{"id":15300,"date":"2020-02-19T09:09:15","date_gmt":"2020-02-19T12:09:15","guid":{"rendered":"http:\/\/mapati.com.br\/?p=15300"},"modified":"2020-02-19T09:09:18","modified_gmt":"2020-02-19T12:09:18","slug":"memorias-memorialistas-lxiii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/memorias-memorialistas-lxiii\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3rias\/Memorialistas LXIII"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>Na velhice, mem\u00f3rias bem guardadas retornam com a vivacidade dos banhos frios. Agora h\u00e1 a fragilidade que faculta fantasias. Como um p\u00f4r de sol, vem o sentimento do que foi perdido e n\u00e3o pode ser consertado. A corcunda dos velhos \u00e9 a mochila dos seus feitos. E, no entanto, s\u00f3 uma longa vida permite descobrir quem merece ou n\u00e3o o nosso amor. Voc\u00ea sente o nojento cheiro do ralo, mas tamb\u00e9m aspira a fragr\u00e2ncia dos amores-perfeitos.<\/em><br> &#8211; Roberto Damatta &#8211; <\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Equivocado \u00e9 considerar que as postagens deste t\u00f3pico da saudade voltam no tempo e l\u00e1 se estratificam, num contexto de parasita; essa compara\u00e7\u00e3o, evocativa da cinematogr\u00e1fica Coreia do Sul, j\u00e1 trai contemporaneidade. O voo para \u00e9pocas remotas n\u00e3o ressignifica os dias de hoje, antes os retrata. Se assim podemos acrescer: exatamente, indefectivelmente.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Por\u00e9m, a exegese \u00e9 trabalhosa e complexa, n\u00e3o \u00e9 autom\u00e1tica. Reporta-se o fato pret\u00e9rito com a fidedignidade poss\u00edvel de modo a que &nbsp;as recorda\u00e7\u00f5es enrique\u00e7am a atualidade, o presente, o qual a sua vez orientar\u00e1 os p\u00f3steros na an\u00e1lise e compreens\u00e3o dos acontecimentos que estar\u00e3o vivenciando no (para n\u00f3s) futuro. Em suma, o passado que agora nos ilumina a todos e todas vai se amalgamar ao que ocorre hoje e projetar luzes no devir.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste ponto, damos in\u00edcio \u00e0 nossa empreitada visitando a inf\u00e2ncia de quem j\u00e1 nos deixou h\u00e1 d\u00e9cadas. Ou melhor, nossa jornada aos pampas ga\u00fachos come\u00e7ara nas Mem\u00f3rias\/Memorialistas LX, LXI e LXII, as de n\u00ba 300, 302, 303 (aqui, veiculadas no segundo semestre de 2019), chegando a esta quarta, n\u00b0 308, na forma consignada no fim desta postagem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>\u201c\u00c9 sabido que o rel\u00f3gio psicol\u00f3gico da inf\u00e2ncia anda muito mais devagar que o dos adultos. O calend\u00e1rio das crian\u00e7as parece feito mais para a eternidade do que para o tempo humano. As horas de aula arrastam-se como tartarugas mon\u00f3tonas. Como custa a chegar, todos os anos, o per\u00edodo de f\u00e9rias de ver\u00e3o! E que vontade de ficarem homens depressa t\u00eam os meninos!<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cQuando hoje tento lembrar-me de certos epis\u00f3dios e pessoas de meu mundo de crian\u00e7a, n\u00e3o me \u00e9 nada f\u00e1cil situ\u00e1-los no territ\u00f3rio do passado. Tenho a impress\u00e3o de que minha vida entre os cinco e os dezoito anos ocupou um espa\u00e7o de tempo muito mais longo que dos vinte aos sessenta. Afinal de contas, a mem\u00f3ria de um velho est\u00e1 cheia de labirintos, de falsos sinais de tr\u00e2nsito, de v\u00e1cuos e, por assim dizer, de sil\u00eancios temporais e espaciais, isso para n\u00e3o falar em miragens&#8230;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cEscrever mem\u00f3rias numa ordem rigorosamente cronol\u00f3gica seria uma tarefa dif\u00edcil, perigosa e possivelmente mon\u00f3tona. De resto, o tempo do calend\u00e1rio e o do rel\u00f3gio pouco e \u00e0s vezes nada t\u00eam a ver com o tempo do nosso esp\u00edrito.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Lido isso, a gente se d\u00e1 conta de que n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil escrever, n\u00e3o basta sentar-se, abrir o note (antigamente, era l\u00e1pis e papel), articular ideias, encadear palavras e logo em seguida tirar a obra do prelo. N\u00e3o \u00e9 dessa maneira que a coisa funciona. N\u00e3o somos ga\u00fachos de Cruz Alta, n\u00e3o nos chamamos Erico Ver\u00edssimo, o quarto mosqueteiro que, neste pretensioso e nada lido&nbsp;<em>blog<\/em>, veio congregar com o destemido paulista Paulo Duarte e com os mineiros geniais Afonso Arinos e Pedro Nava.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cAt\u00e9 hoje um problema da minha inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia me visita e intriga, embora sem car\u00e1ter obsessivo. Como, quando e por que meu pai mudou de vida, de comportamento, de gostos, de objetivos? Sei que chegou a Cruz Alta com um diploma de farmac\u00eautico, um mo\u00e7o cheio de esperan\u00e7as e nobres projetos. Em suma, o compassivo estudante do gin\u00e1sio de Fitzgerald fizera-se homem. Levando-se em conta a \u00e9poca e a cidade em que vivia, pode-se dizer que era um intelectual. Recebia regularmente e lia&nbsp;<\/em>L\u2019Illustration<em>&nbsp;e outras revistas francesas. Nenhum dos maiores autores liter\u00e1rios do s\u00e9culo XIX lhe era de todo desconhecido. Gostava de m\u00fasica, principalmente da l\u00edrica. Costumava ler poemas alheios em voz alta para familiares ou amigos. Sabia escrever com clareza, corre\u00e7\u00e3o e gra\u00e7a. Era um orador espont\u00e2neo. Trouxe, por assim dizer, um sopro de espiritualidade para o seu burgo guasca, onde imperava um chefe pol\u00edtico atrabili\u00e1rio, que ele teve a coragem de enfrentar, em nome da liberdade e da dignidade humana. Tudo indicava nele o idealista, o pensador, o homem de sensibilidade apurada. Como se processou a&nbsp;<\/em>\u2018mudan\u00e7a\u2019<em>? N\u00e3o me consta que houvesse sofrido qualquer desgosto ou desilus\u00e3o capaz de traumatiz\u00e1-lo a ponto de faz\u00ea-lo concluir que nada na vida&nbsp;<\/em>valia a pena<em>. N\u00e3o acredito que essa transforma\u00e7\u00e3o se tenha operado da noite para o dia. Deve ter havido um processo lento de desintegra\u00e7\u00e3o.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Nas artes em geral &#8211; literatura, teatro, cinema -, contam-se aos milhares (a rigor, aos milh\u00f5es) as hist\u00f3rias e os roteiros tratando de desaven\u00e7as entre filhos e pais. No caso em foco n\u00e3o h\u00e1 \u00f3dio nem raiva, ultraexiste afeto. O magistral escritor Erico Ver\u00edssimo, sob a capa de memorialista, prossegue no avan\u00e7o da disseca\u00e7\u00e3o do pai, o Sebasti\u00e3o Ver\u00edssimo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cA primeira coisa que Sebasti\u00e3o Ver\u00edssimo perdeu foi o h\u00e1bito de leitura. Na sua vol\u00fapia de generosidade, no desejo, que nunca morreu nele, de ser querido e admirado, p\u00f4s-se a dar de presente os livros de sua rica biblioteca a amigos, conhecidos e at\u00e9 desconhecidos. Deixou-se tamb\u00e9m espoliar por esses eternos abutres de bibliotecas alheias. Os discos se foram pelo mesmo caminho. E Sebasti\u00e3o Ver\u00edssimo passou a entregar-se por completo \u00e0 vida dos sentidos, dos prazeres, principalmente os da mesa e os da cama. Continuou, entretanto, a ser um conviva brilhante e agrad\u00e1vel, e a gostar de boas roupas e perfumes. N\u00e3o tenho elementos para aferir a dura\u00e7\u00e3o e o ritmo desse processo, pois o adulto n\u00e3o entende \u2013 repito \u2013 o tempo do menino e vice-versa. Torno a perguntar: qual teria sido a causa da grande mudan\u00e7a? Uma exacerba\u00e7\u00e3o insopit\u00e1vel de seu temperamento sensual? A id\u00e9ia de que devia provar de todos os frutos da carne, num a\u00e7odamento de quem teme morrer cedo demais? (Seu pai n\u00e3o atingira sequer os sessenta anos.) Teria Sebasti\u00e3o Ver\u00edssimo sido derrotado pela mediocridade de sua pequena cidade provinciana? N\u00e3o creio, pois parece que ele se sentia feliz em Cruz Alta, onde gastou fortunas. S\u00f3 viajou ao estrangeiro uma \u00fanica vez. Na companhia de um amigo \u00edntimo visitou Buenos Aires, onde se demorou uma ou duas semanas, se tanto. E que poderiam ter feito na capital da Argentina a n\u00e3o ser ca\u00e7ar belas mulheres e visitar os melhores cabar\u00e9s e restaurantes?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cCreio que \u00e9 importante observar que, mesmo nos piores momentos de sua vida, Sebasti\u00e3o Ver\u00edssimo nunca perdeu o seu penacho e \u2013 para usar duma palavra muito do seu gosto e uso \u2013 a sua&nbsp;<\/em>\u2018hombridade\u2019<em>. Nos tempos da decad\u00eancia, quando j\u00e1 come\u00e7ara a beber imoderadamente, estava, uma noite, sentado a uma mesa no Caf\u00e9 Schlapp, rodeado duma dez meias garrafas de cerveja preta, que enxugara sozinho, quando passou pela cal\u00e7ada um conhecido seu que, atrav\u00e9s duma janela, olhou para ele com uma express\u00e3o de repugn\u00e2ncia (essa, pelo menos, foi a interpreta\u00e7\u00e3o de meu pai) e virou-lhe a cara. O Velho ergueu-se, saiu do caf\u00e9 em passo acelerado, agarrou o homem pelas costas, obrigou-o a fazer meia volta e aplicou-lhe uma sonora bofetada.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Pausa. Na retomada, o filme passa a nos mostrar o que acontecia no n\u00facleo feminino. O narrador (edipiano ?), calmo mas preciso, como era de seu feitio, tra\u00e7a as venturas e as desventuras da m\u00e3e.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cA todas essas, minha m\u00e3e continuava a pedalar a sua Singer, fazendo face, absolutamente sozinha, \u00e0s despesas da casa. Seus olhos continuavam tristes, seus suspiros contavam todas as m\u00e1goas que ela recusava transformar em palavras. N\u00e3o se imagine, por\u00e9m, que ela tivesse passado a vida numa permanente atitude de tristeza e infelicidade. De vez em quando essa fechada ostra, de concha t\u00e3o rudemente batida pelas ondas daqueles mares, abria-se numa bela, rara p\u00e9rola de humor. D. Bega cultivava uma ironia mansa e seca de serrana, e sabia como poucos apanhar os tra\u00e7os caricaturais duma pessoa, reduzindo-os a tr\u00eas ou quatro palavras.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cGra\u00e7as ao dinheiro que ela ganhou com seu trabalho de modista, foi-me poss\u00edvel passar tr\u00eas anos como interno num col\u00e9gio em Porto Alegre.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cSempre me doeu v\u00ea-la trabalhar tanto. Com a cabe\u00e7a eu compreendia que, em toda aquela situa\u00e7\u00e3o familiar, eu devia estar incondicionalmente ao lado dela. Nem por isso, por\u00e9m, minha atra\u00e7\u00e3o e afei\u00e7\u00e3o pelo meu pai diminu\u00edam. Eu sentia por ele algo que a palavra inglesa&nbsp;<\/em>awe<em>&nbsp;quase exprime bem. (Espero n\u00e3o estar sendo pedante.)&nbsp;<\/em>Awe<em>&nbsp;\u00e9 um medo reverente. Mas no meu caso, al\u00e9m de temor e rever\u00eancia, havia ainda amor. E por sentir tudo isso com rela\u00e7\u00e3o a meu pai, eu me julgava culpado duma inomin\u00e1vel injusti\u00e7a para com minha m\u00e3e.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/mapati.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/308_singer-836x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-15302\" width=\"430\" height=\"526\" srcset=\"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/308_singer-836x1024.jpg 836w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/308_singer-245x300.jpg 245w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/308_singer-768x940.jpg 768w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/308_singer.jpg 944w\" sizes=\"(max-width: 430px) 100vw, 430px\" \/><figcaption>Pixabay License<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>\u00c0 guisa de desfecho desta postagem, mas antecipando que jamais iremos largar o Erico Ver\u00edssimo, volvamos ao Sebasti\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cAcredito que Sebasi\u00e3o Ver\u00edssimo tivesse seus momentos de remorso e d\u00favida. Mas n\u00e3o duravam. Ele se contentava com a simples verbaliza\u00e7\u00e3o de seus prop\u00f3sitos de&nbsp;<\/em>\u2018regenera\u00e7\u00e3o\u2019<em>. Com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 farm\u00e1cia, portava-se como se ela fosse a galinha-dos-ovos-de-ouro. Parecia que jamais lhe passava pela cabe\u00e7a a id\u00e9ia de que, ao cabo de certo prazo, tinha de pagar nos bancos as duplicatas emitidas pelas drogarias de Porto Alegre que lhe forneciam os medicamentos que se alinhavam,&nbsp;<strong>cada vez mais escassos, nas prateleiras da botica, e que ele&nbsp;<\/strong>(<\/em>o negrito \u00e9 do original. Falha na edi\u00e7\u00e3o?&nbsp;Marcos<em>), Sebasti\u00e3o, com a colabora\u00e7\u00e3o do bom Miguel, distribu\u00eda gratuitamente entre os pobres ou vendia a cr\u00e9dito a parentes e amigos que, em sua maioria, nunca pagavam suas contas.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cTodos os dias, ap\u00f3s o jantar, Sebasti\u00e3o Ver\u00edssimo vestia uma de suas melhores roupas, perfumava-se, punha na cintura seu rev\u00f3lver nacarado, acionava a manivela da caixa registradora, arrebanhava todas as c\u00e9dulas que suas gavetas continham, atufava-as nos bolsos, sem conta-las, e l\u00e1 se ia, faceiro, para viver e gozar mais uma noite de sua vida.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cQuando alguma ag\u00eancia banc\u00e1ria local lhe comunicava que uma das duplicatas aceitas por ele estava vencida, entrava em cena o Dr. Franklin para socorrer financeiramente o seu filho mimado e evitar o protesto do t\u00edtulo. Foi depois da morte de meu av\u00f4 paterno que se acelerou a derrocada da Farm\u00e1cia Brasileira.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\">19\/02\/2020<br>(308)<br><a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"mailto:mmsmarcos1953@hotmail.com\" target=\"_blank\">mmsmarcos1953@hotmail.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na velhice, mem\u00f3rias bem guardadas retornam com a vivacidade dos banhos frios. Agora h\u00e1 a fragilidade que faculta fantasias. Como um p\u00f4r de sol, vem o sentimento do que foi perdido e n\u00e3o pode ser consertado. A corcunda dos velhos \u00e9 a mochila dos seus feitos. E, no entanto, s\u00f3 uma longa vida permite descobrir quem merece ou n\u00e3o o nosso amor. Voc\u00ea sente o nojento cheiro do ralo, mas tamb\u00e9m aspira a fragr\u00e2ncia dos amores-perfeitos. &#8211; Roberto Damatta &#8211; &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Equivocado \u00e9 considerar que as postagens deste t\u00f3pico da saudade voltam no tempo e l\u00e1 se estratificam, num contexto de parasita; essa compara\u00e7\u00e3o, evocativa da cinematogr\u00e1fica Coreia do Sul, j\u00e1 trai contemporaneidade. O voo para \u00e9pocas remotas n\u00e3o ressignifica os dias de hoje, antes os retrata. Se assim podemos acrescer: exatamente, indefectivelmente. &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Por\u00e9m, a exegese \u00e9 trabalhosa e complexa, n\u00e3o \u00e9 autom\u00e1tica. Reporta-se o fato pret\u00e9rito com a fidedignidade poss\u00edvel de modo a que &nbsp;as recorda\u00e7\u00f5es enrique\u00e7am a atualidade, o presente, o qual a sua vez orientar\u00e1 os p\u00f3steros na an\u00e1lise e compreens\u00e3o dos acontecimentos que estar\u00e3o vivenciando no (para n\u00f3s) futuro. Em suma, o passado que agora nos ilumina a todos e todas vai se amalgamar ao que ocorre hoje e projetar luzes no devir. Neste ponto, damos in\u00edcio \u00e0 nossa empreitada visitando a inf\u00e2ncia de quem j\u00e1 nos deixou h\u00e1 d\u00e9cadas. Ou melhor, nossa jornada aos pampas ga\u00fachos come\u00e7ara nas Mem\u00f3rias\/Memorialistas LX, LXI e LXII, as de n\u00ba 300, 302, 303 (aqui, veiculadas no segundo semestre de 2019), chegando a esta quarta, n\u00b0 308, na forma consignada no fim desta postagem. \u201c\u00c9 sabido que o rel\u00f3gio psicol\u00f3gico da inf\u00e2ncia anda muito mais devagar que o dos adultos. O calend\u00e1rio das crian\u00e7as parece feito mais para a eternidade do que para o tempo humano. As horas de aula arrastam-se como tartarugas mon\u00f3tonas. Como custa a chegar, todos os anos, o per\u00edodo de f\u00e9rias de ver\u00e3o! E que vontade de ficarem homens depressa t\u00eam os meninos! \u201cQuando hoje tento lembrar-me de certos epis\u00f3dios e pessoas de meu mundo de crian\u00e7a, n\u00e3o me \u00e9 nada f\u00e1cil situ\u00e1-los no territ\u00f3rio do passado. Tenho a impress\u00e3o de que minha vida entre os cinco e os dezoito anos ocupou um espa\u00e7o de tempo muito mais longo que dos vinte aos sessenta. Afinal de contas, a mem\u00f3ria de um velho est\u00e1 cheia de labirintos, de falsos sinais de tr\u00e2nsito, de v\u00e1cuos e, por assim dizer, de sil\u00eancios temporais e espaciais, isso para n\u00e3o falar em miragens&#8230; \u201cEscrever mem\u00f3rias numa ordem rigorosamente cronol\u00f3gica seria uma tarefa dif\u00edcil, perigosa e possivelmente mon\u00f3tona. De resto, o tempo do calend\u00e1rio e o do rel\u00f3gio pouco e \u00e0s vezes nada t\u00eam a ver com o tempo do nosso esp\u00edrito.\u201d Lido isso, a gente se d\u00e1 conta de que n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil escrever, n\u00e3o basta sentar-se, abrir o note (antigamente, era l\u00e1pis e papel), articular ideias, encadear palavras e logo em seguida tirar a obra do prelo. N\u00e3o \u00e9 dessa maneira que a coisa funciona. 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Gostava de m\u00fasica, principalmente da l\u00edrica. Costumava ler poemas alheios em voz alta para familiares ou amigos. Sabia escrever com clareza, corre\u00e7\u00e3o e gra\u00e7a. Era um orador espont\u00e2neo. Trouxe, por assim dizer, um sopro de espiritualidade para o seu burgo guasca, onde imperava um chefe pol\u00edtico atrabili\u00e1rio, que ele teve a coragem de enfrentar, em nome da liberdade e da dignidade humana. Tudo indicava nele o idealista, o pensador, o homem de sensibilidade apurada. Como se processou a&nbsp;\u2018mudan\u00e7a\u2019? N\u00e3o me consta que houvesse sofrido qualquer desgosto ou desilus\u00e3o capaz de traumatiz\u00e1-lo a ponto de faz\u00ea-lo concluir que nada na vida&nbsp;valia a pena. N\u00e3o acredito que essa transforma\u00e7\u00e3o se tenha operado da noite para o dia. Deve ter havido um processo lento de desintegra\u00e7\u00e3o.\u201d &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Nas artes em geral &#8211; literatura, teatro, cinema -, contam-se aos milhares (a rigor, aos milh\u00f5es) as hist\u00f3rias e os roteiros tratando de desaven\u00e7as entre filhos e pais. No caso em foco n\u00e3o h\u00e1 \u00f3dio nem raiva, ultraexiste afeto. O magistral escritor Erico Ver\u00edssimo, sob a capa de memorialista, prossegue no avan\u00e7o da disseca\u00e7\u00e3o do pai, o Sebasti\u00e3o Ver\u00edssimo. \u201cA primeira coisa que Sebasti\u00e3o Ver\u00edssimo perdeu foi o h\u00e1bito de leitura. Na sua vol\u00fapia de generosidade, no desejo, que nunca morreu nele, de ser querido e admirado, p\u00f4s-se a dar de presente os livros de sua rica biblioteca a amigos, conhecidos e at\u00e9 desconhecidos. Deixou-se tamb\u00e9m espoliar por esses eternos abutres de bibliotecas alheias. Os discos se foram pelo mesmo caminho. E Sebasti\u00e3o Ver\u00edssimo passou a entregar-se por completo \u00e0 vida dos sentidos, dos prazeres, principalmente os da mesa e os da cama. Continuou, entretanto, a ser um conviva brilhante e agrad\u00e1vel, e a gostar de boas roupas e perfumes. N\u00e3o tenho elementos para aferir a dura\u00e7\u00e3o e o ritmo desse processo, pois o adulto n\u00e3o entende \u2013 repito \u2013 o tempo do menino e vice-versa. Torno a perguntar: qual teria sido a causa da grande mudan\u00e7a? Uma exacerba\u00e7\u00e3o insopit\u00e1vel de seu temperamento sensual? A id\u00e9ia de que devia provar de todos os frutos da carne, num a\u00e7odamento de quem teme morrer cedo demais? (Seu pai n\u00e3o atingira sequer os sessenta anos.) Teria Sebasti\u00e3o Ver\u00edssimo sido derrotado pela mediocridade de sua pequena cidade provinciana? N\u00e3o creio, pois parece que ele se sentia feliz em Cruz Alta, onde gastou fortunas. S\u00f3 viajou ao estrangeiro uma \u00fanica vez. Na companhia de um amigo \u00edntimo visitou Buenos Aires, onde se demorou uma ou duas semanas, se tanto. E que poderiam ter feito na capital da Argentina a n\u00e3o ser ca\u00e7ar belas mulheres e visitar os melhores cabar\u00e9s e restaurantes? \u201cCreio que \u00e9 importante observar que, mesmo nos piores momentos de sua vida, Sebasti\u00e3o Ver\u00edssimo nunca perdeu o seu penacho e \u2013 para usar duma palavra muito do seu gosto e uso \u2013 a sua&nbsp;\u2018hombridade\u2019. Nos tempos da decad\u00eancia, quando j\u00e1 come\u00e7ara a beber imoderadamente, estava, uma noite, sentado a uma mesa no Caf\u00e9 Schlapp, rodeado duma dez meias garrafas de cerveja preta, que enxugara sozinho, quando passou pela cal\u00e7ada um conhecido seu que, atrav\u00e9s duma janela, olhou para ele com uma express\u00e3o de repugn\u00e2ncia (essa, pelo menos, foi a interpreta\u00e7\u00e3o de meu pai) e virou-lhe a cara. O Velho ergueu-se, saiu do caf\u00e9 em passo acelerado, agarrou o homem pelas costas, obrigou-o a fazer meia volta e aplicou-lhe uma sonora bofetada.\u201d Pausa. Na retomada, o filme passa a nos mostrar o que acontecia no n\u00facleo feminino. O narrador (edipiano ?), calmo mas preciso, como era de seu feitio, tra\u00e7a as venturas e as desventuras da m\u00e3e. \u201cA todas essas, minha m\u00e3e continuava a pedalar a sua Singer, fazendo face, absolutamente sozinha, \u00e0s despesas da casa. Seus olhos continuavam tristes, seus suspiros contavam todas as m\u00e1goas que ela recusava transformar em palavras. N\u00e3o se imagine, por\u00e9m, que ela tivesse passado a vida numa permanente atitude de tristeza e infelicidade. De vez em quando essa fechada ostra, de concha t\u00e3o rudemente batida pelas ondas daqueles mares, abria-se numa bela, rara p\u00e9rola de humor. D. Bega cultivava uma ironia mansa e seca de serrana, e sabia como poucos apanhar os tra\u00e7os caricaturais duma pessoa, reduzindo-os a tr\u00eas ou quatro palavras. \u201cGra\u00e7as ao dinheiro que ela ganhou com seu trabalho de modista, foi-me poss\u00edvel passar tr\u00eas anos como interno num col\u00e9gio em Porto Alegre. \u201cSempre me doeu v\u00ea-la trabalhar tanto. Com a cabe\u00e7a eu compreendia que, em toda aquela situa\u00e7\u00e3o familiar, eu devia estar incondicionalmente ao lado dela. Nem por isso, por\u00e9m, minha atra\u00e7\u00e3o e afei\u00e7\u00e3o pelo meu pai diminu\u00edam. Eu sentia por ele algo que a palavra inglesa&nbsp;awe&nbsp;quase exprime bem. (Espero n\u00e3o estar sendo pedante.)&nbsp;Awe&nbsp;\u00e9 um medo reverente. Mas no meu caso, al\u00e9m de temor e rever\u00eancia, havia ainda amor. E por sentir tudo isso com rela\u00e7\u00e3o a meu pai, eu me julgava culpado duma inomin\u00e1vel injusti\u00e7a para com minha m\u00e3e.\u201d \u00c0 guisa de desfecho desta postagem, mas antecipando que jamais iremos largar o Erico Ver\u00edssimo, volvamos ao Sebasti\u00e3o. \u201cAcredito que Sebasi\u00e3o Ver\u00edssimo tivesse seus momentos de remorso e d\u00favida. Mas n\u00e3o duravam. Ele se contentava com a simples verbaliza\u00e7\u00e3o de seus prop\u00f3sitos de&nbsp;\u2018regenera\u00e7\u00e3o\u2019. Com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 farm\u00e1cia, portava-se como se ela fosse a galinha-dos-ovos-de-ouro. Parecia que jamais lhe passava pela cabe\u00e7a a id\u00e9ia de que, ao cabo de certo prazo, tinha de pagar nos bancos as duplicatas emitidas pelas drogarias de Porto Alegre que lhe forneciam os medicamentos que se alinhavam,&nbsp;cada vez mais escassos, nas prateleiras da botica, e que ele&nbsp;(o negrito \u00e9 do original. Falha na edi\u00e7\u00e3o?&nbsp;Marcos), Sebasti\u00e3o, com a colabora\u00e7\u00e3o do bom Miguel, distribu\u00eda gratuitamente entre os pobres ou vendia a cr\u00e9dito a parentes e amigos que, em sua maioria, nunca pagavam suas contas. \u201cTodos os dias, ap\u00f3s o jantar, Sebasti\u00e3o Ver\u00edssimo vestia uma de suas melhores roupas, perfumava-se, punha na cintura seu rev\u00f3lver nacarado, acionava a manivela da caixa registradora, arrebanhava todas as c\u00e9dulas que suas gavetas continham, atufava-as nos bolsos, sem conta-las, e l\u00e1 se ia, faceiro, para viver e gozar mais uma noite de sua vida. \u201cQuando alguma ag\u00eancia banc\u00e1ria local lhe comunicava que uma das duplicatas aceitas por ele estava vencida, entrava em cena o Dr. Franklin para socorrer financeiramente o seu filho mimado e evitar o protesto do t\u00edtulo. Foi depois da morte de meu av\u00f4 paterno que se acelerou a derrocada da Farm\u00e1cia Brasileira.\u201d 19\/02\/2020(308)mmsmarcos1953@hotmail.com<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":15298,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-15300","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-sem-categoria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15300","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15300"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15300\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15303,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15300\/revisions\/15303"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/media\/15298"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15300"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15300"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15300"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}