{"id":15372,"date":"2020-05-18T21:23:35","date_gmt":"2020-05-19T00:23:35","guid":{"rendered":"http:\/\/mapati.com.br\/?p=15372"},"modified":"2020-05-18T21:33:19","modified_gmt":"2020-05-19T00:33:19","slug":"fausto-e-valter-embaixador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/fausto-e-valter-embaixador\/","title":{"rendered":"Fausto e Valter Embaixador"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>Os rituais de passagem do tempo s\u00e3o momentos de luto ou de arrependimento pelo que se foi e, simultaneamente, tempos de previs\u00e3o e de esperan\u00e7a.<\/em><br> \u2013 Roberto da Matta &#8211; <\/p>\n\n\n\n<p>Desconhe\u00e7o se existem estat\u00edsticas sobre o n\u00famero de retrovisores laterais que, como uma modalidade de vingan\u00e7a (justa ou n\u00e3o), os motoboys paulistas quebram diariamente ao ultrapassar carros nas marginais Tiet\u00ea e Pinheiros. Tudo indica que tais levantamentos, se porventura um dia feitos, restaram abandonados, n\u00e3o mais haveria ocorr\u00eancia dessa natureza, j\u00e1 porque o tr\u00e2nsito mudou para melhor devido ao atual n\u00famero reduzido de ve\u00edculos (olha a\u00ed, gente, o rod\u00edzio radical, par\/\u00edmpar), j\u00e1 porque merecidamente os condutores de motoca (essa \u00e9 nova), pelot\u00e3o de entrega das mercadorias as mais variadas, passaram a ser reconhecidos pela sociedade como profissionais imprescind\u00edveis, quase her\u00f3is pelo risco de exposi\u00e7\u00e3o acentuada ao v\u00edrus nesta \u00e9poca de isolamento.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outra parte, queria trazer para a pista (sem trocadilho) uma outra categoria de usu\u00e1rios de motocicletas. N\u00e3o s\u00e3o os (h\u00e1 mulheres tamb\u00e9m) pilotos de rali nem os de provas oficiais. Trata-se daqueles que ocupariam, por assim dizer, uma zona intermedi\u00e1ria: os motociclistas (experimente cham\u00e1-los de motoqueiros) que ostentam m\u00e1quinas superpotentes, valios\u00edssimas, e saem sozinhos ou em conjunto por a\u00ed, pelas rodovias deste pa\u00eds continental, em velocidades inimagin\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p>Destaco dois personagens.<\/p>\n\n\n\n<p>O primeiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Meu \u00faltimo&nbsp;<em>notebook<\/em>&nbsp;(sou das antigas, ainda uso isso), com aux\u00edlio luxuoso de um HD externo, possui fotos in\u00fameras e centenas de milhares de e-mails que expedi e recebi ao longo de quase vinte anos, coisa de 70.000 (setenta mil) mensagens ou mais. Claro que o atual equipamento herdou, dos anteriores da esp\u00e9cie que tive, boa parte desses arquivos e gerou seu pr\u00f3prio conte\u00fado. Para se ter ideia do quanto esses recados eletr\u00f4nicos do in\u00edcio da fila remontam a datas pret\u00e9ritas, numa tarde pregui\u00e7osa eu estava dando uma olhada nalguns deles e resolvi separar um que a Aline me enviara. Bradava ela: \u201cV\u00f4, meu pai n\u00e3o quer deixar eu entrar no MSN.\u201d &nbsp;Idade da menina quando lavrara o protesto? Respondo: 9 anos. Neste 2020, essa minha neta, a mais velha, se encaminha para os 24 anos bem vividos.<\/p>\n\n\n\n<p>O acervo \u00e9 muito precioso para mim. Pesco de quando em vez uma rel\u00edquia dessas e reencaminho para quem em tempo remoto ma endere\u00e7ou. De in\u00edcio o(a) destinat\u00e1rio(a) se confessa surpreso(a) e depois geralmente agradece a recorda\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Sucede que num mau dia o&nbsp;<em>not<\/em>e da pen\u00faltima linha sucess\u00f3ria deu pau, apagou-se tudo, os \u201cm\u00e9dicos\u201d o desenganaram. Entrei em p\u00e2nico. Que durou at\u00e9 eu conhecer (por indica\u00e7\u00e3o da Dazi Antunes Corr\u00eaa, a poeta paulista desgarrada aludida no fim da postagem anterior) um cara muito especial, dono de uma loja de venda e reparo de computadores funcionando havia mais de d\u00e9cada na SQN 212. O Fausto Teixeira aceitara prontamente o desafio do conserto improv\u00e1vel assegurando que o equipamento iria renascer das cinzas, atrav\u00e9s de um tratamento alongado como aquelas pris\u00f5es em Curitiba. Por for\u00e7a disso, passei a frequentar a \u201coficina\u201d que eu at\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o conhecia apesar de ter morado cinco anos na pacata e buc\u00f3lica superquadra. Estabeleci um tipo de amizade com aquele homem, um&nbsp;<em>workaholic<\/em>, simpatic\u00edssimo, carism\u00e1tico, falava sem intervalos em dois celulares ao mesmo tempo &#8211; sem deixar de concomitantemente atender com m\u00e1xima efici\u00eancia \u00e0 clientela fiel espalhada pelas cadeiras da \u201csala de estar\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Num mau dia, p\u00e9ssimo dia, tr\u00e1gico dia de 2019, fico sabendo que meu neoamigo, rei dos computadores, otimismo incontido, falecera num acidente de moto.<\/p>\n\n\n\n<p>O segundo personagem.<\/p>\n\n\n\n<p>Mudei em novembro de 2016 para \u00c1guas Claras, um quarto e sala e varanda no d\u00e9cimo andar, com vista espetacular. At\u00e9 que, dois anos depois, o s\u00edndico determinou expressamente que eu deveria esquecer minha vida de solteir\u00edssimo e transferir minha resid\u00eancia para um outro ap no mesmo pr\u00e9dio. Sou obediente e me apressei em cumprir a ordem superior. Qual n\u00e3o foi meu espanto ao constatar que o im\u00f3vel, situado no d\u00e9cimo terceiro andar, vista mais espetacular ainda, se encontrava ocupado pela propriet\u00e1ria, de nome Keila, com quem estou vivendo desde 2018, ambos no entanto sem alian\u00e7a no dedo e decididos a n\u00e3o ter filhos que isso \u00e9 para mo\u00e7os e mo\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p>Entrementes, eu nos preparativos para entregar o ap do d\u00e9cimo andar ao dono quando recebo a visita de morador de um ap do d\u00e9cimo primeiro andar, onde ele morava de aluguel e o qual tinha de ser desocupado em prazo insuficiente para que ele ultimasse a compra (ent\u00e3o em processamento)&nbsp; de outro ap de igual sorte no mesmo pr\u00e9dio. O interesse dele portanto era o de morar, por alguns meses, no im\u00f3vel que eu estava deixando, mantido formalmente o meu contrato, eu locat\u00e1rio de direito, ele locat\u00e1rio de fato. Tendo em mente que eu subsistiria respons\u00e1vel pela loca\u00e7\u00e3o, fui desaconselhado por todo mundo, inclusive a imobili\u00e1ria, para n\u00e3o faz\u00ea-lo. A princ\u00edpio, todos e todas tinham raz\u00e3o. Mas meus conselheiros e conselheiras n\u00e3o conheciam pessoalmente o Marcelo (e sua esposa), um ser \u00edntegro, honesto, que na fase de locat\u00e1rio (de fato) nunca viria a atrasar pagamentos quaisquer relacionados com o bem, alguns compromissos ele os saldara antes da data dos respectivos vencimentos.<\/p>\n\n\n\n<p>Est\u00e1 confuso, tentemos sintetizar a ciranda em nosso bloco residencial a envolver quatro apartamentos:<\/p>\n\n\n\n<p><strong>1101<\/strong>&nbsp;\u2013 apartamento onde o Marcelo morava e teve de entregar;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>1008&nbsp;<\/strong>\u2013 apartamento do Marcos solteiro, repassado por uma temporada ao Marcelo;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>1307<\/strong>&nbsp;\u2013 apartamento do Marcos casado, de propriedade da Keila (a propriedade dela \u00e9 o ap, n\u00e3o o Marcos; ou seriam as duas hip\u00f3teses?)<\/p>\n\n\n\n<p><strong>106<\/strong>&nbsp;&nbsp; &#8211; apartamento comprado pelo Marcelo, onde ele e a esposa est\u00e3o morando felizes h\u00e1 mais de ano e agora com um lindo filhinho.<\/p>\n\n\n\n<p>Descrevo toda essa cadeia negocial e afetiva para enfim demonstrar forte v\u00ednculo que eu ignorava.<\/p>\n\n\n\n<p>Final do m\u00eas passado, eu e Keila adentr\u00e1vamos a portaria de nosso pr\u00e9dio quando encontramos o Marcelo, semblante triste. Nosso &nbsp;amigo &#8211; que em agradecimento a mim, &nbsp;mas com uma ponta de simp\u00e1tico deboche, passara a me chamar de papito &#8211; nos disse que o irm\u00e3o dele houvera falecido em meados de abril&#8230; em acidente de moto. Para al\u00e9m da tristeza absoluta, meus p\u00easames, meus sentimentos, o casal tomou conhecimento de que o Valter e o Fausto eram amigos, de um frequentar a casa do outro. Os dois eram batalhadores, ralaram e merc\u00ea do trabalho diuturno foram melhorando de vida, a ponto de terem caras e potent\u00edssimas motos e integrarem grupo de amigos adeptos do motociclismo que percorriam habitualmente grandes dist\u00e2ncias; era costume deles ir ao Jeriv\u00e1 (a mais de cem quil\u00f4metros da Capital Federal) somente para tomar um caf\u00e9 confraternizador, sendo que em algumas datas eles iam a essa tradicional lanchonete goiana \u00e0 beira da estrada e voltavam a Bras\u00edlia por duas vezes no mesmo dia.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/mapati.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/Fausto-e-Walter.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-15374\" width=\"268\" height=\"388\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\">(Fausto, \u00e0 esquerda, e Valter)<\/p>\n\n\n\n<p>Exemplar o recado do Valter Embaixador (esse o apelido do irm\u00e3o do Marcelo) em homenagem ao amigo Fausto, que tinha deixado este mundo numa curva da BR 60, liga\u00e7\u00e3o entre o DF e Goi\u00e2nia. E sobretudo tocante pois no seu depoimento o Valter n\u00e3o deixou de prefigurar a pr\u00f3pria despedida, na medida em que gravado uma semana antes de sua morte, na mesma rodovia, na curva seguinte \u00e0quela na qual meses antes sucumbira o amigo Fausto, os dois em distintas viagens e durante as quais desenvolveram em suas motos velocidade m\u00e1xima estonteante, cerca de 300 quil\u00f4metros por hora.<\/p>\n\n\n\n<p>Saliente-se, por fim, que o Marcelo, irm\u00e3o do Embaixador, vinha h\u00e1 tempos cogitando fundar com a mulher do Fausto uma Ong destinada a divulgar campanhas de preven\u00e7\u00e3o de acidentes no motociclismo. Por\u00e9m, impotente para dar prosseguimento ao trabalho do marido na loja da SQN 212 e continuar a residir na ampla casa do Gama que ela e o Fausto dividiram por tantos anos, a vi\u00fava foi embora de Bras\u00edlia levando sua saudade para Macei\u00f3.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-audio\"><audio controls src=\"http:\/\/mapati.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/Walter-embaixador-online-audio-converter.com_.mp3\"><\/audio><figcaption>Voz de Walter Embaixador<br><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/mapati.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/313_1-768x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-15376\" width=\"275\" height=\"367\" srcset=\"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/313_1-768x1024.jpg 768w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/313_1-225x300.jpg 225w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/313_1.jpg 960w\" sizes=\"(max-width: 275px) 100vw, 275px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/mapati.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/313_2-768x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-15377\" width=\"280\" height=\"373\" srcset=\"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/313_2-768x1024.jpg 768w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/313_2-225x300.jpg 225w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/313_2.jpg 960w\" sizes=\"(max-width: 280px) 100vw, 280px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Roberto_DaMatta\">#Roberto da Matta<\/a><br><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Motociclismo\">#Motociclismo<\/a><br><a href=\"http:\/\/www.jeriva.com.br\/\">#Jeriv\u00e1<\/a><br><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/BR-060\">#BR 60 <\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\">18\/05\/2020<br>(313)<br><a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"mailto:mmsmarcos1953@hotmail.com\" target=\"_blank\">mmsmarcos1953@hotmail.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os rituais de passagem do tempo s\u00e3o momentos de luto ou de arrependimento pelo que se foi e, simultaneamente, tempos de previs\u00e3o e de esperan\u00e7a. \u2013 Roberto da Matta &#8211; Desconhe\u00e7o se existem estat\u00edsticas sobre o n\u00famero de retrovisores laterais que, como uma modalidade de vingan\u00e7a (justa ou n\u00e3o), os motoboys paulistas quebram diariamente ao ultrapassar carros nas marginais Tiet\u00ea e Pinheiros. Tudo indica que tais levantamentos, se porventura um dia feitos, restaram abandonados, n\u00e3o mais haveria ocorr\u00eancia dessa natureza, j\u00e1 porque o tr\u00e2nsito mudou para melhor devido ao atual n\u00famero reduzido de ve\u00edculos (olha a\u00ed, gente, o rod\u00edzio radical, par\/\u00edmpar), j\u00e1 porque merecidamente os condutores de motoca (essa \u00e9 nova), pelot\u00e3o de entrega das mercadorias as mais variadas, passaram a ser reconhecidos pela sociedade como profissionais imprescind\u00edveis, quase her\u00f3is pelo risco de exposi\u00e7\u00e3o acentuada ao v\u00edrus nesta \u00e9poca de isolamento. Por outra parte, queria trazer para a pista (sem trocadilho) uma outra categoria de usu\u00e1rios de motocicletas. N\u00e3o s\u00e3o os (h\u00e1 mulheres tamb\u00e9m) pilotos de rali nem os de provas oficiais. Trata-se daqueles que ocupariam, por assim dizer, uma zona intermedi\u00e1ria: os motociclistas (experimente cham\u00e1-los de motoqueiros) que ostentam m\u00e1quinas superpotentes, valios\u00edssimas, e saem sozinhos ou em conjunto por a\u00ed, pelas rodovias deste pa\u00eds continental, em velocidades inimagin\u00e1veis. Destaco dois personagens. O primeiro. Meu \u00faltimo&nbsp;notebook&nbsp;(sou das antigas, ainda uso isso), com aux\u00edlio luxuoso de um HD externo, possui fotos in\u00fameras e centenas de milhares de e-mails que expedi e recebi ao longo de quase vinte anos, coisa de 70.000 (setenta mil) mensagens ou mais. Claro que o atual equipamento herdou, dos anteriores da esp\u00e9cie que tive, boa parte desses arquivos e gerou seu pr\u00f3prio conte\u00fado. Para se ter ideia do quanto esses recados eletr\u00f4nicos do in\u00edcio da fila remontam a datas pret\u00e9ritas, numa tarde pregui\u00e7osa eu estava dando uma olhada nalguns deles e resolvi separar um que a Aline me enviara. Bradava ela: \u201cV\u00f4, meu pai n\u00e3o quer deixar eu entrar no MSN.\u201d &nbsp;Idade da menina quando lavrara o protesto? Respondo: 9 anos. Neste 2020, essa minha neta, a mais velha, se encaminha para os 24 anos bem vividos. O acervo \u00e9 muito precioso para mim. Pesco de quando em vez uma rel\u00edquia dessas e reencaminho para quem em tempo remoto ma endere\u00e7ou. De in\u00edcio o(a) destinat\u00e1rio(a) se confessa surpreso(a) e depois geralmente agradece a recorda\u00e7\u00e3o. Sucede que num mau dia o&nbsp;note da pen\u00faltima linha sucess\u00f3ria deu pau, apagou-se tudo, os \u201cm\u00e9dicos\u201d o desenganaram. Entrei em p\u00e2nico. Que durou at\u00e9 eu conhecer (por indica\u00e7\u00e3o da Dazi Antunes Corr\u00eaa, a poeta paulista desgarrada aludida no fim da postagem anterior) um cara muito especial, dono de uma loja de venda e reparo de computadores funcionando havia mais de d\u00e9cada na SQN 212. O Fausto Teixeira aceitara prontamente o desafio do conserto improv\u00e1vel assegurando que o equipamento iria renascer das cinzas, atrav\u00e9s de um tratamento alongado como aquelas pris\u00f5es em Curitiba. Por for\u00e7a disso, passei a frequentar a \u201coficina\u201d que eu at\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o conhecia apesar de ter morado cinco anos na pacata e buc\u00f3lica superquadra. Estabeleci um tipo de amizade com aquele homem, um&nbsp;workaholic, simpatic\u00edssimo, carism\u00e1tico, falava sem intervalos em dois celulares ao mesmo tempo &#8211; sem deixar de concomitantemente atender com m\u00e1xima efici\u00eancia \u00e0 clientela fiel espalhada pelas cadeiras da \u201csala de estar\u201d. Num mau dia, p\u00e9ssimo dia, tr\u00e1gico dia de 2019, fico sabendo que meu neoamigo, rei dos computadores, otimismo incontido, falecera num acidente de moto. O segundo personagem. Mudei em novembro de 2016 para \u00c1guas Claras, um quarto e sala e varanda no d\u00e9cimo andar, com vista espetacular. At\u00e9 que, dois anos depois, o s\u00edndico determinou expressamente que eu deveria esquecer minha vida de solteir\u00edssimo e transferir minha resid\u00eancia para um outro ap no mesmo pr\u00e9dio. Sou obediente e me apressei em cumprir a ordem superior. Qual n\u00e3o foi meu espanto ao constatar que o im\u00f3vel, situado no d\u00e9cimo terceiro andar, vista mais espetacular ainda, se encontrava ocupado pela propriet\u00e1ria, de nome Keila, com quem estou vivendo desde 2018, ambos no entanto sem alian\u00e7a no dedo e decididos a n\u00e3o ter filhos que isso \u00e9 para mo\u00e7os e mo\u00e7as. Entrementes, eu nos preparativos para entregar o ap do d\u00e9cimo andar ao dono quando recebo a visita de morador de um ap do d\u00e9cimo primeiro andar, onde ele morava de aluguel e o qual tinha de ser desocupado em prazo insuficiente para que ele ultimasse a compra (ent\u00e3o em processamento)&nbsp; de outro ap de igual sorte no mesmo pr\u00e9dio. O interesse dele portanto era o de morar, por alguns meses, no im\u00f3vel que eu estava deixando, mantido formalmente o meu contrato, eu locat\u00e1rio de direito, ele locat\u00e1rio de fato. Tendo em mente que eu subsistiria respons\u00e1vel pela loca\u00e7\u00e3o, fui desaconselhado por todo mundo, inclusive a imobili\u00e1ria, para n\u00e3o faz\u00ea-lo. A princ\u00edpio, todos e todas tinham raz\u00e3o. Mas meus conselheiros e conselheiras n\u00e3o conheciam pessoalmente o Marcelo (e sua esposa), um ser \u00edntegro, honesto, que na fase de locat\u00e1rio (de fato) nunca viria a atrasar pagamentos quaisquer relacionados com o bem, alguns compromissos ele os saldara antes da data dos respectivos vencimentos. Est\u00e1 confuso, tentemos sintetizar a ciranda em nosso bloco residencial a envolver quatro apartamentos: 1101&nbsp;\u2013 apartamento onde o Marcelo morava e teve de entregar; 1008&nbsp;\u2013 apartamento do Marcos solteiro, repassado por uma temporada ao Marcelo; 1307&nbsp;\u2013 apartamento do Marcos casado, de propriedade da Keila (a propriedade dela \u00e9 o ap, n\u00e3o o Marcos; ou seriam as duas hip\u00f3teses?) 106&nbsp;&nbsp; &#8211; apartamento comprado pelo Marcelo, onde ele e a esposa est\u00e3o morando felizes h\u00e1 mais de ano e agora com um lindo filhinho. Descrevo toda essa cadeia negocial e afetiva para enfim demonstrar forte v\u00ednculo que eu ignorava. Final do m\u00eas passado, eu e Keila adentr\u00e1vamos a portaria de nosso pr\u00e9dio quando encontramos o Marcelo, semblante triste. Nosso &nbsp;amigo &#8211; que em agradecimento a mim, &nbsp;mas com uma ponta de simp\u00e1tico deboche, passara a me chamar de papito &#8211; nos disse que o irm\u00e3o dele houvera falecido em meados de abril&#8230; em acidente de moto. Para al\u00e9m da tristeza absoluta, meus p\u00easames, meus sentimentos, o casal tomou conhecimento de que o Valter e o Fausto eram amigos, de um frequentar a casa do outro. Os dois eram batalhadores, ralaram e merc\u00ea do trabalho diuturno foram melhorando de vida, a ponto de terem caras e potent\u00edssimas motos e integrarem grupo de amigos adeptos do motociclismo que percorriam habitualmente grandes dist\u00e2ncias; era costume deles ir ao Jeriv\u00e1 (a mais de cem quil\u00f4metros da Capital Federal) somente para tomar um caf\u00e9 confraternizador, sendo que em algumas datas eles iam a essa tradicional lanchonete goiana \u00e0 beira da estrada e voltavam a Bras\u00edlia por duas vezes no mesmo dia. (Fausto, \u00e0 esquerda, e Valter) Exemplar o recado do Valter Embaixador (esse o apelido do irm\u00e3o do Marcelo) em homenagem ao amigo Fausto, que tinha deixado este mundo numa curva da BR 60, liga\u00e7\u00e3o entre o DF e Goi\u00e2nia. E sobretudo tocante pois no seu depoimento o Valter n\u00e3o deixou de prefigurar a pr\u00f3pria despedida, na medida em que gravado uma semana antes de sua morte, na mesma rodovia, na curva seguinte \u00e0quela na qual meses antes sucumbira o amigo Fausto, os dois em distintas viagens e durante as quais desenvolveram em suas motos velocidade m\u00e1xima estonteante, cerca de 300 quil\u00f4metros por hora. Saliente-se, por fim, que o Marcelo, irm\u00e3o do Embaixador, vinha h\u00e1 tempos cogitando fundar com a mulher do Fausto uma Ong destinada a divulgar campanhas de preven\u00e7\u00e3o de acidentes no motociclismo. Por\u00e9m, impotente para dar prosseguimento ao trabalho do marido na loja da SQN 212 e continuar a residir na ampla casa do Gama que ela e o Fausto dividiram por tantos anos, a vi\u00fava foi embora de Bras\u00edlia levando sua saudade para Macei\u00f3. #Roberto da Matta#Motociclismo#Jeriv\u00e1#BR 60 18\/05\/2020(313)mmsmarcos1953@hotmail.com<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":15380,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-15372","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-sem-categoria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15372","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15372"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15372\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15381,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15372\/revisions\/15381"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/media\/15380"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15372"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15372"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15372"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}