{"id":15573,"date":"2021-05-26T16:01:46","date_gmt":"2021-05-26T19:01:46","guid":{"rendered":"http:\/\/mapati.com.br\/?p=15573"},"modified":"2021-07-26T17:02:46","modified_gmt":"2021-07-26T20:02:46","slug":"memorias-memorialistas-lxvix","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/memorias-memorialistas-lxvix\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3rias\/Memorialistas (LXIX)"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>Cultura, arte e justi\u00e7a nos humanizam. S\u00e3o o contraponto da trucul\u00eancia.<\/em><br> <em>&#8211; Andrea Pach\u00e1 &#8211;<\/em> <\/p>\n\n\n\n<p>No in\u00edcio deste estagnado ano me despedi do Erico Ver\u00edssimo, marcando reencontro para breve com vista a prosseguir nas considera\u00e7\u00f5es sobre o relacionamento entre autor liter\u00e1rio\/personagem. Tenho que, ao faz\u00ea-lo, outro v\u00ednculo ainda emerge incidentalmente: escritor\/p\u00fablico.<\/p>\n\n\n\n<p>O ga\u00facho Pr\u00eamio Nobel de Literatura (ele n\u00e3o ganhou a honraria internacional; pra voc\u00eas verem que suecos tamb\u00e9m cometem asneiras), j\u00e1 quase no finzinho do primeiro livro de suas mem\u00f3rias de que me ocupo,&nbsp;<em>Solo de Clarineta<\/em>, aduz sutis confid\u00eancias a respeito da predile\u00e7\u00e3o por esse ou aquela personagem do majestoso romance&nbsp;<em>O Tempo e o Vento<\/em>, sete volumes, lan\u00e7ado tamb\u00e9m como filme e miniss\u00e9rie.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cSempre procurei tratar minhas criaturas com certa imparcialidade sentimental, como um pai \u2013 digamos assim \u2013 divide sua afei\u00e7\u00e3o<\/em><br><em>igualmente entre os in\u00fameros filhos. Devo confessar, no entanto, que h\u00e1 personagens minhas pelas quais tenho pouca admira\u00e7\u00e3o ou nenhuma estima. Por exemplo, n\u00e3o simpatizo nada com Licurgo Cambar\u00e1, embora reconhe\u00e7a que o homem possui suas virtudes. E j\u00e1 que estamos no caminho das simpatias, declaro em voz alta que tenho um fraco pelas mulheres de O Tempo e o Vento, como Ana Terra, Bibiana e Maria Val\u00e9ria. Quando esta \u00faltima era ainda mo\u00e7a, tive l\u00e1 as minhas implic\u00e2ncias com ela, mas depois que a filha do velho Flor\u00eancio envelheceu e ficou parecida com as outras matronas da fam\u00edlia, passei a votar-lhe uma admira\u00e7\u00e3o temperada de ternura.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Declara\u00e7\u00f5es pois de um feminista juramentado, que&nbsp;<em>em passant<\/em>&nbsp;reafirma verdade absoluta, personagens de livro s\u00e3o de carne e osso, t\u00eam personalidade jur\u00eddica, CPF, e traz \u00e0 baila um capit\u00e3o (n\u00e3o nos percamos pela patente) cujo passamento faz desabar um leitor l\u00e1 da fronteira sulina, conterr\u00e2neo de meu amigo Bolivar Tarrago Moura Neto (tch\u00ea, me mande sinal de vida).<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/mapati.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/334_o-tempo-e-o-vento.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-15574\" width=\"648\" height=\"486\" srcset=\"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/334_o-tempo-e-o-vento.jpg 600w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/334_o-tempo-e-o-vento-300x225.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 648px) 100vw, 648px\" \/><figcaption>https:\/\/www.papodecinema.com.br\/colunas\/olhar-de-cinema-r-de-rodrigo\/<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cLembro-me do gosto e da flu\u00eancia com que narrei a hist\u00f3ria dum certo Capit\u00e3o Rodrigo. Muitos anos depois que publiquei O Continente<\/em><br><em>encontrei um gauch\u00e3o simp\u00e1tico de Uruguaiana que me confessou que, ao terminar o cap\u00edtulo em que descrevo a morte do her\u00f3i, n\u00e3o p\u00f4de conter o pranto, e naquele dia ficou em casa, de luto, como se tivesse perdido um membro da pr\u00f3pria fam\u00edlia. N\u00e3o tenho mem\u00f3ria de nenhum elogio de cr\u00edtico que me haja tocado tanto como as palavras desse leitor.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Em contrapartida, o pai do Luiz Fernando Ver\u00edssimo (nosso humorista oitent\u00e3o logo vai estar com a sa\u00fade restabelecida) vem nos demonstrar a loucura t\u00edpica de todos os leitores e leitoras<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cPor outro lado recebi v\u00e1rias cartas em que os signat\u00e1rios protestavam<\/em><br><em>contra a morte do capit\u00e3o. Mais de um chegou a insinuar que eu o havia assassinado por pura inveja.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Fecha-se esta postagem alinhando o escritor ga\u00facho a outro escritor, que nas horas vagas comp\u00f5e e canta m\u00fasicas &#8211;&nbsp;<em>O meu amor<\/em>,&nbsp;<em>Atr\u00e1s da porta<\/em>,&nbsp;<em>Peda\u00e7o de mim<\/em>. Retenham esta declara\u00e7\u00e3o feita por Chico Buarque, evocada por Alberto da Costa Lima:&nbsp;\u201cH\u00e1 sempre, pra mim, um grande mist\u00e9rio na alma feminina. Eu tenho uma grande curiosidade com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 mulher, como ela pensa, como ela age. Eu sou um espectador, um&nbsp;<em>voyeur<\/em>, um vedor das mulheres. Gosto de ver como elas se movem, ver como elas raciocinam, ver como elas reagem diante das coisas. \u00c9 sempre uma surpresa pra mim. N\u00e3o acaba. Eu me considero um grande desconhecedor da alma feminina, ao contr\u00e1rio do que se fala&#8230; Virou um lugar-comum por causa das can\u00e7\u00f5es. Eu sou um sujeito muito curioso exatamente por desconhecer, por querer saber, querer entender e n\u00e3o entender nunca.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Notem a afinidade entre os dois virtuoses conforme este outro solo do Erico Ver\u00edssimo:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cComo pode um romancista do sexo masculino \u2013 perguntou-me algu\u00e9m um dia \u2013 descrever com verdade e autenticidade os sentimentos duma mulher? Expliquei-lhe que, no meu caso, sempre que tinha de fazer isso eu procurava&nbsp;<\/em>ser<em>&nbsp;essa mulher. Meu interlocutor me olhou meio espantado e calou-se, aparentemente insatisfeito, e talvez at\u00e9 meio desconfiado de minha masculinidade.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cNingu\u00e9m negar\u00e1 a grandeza e import\u00e2ncia liter\u00e1ria \u00e0 obra de Ernest Hemingway. Mais de um cr\u00edtico, por\u00e9m, tem mencionado o fato de n\u00e3o se encontrar nos contos, novelas e romances desse escritor uma \u00fanica personagem feminina veross\u00edmil, viva, plenamente realizada em sua condi\u00e7\u00e3o de f\u00eamea. Creio que isso se deve \u00e0 obsess\u00e3o que o grande escritor americano tinha de provar que era macho \u2013 o ca\u00e7ador de le\u00f5es, o explorador, o aficionado das corridas de touros. No momento de descrever suas personagens do sexo oposto ele recusava, imagino, liberar seu componente feminino e meter-se no corpo delas, sentir como elas, amar como elas&#8230;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cNo fundo talvez isso fosse um sinal de inseguran\u00e7a quanto \u00e0 sua pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o de macho, o temor de que algu\u00e9m pudesse p\u00f4r em d\u00favida sua virilidade.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Solo_de_Clarineta\">#Solo de Clarineta<\/a><br><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/%C3%89rico_Ver%C3%ADssimo\">#Erico Ver\u00edssimo<\/a><br><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/O_Tempo_e_o_Vento\">#O Tempo e o Vento<\/a><br><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Chico_Buarque\">#Chico Buarque<\/a><br><a href=\"http:\/\/editora.cepe.com.br\/autor\/alberto-da-costa-lima\">#Alberto da Costa Lima<\/a> <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\">26\/05\/2021<br> (334)<br> <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"mailto:mmsmarcos1953@hotmail.com\" target=\"_blank\">mmsmarcos1953@hotmail.com<\/a> <\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cultura, arte e justi\u00e7a nos humanizam. 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E j\u00e1 que estamos no caminho das simpatias, declaro em voz alta que tenho um fraco pelas mulheres de O Tempo e o Vento, como Ana Terra, Bibiana e Maria Val\u00e9ria. Quando esta \u00faltima era ainda mo\u00e7a, tive l\u00e1 as minhas implic\u00e2ncias com ela, mas depois que a filha do velho Flor\u00eancio envelheceu e ficou parecida com as outras matronas da fam\u00edlia, passei a votar-lhe uma admira\u00e7\u00e3o temperada de ternura.\u201d Declara\u00e7\u00f5es pois de um feminista juramentado, que&nbsp;em passant&nbsp;reafirma verdade absoluta, personagens de livro s\u00e3o de carne e osso, t\u00eam personalidade jur\u00eddica, CPF, e traz \u00e0 baila um capit\u00e3o (n\u00e3o nos percamos pela patente) cujo passamento faz desabar um leitor l\u00e1 da fronteira sulina, conterr\u00e2neo de meu amigo Bolivar Tarrago Moura Neto (tch\u00ea, me mande sinal de vida). \u201cLembro-me do gosto e da flu\u00eancia com que narrei a hist\u00f3ria dum certo Capit\u00e3o Rodrigo. Muitos anos depois que publiquei O Continenteencontrei um gauch\u00e3o simp\u00e1tico de Uruguaiana que me confessou que, ao terminar o cap\u00edtulo em que descrevo a morte do her\u00f3i, n\u00e3o p\u00f4de conter o pranto, e naquele dia ficou em casa, de luto, como se tivesse perdido um membro da pr\u00f3pria fam\u00edlia. N\u00e3o tenho mem\u00f3ria de nenhum elogio de cr\u00edtico que me haja tocado tanto como as palavras desse leitor.\u201d Em contrapartida, o pai do Luiz Fernando Ver\u00edssimo (nosso humorista oitent\u00e3o logo vai estar com a sa\u00fade restabelecida) vem nos demonstrar a loucura t\u00edpica de todos os leitores e leitoras \u201cPor outro lado recebi v\u00e1rias cartas em que os signat\u00e1rios protestavamcontra a morte do capit\u00e3o. Mais de um chegou a insinuar que eu o havia assassinado por pura inveja.\u201d Fecha-se esta postagem alinhando o escritor ga\u00facho a outro escritor, que nas horas vagas comp\u00f5e e canta m\u00fasicas &#8211;&nbsp;O meu amor,&nbsp;Atr\u00e1s da porta,&nbsp;Peda\u00e7o de mim. Retenham esta declara\u00e7\u00e3o feita por Chico Buarque, evocada por Alberto da Costa Lima:&nbsp;\u201cH\u00e1 sempre, pra mim, um grande mist\u00e9rio na alma feminina. Eu tenho uma grande curiosidade com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 mulher, como ela pensa, como ela age. Eu sou um espectador, um&nbsp;voyeur, um vedor das mulheres. Gosto de ver como elas se movem, ver como elas raciocinam, ver como elas reagem diante das coisas. \u00c9 sempre uma surpresa pra mim. N\u00e3o acaba. Eu me considero um grande desconhecedor da alma feminina, ao contr\u00e1rio do que se fala&#8230; Virou um lugar-comum por causa das can\u00e7\u00f5es. 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Creio que isso se deve \u00e0 obsess\u00e3o que o grande escritor americano tinha de provar que era macho \u2013 o ca\u00e7ador de le\u00f5es, o explorador, o aficionado das corridas de touros. 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