{"id":14405,"date":"2019-02-25T12:55:28","date_gmt":"2019-02-25T15:55:28","guid":{"rendered":"http:\/\/mapati.com.br\/?p=14405"},"modified":"2019-02-25T12:56:49","modified_gmt":"2019-02-25T15:56:49","slug":"memorias-memorialistas-lix","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/memorias-memorialistas-lix\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3rias\/Memorialistas (LIX)"},"content":{"rendered":"<p style=\"font-weight: 400; text-align: right;\"><em>Viajar pelo passado e compar\u00e1-lo ao presente \u00e9 um h\u00e1bito prazeroso<br \/>\ne frequente do ser humano. Costumamos tamb\u00e9m achar<br \/>\nque tudo de outra \u00e9poca era melhor. Temos saudades<br \/>\ndo que vimos e do que apenas imaginamos.<br \/>\n<\/em><em>(Tost\u00e3o)<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Entre as p\u00e9rolas do notici\u00e1rio, Venezuela, Reforma da Previd\u00eancia, militares moderados (oxal\u00e1) acalmando civis apatetados, boa campanha de in\u00edcio de ano do meu Vasc\u00e3o, PH Ganso nas Laranjeiras (epa), implanta\u00e7\u00e3o do VAR, gostaria de colacionar (que palavra, como diria o nonagen\u00e1rio Helio Fernandes) uma nota veiculada no campo pol\u00edtico dando conta do prop\u00f3sito de se retomar a Uni\u00e3o Democr\u00e1tica Nacional.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Marcus Alves de Souza anunciou que pretende (re)fundar a UDN, \u201cum partido conservador de direita\u201d que vai manter esse DNA. O meu quase xar\u00e1 informou haver lido sobre a hist\u00f3ria da sigla, todavia n\u00e3o cita nenhum livro a respeito, admitindo que \u201cpuxei muito pela internet, entendeu?\u201d O mais pitoresco, digamos assim, \u00e9 que o homem se surpreendeu ao verificar que ningu\u00e9m tivera a ideia antes \u2013 \u201co nome estava l\u00e1 guardadinho, esperando eu pegar.\u201d<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">A saca\u00e7\u00e3o do Marcus fora revelada pelo\u00a0<em>O Estado de S\u00e3o Pa<\/em>ulo e repercutida pelo Bernardo Mello Franco na forma e transcri\u00e7\u00f5es consignadas no par\u00e1grafo anterior. O neopol\u00edtico cogita abrigar os\u00a0<em>Bolsonaro<\/em>\u00a0na nova agremia\u00e7\u00e3o porque a fam\u00edlia n\u00e3o mais teria clima para permanecer no PSL.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Menciono o assunto por sua aparente relev\u00e2ncia e tamb\u00e9m porque o correto jornalista de\u00a0<em>O Globo<\/em>, mesmo com duas letras \u201cl\u201d num dos sobrenomes, pode ser parente do Afonso Arinos de Melo Franco, um dos tr\u00eas mosqueteiros deste t\u00f3pico de memorial\u00edstica (os outros dois, Pedro Nava e Paulo Duarte) e agora presente de novo.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Que responsabilidade, senhor Marcus, admiro sua ousadia (desfa\u00e7atez?), realmente voc\u00ea n\u00e3o tem no\u00e7\u00e3o do que significou a Uni\u00e3o Democr\u00e1tica Nacional no cen\u00e1rio pol\u00edtico brasileiro de boa parte do s\u00e9culo XX. Independentemente das minhas cores pol\u00edticas e partid\u00e1rias, entro no coro dos que real\u00e7am o papel desempenhado pela UDN. Para tanto, nesta e em outras postagens, pin\u00e7arei coment\u00e1rios e observa\u00e7\u00f5es lavrados pelo Afonso Arinos a respeito de algumas das personalidades da UDN. E o fa\u00e7o extremamente feliz e seguro porque logrei encontrar o volume 2 de suas mem\u00f3rias,\u00a0<em>A Escalada<\/em>, ao qual retorno, suspendendo, para repor a linearidade, as refer\u00eancias que eu vinha fazendo neste\u00a0<em>blog<\/em>\u00a0acerca do volume 3,<em>Planalto<\/em>, obras do grande mineiro, jurista, chanceler, senador, deputado e sobretudo escritor, rec\u00e9m lidas e elogiadas pelo Fernando Gabeira, o que adensa minha vaidade intelectual.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Saem Rio de Janeiro, S\u00e3o Paulo e Minas Gerais. \u00a0Vamos excursionar pelo extremo sul do pa\u00eds na captura de um pol\u00edtico de l\u00e1.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: right;\"><em>\u201cDe Fl\u00f4res da Cunha, eleito pela U.D.N., \u00e9 ao mesmo tempo muito dif\u00edcil<br \/>\ne muito f\u00e1cil de se falar. As raz\u00f5es da dificuldade s\u00e3o as mesmas da facilidade,<br \/>\ne se resumem na observa\u00e7\u00e3o de que Fl\u00f4res era um ga\u00facho demasiado t\u00edpico,<br \/>\na ponto tal que os seus tra\u00e7os, no entanto t\u00e3o peculiares e pr\u00f3ximos,<br \/>\npoderiam ser tomados como os de uma personalidade representativa geral do povo e da forma\u00e7\u00e3o rio-grandenses; verdadeiramente uma figura simb\u00f3lica. Assim, ao escrever sobre Fl\u00f4res,<br \/>\nenfrenta-se um risco inesperado: ao procurar ressaltar a fisionomia<br \/>\nt\u00e3o colorida e pessoal daquele tipo humano, o escritor pode<br \/>\ncair no convencional, e mesmo no lugar-comum. \u00caste tra\u00e7o que liga o muito pessoal ao muito geral \u00e9 percept\u00edvel em todos os tipos humanos que exprimem<br \/>\nfortemente as regi\u00f5es e as \u00e9pocas. Num museu ou numa catedral<br \/>\ndizemos: este homem, na sua armadura de pedra, \u00e9 um cavaleiro do s\u00e9culo XIII; ou aquela figura de madeira \u00e9 um santo espanhol primitivo; ou aqu\u00eale retrato \u00e9 o de um burgu\u00eas<br \/>\nflamengo seiscentista. Os tra\u00e7os espec\u00edficos da fisionomia observada se dissolvem, assim, em certos conceitos gen\u00e9ricos, decorrentes da id\u00e9ia que se forma<br \/>\nde uma certa \u00e9poca, em uma determinada regi\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0A gente que acha os ga\u00fachos grosseiros, resolvem tudo no grito e na borrachada \u2013 ou no joelha\u00e7o como o c\u00e9lebre Analista de Bag\u00e9, genial cria\u00e7\u00e3o do Luiz Fernando Ver\u00edssimo, filho do autor de\u00a0<em>O tempo e o vento<\/em>\u00a0\u2013, n\u00e3o consegue imagin\u00e1-los educados, reverentes, cheios de fidalguia.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: right;\"><em>\u201cEra isso exatamente o que se dava com Fl\u00f4res da Cunha, cujos aspectos<br \/>\npessoais t\u00e3o vivos, impressivos e genu\u00ednos, eram tamb\u00e9m<br \/>\nos de sua gera\u00e7\u00e3o ga\u00facha, a gera\u00e7\u00e3o do princ\u00edpio do s\u00e9culo (<\/em>XX, nota deste blogueiro<em>),<br \/>\nt\u00e3o bem descrita em certas p\u00e1ginas do romance c\u00edclico de<br \/>\nO Tempo e o Vento, com o cuidado de fundir intelectualmente personagens masculinos<br \/>\nmais representativos em um s\u00f3, que seria, como disse, representativo at\u00e9 o lugar-comum. Desejo apenas salientar que Fl\u00f4res manteve para comigo, nos \u00faltimos anos,<br \/>\numa amizade que \u00e0s vezes me comovia. Sua not\u00f3ria generosidade,<br \/>\nsua proclamada e f\u00e1cil emo\u00e7\u00e3o (que lhe arrancava ora palavr\u00f5es,<br \/>\nora l\u00e1grimas, uns e outras logo esquecidos) tocavam \u00e0s vezes<br \/>\na extremos de finura e galanteria. Por exemplo, t\u00f4das as vezes em que eu tinha de proferir,<br \/>\ncomo l\u00edder, um discurso importante, e que Anah (<\/em>mulher de Afonso Arinos, nota deste blogueiro<em>)<br \/>\nvinha para a tribuna diplom\u00e1tica ouvir-me, o velho Fl\u00f4res n\u00e3o deixava de sair do recinto, quando eu descia da tribuna, para ir cumprimentar, n\u00e3o a mim, mas a ela. Certa vez em que me sa\u00ed melhor, ou em que \u00eale gostou mais do meu discurso, esperou-me de p\u00e9 (\u00eale se sentava a meu lado) e pespegou-me<br \/>\nno rosto um beijo babado e cheirando a charuto<\/em>.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0Mas a degeneresc\u00eancia chega para todo mundo, para todos os pol\u00edticos, embora eles n\u00e3o saibam disso (nada mais oportuno do que correr para assistir ao filme\u00a0<em>O vice<\/em>). O memorialista nos alerta.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: right;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<em>\u201cSeu fim foi triste, como o de um velho le\u00e3o de circo,<br \/>\nque n\u00e3o pode mais trabalhar e se acaba, adormentado<br \/>\ne inofensivo, na jaula desnecess\u00e1ria.<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>\u201cEu ia v\u00ea-lo de vez em quando em casa de Machado Coelho, seu contraparente, com quem acabara morando. O ga\u00facho de tantas lutas, de tantas mulheres, de tanto j\u00f4go, de tantas cavalhadas e tantos entreveros pela vida acabava ali, amontoado num sof\u00e1, dispneico e silente. \u00c0s vezes, por\u00e9m, o olhar azul lhe faiscava entre as p\u00e1lpebras ca\u00eddas como um s\u00fabito ponta\u00e7o de lan\u00e7a, um palavr\u00e3o lhe aflorava \u00e0 b\u00f4ca murcha, ou uma l\u00e1grima \u00e0s faces brancas, como se o velho le\u00e3o quisesse de n\u00f4vo arrepiar a juba e perscrutar os horizontes de p\u00f3lvora e sangue do seu pampa natal&#8230;\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Tost%C3%A3o\">#Tost\u00e3o<\/a>\u00a0 \u00a0 \u00a0<a href=\"https:\/\/blogs.oglobo.globo.com\/bernardo-mello-franco\/\">#Bernardo Mello Franco<\/a>\u00a0 \u00a0 \u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/H%C3%A9lio_Fernandes\">#Helio Fernandes<\/a>\u00a0 \u00a0 \u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Uni%C3%A3o_Democr%C3%A1tica_Nacional\">#Uni\u00e3o Democr\u00e1tica Nacional &#8211; UDN<\/a><br \/>\n<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Ant%C3%B4nio_Marcus_Alves_de_Souza\">#Marcus Alves de Souza<\/a>\u00a0 \u00a0 \u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/O_Estado_de_S._Paulo\">#O Estado de S\u00e3o Paulo<\/a>\u00a0 \u00a0 \u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Categoria:Fam%C3%ADlia_Bolsonaro\">#Os Bolsonaro<\/a><br \/>\n<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/O_Globo\">#O Globo<\/a>\u00a0 \u00a0 <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Afonso_Arinos_de_Melo_Franco_(sobrinho)\">#Afonso Arinos de Melo Franco \u00a0 \u00a0 \u00a0#A Escalada<\/a>\u00a0 \u00a0 <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Pal%C3%A1cio_do_Planalto\">\u00a0#Planalto<\/a>\u00a0 \u00a0 \u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Flores_da_Cunha\">#Fl\u00f4res da Cunha<\/a><br \/>\n<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Luis_Fernando_Verissimo\">#Analista de Bag\u00e9\u00a0 \u00a0 \u00a0#Luiz Fernando Ver\u00edssimo<\/a>\u00a0 \u00a0 \u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/O_Tempo_e_o_Vento\">#O Tempo e o Vento<\/a>\u00a0 \u00a0 \u00a0<a href=\"#Filme O Vice\">#Filme O Vice<\/a><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: right;\">24\/02\/2019<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: right;\">(292)<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: right;\"><a href=\"mailto:mmsmarcos1953@hotmail.com\">mmsmarcos1953@hotmail.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Viajar pelo passado e compar\u00e1-lo ao presente \u00e9 um h\u00e1bito prazeroso e frequente do ser humano. Costumamos tamb\u00e9m achar que tudo de outra \u00e9poca era melhor. Temos saudades do que vimos e do que apenas imaginamos. (Tost\u00e3o) Entre as p\u00e9rolas do notici\u00e1rio, Venezuela, Reforma da Previd\u00eancia, militares moderados (oxal\u00e1) acalmando civis apatetados, boa campanha de in\u00edcio de ano do meu Vasc\u00e3o, PH Ganso nas Laranjeiras (epa), implanta\u00e7\u00e3o do VAR, gostaria de colacionar (que palavra, como diria o nonagen\u00e1rio Helio Fernandes) uma nota veiculada no campo pol\u00edtico dando conta do prop\u00f3sito de se retomar a Uni\u00e3o Democr\u00e1tica Nacional. Marcus Alves de Souza anunciou que pretende (re)fundar a UDN, \u201cum partido conservador de direita\u201d que vai manter esse DNA. O meu quase xar\u00e1 informou haver lido sobre a hist\u00f3ria da sigla, todavia n\u00e3o cita nenhum livro a respeito, admitindo que \u201cpuxei muito pela internet, entendeu?\u201d O mais pitoresco, digamos assim, \u00e9 que o homem se surpreendeu ao verificar que ningu\u00e9m tivera a ideia antes \u2013 \u201co nome estava l\u00e1 guardadinho, esperando eu pegar.\u201d A saca\u00e7\u00e3o do Marcus fora revelada pelo\u00a0O Estado de S\u00e3o Paulo e repercutida pelo Bernardo Mello Franco na forma e transcri\u00e7\u00f5es consignadas no par\u00e1grafo anterior. O neopol\u00edtico cogita abrigar os\u00a0Bolsonaro\u00a0na nova agremia\u00e7\u00e3o porque a fam\u00edlia n\u00e3o mais teria clima para permanecer no PSL. Menciono o assunto por sua aparente relev\u00e2ncia e tamb\u00e9m porque o correto jornalista de\u00a0O Globo, mesmo com duas letras \u201cl\u201d num dos sobrenomes, pode ser parente do Afonso Arinos de Melo Franco, um dos tr\u00eas mosqueteiros deste t\u00f3pico de memorial\u00edstica (os outros dois, Pedro Nava e Paulo Duarte) e agora presente de novo. Que responsabilidade, senhor Marcus, admiro sua ousadia (desfa\u00e7atez?), realmente voc\u00ea n\u00e3o tem no\u00e7\u00e3o do que significou a Uni\u00e3o Democr\u00e1tica Nacional no cen\u00e1rio pol\u00edtico brasileiro de boa parte do s\u00e9culo XX. Independentemente das minhas cores pol\u00edticas e partid\u00e1rias, entro no coro dos que real\u00e7am o papel desempenhado pela UDN. Para tanto, nesta e em outras postagens, pin\u00e7arei coment\u00e1rios e observa\u00e7\u00f5es lavrados pelo Afonso Arinos a respeito de algumas das personalidades da UDN. E o fa\u00e7o extremamente feliz e seguro porque logrei encontrar o volume 2 de suas mem\u00f3rias,\u00a0A Escalada, ao qual retorno, suspendendo, para repor a linearidade, as refer\u00eancias que eu vinha fazendo neste\u00a0blog\u00a0acerca do volume 3,Planalto, obras do grande mineiro, jurista, chanceler, senador, deputado e sobretudo escritor, rec\u00e9m lidas e elogiadas pelo Fernando Gabeira, o que adensa minha vaidade intelectual. Saem Rio de Janeiro, S\u00e3o Paulo e Minas Gerais. \u00a0Vamos excursionar pelo extremo sul do pa\u00eds na captura de um pol\u00edtico de l\u00e1. \u201cDe Fl\u00f4res da Cunha, eleito pela U.D.N., \u00e9 ao mesmo tempo muito dif\u00edcil e muito f\u00e1cil de se falar. As raz\u00f5es da dificuldade s\u00e3o as mesmas da facilidade, e se resumem na observa\u00e7\u00e3o de que Fl\u00f4res era um ga\u00facho demasiado t\u00edpico, a ponto tal que os seus tra\u00e7os, no entanto t\u00e3o peculiares e pr\u00f3ximos, poderiam ser tomados como os de uma personalidade representativa geral do povo e da forma\u00e7\u00e3o rio-grandenses; verdadeiramente uma figura simb\u00f3lica. Assim, ao escrever sobre Fl\u00f4res, enfrenta-se um risco inesperado: ao procurar ressaltar a fisionomia t\u00e3o colorida e pessoal daquele tipo humano, o escritor pode cair no convencional, e mesmo no lugar-comum. \u00caste tra\u00e7o que liga o muito pessoal ao muito geral \u00e9 percept\u00edvel em todos os tipos humanos que exprimem fortemente as regi\u00f5es e as \u00e9pocas. Num museu ou numa catedral dizemos: este homem, na sua armadura de pedra, \u00e9 um cavaleiro do s\u00e9culo XIII; ou aquela figura de madeira \u00e9 um santo espanhol primitivo; ou aqu\u00eale retrato \u00e9 o de um burgu\u00eas flamengo seiscentista. Os tra\u00e7os espec\u00edficos da fisionomia observada se dissolvem, assim, em certos conceitos gen\u00e9ricos, decorrentes da id\u00e9ia que se forma de uma certa \u00e9poca, em uma determinada regi\u00e3o. \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0A gente que acha os ga\u00fachos grosseiros, resolvem tudo no grito e na borrachada \u2013 ou no joelha\u00e7o como o c\u00e9lebre Analista de Bag\u00e9, genial cria\u00e7\u00e3o do Luiz Fernando Ver\u00edssimo, filho do autor de\u00a0O tempo e o vento\u00a0\u2013, n\u00e3o consegue imagin\u00e1-los educados, reverentes, cheios de fidalguia. \u201cEra isso exatamente o que se dava com Fl\u00f4res da Cunha, cujos aspectos pessoais t\u00e3o vivos, impressivos e genu\u00ednos, eram tamb\u00e9m os de sua gera\u00e7\u00e3o ga\u00facha, a gera\u00e7\u00e3o do princ\u00edpio do s\u00e9culo (XX, nota deste blogueiro), t\u00e3o bem descrita em certas p\u00e1ginas do romance c\u00edclico de O Tempo e o Vento, com o cuidado de fundir intelectualmente personagens masculinos mais representativos em um s\u00f3, que seria, como disse, representativo at\u00e9 o lugar-comum. Desejo apenas salientar que Fl\u00f4res manteve para comigo, nos \u00faltimos anos, uma amizade que \u00e0s vezes me comovia. Sua not\u00f3ria generosidade, sua proclamada e f\u00e1cil emo\u00e7\u00e3o (que lhe arrancava ora palavr\u00f5es, ora l\u00e1grimas, uns e outras logo esquecidos) tocavam \u00e0s vezes a extremos de finura e galanteria. Por exemplo, t\u00f4das as vezes em que eu tinha de proferir, como l\u00edder, um discurso importante, e que Anah (mulher de Afonso Arinos, nota deste blogueiro) vinha para a tribuna diplom\u00e1tica ouvir-me, o velho Fl\u00f4res n\u00e3o deixava de sair do recinto, quando eu descia da tribuna, para ir cumprimentar, n\u00e3o a mim, mas a ela. Certa vez em que me sa\u00ed melhor, ou em que \u00eale gostou mais do meu discurso, esperou-me de p\u00e9 (\u00eale se sentava a meu lado) e pespegou-me no rosto um beijo babado e cheirando a charuto. \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0Mas a degeneresc\u00eancia chega para todo mundo, para todos os pol\u00edticos, embora eles n\u00e3o saibam disso (nada mais oportuno do que correr para assistir ao filme\u00a0O vice). O memorialista nos alerta. \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u201cSeu fim foi triste, como o de um velho le\u00e3o de circo, que n\u00e3o pode mais trabalhar e se acaba, adormentado e inofensivo, na jaula desnecess\u00e1ria. \u201cEu ia v\u00ea-lo de vez em quando em casa de Machado Coelho, seu contraparente, com quem acabara morando. O ga\u00facho de tantas lutas, de tantas mulheres, de tanto j\u00f4go, de tantas cavalhadas e tantos entreveros pela vida acabava ali, amontoado num sof\u00e1, dispneico e silente. \u00c0s vezes, por\u00e9m, o olhar azul lhe faiscava entre as p\u00e1lpebras ca\u00eddas como um s\u00fabito ponta\u00e7o de lan\u00e7a, um palavr\u00e3o lhe aflorava \u00e0 b\u00f4ca murcha, ou uma l\u00e1grima \u00e0s faces brancas, como se o velho le\u00e3o quisesse de n\u00f4vo arrepiar a juba e perscrutar os horizontes de p\u00f3lvora e sangue do seu pampa natal&#8230;\u201d #Tost\u00e3o\u00a0 \u00a0 \u00a0#Bernardo Mello Franco\u00a0 \u00a0 \u00a0#Helio Fernandes\u00a0 \u00a0 \u00a0#Uni\u00e3o Democr\u00e1tica Nacional &#8211; UDN #Marcus Alves de Souza\u00a0 \u00a0 \u00a0#O Estado de S\u00e3o Paulo\u00a0 \u00a0 \u00a0#Os Bolsonaro #O Globo\u00a0 \u00a0 #Afonso Arinos de Melo Franco \u00a0 \u00a0 \u00a0#A Escalada\u00a0 \u00a0 \u00a0#Planalto\u00a0 \u00a0 \u00a0#Fl\u00f4res da Cunha #Analista de Bag\u00e9\u00a0 \u00a0 \u00a0#Luiz Fernando Ver\u00edssimo\u00a0 \u00a0 \u00a0#O Tempo e o Vento\u00a0 \u00a0 \u00a0#Filme O Vice 24\/02\/2019 (292) mmsmarcos1953@hotmail.com<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-14405","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14405","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14405"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14405\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":14413,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14405\/revisions\/14413"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14405"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14405"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14405"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}