{"id":1428,"date":"2016-04-12T02:10:18","date_gmt":"2016-04-12T02:10:18","guid":{"rendered":"http:\/\/mapati.com.br\/blog\/?p=1428"},"modified":"2016-04-12T02:10:18","modified_gmt":"2016-04-12T02:10:18","slug":"memoriasmemorialistas-xlii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/memoriasmemorialistas-xlii\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3rias\/Memorialistas (XLII)"},"content":{"rendered":"<p>O Pedro Nava narrou acontecimentos da vida real? Apresentou-nos seres que de fato transitaram por este mundo, alguns merecedores do opr\u00f3bio; outros, car\u00e1ter sem ja\u00e7a como se dizia antigamente?<\/p>\n<p>Na fic\u00e7\u00e3o, a leitura transmuda quem s\u00f3 existira na mente do escritor em pessoas de \u201ccarne e osso\u201d. Nessa obra magistral de seis volumes (lembro que estou no terceiro), ao rev\u00e9s, como que ousaria enxergar, descritos nas suas virtudes e idiossincrasias, indiv\u00edduos que nunca teriam vindo propriamente \u00e0 luz.<\/p>\n<p>N\u00e3o houve m\u00e9dico, n\u00e3o houve enfermeira, n\u00e3o houve partejamento. N\u00e3o h\u00e1 memorialista. Em rigor, algu\u00e9m chamado Pedro Nava urdira, criara personagens. Uma transcend\u00eancia.<\/p>\n<p>O corte abrupto no final da postagem anterior era menos para gerar expectativa; pretendeu-se estender at\u00e9 onde poss\u00edvel o conv\u00edvio, o liame com o Luiz C\u00e2ndido Paranhos de Macedo, o Tifum.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>\u201c(&#8230;) ele ia \u00e0 Secretaria para raspar quase todos os zeros das listas de aula. S\u00f3 deixava os bem merecidos. Quando soubemos disso nossa estima foi crescendo, dando galho, virou ternura, para acabar feito amizade filial no fim dos dois per\u00edodos letivos que ele ministrou. Egr\u00e9gio Tifum&#8230; Era ainda de v\u00ea-lo quando ele se misturava aos <\/em>patifes<em>, no recreio, e dobrava, fazia se retorcerem de esfor\u00e7o-dor h\u00e9rcules como o Vituca, o <\/em>Xico<em> Coelho Lisboa, o \u00a0<\/em>Velho <em>Locques, e o Machacaz \u2013 na queda de bra\u00e7o, no arrocho da munheca ou no alicate da luta de tor\u00e7\u00e3o dedo-m\u00e9dio por dedo-m\u00e9dio do contendor (&#8230;).<\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>\u201cO Tifum abria continentes, dava as chaves das terras que a Hist\u00f3ria Universal e a Hist\u00f3ria do Brasil povoariam depois.\u201d<\/em><\/span><\/p>\n<figure id=\"attachment_1431\" aria-describedby=\"caption-attachment-1431\" style=\"width: 327px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-1431\" src=\"http:\/\/2017.mapati.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/182_mapam.png\" alt=\"http:\/\/br.freepik.com\/index.php?goto=74&amp;idfoto=720597\" width=\"327\" height=\"377\" srcset=\"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/182_mapam.png 459w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/182_mapam-260x300.png 260w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/182_mapam-200x231.png 200w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/182_mapam-400x462.png 400w\" sizes=\"(max-width: 327px) 100vw, 327px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1431\" class=\"wp-caption-text\"><span style=\"font-size: 8pt;\">http:\/\/br.freepik.com\/index.php?goto=74&amp;idfoto=720597<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>Mais uma mat\u00e9ria do programa escolar que termina, mais um personagem que vai embora. O professor de Geografia se despede para minha tristeza. N\u00e3o sem antes deixar marcada, pelas letras do memorialista ou, para ser coerente com o registro acima, pelas artes do escritor, algu\u00e9m que, houvesse existido, teria ministrado li\u00e7\u00f5es de latim. O qual, como se n\u00e3o bastasse, ainda tem parente que \u00e9 nome de importante rua em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>\u201cMas antes do advento das aulas do Jo\u00e3o Ribeiro, as vozes do Mundo Antigo ecoariam nos nossos ouvidos pelo verbo do mestre de Latim, o Eduardo G\u00ea Badar\u00f3, bacharel em direito, advogado no foro do Rio de Janeiro, professor do Col\u00e9gio Pedro II desde 1908. Pelo G\u00ea, diziam-no descentemente de Jequitinhonha e pelo Badar\u00f3, de L\u00edbero Badar\u00f3. (&#8230;) muito fino de pernas e dotado duns p\u00e9s-de-anjo (&#8230;) Vestia-se dumas alpacas acinzentadas com que usava invariavelmente um colete transpassado de linho branco. Seus colarinhos e punhos eram esmaltados, suas gravatas suntuosas. Cal\u00e7ava sempre botina de amarrar, pelica amarela ou pel\u00edcula preta. Gostava de dar as aulas, os alunos perto, cercando a mesa, ele em p\u00e9, um dito sobre a cadeira. Quando se lhe entreabria o palet\u00f3, vislumbrava-se na sua cinta a garrucha de que ele n\u00e3o se apartava. Que haveria? na sua vida, eixigindo esse estado de defesa permanente (&#8230;).\u201d<\/em><\/span><\/p>\n<p>Volta a minha renitente inveja dos mais velhos.<\/p>\n<p>Quando entrei no salesiano Dom Bosco em Bras\u00edlia, em 1965, o col\u00e9gio havia abandonado, no inicio daqueles anos de 1960, o ensino da disciplina Latim. Que maravilha teria sido aprender com os padres de l\u00e1 essa l\u00edngua dif\u00edcil por\u00e9m fant\u00e1stica. Por causa de motiva\u00e7\u00f5es por assim dizer pol\u00edticas, a igreja cat\u00f3lica j\u00e1 se despedia das missas em latim, posi\u00e7\u00e3o consolidada tempos depois em virtude da necessidade de combater, entre outros tradicionalistas, Dom Marcel Lefevre<strong>, <\/strong>cardeal franc\u00eas advers\u00e1rio das reformas modernizadoras que o Vaticano cuidava de implantar crescentemente.<\/p>\n<p>Ao som de cantos gregorianos, fecho a vertente postagem tomando emprestado mais este trecho do vol. 3,\u00a0<em>Ch\u00e3o de ferro<\/em>, que se liga ao retro transcrito:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>\u201cO Badar\u00f3 come\u00e7ava a tomar a li\u00e7\u00e3o e logo, para corrigir nossas silabadas, lia ele pr\u00f3prio e nessa deleitura, de repente se perdia, ia continuando levado pela cad\u00eancia do idioma e pela medida. Interrompia de vez em quando o per\u00edodo ou o verso para chamar a aten\u00e7\u00e3o para o caso \u2013 vejam o caso! vejam o caso! vejam a beleza do caso! N\u00f3s n\u00e3o entend\u00edamos bolacha mas ach\u00e1vamos linda sua dic\u00e7\u00e3o. Ou\u00e7o ainda o sussurro de sua voz macia e bem timbrada, sua ondula\u00e7\u00e3o expressiva, seu alteamento nas vogais sustenidas, seu calcar nas consoantes. S\u00edlaba breve. S\u00edlaba longa. L\u00e1 se partia o Badar\u00f3, velas soltas, prosa a fora, poema a fora, falando com palavras ora angulosas peperere, ora curvas insontes deinde, ora leves aethere in alto, ora pesadas perferre labores. Aquilo era belo e incompreens\u00edvel como a linguagem das missas, na inf\u00e2ncia. Entender pra qu\u00ea? Quem entende? o vinho e os esp\u00edritos e os queijos e as especiarias&#8230;\u201d<\/em><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">11 de abril de 2016<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">(182)<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><span style=\"color: #0000ff;\"><a style=\"color: #0000ff;\" href=\"mailto:mmsmarcos1953@hotmail.com\">mmsmarcos1953@hotmail.com<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Pedro Nava narrou acontecimentos da vida real? Apresentou-nos seres que de fato transitaram por este mundo, alguns merecedores do opr\u00f3bio; outros, car\u00e1ter sem ja\u00e7a como se dizia antigamente? Na fic\u00e7\u00e3o, a leitura transmuda quem s\u00f3 existira na mente do escritor em pessoas de \u201ccarne e osso\u201d. Nessa obra magistral de seis volumes (lembro que estou no terceiro), ao rev\u00e9s, como que ousaria enxergar, descritos nas suas virtudes e idiossincrasias, indiv\u00edduos que nunca teriam vindo propriamente \u00e0 luz. N\u00e3o houve m\u00e9dico, n\u00e3o houve enfermeira, n\u00e3o houve partejamento. N\u00e3o h\u00e1 memorialista. Em rigor, algu\u00e9m chamado Pedro Nava urdira, criara personagens. Uma transcend\u00eancia. O corte abrupto no final da postagem anterior era menos para gerar expectativa; pretendeu-se estender at\u00e9 onde poss\u00edvel o conv\u00edvio, o liame com o Luiz C\u00e2ndido Paranhos de Macedo, o Tifum. \u201c(&#8230;) ele ia \u00e0 Secretaria para raspar quase todos os zeros das listas de aula. S\u00f3 deixava os bem merecidos. Quando soubemos disso nossa estima foi crescendo, dando galho, virou ternura, para acabar feito amizade filial no fim dos dois per\u00edodos letivos que ele ministrou. Egr\u00e9gio Tifum&#8230; Era ainda de v\u00ea-lo quando ele se misturava aos patifes, no recreio, e dobrava, fazia se retorcerem de esfor\u00e7o-dor h\u00e9rcules como o Vituca, o Xico Coelho Lisboa, o \u00a0Velho Locques, e o Machacaz \u2013 na queda de bra\u00e7o, no arrocho da munheca ou no alicate da luta de tor\u00e7\u00e3o dedo-m\u00e9dio por dedo-m\u00e9dio do contendor (&#8230;). \u201cO Tifum abria continentes, dava as chaves das terras que a Hist\u00f3ria Universal e a Hist\u00f3ria do Brasil povoariam depois.\u201d Mais uma mat\u00e9ria do programa escolar que termina, mais um personagem que vai embora. O professor de Geografia se despede para minha tristeza. N\u00e3o sem antes deixar marcada, pelas letras do memorialista ou, para ser coerente com o registro acima, pelas artes do escritor, algu\u00e9m que, houvesse existido, teria ministrado li\u00e7\u00f5es de latim. O qual, como se n\u00e3o bastasse, ainda tem parente que \u00e9 nome de importante rua em S\u00e3o Paulo. \u201cMas antes do advento das aulas do Jo\u00e3o Ribeiro, as vozes do Mundo Antigo ecoariam nos nossos ouvidos pelo verbo do mestre de Latim, o Eduardo G\u00ea Badar\u00f3, bacharel em direito, advogado no foro do Rio de Janeiro, professor do Col\u00e9gio Pedro II desde 1908. Pelo G\u00ea, diziam-no descentemente de Jequitinhonha e pelo Badar\u00f3, de L\u00edbero Badar\u00f3. (&#8230;) muito fino de pernas e dotado duns p\u00e9s-de-anjo (&#8230;) Vestia-se dumas alpacas acinzentadas com que usava invariavelmente um colete transpassado de linho branco. Seus colarinhos e punhos eram esmaltados, suas gravatas suntuosas. Cal\u00e7ava sempre botina de amarrar, pelica amarela ou pel\u00edcula preta. Gostava de dar as aulas, os alunos perto, cercando a mesa, ele em p\u00e9, um dito sobre a cadeira. Quando se lhe entreabria o palet\u00f3, vislumbrava-se na sua cinta a garrucha de que ele n\u00e3o se apartava. Que haveria? na sua vida, eixigindo esse estado de defesa permanente (&#8230;).\u201d Volta a minha renitente inveja dos mais velhos. Quando entrei no salesiano Dom Bosco em Bras\u00edlia, em 1965, o col\u00e9gio havia abandonado, no inicio daqueles anos de 1960, o ensino da disciplina Latim. Que maravilha teria sido aprender com os padres de l\u00e1 essa l\u00edngua dif\u00edcil por\u00e9m fant\u00e1stica. Por causa de motiva\u00e7\u00f5es por assim dizer pol\u00edticas, a igreja cat\u00f3lica j\u00e1 se despedia das missas em latim, posi\u00e7\u00e3o consolidada tempos depois em virtude da necessidade de combater, entre outros tradicionalistas, Dom Marcel Lefevre, cardeal franc\u00eas advers\u00e1rio das reformas modernizadoras que o Vaticano cuidava de implantar crescentemente. Ao som de cantos gregorianos, fecho a vertente postagem tomando emprestado mais este trecho do vol. 3,\u00a0Ch\u00e3o de ferro, que se liga ao retro transcrito: \u201cO Badar\u00f3 come\u00e7ava a tomar a li\u00e7\u00e3o e logo, para corrigir nossas silabadas, lia ele pr\u00f3prio e nessa deleitura, de repente se perdia, ia continuando levado pela cad\u00eancia do idioma e pela medida. Interrompia de vez em quando o per\u00edodo ou o verso para chamar a aten\u00e7\u00e3o para o caso \u2013 vejam o caso! vejam o caso! vejam a beleza do caso! N\u00f3s n\u00e3o entend\u00edamos bolacha mas ach\u00e1vamos linda sua dic\u00e7\u00e3o. Ou\u00e7o ainda o sussurro de sua voz macia e bem timbrada, sua ondula\u00e7\u00e3o expressiva, seu alteamento nas vogais sustenidas, seu calcar nas consoantes. S\u00edlaba breve. S\u00edlaba longa. 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