{"id":15467,"date":"2020-11-06T23:11:22","date_gmt":"2020-11-07T02:11:22","guid":{"rendered":"http:\/\/mapati.com.br\/?p=15467"},"modified":"2020-11-06T23:14:11","modified_gmt":"2020-11-07T02:14:11","slug":"memorias-memorialista-lxvi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/memorias-memorialista-lxvi\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3rias\/Memorialista (LXVI)"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>Vejo-me ao espelho e encontro o rosto do meu pai. Por\u00e9m, se acaso, numa gaveta,<\/em><br><em>descubro uma fotografia antiga, logo me alegra a mem\u00f3ria daquela tarde,<\/em><br><em>e volto a ter a idade que tinha quando a imagem foi fixada.<\/em><br> <em>&#8211; Jos\u00e9 Eduardo Agualusa &#8211;<\/em>\u00a0 <\/p>\n\n\n\n<p>Meu \u00fanico ponto de identidade com o Luiz Fernando Ver\u00edssimo \u00e9 que t\u00ednhamos av\u00f4 de nome Sebasti\u00e3o. Infelizmente, a coincid\u00eancia cessa a\u00ed. Desatino registrar que ambos somos dados \u00e0s letras: as deles, pelo brilhantismo e genialidade, s\u00e3o garrafais, estampadas em&nbsp;<em>outdoors<\/em>&nbsp;para frui\u00e7\u00e3o geral; as minhas, opacas, bab\u00e9licas, vislumbr\u00e1veis apenas pelo microsc\u00f3pio eletr\u00f4nico de alta precis\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Como \u00e9 da ci\u00eancia de quem arriscara ler as postagens anteriores deste t\u00f3pico memorialista do pampa ga\u00facho, a hist\u00f3ria \u00e9 contada pelo Erico Ver\u00edssimo (pai do Luiz Fernando) que no&nbsp;<em>Solo de clarineta<\/em>, vol. I, aborda em densos trechos a trajet\u00f3ria do seu pai, Sebasti\u00e3o, o av\u00f4 acima referido e filho do Franklin. Eis a linhagem geracional \u2013 Franklin\/Sebasti\u00e3o\/Erico\/Luiz Fernando.<\/p>\n\n\n\n<p>A palavra \u00e9 arrogada pelo Erico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>\u201c(&#8230;) numa \u00famida manh\u00e3 cor de ard\u00f3sia, vimo-nos um diante do outro na esta\u00e7\u00e3o ferrovi\u00e1ria de Cruz Alta. Meu pai tinha na cabe\u00e7a um chap\u00e9u de abas largas, de qualidade ordin\u00e1ria, que lhe ficava muito mal. Cobria-lhe o corpo um grosseiro poncho de campanha, cor de chumbo, t\u00e3o comprido que sua f\u00edmbria tocava o pavimento encarvoado da plataforma. A seus p\u00e9s jazia uma mala barata com um peda\u00e7o de barbante amarrado a seu redor. Comparei o homem que tinha ent\u00e3o na minha frente com o Sebasti\u00e3o Ver\u00edssimo dos tempos de caviar e champanha. Recordei as suas finas camisas de seda, os seus vinte e tantos pares de sapatos, as suas incont\u00e1veis gravatas, os seus perfumes, as roupas de boa casimira inglesa ou de tussor de seda feitas sob medida no melhor alfaiate de Porto Alegre&#8230; A compara\u00e7\u00e3o me do\u00eda.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Quem nesta encarna\u00e7\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o ouviu filhos relatarem a decad\u00eancia do pai outrora tido por super-homem? Quantos indiv\u00edduos podem assegurar que a figura paterna, de ordin\u00e1rio marcada por idealiza\u00e7\u00e3o a partir da inf\u00e2ncia, n\u00e3o se esboroa no decurso da adolesc\u00eancia?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cE agora, no momento em que descrevo essa cena, pergunto a mim mesmo se naquela remota manh\u00e3 de outubro de 1930 eu sentia algum ressentimento para com aquele homem, por ele n\u00e3o se ter portado de acordo com a imagem ideal que eu tinha dele na mente, nas minhas mais belas fantasias filiais. Se tinha \u2014 concluo \u2014, esse sentimento se dilu\u00eda num vasto, profundo lago de compaix\u00e3o, em que eu quase me afogava. Lembro-me de que naquela hora de despedida procurei n\u00e3o julgar meu pai, mas simplesmente am\u00e1-lo, tentar compreend\u00ea-lo, aceit\u00e1-lo como ele era, com todas as suas qualidades e defeitos.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Presentemente, comenta-se que filho n\u00e3o respeita pai, em casos extremos afrontas verbais ao genitor evoluem para agress\u00f5es f\u00edsicas, terminando o incidente em delegacia, BO, IML&#8230; Com os Ver\u00edssimos Erico e Sebasti\u00e3o, n\u00e3o aconteceram \u201cvias de fato\u201d nem les\u00e3o corporal. A paulada no velho foi desferida na seara moral, materialidade caracterizada em missiva, uma for\u00e7a nas comunica\u00e7\u00f5es interpessoais no S\u00e9culo XX.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/mapati.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/323_gare-saint-lazare_claude-monet-1024x747.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-15473\" width=\"547\" height=\"398\" srcset=\"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/323_gare-saint-lazare_claude-monet-1024x747.png 1024w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/323_gare-saint-lazare_claude-monet-300x219.png 300w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/323_gare-saint-lazare_claude-monet-768x560.png 768w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/323_gare-saint-lazare_claude-monet.png 1317w\" sizes=\"(max-width: 547px) 100vw, 547px\" \/><figcaption><em>Gare Saint Lazare_Claude Monet<\/em><\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cVeio-me \u00e0 mente uma carta dura que eu lhe escrevera havia alguns anos, ao cabo duma luta interior em que raz\u00e3o e sentimento entraram em conflito. Nessa carta \u2018l\u00f3gica\u2019 eu o censurava pelo seu comportamento, pedia-lhe mesmo que se afastasse da cidade, pois n\u00e3o quer\u00edamos que sua presen\u00e7a e seu comportamento pusessem em perigo os esfor\u00e7os que faz\u00edamos em prol duma vida nova. Ele lera essas palavras, que deviam t\u00ea-lo ferido fundo, marcara encontro comigo num caf\u00e9, tirara a carta do bolso e me dissera, simplesmente, num tom de voz sentido que jamais poderei esquecer: \u2018Por favor, rasga esta carta\u2019. Eu obedeci, sem coragem de fit\u00e1-lo nos olhos. E ele acrescentou, terno: \u2018Faz de conta que nunca a escreveste\u2019. E n\u00e3o tocamos mais no assunto.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cAgora ali est\u00e1vamos calados, um diante do outro, a olhar furtivamente, de quando em quando, para o rel\u00f3gio grande da esta\u00e7\u00e3o.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>No plano da economia, das finan\u00e7as dom\u00e9sticas, normal \u00e9 pai sustentar filho, ser fiador do contrato de loca\u00e7\u00e3o da kit onde o burguesinho no m\u00e1ximo uma vez por m\u00eas ir\u00e1 lavar a lou\u00e7a, trocar len\u00e7ol, fronha, toalha. N\u00e3o tem sido infrequente, de outra parte, filho suprir pai, emprestar-lhe algum dinheiro em quadros de escassez e cumprir obedientemente dilig\u00eancias expedidas pelo pai detentor ainda dalgum resqu\u00edcio de autoridade.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>\u201c\u2014 Ah! \u2014 exclamou meu pai de repente. \u2014 Vou te pedir um favor. Paga ao meu leiteiro os quarenta mil-r\u00e9is que lhe fiquei devendo, sim?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>\u201c\u2014 N\u00e3o se impressione, pago amanh\u00e3 \u2014 respondi, mesmo sabendo que todo o dinheiro de que dispunha no momento eram uns magros trinta mil-r\u00e9is.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cPoucos minutos depois o Velho deu uma palmada na pr\u00f3pria testa.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>\u201c\u2014 Que pena! Esqueci em casa a ling\u00fci\u00e7a frita que mandei preparar especialmente para a viagem&#8230;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cA jornada era longa e eu estava certo de que meu pai n\u00e3o tinha dinheiro suficiente para fazer as refei\u00e7\u00f5es no carro-restaurante. Ofereci-me ent\u00e3o para ir buscar o precioso pacote. Mas&#8230; haveria ainda tempo para isso? O trem, prestes a chegar de Santa Maria, devia partir dentro de menos de quinze minutos para o norte. Sa\u00ed apressado para a rua, entrei no primeiro carro de aluguel que encontrei, dei um endere\u00e7o ao chofer e pedi-lhe que tocasse o calhambeque a toda a velocidade. Entrei afobado na casinhola de t\u00e1bua onde meu pai vivera durante aqueles \u00faltimos meses, e tive a surpresa de encontrar l\u00e1 dentro alguns fantasmas familiares. Contrastando com a pobreza do ambiente, l\u00e1 estavam nas paredes \u2014 rel\u00edquias do Sobrado \u2014 alguns quadros com fotografias de antepassados nossos. Tive de s\u00fabito a impress\u00e3o de que eles me olhavam com essa intensidade implac\u00e1vel dos retratos. Ergui a cabe\u00e7a e vi as imagens de meus dois av\u00f3s paternos \u2014 dois pares de olhos expressivos que pareciam falar, perguntar-me coisas&#8230; Veio-me ent\u00e3o \u2014 como aconteceria em tantos outros momentos da minha vida \u2014 uma inc\u00f4moda sensa\u00e7\u00e3o de culpa. O Dr. Franklin e D. Adriana pareciam responsabilizar-me por tudo quanto havia acontecido a seu filho mais velho. Parodiando Caim (ou ser\u00e1 que estou inventando isto agora?), perguntei-lhes mentalmente: \u2018Serei acaso guardi\u00e3o de meu pai?\u2019. N\u00e3o tive resposta. Olhei em torno e vi uma s\u00e9rie de utens\u00edlios e m\u00f3veis que me deram uma id\u00e9ia da pobreza em que vivia o velho Sebasti\u00e3o: uma mesa de pinho sem lustro, duas cadeiras guenzas, uma panela e uma chaleira de alum\u00ednio, ambas amassadas, um toco de vela metido no gargalo duma garrafa, revistas e jornais velhos espalhados no ch\u00e3o de mistura com baganas, paus de f\u00f3sforos e trapos. A cama era um catre coberto por um len\u00e7ol grosseiro e encardido. De novo olhei para o retrato dos meus av\u00f3s. Mas que podia eu fazer pelo meu pai se nem sequer sabia que fazer com minha pr\u00f3pria vida?\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Nada mais duro e mortificante para um filho do que vivenciar o ocaso do pai. N\u00e3o falo da degeneresc\u00eancia f\u00edsica, essa \u00e9 natural, indefect\u00edvel. Me refiro ao estado de abandono do pai, solit\u00e1rio, falto de amigos, andrajoso, sem nenhum brilho nos olhos. Abstraiamos a ang\u00fastia da visita do Erico ao muquifo do pai e nos concentremos no desfecho do reencontro na gare.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\">\u201c<em>Ah! A ling\u00fci\u00e7a&#8230; N\u00e3o havia tempo a perder. Estava em cima da mesa, envolta numa folha de jornal enodoada. Apanhei o pacote, lancei em torno um olhar semimasoquista, sa\u00ed para a rua, entrei no autom\u00f3vel e gritei para o chofer: &#8220;Toque depressa para a esta\u00e7\u00e3o! Preciso chegar l\u00e1 antes da partida do trem que vai pra S\u00e3o Paulo&#8221;. O velho Ford-de-bigode foi-se aos solavancos pela rua de terra batida, cheia de regos, buracos e pedras. Quando cheguei \u00e0 esta\u00e7\u00e3o verifiquei que o trem do norte j\u00e1 se pusera em movimento. Olhei para as janelas dos carros, procurando meu pai. Por fim avistei-o. Estava de p\u00e9 na plataforma do \u00faltimo vag\u00e3o e me fazia sinais. Corri para ele, entreguei-lhe a ling\u00fci\u00e7a, apertei-lhe rapidamente a m\u00e3o&#8230; &#8220;Adeus, meu filho!&#8221; Mal pude responder. A canseira da corrida e a emo\u00e7\u00e3o da despedida me trancavam a voz. Fiquei parado, vendo a figura paterna ir aos poucos diminuindo, \u00e0 medida que o trem se afastava. Com uma das m\u00e3os o velho Sebasti\u00e3o me acenava, e com a outra apertava contra o peito a ling\u00fci\u00e7a frita. Por fim o comboio desapareceu numa curva.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cNunca mais tornei a ver meu pai.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Jos%C3%A9_Eduardo_Agualusa\">#Jos\u00e9 Eduardo Agualusa<\/a><br><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Solo_de_Clarineta\">#Solo de Clarineta<\/a><br><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/%C3%89rico_Ver%C3%ADssimo\">#Erico Ver\u00edssimo<\/a><br><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Casa_e_Museu_%C3%89rico_Ver%C3%ADssimo\">#Sebasti\u00e3o Ver\u00edssimo<\/a><br><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Luis_Fernando_Verissimo\">#Luiz Fernando Ver\u00edssimo <\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\">06\/11\/2020<br>(324)<br><a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"mailto:mmsmarcos1953@hotmail.com\" target=\"_blank\">mmsmarcos1953@hotmail.com<\/a> <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vejo-me ao espelho e encontro o rosto do meu pai. 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Se tinha \u2014 concluo \u2014, esse sentimento se dilu\u00eda num vasto, profundo lago de compaix\u00e3o, em que eu quase me afogava. Lembro-me de que naquela hora de despedida procurei n\u00e3o julgar meu pai, mas simplesmente am\u00e1-lo, tentar compreend\u00ea-lo, aceit\u00e1-lo como ele era, com todas as suas qualidades e defeitos.\u201d Presentemente, comenta-se que filho n\u00e3o respeita pai, em casos extremos afrontas verbais ao genitor evoluem para agress\u00f5es f\u00edsicas, terminando o incidente em delegacia, BO, IML&#8230; Com os Ver\u00edssimos Erico e Sebasti\u00e3o, n\u00e3o aconteceram \u201cvias de fato\u201d nem les\u00e3o corporal. A paulada no velho foi desferida na seara moral, materialidade caracterizada em missiva, uma for\u00e7a nas comunica\u00e7\u00f5es interpessoais no S\u00e9culo XX. \u201cVeio-me \u00e0 mente uma carta dura que eu lhe escrevera havia alguns anos, ao cabo duma luta interior em que raz\u00e3o e sentimento entraram em conflito. 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Entrei afobado na casinhola de t\u00e1bua onde meu pai vivera durante aqueles \u00faltimos meses, e tive a surpresa de encontrar l\u00e1 dentro alguns fantasmas familiares. Contrastando com a pobreza do ambiente, l\u00e1 estavam nas paredes \u2014 rel\u00edquias do Sobrado \u2014 alguns quadros com fotografias de antepassados nossos. Tive de s\u00fabito a impress\u00e3o de que eles me olhavam com essa intensidade implac\u00e1vel dos retratos. Ergui a cabe\u00e7a e vi as imagens de meus dois av\u00f3s paternos \u2014 dois pares de olhos expressivos que pareciam falar, perguntar-me coisas&#8230; Veio-me ent\u00e3o \u2014 como aconteceria em tantos outros momentos da minha vida \u2014 uma inc\u00f4moda sensa\u00e7\u00e3o de culpa. O Dr. Franklin e D. Adriana pareciam responsabilizar-me por tudo quanto havia acontecido a seu filho mais velho. Parodiando Caim (ou ser\u00e1 que estou inventando isto agora?), perguntei-lhes mentalmente: \u2018Serei acaso guardi\u00e3o de meu pai?\u2019. N\u00e3o tive resposta. Olhei em torno e vi uma s\u00e9rie de utens\u00edlios e m\u00f3veis que me deram uma id\u00e9ia da pobreza em que vivia o velho Sebasti\u00e3o: uma mesa de pinho sem lustro, duas cadeiras guenzas, uma panela e uma chaleira de alum\u00ednio, ambas amassadas, um toco de vela metido no gargalo duma garrafa, revistas e jornais velhos espalhados no ch\u00e3o de mistura com baganas, paus de f\u00f3sforos e trapos. A cama era um catre coberto por um len\u00e7ol grosseiro e encardido. De novo olhei para o retrato dos meus av\u00f3s. Mas que podia eu fazer pelo meu pai se nem sequer sabia que fazer com minha pr\u00f3pria vida?\u201d Nada mais duro e mortificante para um filho do que vivenciar o ocaso do pai. N\u00e3o falo da degeneresc\u00eancia f\u00edsica, essa \u00e9 natural, indefect\u00edvel. Me refiro ao estado de abandono do pai, solit\u00e1rio, falto de amigos, andrajoso, sem nenhum brilho nos olhos. Abstraiamos a ang\u00fastia da visita do Erico ao muquifo do pai e nos concentremos no desfecho do reencontro na gare. \u201cAh! A ling\u00fci\u00e7a&#8230; N\u00e3o havia tempo a perder. Estava em cima da mesa, envolta numa folha de jornal enodoada. Apanhei o pacote, lancei em torno um olhar semimasoquista, sa\u00ed para a rua, entrei no autom\u00f3vel e gritei para o chofer: &#8220;Toque depressa para a esta\u00e7\u00e3o! Preciso chegar l\u00e1 antes da partida do trem que vai pra S\u00e3o Paulo&#8221;. O velho Ford-de-bigode foi-se aos solavancos pela rua de terra batida, cheia de regos, buracos e pedras. Quando cheguei \u00e0 esta\u00e7\u00e3o verifiquei que o trem do norte j\u00e1 se pusera em movimento. Olhei para as janelas dos carros, procurando meu pai. Por fim avistei-o. Estava de p\u00e9 na plataforma do \u00faltimo vag\u00e3o e me fazia sinais. Corri para ele, entreguei-lhe a ling\u00fci\u00e7a, apertei-lhe rapidamente a m\u00e3o&#8230; &#8220;Adeus, meu filho!&#8221; Mal pude responder. A canseira da corrida e a emo\u00e7\u00e3o da despedida me trancavam a voz. Fiquei parado, vendo a figura paterna ir aos poucos diminuindo, \u00e0 medida que o trem se afastava. Com uma das m\u00e3os o velho Sebasti\u00e3o me acenava, e com a outra apertava contra o peito a ling\u00fci\u00e7a frita. Por fim o comboio desapareceu numa curva. \u201cNunca mais tornei a ver meu pai.\u201d #Jos\u00e9 Eduardo Agualusa#Solo de Clarineta#Erico Ver\u00edssimo#Sebasti\u00e3o Ver\u00edssimo#Luiz Fernando Ver\u00edssimo 06\/11\/2020(324)mmsmarcos1953@hotmail.com<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":15474,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-15467","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-sem-categoria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15467","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15467"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15467\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15476,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15467\/revisions\/15476"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/media\/15474"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15467"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15467"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15467"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}