{"id":14239,"date":"2018-11-17T22:58:37","date_gmt":"2018-11-18T01:58:37","guid":{"rendered":"http:\/\/mapati.com.br\/?p=14239"},"modified":"2018-11-17T23:19:56","modified_gmt":"2018-11-18T02:19:56","slug":"memorias-memorialistas-lvii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/memorias-memorialistas-lvii\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3rias\/Memorialistas (LVII)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:right\">\n\t<em>E o perfume que tem cada coisa. O vento tem um perfume, a luz branca cheira a jasmim, o vermelho a ma&ccedil;a,<br \/>\n\to amor que a gente sente por algu&eacute;m &eacute; cor de rosa&#8230; Posso sentir o perfume que exala de cada animal,<br \/>\n\tcada objeto, cada &aacute;rvore, todo ser vivo ou morto.<\/em><br \/>\n\t(Mon&oacute;logo teatral Sofia, de Diocl&eacute;cio Luz)\n<\/p>\n<p>\n\tFosse meu blog lido por algu&eacute;m, o que at&eacute; hoje n&atilde;o aconteceu, iria pedir saltasse esta postagem (e a subsequente). A narrativa &eacute; literalmente visceral, Repugnante. Mas humana.\n<\/p>\n<p style=\"text-align:center\">\n\t<br \/>\n\t<img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"511\" height=\"426\" alt=\"\" class=\"aligncenter size-full wp-caption wp-image-14248\" src=\"http:\/\/mapati.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/diagnosis-1476620_1920.jpg\" style=\"height:426px; width:511px\" srcset=\"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/diagnosis-1476620_1920.jpg 511w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/diagnosis-1476620_1920-300x250.jpg 300w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/diagnosis-1476620_1920-200x167.jpg 200w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/diagnosis-1476620_1920-400x333.jpg 400w\" sizes=\"(max-width: 511px) 100vw, 511px\" \/><em><span style=\"font-size:11px\">https:\/\/pixabay.com\/pt\/diagn%C3%B3stico-xray-peito-pulm%C3%B5es-1476620\/[\/caption]<\/span><\/em>\n<\/p>\n<p>\n\tO pessoal da medicina, da enfermagem, das ci&ecirc;ncias biol&oacute;gicas, da qu&iacute;mica n&atilde;o se surpreender&aacute; com o mapa f&iacute;sico, fisiol&oacute;gico, desenhado pelo l&aacute;pis implac&aacute;vel do Pedro Nava, que, em 1978, voava no tempo e retrocedia meio s&eacute;culo para dar &agrave; luz impress&otilde;es sobre&#8230; necropsia. Claro que a literatura do memorialista nos subjuga, nos deixa com os pulm&otilde;es enfisematosos, menos ar do que o encontrado nos corpos objeto de estudos de patologia cl&iacute;nica.\n<\/p>\n<p>\n\t<em>&ldquo;(&#8230;) era comum encontrarmos na mesa de aut&oacute;psias o defunto que medic&aacute;ramos vivo, na v&eacute;spera. Isso no princ&iacute;pio era chocante, impressionava, aterrava. Depois esse sentimento foi sendo empurrado para as profundas do subconsciente, para jazer latente at&eacute; que nosso terror o desenterre no pesadelo ou na consci&ecirc;ncia da nossa precariedade. A aventura da aut&oacute;psia era uma est&oacute;ria de horrores bem mais terr&iacute;vel que a da dissec&ccedil;&atilde;o. Nesta os cad&aacute;veres chegam tratados a solutos mumificantes e ratanizantes que d&atilde;o-lhes lustres de madeira, aspeto de coisas imitando mortos e n&atilde;o mais o jeito de mortos. Sua protelada e t&iacute;mida protela&ccedil;&atilde;o fede a azedo, a ran&ccedil;o e sobretudo a formol. Naquela os cad&aacute;veres conservam sempre um aspeto do que tinham sido. N&atilde;o eram raspados, &agrave;s vezes ficavam-lhes pe&ccedil;as de vestu&aacute;rio &ndash; p&eacute; de meia, por exemplo. Eram freq&uuml;entes medalhinhas de alum&iacute;nio, bentinhos ensebados, os curativos. Esses eram retirados na hora da aut&oacute;psia e descritos minuciosamente nas liq&uuml;esc&ecirc;ncias. Sanguinol&ecirc;ncias e purul&ecirc;ncias que deixavam escorrer. Era tudo consignado no protocolo do exame do cad&aacute;ver que, sem formol, fedia para valer. Porque ao contr&aacute;rio do que se pensa, os mortos fedem imediatamente e n&atilde;o esperam a conven&ccedil;&atilde;o das vinte e quatro horas. Basta fend&ecirc;-los.&rdquo;<\/em>\n<\/p>\n<p>\n\tDe outra parte, nestes nossos tempos uma vida foi poupada, felizmente. Se aquele mineiro tresloucado da Halfeld (essa rua de Juiz Fora permeia significativa parte da memorial&iacute;stica em foco) manejasse faca com a destreza de seu conterr&acirc;neo e n&atilde;o contempor&acirc;neo Nava, ent&atilde;o aluno de medicina promissor, a morte do candidato a presidente da Rep&uacute;blica agora eleito (n&atilde;o era o meu) arremessaria o pa&iacute;s numa crise institucional de consequ&ecirc;ncias devastadoras.\n<\/p>\n<p>\n\t<em>&ldquo;(&#8230;) Eu entrei de rijo nesse mundo pegajoso pois tinha sido admitido pelo Carleto como seu monitor volunt&aacute;rio. Cabia-me abrir os corpos e eu fazia-o com perfei&ccedil;&atilde;o. Incisava o t&oacute;rax-abdome &ndash; em T, correndo a faca de ombro a ombro e depois noutro corte que ia at&eacute; ao ap&ecirc;ndice xifoide, continuava pela barriga e s&oacute; parava no obst&aacute;culo &oacute;sseo do p&uacute;bis. Descascava depois o t&oacute;rax (como o Joaquim C&acirc;ncio fazendo esqueleto) rebatendo para os lados o livrabertaomeio dos peitorais e das partes moles de todotronco. Depois, com faca mais curta decepava as costelas de fora a fora e ent&atilde;o &eacute; que entrava o Carleto com seu avental imaculado e suas luvas de Chaput.&rdquo;<\/em>\n<\/p>\n<p>\n\tN&atilde;o tenho luvas, n&atilde;o uso jaleco, n&atilde;o posso ver sangue. Ali&aacute;s, o oxig&ecirc;nio come&ccedil;a a me faltar. Cautelarmente, paro com a digita&ccedil;&atilde;o. Na postagem seguinte, sem fazer uso do Plasil e do Rivotril, rima pobre, tornarei &agrave; minha cadeira de espectador infiltrado para, j&aacute; restabelecido, assistir &agrave; performance do doutor Carleto.\n<\/p>\n<p style=\"text-align:center\">\n\t<a href=\"http:\/\/mapati.com.br\/blog\/memoriasmemorialistas-l\/\">#Mon&oacute;logo teatral &ldquo;Sofia&rdquo;<\/a>&nbsp; &nbsp; &nbsp;<a href=\"http:\/\/observatoriodaimprensa.com.br\/author\/dioclecio-luz\/\">#Diocl&eacute;cio Luz<\/a>&nbsp; &nbsp; <a href=\"https:\/\/g.co\/kgs\/ZnbcGQ\">&nbsp;#Pedro Nava<\/a><br \/>\n\t<a href=\"https:\/\/www.significados.com.br\/necropsia\/\">#Necr&oacute;psia&nbsp;<\/a> &nbsp; <a href=\"https:\/\/www.significados.com.br\/?s=Aut%C3%B3psia\">&nbsp;#Aut&oacute;psia<\/a>&nbsp; &nbsp; &nbsp;<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Rua_Halfeld\">#Rua Halfeld<\/a>&nbsp; &nbsp; &nbsp;<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Juiz_de_Fora\">#Juiz de Fora<\/a>&nbsp; &nbsp; &nbsp;<a href=\"https:\/\/books.google.com.br\/books?id=tpTMafIPiKQC&amp;pg=PA332&amp;lpg=PA332&amp;dq=Carleto+Pedro+Nava&amp;source=bl&amp;ots=Kf4uR6gPOw&amp;sig=2OcPo9mcH2hfrSEqjbUJDznwBnw&amp;hl=pt-BR&amp;sa=X&amp;ved=2ahUKEwjXppbQ79zeAhUGf5AKHan-AWcQ6AEwDXoECAQQAQ#v=onepage&amp;q=Carleto%20Pedro%20Nava&amp;f=false\">#Carleto<\/a>&nbsp; &nbsp; &nbsp;<a href=\"https:\/\/books.google.com.br\/books?id=Iikyc7HancAC&amp;pg=PA333&amp;lpg=PA333&amp;dq=Luvas+de+Chaput%C2%A0&amp;source=bl&amp;ots=N4WYa4HHIw&amp;sig=G-Fe9AhZrHyAkqfvdB1IkcARfEU&amp;hl=pt-BR&amp;sa=X&amp;ved=2ahUKEwis-YmL8NzeAhXCFZAKHZssDOIQ6AEwAHoECAkQAQ#v=onepage&amp;q=Luvas%20de%20Chaput%C2%A0&amp;f=false\">#Luvas de Chaput<\/a>&nbsp; &nbsp; &nbsp; <a href=\"https:\/\/g.co\/kgs\/ucAaVS\">#Plasil<\/a>&nbsp; &nbsp; &nbsp;<a href=\"https:\/\/g.co\/kgs\/HR8BQd\">#Rivotril<\/a>\n<\/p>\n<p style=\"text-align:right\">\n\t17\/11\/2018\n<\/p>\n<p style=\"text-align:right\">\n\t(287)\n<\/p>\n<p style=\"text-align:right\">\n\t<a href=\"http:\/\/mmsmarcos1953@hotmail.com\">mmsmarcos1953@hotmail.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>E o perfume que tem cada coisa. O vento tem um perfume, a luz branca cheira a jasmim, o vermelho a ma&ccedil;a, o amor que a gente sente por algu&eacute;m &eacute; cor de rosa&#8230; Posso sentir o perfume que exala de cada animal, cada objeto, cada &aacute;rvore, todo ser vivo ou morto. (Mon&oacute;logo teatral Sofia, de Diocl&eacute;cio Luz) Fosse meu blog lido por algu&eacute;m, o que at&eacute; hoje n&atilde;o aconteceu, iria pedir saltasse esta postagem (e a subsequente). A narrativa &eacute; literalmente visceral, Repugnante. Mas humana. https:\/\/pixabay.com\/pt\/diagn%C3%B3stico-xray-peito-pulm%C3%B5es-1476620\/[\/caption] O pessoal da medicina, da enfermagem, das ci&ecirc;ncias biol&oacute;gicas, da qu&iacute;mica n&atilde;o se surpreender&aacute; com o mapa f&iacute;sico, fisiol&oacute;gico, desenhado pelo l&aacute;pis implac&aacute;vel do Pedro Nava, que, em 1978, voava no tempo e retrocedia meio s&eacute;culo para dar &agrave; luz impress&otilde;es sobre&#8230; necropsia. Claro que a literatura do memorialista nos subjuga, nos deixa com os pulm&otilde;es enfisematosos, menos ar do que o encontrado nos corpos objeto de estudos de patologia cl&iacute;nica. &ldquo;(&#8230;) era comum encontrarmos na mesa de aut&oacute;psias o defunto que medic&aacute;ramos vivo, na v&eacute;spera. Isso no princ&iacute;pio era chocante, impressionava, aterrava. Depois esse sentimento foi sendo empurrado para as profundas do subconsciente, para jazer latente at&eacute; que nosso terror o desenterre no pesadelo ou na consci&ecirc;ncia da nossa precariedade. A aventura da aut&oacute;psia era uma est&oacute;ria de horrores bem mais terr&iacute;vel que a da dissec&ccedil;&atilde;o. Nesta os cad&aacute;veres chegam tratados a solutos mumificantes e ratanizantes que d&atilde;o-lhes lustres de madeira, aspeto de coisas imitando mortos e n&atilde;o mais o jeito de mortos. Sua protelada e t&iacute;mida protela&ccedil;&atilde;o fede a azedo, a ran&ccedil;o e sobretudo a formol. Naquela os cad&aacute;veres conservam sempre um aspeto do que tinham sido. N&atilde;o eram raspados, &agrave;s vezes ficavam-lhes pe&ccedil;as de vestu&aacute;rio &ndash; p&eacute; de meia, por exemplo. Eram freq&uuml;entes medalhinhas de alum&iacute;nio, bentinhos ensebados, os curativos. Esses eram retirados na hora da aut&oacute;psia e descritos minuciosamente nas liq&uuml;esc&ecirc;ncias. Sanguinol&ecirc;ncias e purul&ecirc;ncias que deixavam escorrer. Era tudo consignado no protocolo do exame do cad&aacute;ver que, sem formol, fedia para valer. Porque ao contr&aacute;rio do que se pensa, os mortos fedem imediatamente e n&atilde;o esperam a conven&ccedil;&atilde;o das vinte e quatro horas. Basta fend&ecirc;-los.&rdquo; De outra parte, nestes nossos tempos uma vida foi poupada, felizmente. Se aquele mineiro tresloucado da Halfeld (essa rua de Juiz Fora permeia significativa parte da memorial&iacute;stica em foco) manejasse faca com a destreza de seu conterr&acirc;neo e n&atilde;o contempor&acirc;neo Nava, ent&atilde;o aluno de medicina promissor, a morte do candidato a presidente da Rep&uacute;blica agora eleito (n&atilde;o era o meu) arremessaria o pa&iacute;s numa crise institucional de consequ&ecirc;ncias devastadoras. &ldquo;(&#8230;) Eu entrei de rijo nesse mundo pegajoso pois tinha sido admitido pelo Carleto como seu monitor volunt&aacute;rio. Cabia-me abrir os corpos e eu fazia-o com perfei&ccedil;&atilde;o. Incisava o t&oacute;rax-abdome &ndash; em T, correndo a faca de ombro a ombro e depois noutro corte que ia at&eacute; ao ap&ecirc;ndice xifoide, continuava pela barriga e s&oacute; parava no obst&aacute;culo &oacute;sseo do p&uacute;bis. Descascava depois o t&oacute;rax (como o Joaquim C&acirc;ncio fazendo esqueleto) rebatendo para os lados o livrabertaomeio dos peitorais e das partes moles de todotronco. Depois, com faca mais curta decepava as costelas de fora a fora e ent&atilde;o &eacute; que entrava o Carleto com seu avental imaculado e suas luvas de Chaput.&rdquo; N&atilde;o tenho luvas, n&atilde;o uso jaleco, n&atilde;o posso ver sangue. Ali&aacute;s, o oxig&ecirc;nio come&ccedil;a a me faltar. Cautelarmente, paro com a digita&ccedil;&atilde;o. Na postagem seguinte, sem fazer uso do Plasil e do Rivotril, rima pobre, tornarei &agrave; minha cadeira de espectador infiltrado para, j&aacute; restabelecido, assistir &agrave; performance do doutor Carleto. #Mon&oacute;logo teatral &ldquo;Sofia&rdquo;&nbsp; &nbsp; &nbsp;#Diocl&eacute;cio Luz&nbsp; &nbsp; &nbsp;#Pedro Nava #Necr&oacute;psia&nbsp; &nbsp; &nbsp;#Aut&oacute;psia&nbsp; &nbsp; &nbsp;#Rua Halfeld&nbsp; &nbsp; &nbsp;#Juiz de Fora&nbsp; &nbsp; &nbsp;#Carleto&nbsp; &nbsp; &nbsp;#Luvas de Chaput&nbsp; &nbsp; &nbsp; #Plasil&nbsp; &nbsp; &nbsp;#Rivotril 17\/11\/2018 (287) mmsmarcos1953@hotmail.com<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-14239","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14239","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14239"}],"version-history":[{"count":11,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14239\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":14255,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14239\/revisions\/14255"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14239"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14239"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14239"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}