica, assim feito uma calamidade silenciosa e vasta \u2013 levantamo-nos aterrados.\u201d Empregando outra das atual\u00edssimas express\u00f5es ventiladas neste blog, \u00a0pode-se garantir que o C\u00e2ndido ainda ir\u00e1 dar pano pra manga. &nbsp; 27 de mar\u00e7o de 2016 (180) mmsmarcos1953@hotmail.com<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-1411","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1411","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1411"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1411\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1411"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1411"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1411"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}