{"id":15453,"date":"2020-10-17T12:58:45","date_gmt":"2020-10-17T15:58:45","guid":{"rendered":"http:\/\/mapati.com.br\/?p=15453"},"modified":"2020-10-17T19:17:54","modified_gmt":"2020-10-17T22:17:54","slug":"inocencia-ii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/inocencia-ii\/","title":{"rendered":"Inoc\u00eancia (II)"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>Se a literatura tem algum poder &#8211; j\u00e1 que, antes de tudo, ela promove o contato com nossas limita\u00e7\u00f5es -, seu poder \u00e9 de descobrir conex\u00f5es ali onde parece haver apenas o inacess\u00edvel e a interdi\u00e7\u00e3o. \u00c9 de abrir lugar para que o ausente enfim tome corpo. A fic\u00e7\u00e3o tra\u00e7a pontes que ligam mundos incomunic\u00e1veis. Ela nos ajuda, assim, n\u00e3o apenas a suportar, mas a desejar o imposs\u00edvel. Trabalha com a ignor\u00e2ncia, transformando-a em energia.<\/em><br><strong><em>&#8211; Jos\u00e9 Castello &#8211;<\/em><\/strong> <\/p>\n\n\n\n<p>Retomemos neste segundo e derradeiro cap\u00edtulo nosso p\u00e9riplo atrav\u00e9s dos sert\u00f5es consoante o descortino do Visconde de Taunay.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o h\u00e1 destacar apenas porque o romancista est\u00e1 inscrito na nobiliarquia \u2013 n\u00e3o poucos se viram ornamentados no imp\u00e9rio de Dom Jo\u00e3o e dos seus descendentes Dom Pedro I e Dom Pedro II. Entre distintas personalidades, menciono de orelhada os viscondes de Maranguape, de Maric\u00e1, de Mau\u00e1, do Rio Branco e por \u00faltimo, roubado da fic\u00e7\u00e3o lobateana, o cult\u00edssimo Sabugosa. O realce vai se justificar pela caudalosa, hipnotizante conta\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria, aqui reverberada por virtude das descri\u00e7\u00f5es da vegeta\u00e7\u00e3o local.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cOra \u00e9 a perspectiva dos cerrados, n\u00e3o desses cerrados de arbustos raqu\u00edticos, enfezados e retorcidos de S\u00e3o Paulo e Minas Gerais, mas de garbosas e elevadas \u00e1rvores que, se bem n\u00e3o tomem, todas, o corpo de que s\u00e3o capazes \u00e0 beira das \u00e1guas correntes ou regadas pela linfa dos c\u00f3rregos, contudo ensombram com folhuda rama o terreno que lhes fica em derredor e mostram na casca lisa a for\u00e7a da seiva que as alimenta; ora s\u00e3o campos a perder de vista, cobertos de macega alta e alourada, ou de viridente e mimosa grama, toda salpicada de silvestres flores; ora sucess\u00f5es de luxuriantes cap\u00f5es, t\u00e3o regulares e sim\u00e9tricos em sua disposi\u00e7\u00e3o que surpreendem e embelezam os olhos; ora, enfim, charnecas meio apauladas, meio secas, onde nasce o altivo buriti e o gravata entran\u00e7a o seu tapume espinhoso.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O calor inusual dessa primavera, cevada de par com os malfeitos da Covid-19, mais nos prepara para a transmuta\u00e7\u00e3o da paisagem verdejante em cen\u00e1rio do horror. L\u00e1 em cima a Amaz\u00f4nia, triscada; mais ao centro o Pantanal, a se consumir, ardendo, cintilante, pelas a\u00e7\u00f5es il\u00edcitas. Ali\u00e1s, naqueles tempos o estrago poderia&nbsp;vir de meras condutas involunt\u00e1rias e n\u00e3o criminosas mas igualmente delet\u00e9rias em termos de destrui\u00e7\u00e3o do meio ambiente. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cNesses campos, t\u00e3o diversos pelo matiz das cores, o capim crescido e ressecado pelo ardor do Sol transforma-se em vicejante tapete de relva, quando lavra o inc\u00eandio que algum tropeiro, por acaso ou mero desenfado, ateia com uma fa\u00falha do seu isqueiro.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>No alvorecer dos anos 2000, cumpri pequena temporada de passeio em Pocon\u00e9 (MT) e obviamente fiquei deslumbrado com a for\u00e7a vital das matas circundantes. No entretanto, n\u00e3o passava pela minha cabe\u00e7a, moldada no s\u00e9culo XX, que aquilo tudo de natureza magn\u00edfica (pouparei o clich\u00ea \u201cexuberante\u201d) era fr\u00e1gil e indefeso ante a sanha predadora de parte da turma do chamado agroneg\u00f3cio. As atuais queimadas vistas diariamente na telinha doem, e doem mais ainda quando remergulhamos na obra do Visconde de Taunay, que desconstr\u00f3i e subverte o famoso \u201cuma imagem vale mais do que mil palavras\u201d. For\u00e7a, pessoas: intentem ler, inc\u00f3lumes, o que o escritor nos propicia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/mapati.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/322_taunay_2.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-15459\" width=\"367\" height=\"446\" srcset=\"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/322_taunay_2.jpg 326w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/322_taunay_2-247x300.jpg 247w\" sizes=\"(max-width: 367px) 100vw, 367px\" \/><figcaption>Afonso d&#8217;Escragnolle Taunay  (Visconde de Taunay)\n<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cMinando \u00e0 surda na touceira, queda a vivida centelha. Corra da\u00ed a instantes qualquer aragem, por d\u00e9bil que seja, e levanta-se a l\u00edngua de fogo esguia e tr\u00eamula, como que a contemplar medrosa e vacilante os espa\u00e7os imensos que se alongam diante dela. Soprem ent\u00e3o as auras com mais for\u00e7a, e de mil pontos, a um tempo, rebentam s\u00f4fregas labaredas que se enroscam umas nas outras, de s\u00fabito se dividem, deslizam, lambem vastas superf\u00edcies, despedem ao c\u00e9u rolos de negrejante fumo e voam, roncando pelos matagais de tabocas e taquaras, at\u00e9 esbarrarem de encontro a alguma margem de rio que n\u00e3o possam transpor, caso n\u00e3o as tanja para al\u00e9m o vento, ajudando com valente f\u00f4lego a larga obra de destrui\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cAcalmado aquele \u00edmpeto por falta de alimento, fica tudo debaixo de espessa camada de cinzas. O fogo, detido em pontos, aqui, ali, a consumir com mais lentid\u00e3o algum estorvo, vai aos poucos morrendo at\u00e9 se extinguir de todo, deixando como sinal da avassaladora passagem o alvacento len\u00e7ol, que lhe foi seguindo os velozes passos.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cAtrav\u00e9s da atmosfera enublada mal pode ent\u00e3o coar a luz do Sol. A incinera\u00e7\u00e3o \u00e9 completa, o calor intenso, e nos ares revoltos volitam palhinhas carboretadas, detritos, argueiros e gr\u00e2nulos de carv\u00e3o que redemoinham, sobem, descem e se emaranham nos sorvedouros e adelga\u00e7adas trombas, caprichosamente formadas pelas aragens, ao embaterem umas de encontro \u00e0s outras.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cPor toda a parte melancolia; de todos os lados t\u00e9tricas perspectivas.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O diagn\u00f3stico \u00e9 categ\u00f3rico e desalentador, nos faz desabar sem esperan\u00e7as na areia quente e escurecida pelo fumac\u00ea. Em compensa\u00e7\u00e3o, se o Taunay n\u00e3o assevera que o sertanejo \u00e9 antes de tudo um forte (notem o Euclides da Cunha de novo), ele concebe a transcend\u00eancia e refere \u2013 isso, sim &#8211; que o sertanejo, resiliente (palavra da moda), se amalgama na natureza, que sempre se renova, a contraditar \u201cas t\u00e9tricas perspectivas\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>\u201c\u00c9 cair, por\u00e9m, da\u00ed a dias copiosa chuva, e parece que uma varinha de fada andou por aqueles sombrios recantos a tra\u00e7ar \u00e0s pressas jardins encantados e nunca vistos. Entra tudo num trabalho \u00edntimo de espantosa atividade. Transborda a vida. N\u00e3o h\u00e1 ponto em que n\u00e3o brote o capim, em que n\u00e3o desabrochem rebent\u00f5es com o olhar s\u00f4frego de quem espreita azada ocasi\u00e3o para buscar a liberdade, despeda\u00e7ando as pris\u00f5es de penosa clausura.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>\u201c\u00c0quela instant\u00e2nea ressurrei\u00e7\u00e3o nada, nada pode p\u00f4r peias.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cBasta uma noite, para que formosa alfombra verde, verde-claro, verde-gaio, acetinado, cubra todas as tristezas de h\u00e1 pouco. Aprimoram-se depois os esfor\u00e7os; rompem as flores do campo que desabotoam as car\u00edcias da brisa as delicadas corolas e lhe entregam as prim\u00edcias dos seus c\u00e2ndidos perfumes.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Ser\u00e1 que esse panorama otimista vingar\u00e1 no Pantanal? Tomara que sim. Se somos impotentes para integrar aqueles pelot\u00f5es de bombeiros com as tropas auxiliares de volunt\u00e1rios destemidos, cabe-nos ao menos torcer pela descida das \u00e1guas do c\u00e9u porquanto a sobre-exist\u00eancia da estiagem vai arrasar de vez aquela regi\u00e3o produtora e j\u00e1 h\u00e1 algum tempo uma for\u00e7a do ecoturismo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cSe falham essas chuvas vivificadoras, ent\u00e3o, por muitos e muitos meses, ai ficam aquelas campinas, devastadas pelo fogo, lugubremente iluminadas por avermelhados clar\u00f5es sem uma sombra, um sorriso, uma esperan\u00e7a de vida, com todas as suas opul\u00eancias e verdejantes pimpolhos ocultos, como que raladas de dor e mudo desespero por n\u00e3o poderem ostentar as riquezas e galas encerradas no ubertoso seio.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cNessas aflitas paragens, n\u00e3o mais se ouve o piar da esquiva perdiz, t\u00e3o freq\u00fcente antes do inc\u00eandio. S\u00f3 de vez em quando ecoa o arrastado guincho de algum gavi\u00e3o, que paira l\u00e1 em cima ou bordeja ao chegar-se \u00e0 terra, a fim de agarrar um ou outro r\u00e9ptil chamuscado do fogo que lavrou.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cRompe tamb\u00e9m o sil\u00eancio o grasnido do caracar\u00e1, que aos pulos procura insetos e cobrinhas ou, junto ao solo, segue o v\u00f4o dos urubus, cujos negrejantes bandos, guiados pelo fino olfato, buscam a carni\u00e7a putrefata.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>\u201c\u00c9 o caracar\u00e1 comensal do urubu. De parceria se atira, quando urgido pela fome, \u00e0 r\u00eas morta e, intrometido como \u00e9, a custo de alguma bicada do pouco am\u00e1vel conviva, belisca do seu lado no imundo repasto.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cSe passa o caracar\u00e1 a vista do gavi\u00e3o, precipita-se este sobre ele com v\u00f4o firme, d\u00e1-lhe com a ponta da asa, atordoa-o, atormenta-o s\u00f3 pelo gosto de lhe mostrar a incontestada superioridade.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cNada, com efeito, o mete em brios.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cPelo contr\u00e1rio, mal levou dois ou tr\u00eas encontr\u00f5es do mi\u00fado, mas audaz advers\u00e1rio, baixa prudente \u00e0 terra e p\u00f5e-se ai desajeitadamente aos saltos. apresentando o adunco bico ao antagonista, que com a extremidade das asas levanta p\u00f3 e cinza, t\u00e3o de perto as arrasta ao ch\u00e3o.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cAfinal, de cansado, deixa o gavi\u00e3o o folguedo, segurando de um bote a serpesinha, que em custoso rasto, procurava algum buraco onde fosse, mais a salvo, pensar as fundas queimaduras.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cTais s\u00e3o os campos que as chuvas n\u00e3o v\u00eam regar.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\">17\/10\/2020<br> (323) <br> <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"mailto:mmsmarcos1953@hotmail.com\" target=\"_blank\">mmsmarcos1953@hotmail.com<\/a> <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Se a literatura tem algum poder &#8211; j\u00e1 que, antes de tudo, ela promove o contato com nossas limita\u00e7\u00f5es -, seu poder \u00e9 de descobrir conex\u00f5es ali onde parece haver apenas o inacess\u00edvel e a interdi\u00e7\u00e3o. \u00c9 de abrir lugar para que o ausente enfim tome corpo. A fic\u00e7\u00e3o tra\u00e7a pontes que ligam mundos incomunic\u00e1veis. Ela nos ajuda, assim, n\u00e3o apenas a suportar, mas a desejar o imposs\u00edvel. Trabalha com a ignor\u00e2ncia, transformando-a em energia.&#8211; Jos\u00e9 Castello &#8211; Retomemos neste segundo e derradeiro cap\u00edtulo nosso p\u00e9riplo atrav\u00e9s dos sert\u00f5es consoante o descortino do Visconde de Taunay. N\u00e3o h\u00e1 destacar apenas porque o romancista est\u00e1 inscrito na nobiliarquia \u2013 n\u00e3o poucos se viram ornamentados no imp\u00e9rio de Dom Jo\u00e3o e dos seus descendentes Dom Pedro I e Dom Pedro II. Entre distintas personalidades, menciono de orelhada os viscondes de Maranguape, de Maric\u00e1, de Mau\u00e1, do Rio Branco e por \u00faltimo, roubado da fic\u00e7\u00e3o lobateana, o cult\u00edssimo Sabugosa. O realce vai se justificar pela caudalosa, hipnotizante conta\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria, aqui reverberada por virtude das descri\u00e7\u00f5es da vegeta\u00e7\u00e3o local. \u201cOra \u00e9 a perspectiva dos cerrados, n\u00e3o desses cerrados de arbustos raqu\u00edticos, enfezados e retorcidos de S\u00e3o Paulo e Minas Gerais, mas de garbosas e elevadas \u00e1rvores que, se bem n\u00e3o tomem, todas, o corpo de que s\u00e3o capazes \u00e0 beira das \u00e1guas correntes ou regadas pela linfa dos c\u00f3rregos, contudo ensombram com folhuda rama o terreno que lhes fica em derredor e mostram na casca lisa a for\u00e7a da seiva que as alimenta; ora s\u00e3o campos a perder de vista, cobertos de macega alta e alourada, ou de viridente e mimosa grama, toda salpicada de silvestres flores; ora sucess\u00f5es de luxuriantes cap\u00f5es, t\u00e3o regulares e sim\u00e9tricos em sua disposi\u00e7\u00e3o que surpreendem e embelezam os olhos; ora, enfim, charnecas meio apauladas, meio secas, onde nasce o altivo buriti e o gravata entran\u00e7a o seu tapume espinhoso.\u201d O calor inusual dessa primavera, cevada de par com os malfeitos da Covid-19, mais nos prepara para a transmuta\u00e7\u00e3o da paisagem verdejante em cen\u00e1rio do horror. L\u00e1 em cima a Amaz\u00f4nia, triscada; mais ao centro o Pantanal, a se consumir, ardendo, cintilante, pelas a\u00e7\u00f5es il\u00edcitas. Ali\u00e1s, naqueles tempos o estrago poderia&nbsp;vir de meras condutas involunt\u00e1rias e n\u00e3o criminosas mas igualmente delet\u00e9rias em termos de destrui\u00e7\u00e3o do meio ambiente. &nbsp; \u201cNesses campos, t\u00e3o diversos pelo matiz das cores, o capim crescido e ressecado pelo ardor do Sol transforma-se em vicejante tapete de relva, quando lavra o inc\u00eandio que algum tropeiro, por acaso ou mero desenfado, ateia com uma fa\u00falha do seu isqueiro.\u201d No alvorecer dos anos 2000, cumpri pequena temporada de passeio em Pocon\u00e9 (MT) e obviamente fiquei deslumbrado com a for\u00e7a vital das matas circundantes. No entretanto, n\u00e3o passava pela minha cabe\u00e7a, moldada no s\u00e9culo XX, que aquilo tudo de natureza magn\u00edfica (pouparei o clich\u00ea \u201cexuberante\u201d) era fr\u00e1gil e indefeso ante a sanha predadora de parte da turma do chamado agroneg\u00f3cio. As atuais queimadas vistas diariamente na telinha doem, e doem mais ainda quando remergulhamos na obra do Visconde de Taunay, que desconstr\u00f3i e subverte o famoso \u201cuma imagem vale mais do que mil palavras\u201d. For\u00e7a, pessoas: intentem ler, inc\u00f3lumes, o que o escritor nos propicia.&nbsp; \u201cMinando \u00e0 surda na touceira, queda a vivida centelha. Corra da\u00ed a instantes qualquer aragem, por d\u00e9bil que seja, e levanta-se a l\u00edngua de fogo esguia e tr\u00eamula, como que a contemplar medrosa e vacilante os espa\u00e7os imensos que se alongam diante dela. Soprem ent\u00e3o as auras com mais for\u00e7a, e de mil pontos, a um tempo, rebentam s\u00f4fregas labaredas que se enroscam umas nas outras, de s\u00fabito se dividem, deslizam, lambem vastas superf\u00edcies, despedem ao c\u00e9u rolos de negrejante fumo e voam, roncando pelos matagais de tabocas e taquaras, at\u00e9 esbarrarem de encontro a alguma margem de rio que n\u00e3o possam transpor, caso n\u00e3o as tanja para al\u00e9m o vento, ajudando com valente f\u00f4lego a larga obra de destrui\u00e7\u00e3o.&nbsp; \u201cAcalmado aquele \u00edmpeto por falta de alimento, fica tudo debaixo de espessa camada de cinzas. O fogo, detido em pontos, aqui, ali, a consumir com mais lentid\u00e3o algum estorvo, vai aos poucos morrendo at\u00e9 se extinguir de todo, deixando como sinal da avassaladora passagem o alvacento len\u00e7ol, que lhe foi seguindo os velozes passos.&nbsp; \u201cAtrav\u00e9s da atmosfera enublada mal pode ent\u00e3o coar a luz do Sol. A incinera\u00e7\u00e3o \u00e9 completa, o calor intenso, e nos ares revoltos volitam palhinhas carboretadas, detritos, argueiros e gr\u00e2nulos de carv\u00e3o que redemoinham, sobem, descem e se emaranham nos sorvedouros e adelga\u00e7adas trombas, caprichosamente formadas pelas aragens, ao embaterem umas de encontro \u00e0s outras.&nbsp; \u201cPor toda a parte melancolia; de todos os lados t\u00e9tricas perspectivas.\u201d O diagn\u00f3stico \u00e9 categ\u00f3rico e desalentador, nos faz desabar sem esperan\u00e7as na areia quente e escurecida pelo fumac\u00ea. Em compensa\u00e7\u00e3o, se o Taunay n\u00e3o assevera que o sertanejo \u00e9 antes de tudo um forte (notem o Euclides da Cunha de novo), ele concebe a transcend\u00eancia e refere \u2013 isso, sim &#8211; que o sertanejo, resiliente (palavra da moda), se amalgama na natureza, que sempre se renova, a contraditar \u201cas t\u00e9tricas perspectivas\u201d.&nbsp; \u201c\u00c9 cair, por\u00e9m, da\u00ed a dias copiosa chuva, e parece que uma varinha de fada andou por aqueles sombrios recantos a tra\u00e7ar \u00e0s pressas jardins encantados e nunca vistos. Entra tudo num trabalho \u00edntimo de espantosa atividade. Transborda a vida. N\u00e3o h\u00e1 ponto em que n\u00e3o brote o capim, em que n\u00e3o desabrochem rebent\u00f5es com o olhar s\u00f4frego de quem espreita azada ocasi\u00e3o para buscar a liberdade, despeda\u00e7ando as pris\u00f5es de penosa clausura.&nbsp; \u201c\u00c0quela instant\u00e2nea ressurrei\u00e7\u00e3o nada, nada pode p\u00f4r peias.&nbsp; \u201cBasta uma noite, para que formosa alfombra verde, verde-claro, verde-gaio, acetinado, cubra todas as tristezas de h\u00e1 pouco. Aprimoram-se depois os esfor\u00e7os; rompem as flores do campo que desabotoam as car\u00edcias da brisa as delicadas corolas e lhe entregam as prim\u00edcias dos seus c\u00e2ndidos perfumes.\u201d Ser\u00e1 que esse panorama otimista vingar\u00e1 no Pantanal? Tomara que sim. Se somos impotentes para integrar aqueles pelot\u00f5es de bombeiros com as tropas auxiliares de volunt\u00e1rios destemidos, cabe-nos ao menos torcer pela descida das \u00e1guas do c\u00e9u porquanto a sobre-exist\u00eancia da estiagem vai arrasar de vez aquela regi\u00e3o produtora e j\u00e1 h\u00e1 algum tempo uma for\u00e7a do ecoturismo.&nbsp; \u201cSe falham essas chuvas vivificadoras, ent\u00e3o, por muitos e muitos meses, ai ficam aquelas campinas, devastadas pelo fogo, lugubremente iluminadas por avermelhados clar\u00f5es sem uma sombra, um sorriso, uma esperan\u00e7a de vida, com todas as suas opul\u00eancias e verdejantes pimpolhos ocultos, como que raladas de dor e mudo desespero por n\u00e3o poderem ostentar as riquezas e galas encerradas no ubertoso seio.&nbsp; \u201cNessas aflitas paragens, n\u00e3o mais se ouve o piar da esquiva perdiz, t\u00e3o freq\u00fcente antes do inc\u00eandio. S\u00f3 de vez em quando ecoa o arrastado guincho de algum gavi\u00e3o, que paira l\u00e1 em cima ou bordeja ao chegar-se \u00e0 terra, a fim de agarrar um ou outro r\u00e9ptil chamuscado do fogo que lavrou.&nbsp; \u201cRompe tamb\u00e9m o sil\u00eancio o grasnido do caracar\u00e1, que aos pulos procura insetos e cobrinhas ou, junto ao solo, segue o v\u00f4o dos urubus, cujos negrejantes bandos, guiados pelo fino olfato, buscam a carni\u00e7a putrefata.&nbsp; \u201c\u00c9 o caracar\u00e1 comensal do urubu. De parceria se atira, quando urgido pela fome, \u00e0 r\u00eas morta e, intrometido como \u00e9, a custo de alguma bicada do pouco am\u00e1vel conviva, belisca do seu lado no imundo repasto.&nbsp; \u201cSe passa o caracar\u00e1 a vista do gavi\u00e3o, precipita-se este sobre ele com v\u00f4o firme, d\u00e1-lhe com a ponta da asa, atordoa-o, atormenta-o s\u00f3 pelo gosto de lhe mostrar a incontestada superioridade.&nbsp; \u201cNada, com efeito, o mete em brios.&nbsp; \u201cPelo contr\u00e1rio, mal levou dois ou tr\u00eas encontr\u00f5es do mi\u00fado, mas audaz advers\u00e1rio, baixa prudente \u00e0 terra e p\u00f5e-se ai desajeitadamente aos saltos. apresentando o adunco bico ao antagonista, que com a extremidade das asas levanta p\u00f3 e cinza, t\u00e3o de perto as arrasta ao ch\u00e3o.&nbsp; \u201cAfinal, de cansado, deixa o gavi\u00e3o o folguedo, segurando de um bote a serpesinha, que em custoso rasto, procurava algum buraco onde fosse, mais a salvo, pensar as fundas queimaduras.&nbsp; \u201cTais s\u00e3o os campos que as chuvas n\u00e3o v\u00eam regar.\u201d 17\/10\/2020 (323) mmsmarcos1953@hotmail.com<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":15455,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-15453","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-sem-categoria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15453","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15453"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15453\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15465,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15453\/revisions\/15465"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/media\/15455"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15453"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15453"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15453"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}