{"id":15343,"date":"2020-04-18T21:58:17","date_gmt":"2020-04-19T00:58:17","guid":{"rendered":"http:\/\/mapati.com.br\/?p=15343"},"modified":"2020-04-18T22:22:45","modified_gmt":"2020-04-19T01:22:45","slug":"memorias-memorialistas-lxiv","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/memorias-memorialistas-lxiv\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3rias\/Memorialistas (LXIV)"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\"><em>Esquecer os mortos \u00e9 o mesmo que mat\u00e1-los uma segunda vez.<\/em><br> &#8211; Elie Wiesel &#8211; <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Todo mundo pelejando para fugir do assunto, ningu\u00e9m conseguindo.<br>N\u00e3o passa um minuto &#8211; sessenta\u00a0segundos mesmo \u2013\u00a0sem ouvirmos\u00a0<em>Coronavirus<\/em>\u00a0ou\u00a0<em>Covid-19<\/em>. Ainda vai ser assim por uma longa fase para exaspera\u00e7\u00e3o dos que executam atividades profissionais no pr\u00f3prio local de trabalho ou em casa; para a turba que erra pelas ruas, pra\u00e7as e superquadras, tanto faz como tanto fez.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na tentativa de espancar a amargura,&nbsp;procurei como&nbsp;de praxe amparo nos memorialistas replicados neste blog. Usando a m\u00e1scara e as luvas, girei a roleta e sintomaticamente assomou a figura do maior do pa\u00eds nesse g\u00eanero de literatura, o Pedro Nava, que acumula o papel de escritor com o de&#8230; m\u00e9dico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Prosseguindo minha jornada pelo quarto volume,&nbsp;<em>Beira-mar<\/em>, deparo com trecho mencionando pestes, doen\u00e7as, calamidades, a ser ressaltado em oportuna postagem, de mistura com exalta\u00e7\u00e3o aos seus professores de medicina (Viva a ci\u00eancia!).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\"><em>\u201c(&#8230;) RETOMANDO O RELATO das aulas da Faculdade de Medicina nesse ano de 1924 quero marcar que, al\u00e9m de completarmos nossos estudos de Anatomia Descritiva e Fisiologia, tomamos contato com cadeiras novas que iam ampliar conhecimentos sobre nossa dona a Mol\u00e9stia e principalmente come\u00e7ar o noviciado com esse companheiro de cada pensamento, de cada instante, de cada dia \u2013 o Doente. (&#8230;) Quero me deter um pouco sobre esses professores e seu ensino pois das m\u00e3os deles recebemos mais um sacramento hipocr\u00e1tico e alguma coisa como a imposi\u00e7\u00e3o de um carisma, duma confirma\u00e7\u00e3o. Cuidando de suas personalidades (tanto quanto permita minha fal\u00edvel humanidade) quero ser justo, n\u00e3o depondo nem contra nem a seu favor. Simplesmente depondo. Ali\u00e1s, continuando a fazer o que tenho procurado fazer at\u00e9 aqui nas minhas recorda\u00e7\u00f5es \u2013 n\u00e3o as escrevendo para agradar nem para transform\u00e1-las em investimento de lisonjas.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;Por ora nos debrucemos nas observa\u00e7\u00f5es do Nava acerca do que seria precisamente escrever mem\u00f3rias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\"><em>\u201cNesse terreno a sinceridade se imp\u00f5e porque escrever mem\u00f3rias \u00e9 um ajuste de contas do eu com o eu e \u00e9 l\u00edcito mentir a si mesmo. Essa franqueza assenta em quem escreve se amparando, assistindo, socorrendo \u2013 na solid\u00e3o terr\u00edvel da exist\u00eancia. Seria insensato n\u00e3o aproveitar tal ocasi\u00e3o de darmos a n\u00f3s mesmos o que pudermos de verdade e companhia. Escrever mem\u00f3rias \u00e9 animar e prolongar nosso alter ego. \u00c9 transfundir vida, dar vida ao nosso William Wilson,<\/em><br><em>\u00e9 n\u00e3o mat\u00e1-lo \u2013 como na fic\u00e7\u00e3o de Poe. E essa vida \u00e9 a Verdade. Com essa digress\u00e3o tomei atalho dentro do qual devo dar mais uns poucos passos para deixar claro no leitor, a concep\u00e7\u00e3o do que considero mem\u00f3rias. Para quem quer escrev\u00ea-las sendo leal consigo mesmo \u2013 h\u00e1 que fazer t\u00e1bua rasa das imposi\u00e7\u00f5es familiares, das vexa\u00e7\u00f5es do interesse material, do constrangimento idiota da vida social. Imp\u00f5e-se a tomada<\/em><br><em>cilicial do que Jo\u00e3o Ribeiro batizou a \u2018filosofia do ex\u00edlio\u2019.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Disso decorre eu me filiar \u00e0 corrente de defesa da tese segundo a qual um grande memorialista possa se encontrar sempre pr\u00f3ximo, quase amalgamado, a um grande historiador, esse com, digamos, menos liberdade doutrin\u00e1ria, aquele com um arco mais amplo para o exerc\u00edcio da valora\u00e7\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 palavr\u00f3rio na obra do Pedro Nava, assim como na lei, que n\u00e3o cont\u00e9m termos sup\u00e9rfluos. As palavras do m\u00e9dico nascido na Juiz de Fora do in\u00edcio do s\u00e9culo passado saem, em verdade, aos borbot\u00f5es, sedutoramente. N\u00e3o percebemos os neologismos, eles desfilam mim\u00e9ticos, sob falsa capa de que integram h\u00e1 s\u00e9culos a linguagem atual, seja a erudita, seja a corriqueira. Todavia, em nenhum momento \u00e9 poss\u00edvel vislumbrar exageros ret\u00f3ricos. As descri\u00e7\u00f5es dos lugares, das pessoas, dos arrufos, dos relacionamentos amorosos s\u00e3o evidenciadas sadicamente em passagens que, numa engabela\u00e7\u00e3o, transformam os ledores em masoquistas, sem f\u00f4lego, carentes dos&nbsp;respiradores e aparelhos de ventila\u00e7\u00e3o t\u00e3o escassos nestes nossos tristes tempos de confinamento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\"><em>\u201cN\u00e3o s\u00f3 no sentido dado pelo mestre ao isolamento necess\u00e1rio ao trabalho, mas principalmente, \u00e0 obrigat\u00f3ria ruptura com os pr\u00f3ximos e destes, sobretudo com aqueles a quem s\u00f3 nos liga escassamente o costume, a conviv\u00eancia, a mera coincid\u00eancia \u2013 jamais a verdadeira afei\u00e7\u00e3o. Eu estendo ainda a deporta\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o Ribeiro, a um martirol\u00f3gio: a busca volunt\u00e1ria, a tomada da posi\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade a tudo que o mesquinho pr\u00f3ximo tem para agress\u00e3o fora da pol\u00eamica e do combate a peito aberto. A maledic\u00eancia, a cal\u00fania, a intriga, a mise-em-branle completa da m\u00e1quina da inveja. \u00c9 preciso uma resist\u00eancia sobre-humana para ag\u00fcentar esse ass\u00e9dio sem entrega e sem degrada\u00e7\u00e3o das pr\u00f3prias armas. \u00c9 preciso continuar fi\u00e9is a nossa verdade mesmo quando ela aborrece e desagrada porque \u00e9 assim que ela nos ajuda, paradoxalmente, a praticar ato de amor com os inimigos \u2013 fazendo a terap\u00eautica cir\u00fargica de seu esquecimento. Extirpando-os. Amputando-os. Erradicando-os. (&#8230;).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E o Nava vai demonstrando o paradoxo \u201clembrar para esquecer\u201d, sem preservar nada, sem poupar ningu\u00e9m; desembainha sua adaga para futucar colegas, amigos, parentada, numa postura que a princ\u00edpio e de certa maneira vai fragiliz\u00e1-lo junto a todos e todas, atraindo m\u00e1goas e incompreens\u00f5es, mas que \u00e9 indeclin\u00e1vel quando se pretende narrar uma hist\u00f3ria de vida com moral indeformada.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/mapati.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/LXIV_Pedro-Nava_por_Pinto_de_Moura.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-15347\" width=\"410\" height=\"588\" srcset=\"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/LXIV_Pedro-Nava_por_Pinto_de_Moura.png 432w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/LXIV_Pedro-Nava_por_Pinto_de_Moura-209x300.png 209w\" sizes=\"(max-width: 410px) 100vw, 410px\" \/><figcaption>Pedro Nava por Pinto de Moura &#8211; 1927<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\"><em>\u201cO que conv\u00e9m dizer \u00e9 que lembrando estamos provocando o esquecimento. Depois de escrito, o que foi ressuscitado estar\u00e1, ent\u00e3o, definitivamente morto. Tenho experimentado isto com a evoca\u00e7\u00e3o de personagens que me eram odiosos e que depois de fixados por mim no f\u00edsico que me desagradava, no procedimento que me revoltou \u2013 como que falecem na minha lembran\u00e7a e at\u00e9 adquirem, quando reaparecem, um aspecto indiferente e \u00e0s vezes quase toler\u00e1vel. Um grande bem me chega desses ajustes de contas. Depois de caricaturar meus rancorizados eles perdem completamente o travo e posso pensar neles at\u00e9 com piedade. Liberto-me do \u00f3dio. Porque este, em mim, como amor (logicamente, como o amor) acompanha o defunto tamb\u00e9m. Se eu amo esta mem\u00f3ria? por qu\u00ea? n\u00e3o tenho direito de aborrecer aquela? Esse desagrad\u00e1vel sentimento \u00e9 que tento suprimir. Minha moral, como dizia Mario de Andrade, n\u00e3o \u00e9 a moral cotidiana. Poderia? Escrever sem remorso o que escrevi de certos parentes meus. Sim. Porque para mim eles perdem o car\u00e1ter de criaturas humanas no momento em que come\u00e7o a&nbsp;<\/em>escrev\u00ea-los<em>. Nessa hora eles viram&nbsp;<\/em>personagens&nbsp;<em>e cria\u00e7\u00e3o minha. Passam a me pertencer como pertenci a eles no preciso instante em que me ofenderam, humilharam e fizeram sofrer minha inf\u00e2ncia. Vivos ou mortos eu tenho de suprimi-los o que fa\u00e7o ferindo pela escrita \u2013 j\u00e1 que esta \u00e9 a arma que me conferiu a natureza. E o que estou dizendo n\u00e3o \u00e9 uma explica\u00e7\u00e3o para os vivos tampouco para os que acham minhas mem\u00f3rias cru\u00e9is&#8230;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para quem&nbsp;sobreviveu ao gozo e \u00e0 afli\u00e7\u00e3o da leitura de tudo o que evocado at\u00e9 o momento, comunico que dou por finda esta postagem, trazendo mais alguns registros do m\u00e9dico que numa epifania, j\u00e1 um&nbsp;sessent\u00e3o, paciente de risco portanto, decidira que era a hora de p\u00f4r no papel algumas lembrancinhas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>\u201cContinuarei como comecei e j\u00e1 que estamos no terreno dos esclarecimentos abordo outro aspecto de minhas lembran\u00e7as. Ali\u00e1s, j\u00e1 entrei nesse assunto no meu&nbsp;<\/em>Bal\u00e3o Cativo<em>. \u00c9 o uso do palavr\u00e3o. Ele tem o seu lugar. Considero t\u00e3o inconceb\u00edvel um livro de pornografia pura como o fato de comer cebola, alho e pimenta puros. Mas a express\u00e3o chula ou obscena tem valor condimentar e tem de entrar num texto na hora e propor\u00e7\u00f5es certos \u2013 como o alho no arroz, cebola no bife e a pimenta na muqueca. A palavra maldita tamb\u00e9m \u00e9 tempero&#8230; Us\u00e1-la no momento adequado \u00e9 fazer alta cozinha. Mas chega de devaneios e vamos contar meus professores do terceiro ano m\u00e9dico.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\"><a href=\"https:\/\/www.infoescola.com\/biografias\/pedro-nava\/\">#Pedro Nava<\/a><br><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Beira-Mar_(livro)\">#Beira-Mar<\/a><br><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Elie_Wiesel\">#Elie Wiesel<\/a><br><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Edgar_Allan_Poe\">#Edgar Allan Poe<\/a><br><a href=\"#William Wilson\">#William Wilson <\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">18\/04\/2020<br> (311)<br> <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"mailto:mmsmarcos1953@hotmail.com\" target=\"_blank\">mmsmarcos1953@hotmail.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Esquecer os mortos \u00e9 o mesmo que mat\u00e1-los uma segunda vez. &#8211; Elie Wiesel &#8211; Todo mundo pelejando para fugir do assunto, ningu\u00e9m conseguindo.N\u00e3o passa um minuto &#8211; sessenta\u00a0segundos mesmo \u2013\u00a0sem ouvirmos\u00a0Coronavirus\u00a0ou\u00a0Covid-19. Ainda vai ser assim por uma longa fase para exaspera\u00e7\u00e3o dos que executam atividades profissionais no pr\u00f3prio local de trabalho ou em casa; para a turba que erra pelas ruas, pra\u00e7as e superquadras, tanto faz como tanto fez. Na tentativa de espancar a amargura,&nbsp;procurei como&nbsp;de praxe amparo nos memorialistas replicados neste blog. Usando a m\u00e1scara e as luvas, girei a roleta e sintomaticamente assomou a figura do maior do pa\u00eds nesse g\u00eanero de literatura, o Pedro Nava, que acumula o papel de escritor com o de&#8230; m\u00e9dico. Prosseguindo minha jornada pelo quarto volume,&nbsp;Beira-mar, deparo com trecho mencionando pestes, doen\u00e7as, calamidades, a ser ressaltado em oportuna postagem, de mistura com exalta\u00e7\u00e3o aos seus professores de medicina (Viva a ci\u00eancia!). \u201c(&#8230;) RETOMANDO O RELATO das aulas da Faculdade de Medicina nesse ano de 1924 quero marcar que, al\u00e9m de completarmos nossos estudos de Anatomia Descritiva e Fisiologia, tomamos contato com cadeiras novas que iam ampliar conhecimentos sobre nossa dona a Mol\u00e9stia e principalmente come\u00e7ar o noviciado com esse companheiro de cada pensamento, de cada instante, de cada dia \u2013 o Doente. (&#8230;) Quero me deter um pouco sobre esses professores e seu ensino pois das m\u00e3os deles recebemos mais um sacramento hipocr\u00e1tico e alguma coisa como a imposi\u00e7\u00e3o de um carisma, duma confirma\u00e7\u00e3o. Cuidando de suas personalidades (tanto quanto permita minha fal\u00edvel humanidade) quero ser justo, n\u00e3o depondo nem contra nem a seu favor. Simplesmente depondo. Ali\u00e1s, continuando a fazer o que tenho procurado fazer at\u00e9 aqui nas minhas recorda\u00e7\u00f5es \u2013 n\u00e3o as escrevendo para agradar nem para transform\u00e1-las em investimento de lisonjas.\u201d &nbsp;Por ora nos debrucemos nas observa\u00e7\u00f5es do Nava acerca do que seria precisamente escrever mem\u00f3rias. \u201cNesse terreno a sinceridade se imp\u00f5e porque escrever mem\u00f3rias \u00e9 um ajuste de contas do eu com o eu e \u00e9 l\u00edcito mentir a si mesmo. Essa franqueza assenta em quem escreve se amparando, assistindo, socorrendo \u2013 na solid\u00e3o terr\u00edvel da exist\u00eancia. Seria insensato n\u00e3o aproveitar tal ocasi\u00e3o de darmos a n\u00f3s mesmos o que pudermos de verdade e companhia. Escrever mem\u00f3rias \u00e9 animar e prolongar nosso alter ego. \u00c9 transfundir vida, dar vida ao nosso William Wilson,\u00e9 n\u00e3o mat\u00e1-lo \u2013 como na fic\u00e7\u00e3o de Poe. E essa vida \u00e9 a Verdade. Com essa digress\u00e3o tomei atalho dentro do qual devo dar mais uns poucos passos para deixar claro no leitor, a concep\u00e7\u00e3o do que considero mem\u00f3rias. Para quem quer escrev\u00ea-las sendo leal consigo mesmo \u2013 h\u00e1 que fazer t\u00e1bua rasa das imposi\u00e7\u00f5es familiares, das vexa\u00e7\u00f5es do interesse material, do constrangimento idiota da vida social. 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As descri\u00e7\u00f5es dos lugares, das pessoas, dos arrufos, dos relacionamentos amorosos s\u00e3o evidenciadas sadicamente em passagens que, numa engabela\u00e7\u00e3o, transformam os ledores em masoquistas, sem f\u00f4lego, carentes dos&nbsp;respiradores e aparelhos de ventila\u00e7\u00e3o t\u00e3o escassos nestes nossos tristes tempos de confinamento. \u201cN\u00e3o s\u00f3 no sentido dado pelo mestre ao isolamento necess\u00e1rio ao trabalho, mas principalmente, \u00e0 obrigat\u00f3ria ruptura com os pr\u00f3ximos e destes, sobretudo com aqueles a quem s\u00f3 nos liga escassamente o costume, a conviv\u00eancia, a mera coincid\u00eancia \u2013 jamais a verdadeira afei\u00e7\u00e3o. Eu estendo ainda a deporta\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o Ribeiro, a um martirol\u00f3gio: a busca volunt\u00e1ria, a tomada da posi\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade a tudo que o mesquinho pr\u00f3ximo tem para agress\u00e3o fora da pol\u00eamica e do combate a peito aberto. A maledic\u00eancia, a cal\u00fania, a intriga, a mise-em-branle completa da m\u00e1quina da inveja. \u00c9 preciso uma resist\u00eancia sobre-humana para ag\u00fcentar esse ass\u00e9dio sem entrega e sem degrada\u00e7\u00e3o das pr\u00f3prias armas. \u00c9 preciso continuar fi\u00e9is a nossa verdade mesmo quando ela aborrece e desagrada porque \u00e9 assim que ela nos ajuda, paradoxalmente, a praticar ato de amor com os inimigos \u2013 fazendo a terap\u00eautica cir\u00fargica de seu esquecimento. Extirpando-os. Amputando-os. Erradicando-os. (&#8230;). E o Nava vai demonstrando o paradoxo \u201clembrar para esquecer\u201d, sem preservar nada, sem poupar ningu\u00e9m; desembainha sua adaga para futucar colegas, amigos, parentada, numa postura que a princ\u00edpio e de certa maneira vai fragiliz\u00e1-lo junto a todos e todas, atraindo m\u00e1goas e incompreens\u00f5es, mas que \u00e9 indeclin\u00e1vel quando se pretende narrar uma hist\u00f3ria de vida com moral indeformada. \u201cO que conv\u00e9m dizer \u00e9 que lembrando estamos provocando o esquecimento. Depois de escrito, o que foi ressuscitado estar\u00e1, ent\u00e3o, definitivamente morto. Tenho experimentado isto com a evoca\u00e7\u00e3o de personagens que me eram odiosos e que depois de fixados por mim no f\u00edsico que me desagradava, no procedimento que me revoltou \u2013 como que falecem na minha lembran\u00e7a e at\u00e9 adquirem, quando reaparecem, um aspecto indiferente e \u00e0s vezes quase toler\u00e1vel. Um grande bem me chega desses ajustes de contas. Depois de caricaturar meus rancorizados eles perdem completamente o travo e posso pensar neles at\u00e9 com piedade. Liberto-me do \u00f3dio. Porque este, em mim, como amor (logicamente, como o amor) acompanha o defunto tamb\u00e9m. Se eu amo esta mem\u00f3ria? por qu\u00ea? n\u00e3o tenho direito de aborrecer aquela? Esse desagrad\u00e1vel sentimento \u00e9 que tento suprimir. Minha moral, como dizia Mario de Andrade, n\u00e3o \u00e9 a moral cotidiana. Poderia? Escrever sem remorso o que escrevi de certos parentes meus. Sim. Porque para mim eles perdem o car\u00e1ter de criaturas humanas no momento em que come\u00e7o a&nbsp;escrev\u00ea-los. Nessa hora eles viram&nbsp;personagens&nbsp;e cria\u00e7\u00e3o minha. Passam a me pertencer como pertenci a eles no preciso instante em que me ofenderam, humilharam e fizeram sofrer minha inf\u00e2ncia. Vivos ou mortos eu tenho de suprimi-los o que fa\u00e7o ferindo pela escrita \u2013 j\u00e1 que esta \u00e9 a arma que me conferiu a natureza. E o que estou dizendo n\u00e3o \u00e9 uma explica\u00e7\u00e3o para os vivos tampouco para os que acham minhas mem\u00f3rias cru\u00e9is&#8230; Para quem&nbsp;sobreviveu ao gozo e \u00e0 afli\u00e7\u00e3o da leitura de tudo o que evocado at\u00e9 o momento, comunico que dou por finda esta postagem, trazendo mais alguns registros do m\u00e9dico que numa epifania, j\u00e1 um&nbsp;sessent\u00e3o, paciente de risco portanto, decidira que era a hora de p\u00f4r no papel algumas lembrancinhas. \u201cContinuarei como comecei e j\u00e1 que estamos no terreno dos esclarecimentos abordo outro aspecto de minhas lembran\u00e7as. Ali\u00e1s, j\u00e1 entrei nesse assunto no meu&nbsp;Bal\u00e3o Cativo. \u00c9 o uso do palavr\u00e3o. Ele tem o seu lugar. Considero t\u00e3o inconceb\u00edvel um livro de pornografia pura como o fato de comer cebola, alho e pimenta puros. Mas a express\u00e3o chula ou obscena tem valor condimentar e tem de entrar num texto na hora e propor\u00e7\u00f5es certos \u2013 como o alho no arroz, cebola no bife e a pimenta na muqueca. A palavra maldita tamb\u00e9m \u00e9 tempero&#8230; Us\u00e1-la no momento adequado \u00e9 fazer alta cozinha. Mas chega de devaneios e vamos contar meus professores do terceiro ano m\u00e9dico.\u201d #Pedro Nava#Beira-Mar#Elie Wiesel#Edgar Allan Poe#William Wilson 18\/04\/2020 (311) mmsmarcos1953@hotmail.com<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":15350,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-15343","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-sem-categoria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15343","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15343"}],"version-history":[{"count":9,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15343\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15357,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15343\/revisions\/15357"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/media\/15350"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15343"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15343"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15343"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}