{"id":15400,"date":"2020-07-05T21:21:52","date_gmt":"2020-07-06T00:21:52","guid":{"rendered":"http:\/\/mapati.com.br\/?p=15400"},"modified":"2020-07-05T21:35:13","modified_gmt":"2020-07-06T00:35:13","slug":"cartas-libanesas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/cartas-libanesas\/","title":{"rendered":"Cartas libanesas"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cFato: quando temos fome, os anseios da alma podem esperar. Mas, quando olhamos para a hist\u00f3ria da nossa civiliza\u00e7\u00e3o,<\/em><br><em>as necessidades do corpo e da alma nunca foram entendidas como mutuamente excludentes.<\/em><br> <em>&#8211; Jo\u00e3o Pereira Coutinho &#8211;<\/em> <\/p>\n\n\n\n<p>Viajar de f\u00e9rias \u00e9 bom, \u00e9 \u00f3timo. Voc\u00ea vai juntando um dinheirinho, quando isso \u00e9 poss\u00edvel, escolhe o local (ou os locais) de destino. Chegada a hora de partir, afivela a mala (ou as malas) e parte para o aeroporto (ou para a rodovi\u00e1ria, ou para a garagem do pr\u00e9dio, ou ainda para a cal\u00e7ada da rua onde estacionado seu carro ou sua moto) e se larga no mundo, ainda que o mundo diste apenas cem quil\u00f4metros de seu ponto de partida.<\/p>\n\n\n\n<p>Viajar a servi\u00e7o n\u00e3o costuma ser desinteressante, salvo se houver de sair e retornar no mesmo dia, o famoso bate e volta. Terminada a inspe\u00e7\u00e3o, a reuni\u00e3o, o curso, o semin\u00e1rio, o(a) burocra n\u00e3o raro acha um tempinho para deambular. Na sequ\u00eancia, entra numa livraria (in\u00fameras delas est\u00e3o fechando as portas), num boteco, num shopping, decide aproveitar a atra\u00e7\u00e3o tur\u00edstica mais badalada se imiscuindo na cultura do lugar.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante d\u00e9cadas fiz isso.<\/p>\n\n\n\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o ao primeiro tipo de viagem, pretendo continuar passeando por a\u00ed at\u00e9 ficar bem velhinho, o que ocorrer\u00e1 l\u00e1 pelo ano 2060. J\u00e1 as do segundo, viajei pelo Banco Central (quando na ativa) por mais de quarenta anos e pelo Teatro Mapati por mais de vinte anos, na grande maioria da vezes em nosso caminh\u00e3o-palco. Sem a patriotada t\u00e3o em voga nos dias atuais, me orgulho de conhecer todas as capitais brasileiras, bem assim centenas de munic\u00edpios. No mesmo passo (express\u00e3o adequada), conhe\u00e7o alguns pa\u00edses e, quando acabar a desgrama (n\u00e3o sei qual o pior nome, covid 19 ou novo coronav\u00edrus), \u00e9 meu prop\u00f3sito ampliar o rol se o d\u00f3lar e o euro derem permiss\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Abstraindo as viagens oficiais, as coisas se me apresentaram de molde a exercer escolhas. A n\u00e3o compulsoriedade perdura at\u00e9 o momento, posso viajar, posso n\u00e3o viajar, posso mudar, posso permanecer na mesma casa.<\/p>\n\n\n\n<p>Curiosamente (paradoxo), nunca quis morar no exterior. Se um dia eu mudasse de ideia, o que n\u00e3o \u00e9 prov\u00e1vel, gostaria de me instalar, al\u00e9m de em Nova York, numa destas tr\u00eas cidades iniciadas por \u201cB\u201d: Barcelona, Buenos Aires (a despeito dos&#8230;) ou Bordeaux.<\/p>\n\n\n\n<p>Pensem agora em quem est\u00e1 em situa\u00e7\u00e3o extrema, n\u00e3o tem op\u00e7\u00e3o. Por quest\u00f5es de ordem pol\u00edtica, n\u00e3o me refiro \u00e0 criminal, o indiv\u00edduo se v\u00ea compelido numa dada \u00e9poca de sua vida a ter que deixar urgentemente o torr\u00e3o natal; se n\u00e3o o faz, corre risco de morte, o que \u00e9 pior ainda se a amea\u00e7a se estende a membros de sua fam\u00edlia. Em que condi\u00e7\u00f5es ele se evade? Geralmente, parte sem dinheiro, parte ignorando o que vai encarar no pa\u00eds que n\u00e3o \u00e9 o seu de origem. Indeclin\u00e1vel para a sobreviv\u00eancia \u00e9 arrostar a hostilidade, o descaso, o mau trato que decerto o gringo vai dispensar, m\u00e1xime aos egressos de na\u00e7\u00f5es de popula\u00e7\u00e3o pobre e negra.<\/p>\n\n\n\n<p>Lado outro, mesmo em jornada na qual voc\u00ea em regra leva grana pra gastar (as famosas divisas), podem acontecer iniquidades, o(a) viajante ser rotulado(a) at\u00e9 de p\u00e1ria. O Brasil \u00e9 um pa\u00eds que, mistifica\u00e7\u00f5es \u00e0 margem, recebe bem os estrangeiros que aportam com desejo de aqui se fixar. Nossa hist\u00f3ria, ao menos a da primeira metade do s\u00e9culo XX, \u00a0somente pode ser contada se ponderamos a presen\u00e7a, o contributo das col\u00f4nias japonesas, alem\u00e3s, italianas, portuguesas, judaicas, \u00e1rabes, entre outras.<\/p>\n\n\n\n<p>Convido voc\u00eas para, numa outra perspectiva, assistir a um \u201cdepoimento de um imigrante\u201d. As aspas se imp\u00f5em porquanto n\u00e3o \u00e9 exatamente narrativa de quem aportara em car\u00e1ter permanente em nossas plagas, tratando-se antes de performance de ator, admir\u00e1vel, Eduardo Mossri, em &nbsp;mon\u00f3logo j\u00e1 encenado em teatros tradicionais ao longo dos \u00faltimos anos, tendo a cr\u00edtica especializada mais assoprado do que mordido.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Release<\/em>&nbsp;escrito por &nbsp;<a href=\"https:\/\/www.blogger.com\/profile\/06579533503746246290\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Rodrigo Monteiro<\/a>:<strong><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>&#8220;Cartas libanesas&#8221; \u00e9 uma justa homenagem \u00e0 imigra\u00e7\u00e3o. O personagem Miguel Mahfuz, av\u00f4 de Mossri, cuja hist\u00f3ria a pe\u00e7a desvenda, \u00e9 um entre os milhares de libaneses que buscaram, nas grandes cidades do Brasil, uma vida melhor entre 1871 e 1940. Ele chegou ao Brasil em 1914, fugindo da Primeira Guerra, deixando na Europa sua jovem esposa gr\u00e1vida. Seu trabalho aqui garantia o sustento de sua fam\u00edlia l\u00e1. O esfor\u00e7o desse povo est\u00e1 no cerne da hist\u00f3ria do mercado da moda brasileira, pois a ela contribuiu ele mais do que qualquer outro grupo.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Que se enriquece com o saboroso esc\u00f3lio do ator do mon\u00f3logo:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>\u201c\u00c9 uma pe\u00e7a sobre um mascate, &nbsp;porque todo ator no fundo \u00e9 um pouco mascate: vai de palco em palco, de cidade em cidade, vendendo seus personagens, como se fossem os melhores tecidos de sua lojinha. As cartas libanesas s\u00e3o, na verdade, as cartas de todos os que vieram para o Brasil e ajudaram a form\u00e1-lo. Somos todos misturados, essencialmente vira-latas.\u201d&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/mapati.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/316Eduardo-Mossri.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-15402\" width=\"643\" height=\"426\" srcset=\"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/316Eduardo-Mossri.jpg 1024w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/316Eduardo-Mossri-300x199.jpg 300w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/316Eduardo-Mossri-768x509.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 643px) 100vw, 643px\" \/><figcaption>Eduardo Mossri (foto: felipe_stucchi)<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>A pe\u00e7a ressurgiu como&nbsp;<em>live<\/em>&nbsp;&nbsp;nesse 7 de junho, atrav\u00e9s de&nbsp;<strong><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/results?search_query=%23EmCasaComSesc\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">#EmCasaComSesc<\/a><\/strong>.&nbsp;Se voc\u00eas percorrerem a maratona art\u00edstica de sessenta minutos, sentir-se-\u00e3o tocados(as) por mensagem l\u00edrica, sofrida, que nesses tempos sombrios de crise sanit\u00e1ria \u00e9 dada em ambiente de isolamento, dentro do ap parece que moradia do int\u00e9rprete.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed-youtube wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe title=\"Eduardo Mossri em &quot;Cartas Libanesas&quot; no #EmCasaComSesc\" width=\"960\" height=\"540\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/fJIqKhLi52E?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Jo%C3%A3o_Pereira_Coutinho_(jornalista)\"> #Jo\u00e3o Pereira Coutinho<\/a><br> <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=fJIqKhLi52E\" target=\"_blank\">#EmCasaComSesc<\/a><br><a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/saopaulo\/2015\/08\/1663452-monologo-cartas-libanesas-mostra-desafios-da-imigracao-de-forma-poetica.shtml\"> #Cartas libanesas<\/a><br><a href=\"https:\/\/twitter.com\/i\/web\/status\/1269622437345452032\">#Miguel Mahfuz<\/a><br><a href=\"https:\/\/vejasp.abril.com.br\/blog\/terraco-paulistano\/eduardo-mossri-empatia\/\">#Eduardo Mossri<\/a><br><a href=\"http:\/\/www.criticateatralbr.com\/2016\/09\/\">#Rodrigo Monteiro <\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\">05\/07\/2020<br>(316)<br><a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"mailto:mmsmarcos1953@hotmail.com\" target=\"_blank\">mmsmarcos1953@hotmail.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cFato: quando temos fome, os anseios da alma podem esperar. 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Na sequ\u00eancia, entra numa livraria (in\u00fameras delas est\u00e3o fechando as portas), num boteco, num shopping, decide aproveitar a atra\u00e7\u00e3o tur\u00edstica mais badalada se imiscuindo na cultura do lugar. Durante d\u00e9cadas fiz isso. Em rela\u00e7\u00e3o ao primeiro tipo de viagem, pretendo continuar passeando por a\u00ed at\u00e9 ficar bem velhinho, o que ocorrer\u00e1 l\u00e1 pelo ano 2060. J\u00e1 as do segundo, viajei pelo Banco Central (quando na ativa) por mais de quarenta anos e pelo Teatro Mapati por mais de vinte anos, na grande maioria da vezes em nosso caminh\u00e3o-palco. Sem a patriotada t\u00e3o em voga nos dias atuais, me orgulho de conhecer todas as capitais brasileiras, bem assim centenas de munic\u00edpios. No mesmo passo (express\u00e3o adequada), conhe\u00e7o alguns pa\u00edses e, quando acabar a desgrama (n\u00e3o sei qual o pior nome, covid 19 ou novo coronav\u00edrus), \u00e9 meu prop\u00f3sito ampliar o rol se o d\u00f3lar e o euro derem permiss\u00e3o. Abstraindo as viagens oficiais, as coisas se me apresentaram de molde a exercer escolhas. A n\u00e3o compulsoriedade perdura at\u00e9 o momento, posso viajar, posso n\u00e3o viajar, posso mudar, posso permanecer na mesma casa. Curiosamente (paradoxo), nunca quis morar no exterior. Se um dia eu mudasse de ideia, o que n\u00e3o \u00e9 prov\u00e1vel, gostaria de me instalar, al\u00e9m de em Nova York, numa destas tr\u00eas cidades iniciadas por \u201cB\u201d: Barcelona, Buenos Aires (a despeito dos&#8230;) ou Bordeaux. Pensem agora em quem est\u00e1 em situa\u00e7\u00e3o extrema, n\u00e3o tem op\u00e7\u00e3o. Por quest\u00f5es de ordem pol\u00edtica, n\u00e3o me refiro \u00e0 criminal, o indiv\u00edduo se v\u00ea compelido numa dada \u00e9poca de sua vida a ter que deixar urgentemente o torr\u00e3o natal; se n\u00e3o o faz, corre risco de morte, o que \u00e9 pior ainda se a amea\u00e7a se estende a membros de sua fam\u00edlia. Em que condi\u00e7\u00f5es ele se evade? Geralmente, parte sem dinheiro, parte ignorando o que vai encarar no pa\u00eds que n\u00e3o \u00e9 o seu de origem. Indeclin\u00e1vel para a sobreviv\u00eancia \u00e9 arrostar a hostilidade, o descaso, o mau trato que decerto o gringo vai dispensar, m\u00e1xime aos egressos de na\u00e7\u00f5es de popula\u00e7\u00e3o pobre e negra. Lado outro, mesmo em jornada na qual voc\u00ea em regra leva grana pra gastar (as famosas divisas), podem acontecer iniquidades, o(a) viajante ser rotulado(a) at\u00e9 de p\u00e1ria. O Brasil \u00e9 um pa\u00eds que, mistifica\u00e7\u00f5es \u00e0 margem, recebe bem os estrangeiros que aportam com desejo de aqui se fixar. Nossa hist\u00f3ria, ao menos a da primeira metade do s\u00e9culo XX, \u00a0somente pode ser contada se ponderamos a presen\u00e7a, o contributo das col\u00f4nias japonesas, alem\u00e3s, italianas, portuguesas, judaicas, \u00e1rabes, entre outras. Convido voc\u00eas para, numa outra perspectiva, assistir a um \u201cdepoimento de um imigrante\u201d. As aspas se imp\u00f5em porquanto n\u00e3o \u00e9 exatamente narrativa de quem aportara em car\u00e1ter permanente em nossas plagas, tratando-se antes de performance de ator, admir\u00e1vel, Eduardo Mossri, em &nbsp;mon\u00f3logo j\u00e1 encenado em teatros tradicionais ao longo dos \u00faltimos anos, tendo a cr\u00edtica especializada mais assoprado do que mordido. Release&nbsp;escrito por &nbsp;Rodrigo Monteiro: &#8220;Cartas libanesas&#8221; \u00e9 uma justa homenagem \u00e0 imigra\u00e7\u00e3o. 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