{"id":15432,"date":"2020-08-23T19:31:54","date_gmt":"2020-08-23T22:31:54","guid":{"rendered":"http:\/\/mapati.com.br\/?p=15432"},"modified":"2020-08-23T21:31:25","modified_gmt":"2020-08-24T00:31:25","slug":"memorias-memorialista-lxv","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/memorias-memorialista-lxv\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3rias\/Memorialista (LXV)"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\"><em>A l\u00edngua tanto acolhe palavras novas, os chamados neologismos, como aposenta termos sem utilidade. Os neologismos, como toda novidade, chamam a aten\u00e7\u00e3o, despertam a curiosidade, chegando at\u00e9 a suscitar discuss\u00f5es e algumas paix\u00f5es. \u00a0J\u00e1 os que saem de cena costumam faz\u00ea-lo em sil\u00eancio, discretamente, sem um \u00faltimo aceno de adeus. Esses s\u00e3o os arca\u00edsmos, que v\u00e3o sendo esquecidos pouco a pouco, deixando de aparecer nos textos e nas conversas.<\/em><br> &#8211; Tha\u00eds Nicoleti &#8211; <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">L\u00e1 pelos idos de maio ou junho consignei neste blog uma obviedade, entre tantas outras de minha lavra: \u201cningu\u00e9m mais aguenta ouvir falar em novo coronavirus\u201d, voc\u00e1bulo que todos os dias, todas as noites irrigava o notici\u00e1rio, pautava as conversas (virtuais). Transcorridos esses meses, quase nada se modificou; quer dizer, o panorama sombrio se agravou, o pa\u00eds j\u00e1 se despediu de mais de cento e quatorze mil pessoas &#8211; \u00e0 margem dos vel\u00f3rios.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A homogeneidade do ritual de passagem como que refutou Tolst\u00f3i (dupla vaidade minha, li&nbsp;<em>Guerra e Paz<\/em>, na Ilha de Maraj\u00f3). No per\u00edodo surgira nome mais espec\u00edfico, j\u00e1 incorporado na pia batismal, a Covid 19, que corroborou o \u201ctodas as fam\u00edlias felizes s\u00e3o iguais\u201d, n\u00e3o tendo acolhido entretanto a outra p\u00e9rola do romancista russo, o \u201cas infelizes o s\u00e3o cada uma \u00e0 sua maneira\u201d. As fam\u00edlias que perderam entes em decorr\u00eancia da carga da doen\u00e7a que penetra bocas, narizes, olhos e ouvidos so\u00e7obram do mesmo jeito, vestindo o mesmo figurino, chorando o mesmo choro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Luiz Fernando Ver\u00edssimo tem se mostrado com amargura nos seus \u00faltimos escritos (\u00e9 poss\u00edvel faz\u00ea-lo de outra forma?), sem o genial humor mordaz. O pai dele, Erico Ver\u00edssimo, um dos maiores ficcionistas brasileiros, o quarto personagem deste t\u00f3pico de lembran\u00e7as boas e ruins, nos transporta ao ano de 1918, por via do livro de mem\u00f3rias\u00a0<em>Solo de Clarineta<\/em>. Ou o ga\u00facho est\u00e1 falando do desalentador 2020? \u00a0\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\"><em>\u201c(&#8230;) Em 1918 a influenza espanhola atirou na cama mais da metade da popula\u00e7\u00e3o de Cruz Alta, matando algumas dezenas de pessoas. N\u00e3o se dignou, por\u00e9m, contaminar-me. Lembro-me da tristeza de nossas ruas quase desertas durante o tempo que durou a epidemia, e dos dias de calor daquele dram\u00e1tico novembro bochornoso. Era como se os pr\u00f3prios dias, as pedras, a cidade inteira estivessem amolentados pela febre. A escola achava-se em recesso e eu podia passar dias inteiros a ler romances. Foi nessa \u00e9poca que descobri com encanto&nbsp;<\/em>As Minas de Prata<em>,&nbsp;<\/em><em>de Jos\u00e9 de Alencar. Li tamb\u00e9m um livro sobre Portugal, impresso em papel esponjoso e grosso, com muitas ilustra\u00e7\u00f5es em cor, uma das quais mostrava uma \u00e1rvore com flores vermelhas, tendo por baixo a legenda:&nbsp;<\/em>Olaias em flor<em>.&nbsp;<\/em><em>A palavra olaia me agradou tanto aos olhos como ao ouvido. Quarenta anos mais tarde, visitando Portugal pela primeira vez numa fria mas luminosa primavera, procurei as olaias como quem procura amigos de inf\u00e2ncia h\u00e1 muito perdidos.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\"><em>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u201c(&#8230;) Passada a epidemia a cidade entrou em l\u00e2nguida e tr\u00eamula convalescen\u00e7a.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se Cruz Alta passou de ano, Bras\u00edlia (e o Brasil) corre risco de ser reprovada, n\u00e3o alcan\u00e7ando nem a segunda \u00e9poca, a qual hoje corresponderia \u00e0 recupera\u00e7\u00e3o, em que o aluno pode subir de s\u00e9rie &#8211; x\u00f4, fantasma da bomba &#8211; merc\u00ea de comparecimento a aulas de refor\u00e7o e subsequente \u00eaxito nas provas aplicadas ao contingente faltoso imediatamente antes do fim do ano letivo. Na Capital Federal, tem-se praticado o dane-se a Covid 19 (confesso que n\u00e3o estou enterrado em casa, por\u00e9m quando saio procuro me acautelar e n\u00e3o me aproximar das pessoas, e devoto \u00f3dio &#8211; sem gabinete &#8211; a quem desfila por a\u00ed sem m\u00e1scaras, pouco se lixando para o distanciamento social). Os recalcitrantes se iludem, creem que os sintomas se restringiriam a febre contorn\u00e1vel e perda do olfato e do paladar, males passageiros, tempor\u00e1rios, bastam uns dias e a maligna pede pra sair, vai embora. E os pulm\u00f5es?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\"><em>\u201cQuanto \u00e0 morte, eu n\u00e3o pensava muito nela. Um dia, por\u00e9m, julguei ver a Bruxa de perto. Era um anoitecer de domingo, e eu chegara tarde ao internato, ap\u00f3s uma visita \u00e0 cidade, onde fizera tudo quanto meu magro or\u00e7amento semanal de dois mil e quinhentos r\u00e9is permitia. Assistira a uma partida de futebol, tomara um copo de leite com sonho (\u00f3 tardes de chuva da inf\u00e2ncia!) e pagara a passagem de ida e volta no bonde. Os internos estavam j\u00e1 todos na igreja, para onde me dirigi. Passara o dia com uma tosse fort\u00edssima e convulsiva. (<\/em>Tosse? Bromil<em> \u2013 aconselhava um an\u00fancio na farm\u00e1cia de meu pai.) Parei na frente do templo num s\u00fabito acesso de tosse. Ouvia vozes entoando algo em que reconheci o hino cantado pelos passageiros do\u00a0<\/em>Titanic<em>\u00a0na hora da morte.<\/em><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/mapati.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/319_influenza.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-15434\" width=\"497\" height=\"373\" srcset=\"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/319_influenza.jpg 512w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/319_influenza-300x225.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 497px) 100vw, 497px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Meu pai embarcou v\u00edtima da enfisema sempre fatal, que na \u00faltima fase o consumira, sofridamente. O concentrador de oxig\u00eanio era o seu s\u00e9timo filho, o velho n\u00e3o podia se desprender do aparelho sob pena de sufocamento e morte em minutos. Em regra, as dores, me refiro \u00e0s fort\u00edssimas, costumam ser debeladas por virtude da a\u00e7\u00e3o da morfina e, em casos mais desesperadores ainda, h\u00e1 registro de emprego de hero\u00edna (<em>Invas\u00f5es b\u00e1rbaras<\/em>, filma\u00e7o canadense). Quanto \u00e0 falta de ar, dependendo da dose ministrada, o oxig\u00eanio salvador mata o paciente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\"><em>\u201cDe s\u00fabito senti que se me fechava a traqu\u00e9ia e eu perdia a capacidade de respirar. Tive uma vertigem, agarrei-me nas grades do port\u00e3o para n\u00e3o cair, abri a boca na busca ansiada dum ar que n\u00e3o me chegava aos pulm\u00f5es. Pensei ent\u00e3o que ia morrer. Entrei em p\u00e2nico. Rodopiei sobre mim mesmo, ca\u00ed no ch\u00e3o e fiquei olhando para o c\u00e9u. As vozes chegavam at\u00e9 meus ouvidos, quase inintelig\u00edveis \u2013 \u201c&#8230;ais &#8230;erto &#8230;ero estar&#8230; eus&#8230; e ti&#8230;\u201d Via confusamente as estrelas contra o negror do c\u00e9u. Um\u00a0<\/em>iceberg <em>me pesava sobre o peito. Fiz um esfor\u00e7o, consegui levantar-me, levei as m\u00e3os \u00e0 garganta, tentei pedir socorro mas nenhum som me saiu da boca. De repente minha traqu\u00e9ia se abriu, o ar quase frio da noite me encheu a boca, os pulm\u00f5es, e eu respirei, a garganta ardida, o peito ofegante. Sentei-me num degrau da igreja, respirando em largos sorvos. Um suor gelado me escorria pela testa, descia pelo rosto. O cora\u00e7\u00e3o assustado me batia ainda em disparada. Minutos depois levantei-me, entrei no templo, sentei-me num dos \u00faltimos bancos. A congrega\u00e7\u00e3o, de p\u00e9, lia uma ora\u00e7\u00e3o em un\u00edssono. Procurei agradecer a Deus por n\u00e3o ter me deixado morrer. As palavras que balbuciei me soavam na cabe\u00e7a artificiais, convencionais, sem f\u00e9 verdadeira. Disse ao Criador um \u2018muito obrigado\u2019 frouxo e meio encabulado.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Bom passeio sem m\u00e1scara.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\"><a href=\"https:\/\/thaisnicoleti.blogfolha.uol.com.br\/\">#Tha\u00eds Nicoleti<\/a><br><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Solo_de_Clarineta\">#Solo de Clarineta<\/a><br><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/%C3%89rico_Ver%C3%ADssimo\">#\u00c9rico Ver\u00edssimo<\/a><br><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/COVID-19\">#Covid 19<\/a><br><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Gripe_espanhola\">#Influenza espanhola <\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">23\/08\/2020<br>(319) <br> <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"mailto:mmsmarcos1953@hotmail.com\" target=\"_blank\">mmsmarcos1953@hotmail.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A l\u00edngua tanto acolhe palavras novas, os chamados neologismos, como aposenta termos sem utilidade. 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A homogeneidade do ritual de passagem como que refutou Tolst\u00f3i (dupla vaidade minha, li&nbsp;Guerra e Paz, na Ilha de Maraj\u00f3). No per\u00edodo surgira nome mais espec\u00edfico, j\u00e1 incorporado na pia batismal, a Covid 19, que corroborou o \u201ctodas as fam\u00edlias felizes s\u00e3o iguais\u201d, n\u00e3o tendo acolhido entretanto a outra p\u00e9rola do romancista russo, o \u201cas infelizes o s\u00e3o cada uma \u00e0 sua maneira\u201d. As fam\u00edlias que perderam entes em decorr\u00eancia da carga da doen\u00e7a que penetra bocas, narizes, olhos e ouvidos so\u00e7obram do mesmo jeito, vestindo o mesmo figurino, chorando o mesmo choro. O Luiz Fernando Ver\u00edssimo tem se mostrado com amargura nos seus \u00faltimos escritos (\u00e9 poss\u00edvel faz\u00ea-lo de outra forma?), sem o genial humor mordaz. O pai dele, Erico Ver\u00edssimo, um dos maiores ficcionistas brasileiros, o quarto personagem deste t\u00f3pico de lembran\u00e7as boas e ruins, nos transporta ao ano de 1918, por via do livro de mem\u00f3rias\u00a0Solo de Clarineta. Ou o ga\u00facho est\u00e1 falando do desalentador 2020? \u00a0\u00a0 \u201c(&#8230;) Em 1918 a influenza espanhola atirou na cama mais da metade da popula\u00e7\u00e3o de Cruz Alta, matando algumas dezenas de pessoas. N\u00e3o se dignou, por\u00e9m, contaminar-me. Lembro-me da tristeza de nossas ruas quase desertas durante o tempo que durou a epidemia, e dos dias de calor daquele dram\u00e1tico novembro bochornoso. Era como se os pr\u00f3prios dias, as pedras, a cidade inteira estivessem amolentados pela febre. A escola achava-se em recesso e eu podia passar dias inteiros a ler romances. Foi nessa \u00e9poca que descobri com encanto&nbsp;As Minas de Prata,&nbsp;de Jos\u00e9 de Alencar. Li tamb\u00e9m um livro sobre Portugal, impresso em papel esponjoso e grosso, com muitas ilustra\u00e7\u00f5es em cor, uma das quais mostrava uma \u00e1rvore com flores vermelhas, tendo por baixo a legenda:&nbsp;Olaias em flor.&nbsp;A palavra olaia me agradou tanto aos olhos como ao ouvido. Quarenta anos mais tarde, visitando Portugal pela primeira vez numa fria mas luminosa primavera, procurei as olaias como quem procura amigos de inf\u00e2ncia h\u00e1 muito perdidos. &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u201c(&#8230;) Passada a epidemia a cidade entrou em l\u00e2nguida e tr\u00eamula convalescen\u00e7a.\u201d Se Cruz Alta passou de ano, Bras\u00edlia (e o Brasil) corre risco de ser reprovada, n\u00e3o alcan\u00e7ando nem a segunda \u00e9poca, a qual hoje corresponderia \u00e0 recupera\u00e7\u00e3o, em que o aluno pode subir de s\u00e9rie &#8211; x\u00f4, fantasma da bomba &#8211; merc\u00ea de comparecimento a aulas de refor\u00e7o e subsequente \u00eaxito nas provas aplicadas ao contingente faltoso imediatamente antes do fim do ano letivo. Na Capital Federal, tem-se praticado o dane-se a Covid 19 (confesso que n\u00e3o estou enterrado em casa, por\u00e9m quando saio procuro me acautelar e n\u00e3o me aproximar das pessoas, e devoto \u00f3dio &#8211; sem gabinete &#8211; a quem desfila por a\u00ed sem m\u00e1scaras, pouco se lixando para o distanciamento social). Os recalcitrantes se iludem, creem que os sintomas se restringiriam a febre contorn\u00e1vel e perda do olfato e do paladar, males passageiros, tempor\u00e1rios, bastam uns dias e a maligna pede pra sair, vai embora. E os pulm\u00f5es? \u201cQuanto \u00e0 morte, eu n\u00e3o pensava muito nela. Um dia, por\u00e9m, julguei ver a Bruxa de perto. Era um anoitecer de domingo, e eu chegara tarde ao internato, ap\u00f3s uma visita \u00e0 cidade, onde fizera tudo quanto meu magro or\u00e7amento semanal de dois mil e quinhentos r\u00e9is permitia. Assistira a uma partida de futebol, tomara um copo de leite com sonho (\u00f3 tardes de chuva da inf\u00e2ncia!) e pagara a passagem de ida e volta no bonde. Os internos estavam j\u00e1 todos na igreja, para onde me dirigi. Passara o dia com uma tosse fort\u00edssima e convulsiva. (Tosse? Bromil \u2013 aconselhava um an\u00fancio na farm\u00e1cia de meu pai.) Parei na frente do templo num s\u00fabito acesso de tosse. Ouvia vozes entoando algo em que reconheci o hino cantado pelos passageiros do\u00a0Titanic\u00a0na hora da morte. Meu pai embarcou v\u00edtima da enfisema sempre fatal, que na \u00faltima fase o consumira, sofridamente. O concentrador de oxig\u00eanio era o seu s\u00e9timo filho, o velho n\u00e3o podia se desprender do aparelho sob pena de sufocamento e morte em minutos. Em regra, as dores, me refiro \u00e0s fort\u00edssimas, costumam ser debeladas por virtude da a\u00e7\u00e3o da morfina e, em casos mais desesperadores ainda, h\u00e1 registro de emprego de hero\u00edna (Invas\u00f5es b\u00e1rbaras, filma\u00e7o canadense). Quanto \u00e0 falta de ar, dependendo da dose ministrada, o oxig\u00eanio salvador mata o paciente. \u201cDe s\u00fabito senti que se me fechava a traqu\u00e9ia e eu perdia a capacidade de respirar. Tive uma vertigem, agarrei-me nas grades do port\u00e3o para n\u00e3o cair, abri a boca na busca ansiada dum ar que n\u00e3o me chegava aos pulm\u00f5es. Pensei ent\u00e3o que ia morrer. Entrei em p\u00e2nico. Rodopiei sobre mim mesmo, ca\u00ed no ch\u00e3o e fiquei olhando para o c\u00e9u. As vozes chegavam at\u00e9 meus ouvidos, quase inintelig\u00edveis \u2013 \u201c&#8230;ais &#8230;erto &#8230;ero estar&#8230; eus&#8230; e ti&#8230;\u201d Via confusamente as estrelas contra o negror do c\u00e9u. 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Disse ao Criador um \u2018muito obrigado\u2019 frouxo e meio encabulado.\u201d \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Bom passeio sem m\u00e1scara. #Tha\u00eds Nicoleti#Solo de Clarineta#\u00c9rico Ver\u00edssimo#Covid 19#Influenza espanhola 23\/08\/2020(319) mmsmarcos1953@hotmail.com<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":15433,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-15432","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-sem-categoria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15432","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15432"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15432\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15436,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15432\/revisions\/15436"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/media\/15433"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15432"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15432"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15432"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}