{"id":1493,"date":"2016-05-29T23:08:48","date_gmt":"2016-05-29T23:08:48","guid":{"rendered":"http:\/\/mapati.com.br\/blog\/?p=1493"},"modified":"2016-05-29T23:08:48","modified_gmt":"2016-05-29T23:08:48","slug":"memoriasmemorialistas-xlv","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/memoriasmemorialistas-xlv\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3rias\/Memorialistas (XLV)"},"content":{"rendered":"<p>Prossegue nossa caminhada tendo como guia o Afonso Arinos de Melo Franco.<\/p>\n<p>Em lugar das veredas \u2013 que n\u00e3o deixam de se estender pelas terras da mineira Paracatu de onde se originou o memorialista -, iremos percorrer outras trilhas, a partir do bairro de Botafogo, no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>\u201cOs ru\u00eddos dos fogos festivos que h\u00e1 pouco comemoravam \u00easte s\u00edmbolo de esperan\u00e7as foram se espa\u00e7ando e, agora, cessaram. Na minha rua tranquila s\u00e3o raros os passantes. (&#8230;). Ao t\u00earmo de um dia chuvoso, no tempo encoberto, diviso o Cristo no seu altar de pedra. O Corcovado confunde-se na incerta bruma, funde-se no c\u00e9u. Estou s\u00f2zinho, no pequeno escrit\u00f3rio anexo ao meu quarto.\u201d<\/em><\/span><\/p>\n<figure id=\"attachment_1494\" aria-describedby=\"caption-attachment-1494\" style=\"width: 561px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-1494\" src=\"http:\/\/2017.mapati.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/05\/188_Cristo.jpg\" alt=\"http:\/\/imguol.com\/2012\/05\/04\/04mai2012---cristo-redentor-amanhece-entre-nuvens-nesta-manha-no-rio-de-janeiro-a-previsao-do-tempo-de-hoje-e-de-sol-com-muitas-nuvens-durante-o-dia-no-rio-com-periodos-nublados-e-chuva-a-qualquer-hora-1336137632344_1024x768.jpg\" width=\"561\" height=\"434\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1494\" class=\"wp-caption-text\"><span style=\"font-size: 8pt;\">http:\/\/imguol.com\/2012\/05\/04\/04mai2012&#8212;cristo-redentor-amanhece-entre-nuvens-nesta-manha-no-rio-de-janeiro-a-previsao-do-tempo-de-hoje-e-de-sol-com-muitas-nuvens-durante-o-dia-no-rio-com-periodos-nublados-e-chuva-a-qualquer-hora-1336137632344_1024x768.jpg<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>Tratava-se das entradas no ano de 1966, que n\u00e3o eram antecedidas pela imponente \u00e1rvore natalina que um grande banco comercial periodicamente planta nas \u00e1guas da Lagoa Rodrigo de Freitas h\u00e1 mais de d\u00e9cada, mas j\u00e1 tinham contemporaneidade com as oferendas que os fi\u00e9is e devotos lan\u00e7avam (e lan\u00e7am) nas praias cariocas \u00e0 busca de um futuro mais venturoso.<\/p>\n<p>Contingenciado por esta postagem, pincei e pin\u00e7arei trechos iniciais do terceiro livro das mem\u00f3rias do Afonso Arinos, \u201cPlanalto\u201d, exatamente para ceder espa\u00e7os ao amor incondicional de um marido por sua companheira desde sempre.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>\u201cAnah dorme no dela, em frente. H\u00e1 pouco estive \u00e0 sua porta, para verificar que ela apagara a luz e repousava.\u201d<\/em><\/span><\/p>\n<p>Esquecer o Rubem Fonseca, de quem j\u00e1 roubei passagens de seus livros e as transportei para c\u00e1. N\u00e3o levar em considera\u00e7\u00e3o que um de seus marcantes personagens (existe algum que n\u00e3o o seja?) como que impunha limites \u00e9ticos e morais ao <em>voyeurismo<\/em>: jamais se deve olhar para uma mulher enquanto ela estiver dormindo.<\/p>\n<p>A heresia \u00e9 perdoada e cabe demonstrar o motivo.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>\u201cPedi a Deus que a guardasse para mim, que a n\u00e3o mere\u00e7o. Pedi a Deus que lhe impusesse a \u00faltima dedica\u00e7\u00e3o por mim, o \u00faltimo sacrif\u00edcio em meu favor: que ela morresse depois de mim. Isto que a ela digo ami\u00fade, como um brinco, \u00e9, muito a s\u00e9rio, o bem supremo que espero merecer de Deus: t\u00ea-la ao meu lado quando eu morrer.\u201d<\/em><\/span><\/p>\n<p>Dignos de nossa repulsa aqueles tempos de machismo (pensei no adjetivo \u201cexacerbado\u201d, o que seria um desprop\u00f3sito, pois n\u00e3o h\u00e1 grada\u00e7\u00e3o, machismo \u00e9 machismo de qualquer jeito e deve ser repelido). Em contrapartida, enalte\u00e7amos o romantismo, t\u00e3o t\u00edpico do final dos anos 1950\/1960 e artigo raro em nossos dias.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>\u201cEla \u00e9 mais forte, mais dedicada, mais capaz de encontrar na vida a raz\u00e3o de viver, e n\u00e3o, como eu, condicion\u00e1-la a certos val\u00f4res da vida, mais capaz, por isto mesmo, de sofrer a minha aus\u00eancia, do que eu a dela. A certeza de que ela est\u00e1 a poucos metros de mim povoa esta transit\u00f3ria solid\u00e3o; enche-me de f\u00f4r\u00e7a e destemor. A id\u00e9ia de que eu poderia me encontrar s\u00f2zinho, para sempre, nestas salas, entre \u00eastes livros, diante destas coisas humildes que nos acompanham h\u00e1 tantos anos, \u00e9 mais do que insuport\u00e1vel: \u00e9 inconjetur\u00e1vel para mim.\u201d<\/em><\/span><\/p>\n<p>Insta ressaltar que tal declara\u00e7\u00e3o de amor \u00e9 dada por um sexagen\u00e1rio a uma esposa que era sua companheira desde quando os dois eram jovens. E o marido apaixonado n\u00e3o se contentara ainda com a entrega e o vigor de suas palavras. Achou por bem se alongar, acabando por moer nossa resist\u00eancia emocional em face de paix\u00e3o t\u00e3o assumida e deliberada:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>\u201cOs poetas, os fil\u00f3sofos pensam na morte, na pr\u00f3pria morte, e s\u00f4bre este tema pessoal muitos d\u00eales, como Montaigne, t\u00eam criado as suas melhores p\u00e1ginas. Eu, \u00e0 medida que envelhe\u00e7o, penso tamb\u00e9m na morte, mas n\u00e3o na minha. Sim, n\u00e3o na minha, porque a morte dela seria a minha morte em vida. E a morte em vida \u00e9 pior que a morte.<\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>\u201cMorrer \u00e9 uma forma de abandono. Ela, enquanto puder, n\u00e3o me abandonar\u00e1.\u201d<\/em><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">29 de maio de 2016<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">(188)<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><span style=\"color: #0000ff;\"><a style=\"color: #0000ff;\" href=\"mailto:mmsmarcos1953@hotmail.com\">mmsmarcos1953@hotmail.com<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Prossegue nossa caminhada tendo como guia o Afonso Arinos de Melo Franco. Em lugar das veredas \u2013 que n\u00e3o deixam de se estender pelas terras da mineira Paracatu de onde se originou o memorialista -, iremos percorrer outras trilhas, a partir do bairro de Botafogo, no Rio de Janeiro. \u201cOs ru\u00eddos dos fogos festivos que h\u00e1 pouco comemoravam \u00easte s\u00edmbolo de esperan\u00e7as foram se espa\u00e7ando e, agora, cessaram. Na minha rua tranquila s\u00e3o raros os passantes. (&#8230;). Ao t\u00earmo de um dia chuvoso, no tempo encoberto, diviso o Cristo no seu altar de pedra. O Corcovado confunde-se na incerta bruma, funde-se no c\u00e9u. Estou s\u00f2zinho, no pequeno escrit\u00f3rio anexo ao meu quarto.\u201d Tratava-se das entradas no ano de 1966, que n\u00e3o eram antecedidas pela imponente \u00e1rvore natalina que um grande banco comercial periodicamente planta nas \u00e1guas da Lagoa Rodrigo de Freitas h\u00e1 mais de d\u00e9cada, mas j\u00e1 tinham contemporaneidade com as oferendas que os fi\u00e9is e devotos lan\u00e7avam (e lan\u00e7am) nas praias cariocas \u00e0 busca de um futuro mais venturoso. Contingenciado por esta postagem, pincei e pin\u00e7arei trechos iniciais do terceiro livro das mem\u00f3rias do Afonso Arinos, \u201cPlanalto\u201d, exatamente para ceder espa\u00e7os ao amor incondicional de um marido por sua companheira desde sempre. \u201cAnah dorme no dela, em frente. H\u00e1 pouco estive \u00e0 sua porta, para verificar que ela apagara a luz e repousava.\u201d Esquecer o Rubem Fonseca, de quem j\u00e1 roubei passagens de seus livros e as transportei para c\u00e1. N\u00e3o levar em considera\u00e7\u00e3o que um de seus marcantes personagens (existe algum que n\u00e3o o seja?) como que impunha limites \u00e9ticos e morais ao voyeurismo: jamais se deve olhar para uma mulher enquanto ela estiver dormindo. A heresia \u00e9 perdoada e cabe demonstrar o motivo. \u201cPedi a Deus que a guardasse para mim, que a n\u00e3o mere\u00e7o. Pedi a Deus que lhe impusesse a \u00faltima dedica\u00e7\u00e3o por mim, o \u00faltimo sacrif\u00edcio em meu favor: que ela morresse depois de mim. Isto que a ela digo ami\u00fade, como um brinco, \u00e9, muito a s\u00e9rio, o bem supremo que espero merecer de Deus: t\u00ea-la ao meu lado quando eu morrer.\u201d Dignos de nossa repulsa aqueles tempos de machismo (pensei no adjetivo \u201cexacerbado\u201d, o que seria um desprop\u00f3sito, pois n\u00e3o h\u00e1 grada\u00e7\u00e3o, machismo \u00e9 machismo de qualquer jeito e deve ser repelido). Em contrapartida, enalte\u00e7amos o romantismo, t\u00e3o t\u00edpico do final dos anos 1950\/1960 e artigo raro em nossos dias. \u201cEla \u00e9 mais forte, mais dedicada, mais capaz de encontrar na vida a raz\u00e3o de viver, e n\u00e3o, como eu, condicion\u00e1-la a certos val\u00f4res da vida, mais capaz, por isto mesmo, de sofrer a minha aus\u00eancia, do que eu a dela. A certeza de que ela est\u00e1 a poucos metros de mim povoa esta transit\u00f3ria solid\u00e3o; enche-me de f\u00f4r\u00e7a e destemor. A id\u00e9ia de que eu poderia me encontrar s\u00f2zinho, para sempre, nestas salas, entre \u00eastes livros, diante destas coisas humildes que nos acompanham h\u00e1 tantos anos, \u00e9 mais do que insuport\u00e1vel: \u00e9 inconjetur\u00e1vel para mim.\u201d Insta ressaltar que tal declara\u00e7\u00e3o de amor \u00e9 dada por um sexagen\u00e1rio a uma esposa que era sua companheira desde quando os dois eram jovens. E o marido apaixonado n\u00e3o se contentara ainda com a entrega e o vigor de suas palavras. Achou por bem se alongar, acabando por moer nossa resist\u00eancia emocional em face de paix\u00e3o t\u00e3o assumida e deliberada: \u201cOs poetas, os fil\u00f3sofos pensam na morte, na pr\u00f3pria morte, e s\u00f4bre este tema pessoal muitos d\u00eales, como Montaigne, t\u00eam criado as suas melhores p\u00e1ginas. Eu, \u00e0 medida que envelhe\u00e7o, penso tamb\u00e9m na morte, mas n\u00e3o na minha. Sim, n\u00e3o na minha, porque a morte dela seria a minha morte em vida. 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